por Jordão Flaherty
Sexta-feira, 2 de setembro, 2005
Estou muito bem - melhor que a maioria de meus irmãos e irmãs sobreviventes do furacão. Abaixo vai minha tentativa de relatar algo que eu vi nestes últimos dias.
Eu viajei via barco do apartamento em que estava até um helicóptero que me conduziu a um acampamento de refugiados. Se qualquer um quiser examinar a postura do governo para com as vítimas do furacão Katrina, recomendo a visita a um dos acampamentos de refugiados.
No acampamento I de refugiados, milhares de pessoas (pelo menos 90% pretos e pobres) estão amontoados na lama e no lixo atrás de barricadas de metal, sob um sol escaldante, sob o olhar de soldados pesadamente armados. Quando um ônibus chega, para em um ponto aleatório, a polícia abre uma passagem em uma das barricadas, e as pessoas correm em direção do ônibus sem ao menos saber para onde vai o ônibus, se para Houston, Arkansas, Dallas, ou outros locais.
Eu viajei percorri todo o acampamento, vi gente da Cruz Vermelha, do Exército de Salvação, funcionários federais e policiais. Embora fossem amigáveis, ninguém conseguida detalhar informações sobre quando os ônibus chegariam, quantos, aonde iriam, ou alguma outra informação. Eu conversei com diversas equipes dos jornalistas, e perguntei se alguns deles sabiam alguma informação sobre estas perguntas, e todos, da tevê australiana à Fox local, todos se queixaram da desorganização e da falta de informações. Um operador de câmara disse-me que "como alguém que está aqui neste acampamento por dois dias, a única dica que posso dar é esta: saia pelo anoitecer. Não queira ficar por aqui durante a noite".
Não havia também como saber como funciona o acampamento, nada transparente, nem consistente. Por exemplo, uma linha de ônibus, uma maneira de registrar alguma informação do contato ou encontrar membros da família, serviços especiais para necessidades de crianças e deficientes, telefone, sobre doenças contagiosas, nem mesmo uma única lata de lixo.
Para compreender esta tragédia, só vendo Nova Orleans com os próprios olhos. Um lugar com cultura e energia desiguais. Uma cidade com 70% de afro-americanos onde a resistência à supremacia branca comporta uma cultura generosa, subversiva, original e de vívida beleza. Da cozinha, do jazz, do blues, do hiphop, etc.
Nova Orleans é um lugar de arte, música, dança, sexualidade. É uma cidade de bondade e de hospitalidade. É uma cidade de grandes famílias e de redes sociais. Contrastando com os governantes, que há muito abdicaram de sua responsabilidade pelo bem-estar público.
Mas é também uma cidade da exploração, de segregação e de medo. A cidade de Nova Orleans tem uma população de cerca de 500.000 habitantes com uma média de 300 assassinatos a cada ano, a maioria deles centrados em certos locais. Policiais foram fragrados dizendo que não necessitavam procurar os assassinos, porque estes logo acabariam mortos por vingança.
Há uma atmosfera da hostilidade entre os negros de Nova Orleans e o Departamento de Polícia. Em meses recentes, policiais foram acusados de envolvimento em tráfico de droga, corrupção e roubo. Dois delegados de polícia de Nova Orleans foram condenados recentemente por violação da lei (em uniforme), e houveram diversas matanças praticadas por policiais contra jovens desarmados, incluindo o assassinato de Jenard Thomas, que inspirou protestos semanais por diversos meses.
A cidade tem problemas com analfabetismo, evasão escolar e os professores recebem baixos salários. Nas escolas de Louisiana, a cada dia, aproximadamente 50.000 estudantes faltam na escola.
É uma cidade onde a indústria está saturada, e a maior parte dos empregos restantes são parcamente remunerados, trabalho informal, trabalho arriscado, e prestação de serviços.
A questão do racismo foi sempre recorrente na política de Louisiana. Este desastre foi construído com o tijolo do racismo, da negligência e da incompetência. O furacão Katrina foi a faísca inevitável que inflamou a gasolina da crueldade e da corrupção. Desde a periferia abandonada à sua própria sorte, o tratamento dispensado aos refugiados, até o desrespeito às vítimas, este desastre foi mais ou menos intenso dependendo da raça do atingido.
