- Introdução
Estamos escrevendo este documento no dia 17 de setembro, ou seja, a menos de uma semana após o terrível ataque terrorista contra os Estados Unidos. Estamos ainda lidando com nosso pesar e trauma, e ainda estamos profundamente comovidos pelos tantos atos de heroísmo, generosidade e solidariedade que têm ocorrido desde então. Alguns podem achar inapropriado oferecer qualquer tipo de análise política tão cedo. No entanto, mesmo que uma análise política dos fatos a essa altura dos acontecimentos possa ser considerada dissonante, ela deve ocorrer antes que ações que tornem a situação ainda pior sejam levadas a cabo. Críticos da guerra não só nos EUA, mas ao redor do mundo, estão fazendo de um tudo para passar adiante informações para outras pessoas que, até o momento, buscam primariamente vingança. Propusemo-nos abaixo oferecer possíveis respostas para uma série de questões que estão sendo freqüentemente feitas. Desejamos que as respostas que oferecemos, desenvolvidas conjuntamente com vários outros ativistas, ajudem as pessoas em seus trabalhos cotidianos.
- Quem fez?
A identidade das 19 pessoas que seqüestraram os quatro aviões já é conhecida; o que não se sabe ainda é quem é o responsável pela coordenação, o planejamento, o financiamento, o apoio logístico, tanto nos EUA quanto no exterior. Muitas indicações apontam para o envolvimento de Osama bin Laden. Todavia, se seu papel nisso for confirmado, este será apenas o início, e não o fim da investigação: Outras organizações estavam envolvidas? Se sim, quais? Outros governos nacionais estavam envolvidos? Se sim, quais? O perigo aqui é que o governo dos EUA respondam a tais questões tendo por base critérios políticos, e não evidências.
- Quem é Osama bin Laden?
Osama bin Laden é um exilado saudita que herdou uma fortuna estimada em 300 milhões de dólares, embora não esteja claro o quanto ainda sobra dela. Fanaticamente devotado a sua versão intolerante do islã - uma versão rejeitada pela vasta maioria dos muçulmanos - bin Laden ofereceu seus serviços ao grupo afegão Mujahideen, os guerreiros religiosos que lutavam contra a invasora União Soviética de 1979 a 1989. Os afegãos rebeldes foram financiados pela Arábia Saudita e pelos EUA, e treinados pela inteligência paquistanesa, com o auxílio da CIA. Os EUA forneceram uma quantidade enorme de armas, a despeito do alerta que receberam de que tais armas poderiam ser usadas mais tarde por terroristas. Washington, desse modo, uniu-se com bin Laden e mais outros 25.000 militantes islâmicos ao redor do mundo que vieram para o Afeganistão para juntar-se à guerra santa contra os russos. Desde que eles estivessem dispostos a lutar contra a União Soviética, os EUA acolhiam-nos, a despeito de serem muitos deles anti-americanos virulentos, alguns até ligados ao assassinato do Anwar Sadat do Egito. Quando Moscou finalmente desistiu de suas tropas no Afeganistão, alguns desses militantes islâmicos voltaram-se contra seus outros inimigos, incluindo o Egito (onde eles pretendiam estabelecer um estado islâmico), a Arábia Saudita, e os Estados Unidos. Bin Laden fundou uma organização desses veteranos da guerra santa - al Qaida. Em fevereiro de 1998, bin Laden fez publicar um enunciado, endossado por vários grupos islâmicos extremistas, declarando ser o papel de todos os muçulmanos matar cidadões americanos - militares ou civis - e seus aliados onde quer que estivessem.
- Onde está Osama bin Laden?
Depois de alguns atentados contra interesses americanos na Arábia Saudita, autoridades daquele lugar revogaram a cidadania de bin Laden. Bin Laden foi primeiro para o Sudão, e depois para o Afeganistão. O lugar exato onde ele se encontra é desconhecido, uma vez que ele se muda com freqüência, no intuito de se esconder. O Afeganistão é governado pelo Taliban, um grupo de islâmicos fundamentalistas extremos, dissidentes do Mujahideen. O Taliban não tem controle total sobre o país - há uma guerra civil contra os dissidentes que controla uns 10-20 por cento do país. O Afeganistão é um país incrivelmente pobre - a expectativa de vida é de 46 anos, uma em cada sete crianças não sobrevive, e o renda per capita é de 800 dólares por ano. Muitas pessoas permanecem refugiadas. O governo Taliban é uma ditadura e suas regras sociais são extremamente repressivas e sexisistas: por exemplo, eliminaram os budistas, exigiram aos hindus usarem uma identificação especial, negaram a meninas com mais de oito anos de idade o acesso à escola. Grupos de direitos humanos, as Nações Unidas, e a maioria dos governos têm condenado as regras do Taliban. Apenas o Paquistão e dois aliados americanos majoritários no Golfo - a Arábia Saudita e os Emirados Árabes - reconhecem o governo do Taliban.
