Carta para Fernanda Montenegro
Prezada Fernanda:
Conheço-a porque é figura pública relevante e talentosa. A Senhora não me
conhece,porque sou um anônimo gaúcho, morador nos confins do Rio Grande do Sul, onde
crio ovelhas. Creio que saiba que se tratam dos mais indefesos e perseguidos
animais domesticados pelo homem.
Sobreviveram na seleção das espécies, graças ao zelo dos pastores. São
inúmeros os seus predadores, onde o pior é o homem. Não dispõem de meios de
defesa,fortes garras, dentes estranguladores, veneno letal, ou a de velocidade de
fuga.
Estaria extinta, não fosse a tutela humana.
Numa fazenda, mal servida de estradas e de meios de comunicação, com
longínquos ou escassos vizinhos, não há qualquer proteção do Estado. A
defesa deve ser provida por seu proprietário e empregados. Isto não se faz com rosas ou
cândidas palavras.
Descendo de uma família que há gerações tem nas armas a sua última
segurança.
Primeiro elas foram manuseadas nos conflitos que marcaram nossas fronteira e
formação histórica. Depois repousaram como recurso a ser usado, quando todos
os demais falharem. Ninguém as usou, até nossos dias para a agressão ao
próximo. No meu meio o mau uso só aconteceu como exceção.
As armas, Dona Fernanda, passaram a ser acionadas de forma cruel e bárbara,
em tempos de paz, após o advento das drogas. Estas sim são o combustível
principal que dispara gatilhos.
Pelo noticiário, com freqüência , tomo conhecimento de que colegas seus,
artistas, são flagrados como consumidores de drogas. De uma feita, estando
no Rio de Janeiro, fui convidado a uma festa. Presentes muitos artistas e pessoas do
gran monde. Qual não foi a minha supresa, quando os garçons passaram a servir, em
bandeijas de prata, carreirinhas de um pó branco, que depois me informaram se tratar
de cocaína.
Esses consumidores, autores e diretores de televisão, gente graúda, de muita
plata, são a razão de ser do tráfico. Não existe comércio sem demanda. E a
disputa por essa demanda é que alimenta o contrabando, de armas e drogas, a luta pelos
pontos, a corrupção policial e até judicial, dizem.
A poderosa Rede Globo, sua empregadora e de outros artistas, que
emprestam seu prestígio à campanha contra a venda legal de armas e munições,
não alterou em nada sua programação, onde a violência é difundida e ensinada
em inúmeros programas, numa dissolução de costumes que arrasa o respeito ao
outro, às instituições, leis e autoridades, e forma esse caldo onde viceja a
violência. E assim penso que os malandros do governo e da sua empregadora
abusaram da sua boa fé, fazendo-a crer que, se usasse seu nome e talento,
estaria contribuindo para um mundo de paz.
Se for vitoriosa a sua campanha, como vou defender minhas ovelhas? Vou
comprar munição no mercado negro? Ou a Senhora virá, com a força da sua arte
dramática, convencer os agressores a mudarem de conduta?
Ao fim, pergunto, como ficará a sua consciência, quando tomar conhecimento
de alguma pessoa foi assassinada, porque lhe privaram dos meios para prover
sua defesa. Meios que maneja com perícia desde há muito, sem que tenham vitimado
qualquer inocente?
Desculpe, mas quando vejo artistas tentando induzir pessoas de forma tão
leviana, penso que "não deve ir o sapateiro além da sandália".
Com todo o respeito, assino
Fausto Fernandes Belmonte