A política de Louisiana é famosa pelo seu caráter corrupto, mas com as tragédias desta semana nossos líderes políticos definiram um nível inédito de incompetência. Na medida em que o furacão Katrina se aproximava, fomos incitados a "rezar para que o furacão descesse” ao nível 2. Presos em um edifício dois dias após o furacão, nós sintonizamos nosso rádio a pilha na rádio local e nas estações de TV, esperando por orientação, e fomos informados que deveríamos ficar rezando durante todo o dia. Como os boatos de pânico começaram a se alastrar, ficamos sem qualquer fonte da informação segura e confiável. À noite, os políticos e os repórteres na terça-feira disseram que o nível de água se levantaria outros 12 pés e que pararia por aí. Os boatos se espalharam como fogo, os políticos e os meios de comunicação apenas tornaram as coisas piorar.
Enquanto os ricos fugiam de Nova Orleans, aqueles que não tinham como nem para onde fugir foram deixados para tras. Adicionando sal à ferida, a mídia local e nacional passaram toda a semana demonizando os que ficaram. Para os que amam Nova Orleans e o povo que nela vive, esta é a parte desta tragédia mais dolorida, dói profundamente.
Nenhuma pessoa sã deve desclassificar alguém que retira alimento de lojas indefinidamente fechadas em uma cidade desesperada, faminta. Os delegados de polícia e políticos pediam por tropas para protegerem lojas em vez de executarem operações do salvamento.
As imagens da população de Orleans vítima do furacão procuravam transmitir a idéia de bandos de negros criminosos fora de controle. Como ficar avaliando perdas de uma loja de eletro eletrônicos saqueada, evidentemente protegida pelo seguro, diante do crime maior da negligência e da incompetência governamental que provocou bilhões de dólares pelos danos de uma cidade destruída? Na mídia, o foco é uma tática, desfocam os ricos e focam os pobres como "super-predadores" obscurecendo os crimes muito maiores, no âmbito econômico do desemprego maciço
O povo hiper-explorado de Nova Orleans está sendo usado como boi de piranha para cobrir crimes muito maiores. Aqui em Nova Orleans, o Estado e os políticos nacionais são os criminosos reais. Pelo menos desde o início do século XIX, se sabe extensamente o perigo representado pelos diques de Nova Orleães. A inundação de 1927, como eventos desta semana, teve mais a ver com a política e com o racismo do que com qualquer tipo do desastre natural.
Contudo os chefes do governo recusaram consistentemente gastar dinheiro para proteger esta cidade, predominantemente negra. Quando o FEMA e outras instituições advertiram sobre o premente perigo que espreitava Nova Orleans. Propondo reforçar os diques e proteger a cidade. A resposta foi o corte e a recusa do financiamento para o controle da inundação de Nova Orleans. Os avisos dos cientistas foram ignorados, e os furacões vêm aumentando de intensidade em conseqüência do aquecimento global.
Nos próximos meses, provavelmente bilhões de dólares inundarão Nova Orleans. Este dinheiro pode ser gastado para trazer "novos negócios " para a cidade, com investimento público, criação de emprego estável, escolas novas, programas culturaos e restauração da carcaça. A cidade pode "ser reconstruída e revitalizada", com hotéis mais novos, mais cassinos, lojas e parques temáticos no lugar dos anteriores, centros culturais e clubes de jazz.
Mas muito tempo antes do Katrina, Nova Orleans tem sido atingida pelo furacão da pobreza, do racismo, da ausência do investimento, da decadência e da corrupção. Os danos deste furacão pre-Katrina exigem bilhões para serem reparados. Agora que o dinheiro está chegando, e os olhos do mundo são focalizados no Katrina, é vital que o povo progressista aproveitasse esta oportunidade para lutar e reconstruir tudo com justiça. Nova Orleans é um lugar especial, e nós necessitamos lutar pelo seu renascimento.
Jordão Flaherty
(
http://www.leftturn.org tradução livre de um texto publicado no Indimedia Nova Orleans