- Por que os terroristas fizeram isso?
Nós não sabemos com certeza quem cometou os ataques de 11/09 no momento em que este documento está sendo redigido, desse modo não podemos propor uma resposta para tal pergunta. Há, no entanto, algumas possibilidades que merecem ser consideradas.
Uma possível explicação aponta para uma lista bastante longa de queixas por parte da população do Oriente Médio - o apoio dos EUA à repressão israelita e à desapropriação dos palestinos, a imposição americana de sanções sobre o Iraque, o que acarretou a morte de inúmeros inocentes, e o apoio dos EUA a regimes autocráticos, anti-democráticos e altamente inegalitários. Todas essas queixas são sérias e o governo norte-americano de fato causa sofrimentos terríveis. Mas como tais ataques terroristas atenuam esses sofrimentos? Alguns acreditam que ao causarem dor em civis, um governo pode ser destruído ou suas leis podem mudar em uma direção mais favorável. Essa crença não é de forma nenhuma exclusiva do Oriente Médio - tendo sido de fato uma crença comum dos próprios EUA e de outros governos durante anos. Foi exatamente essa crença que esteve por trás dos bombardeios terroristas durante a Segunda Guerra Mundia feitos pelos nazistas, pelos EUA e pelos britânicos; foi também essa crença que motivou a pulverização no Vietenã do Norte e os ataques a infraestruturas civis na guerra de Kosovo. É exatamente a mesma razão fundamentada que foi oferecida para defender as recentes sanções econômicas contra o Iraque: mate de fome a população para pressionar o lider. Além de ser profundamente imoral colocar cidadões como alvo no intuito de se mudar regras políticas, a eficácia dessa estratégia é as mais das vezes dúbia. Nesse caso particular, ter-se-ia uma visão totalmente inacurada dos Estados Unidos se se julgasse que os eventos de 11 de setembro motivariam o governo americano a verem subitamente a injustiça de suas táticas contra os palestinos, etc. Pelo contrário: o possível resultado dos ataques será permitir os líderes americanos a mobilizar a população a ficarem ainda menos comprometida contra as estratégias políticas que têm sido empregadas até então. As ações encobriram de maneira horrível as causas dos oprimidos e dos pobres, colocando mais poder ainda nas forças mais agressivas e reacionárias do globo.
Há uma segunda explicação possível para os eventos de onze de setembro. Por que se cometeria um ato tão grotescamente provocativo contra uma nação tão poderosa, tão armada, tão perigosa quanto os Estados Unidos? Talvez provocar os Estados Unidos tenha sido extamente a intenção. Ao provocar um ataque militar massivo em uma ou mais nações islâmicas, os perpetradores podem na verdade ter desejado iniciar um ciclo de terror e contra-terror, precipitando desse modo uma guerra santa entre o mundo islâmico e o Ocidente, uma guerra que eles mesmos podem liderar e que pode resultar no esfacelamento de todo o insuficiente regime islâmico e o desligamento dos Estados Unidos, da mesma forma que a guerra no Afeganistão contribuiu para a morte da União Soviética. Desnecessário dizer, este cenário é insano sob qualquer perspectiva possível.
No entanto, se provocação e não conseqüência de sofrimento foi o que motivou os planejadores dos ataques contra os Estados Unidos, isto não significaria que os sofrimentos e as queixas resultantes sejam irrelevantes. Qualquer que tenha sido o motivo (ou motivos) dos planejadores, eles ainda tiveram de atrair pessoas capazes, organizadas e treinadas, não apenas para participar, mas para darem suas próprias vidas nesse ato suicida. Sofrimento profundo oferece um ambiente social propício para fanáticos recrutarem gente a favor de suas causas e ganharem todo tipo de apoio.
- Como a culpa pode ser determinada? Como a punição deve ser feita?
