Rio, 24 de setembro de 2003

Gritos de guerra do Bope assustam Parque Guinle

Jan Theophilo e Vera Araújo

Um coro dos mais inusitados tem despertado a atenção de moradores das cercanias do Parque Guinle, uma das regiões mais sofisticadas da Zona Sul. Dia sim, dia não, soldados do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM, ao praticar seus exercícios matinais pelas aprazíveis ruas de paralelepípedos repletas de casas luxuosas, entoam palavras de ordem que, além de assustadoras, deixam clara a disposição da tropa. Num dos gritos de guerra, os militares repetem: ?O interrogatório é muito fácil de fazer/pega o favelado e dá porrada até doer/O interrogatório é muito fácil de acabar/pega o bandido e dá porrada até matar?.

Como um morador do Parque Guinle denunciou em carta publicada anteontem no GLOBO, o grupo emenda em seguida: ?Esse sangue é muito bom,/ já provei não tem perigo/é melhor do que café,/ é o sangue do inimigo?. Eles também usam uma versão modificada da letra de uma música de Geraldo Vandré: ?Bandido favelado/ não se varre com vassoura/se varre com granada,/ com fuzil, metralhadora?. A música de protesto de Vandré, com o título de ?Cantiga brava?, composta nos anos de chumbo do regime militar e incluída no filme ?A hora e a vez de Augusto Matraga?, de Roberto Santos, dizia: ?O terreiro lá de casa/ não se varre com vassoura/ varre com ponta de sabre/ bala de metralhadora?.

Corregedor decide fazer investigação preliminar

Ao ler a queixa do leitor, o secretário de Direitos Humanos e titular da Corregedoria Geral Unificada, João Luiz Duboc Pinaud, convocou o comandante do Bope, coronel Fernando Príncipe, para prestar depoimento numa investigação preliminar. Príncipe disse que desconhecia os refrões e se comprometeu a conversar com sua tropa. O secretário agora vai observar a conduta do grupo de elite.

O coronel Príncipe apresenta outra versão para um dos refrões da tropa. Segundo ele, os versos corretos são: ?O quintal do inimigo/ não se varre com vassoura/ se varre com ponta de sabre,/ fuzil, metralhadora?. Ele diz que não há um hinário oficial no Bope e, por isto, não tem como saber se alguém cantou uma música com algum trocadilho ou verso inédito:

? Canções militares existem internacionalmente e se perpetuam com o passar do tempo. Seu objetivo é promover atividade física e puxar pelo brio do militar. Tem uma por exemplo que diz: ?São os homens da caveira,/ do bornal e do cantil/Sua força combativa/ está na ponta do fuzil?. Tudo isso são coisas relacionadas à nossa cultura. Não quer dizer que seja apologia de coisa alguma ? alegou.

Anteontem, quando a carta foi publicada no GLOBO, as corridas do Bope mudaram de estilo. Os PMs passaram a cantar hinos cívicos como o da Bandeira (?Salve lindo pendão da esperança?). Ontem pela manhã, ao cruzar Laranjeiras de microônibus rumo a um exercício externo, a tropa cantava uma versão de uma música religiosa: ?Derrama Senhor,/ derrama Senhor,/ derrama sobre o Bope o seu amor?.

Segundo moradores ouvidos por repórteres do GLOBO (que não quiseram se identificar por medo de represálias), a cantoria costuma começar por volta das 8h, quando os soldados saem do QG do batalhão localizado no alto do Morro Tavares Bastos e seguem pela Rua Doutor João Coqueiro até o Parque Guinle. No caminho, passam pelos portões do Palácio Laranjeiras, residência oficial da governadora Rosinha Matheus e do secretário de Segurança, Anthony Garotinho.