As respostas para essas questões são bastante importantes. Em nosso mundo, a única alternativa para a justiça é que a cupla seja determinada por uma quantidade significativa de evidências que sejam então consideradas de acordo com leis internacionais pelo Conselho Nacional das Nações Unidas ou outras agências internacionais apropriadas.
A punição tem de ser determinada pelas Nações Unidas também, como também as suas formas de implementação. As Nações Unidas podem chegar a determinações que uma ou outra parte pode gostar ou não, como ocorre em qualquer corte de justiça, como também podem ser alvo de pressões políticas que podem tornar suas decisões questionáveis, como em qualquer corte de justiça. Mas que as Nações Unidas são o lugar para determinações sobre conflitos internacionais é algo óbvio, pelo menos de acordo com tratados solenes assinados pelas nações do mundo. A maioria dos governos, no entanto, não levam a sério suas obrigações no que respeita a leis internacionais, sendo os Estados Unidos um exemplo desses governos. Para a política americana, leis internacionais são feitas para outros obedecerem e para Washington manipular quando possível, ou ignorar por completo. Desse modo, quando a Corte Mundial disse para os Estados Unidos pararem com a intervenção na Nicarágua e pagarem os danos causados, oficiais americanos simplesmente declararam que eles não se consideravam ligados às regras.
- Por que os americanos? Por que os Estados Unidos?
George W. Bush afirmou que os Estados Unidos foram o alvo dos ataques por conta de seu compromisso com a liberdade e a democracia. Bush diz que as pessoas têm ciúmes da riqueza americana. A verdade é que anti-americanos apoiam-se na crença de que os EUA obstruem a liberdade e a democracia dos outros. No Oriente Médio, por exemplo, os Estados Unidos apoiam a opressão israelita dos palestinos, dando suporte militar, econômico e bélico que faz com que tal opressão seja possível. Eles condenam a conquista quando feita pelo Iraque, mas não quando feita por Israel. Eles reforçaram regimes autoritários (como o da Arábia Saudita) que têm oferecido a companhias americanas lucros gigantescos com produtos petrolíficos e ajudaram a derrotar regimes (como o de Irã no início da década de 50) que puseram em risco tais lucros. Quando atos terroristas foram cometidos por amigos americanos, como os massacres supervisionados por israelitas nos campos de refúgio de Sabra e Shantilla no Líbano, nenhum tipo de sanção foi imposto pelos EUA. Todavia, acerca das sanções americanas impostas sobre o Iraque, que resultou na morte de centenas de milhares de crianças inocentes, a Secretária do Estado Madeleine Albright pode dizer apenas que ela julgou terem sido válidas. Quando os Estanos Unidos entraram em guerra contra o Iraque, eles visaram infraestruturas civis. Quando o Irã e o Iraque lutaram uma guerra sangrenta, os Estados Unidos apoiou ambos os lados.
Além das preocupações específicas do Oriente Médio, o anti-americanismo é também disseminado por queixas mais gerais. Os Estados Unidos são um poder mundial que conduz a um certo status-quo. Eles promovem um sistema econômico global de desigualdade e incrível probreza. Eles demonstram sua arrogância de poder quando rejeitam e bloqueiam consensos internacionais que vão desde assuntos ligados ao meio-ambiente, como aos dos direitos da criança, dos campos minados, das cortes criminais internacionais, da defesa bélica nacional.
Uma vez mais: essas queixas podem não ter nada a ver com os motivos daqueles que organizaram os atentatos de 11 de setembro. No entanto, elas com certeza ajudam a criar um clima conduzível ao recrutamento de pessoas para cometerem atos que tais.
- Mas não é falta de sensibilidade falar sobre os crimes americanos num período em que os EUA ainda velam os seus mortos?
Seria falta de sensibilidade se as pessoas que estão falando sobre os crimes americanos não estivessem também horrorizados com o terror em Nova Iorque, se queixando dos queixosos, e, do mesmo modo, se os EUA não estivessem armando uma guerra contra nações inteiras, tirando governos do poder, engajando-se em ataques massivos, e evidenciando nenhum tipo de preocupação em discriminar terroristas de simples cidadões neutros.
Mas como os críticos estão de fato condoídos, e uma vez que os EUA estão formulando suas noções de justiça baseados precisamente em tais termos não-construtivos e mesmo perigosos, é essencial que os críticos apontem de forma cuidadosa a hipocrisia e as possíveis conseqüências, mesmo que velemos os mortos, sentimos repugnância pela carnificina, e ajudemos as iniciativas de apoio às vítimas. É assim que ajudamos a evitar que catástrofes se sobrepunham a novas catástrofes.
Suponhamos que bin Laden é o responsável pelo horror recente. Imaginemos que ele tenha procurado a população afegã uma ou duas semanas antes e tenha alertado a todos acerca da responsabilidade do governo norte-americano pelas tantas tragédias e mazelas em todo o mundo, particularmente para as populações árabes como no Iraque e na Palestina. Imaginemos que ele tenha também dito que os americanos têm valores diferentes e que eles festejaram quando bombas foram lançadas no povo da Líbia e do Iraque. Então bin Laden propõe o bombardeamento de civis norte-americanos no intuito de forçar o governo daquela nação a mudar suas estratégias. Nesse evento hipotético, o que quereríamos que o povo afegão fizesse?
Nós gostaríamos que eles dissessem a bin Laden que ele estava demente e fora de si. Nós gostaríamos que eles observassem que o fato de ter o governo dos EUA propiciado violência massiva contra civis do Iraque e outros não justifica ataques a civis americanos, e que o fato de se ter valores diferentes também não justifica nenhum tipo de ataque.
Então não é exatamente isso o que esperaríamos que o público também dissesse a George Bush? A violência de bin Laden, considerando-se que posteriormente prove-se que este é o caso, ou a violência do Taliban ou de qualquer governo, não justifica ataques terrorista recíprocos a civis inocentes.
- Ao falar dos crimes dos EUA no exterior, vocês parecem estar querendo justificar esses atos terroristas. Não têm nenhuma compaixão por aqueles que estão sofrendo?
Expressar remorso e dor, e também tentar evitar dor comparável ou pior para mais inocentes (inclusive americanos) não evidencia falta de sensibilidade pelo impacto dos crimes contra a humanidade, mas indica sentimentos que vão além aos que a mídia ou o governo nos diz serem os limites da compaixão permissível. Nós não apenas sentimos pelos inocentes que morreram, e suas famílias, e todos os demais que se condoem em dor indiscutível, mas também por aqueles que podem morrer em pouco tempo, por aqueles que podemos tentar salvar.
Os crimes dos EUA não justificam de maneira nenhuma os ataques de 11 de setembro. O terrorismo é uma resposta absolutamente inaceitável aos crimes dos EUA. Mas ao mesmo tempo precisamos ressaltar que o terrorismo - colocar civis na mira - é uma resposta absolutamente inaceitável dos Estados Unidos aos crimes cometidos por outros.
A razão pela qual é relevante trazer à tona os crimes dos EUA não é justificar o terrorismo, mas entender a circunstância que propicia o surgimento do terrorismo e dos terroristas. O terrorismo é uma reação moralmente desprezível e estrategicamente suicida à injustiça. Todavia, reduzir a injustiça, o que é correto por si só, pode certamente ajudar a eliminar as sementes de dor e sofrimento que nutrem os impulsos terroristas.
- Bush disse que a "guerra contra o terrorismo" precisa confrontar todos os países que ajudam ou dão qualquer tipo de suporte ao terrorismo. Quais seriam esses países?
O pensamento corrente gerado por esse tópico, promulgado por Bush e espalhado rapidamente além dele mesmo, é que qualquer um que planeja, executa ou dá apoio ao terrorismo, incluindo terroristas reconhecidamente apoiadores, é culpado por atos terroristas e seus resultados - onde o terrorismo é entendido por atacar civis inocentes no intuito de coagir os legisladores. Algumas pessoas podem criticar alguns aspectos dessa formulação, mas, no ponto em que estamos, a formulação é suficientemente razoável. Sua aplicação é que pode ser problemática.
Os EUA possuem uma lista de estados que apoioam o terrorismo, mas ela é - como qualquer um esperaria - um documento extremamente político. Na última lista constava os seguintes países: Irã, Iraque, Síria, Líbia, Cuba, Coréia do Norte, e o Sudão - omitindo significativamente o Afeganistão. Cuba está incluída, suspeita-se, não exatamente por conta de qualquer tipo de relação com o terrorismo, mas por conta da longa hostilidade dos EUA contra esse país, o que resultou em vários ataques terroristas dos próprios EUA ali. Se estivermos falando acerca de bombas escondidas em carros, ou levadas a mão, de seqüestros de aviões, ou de ataques suicidas com aviões, podemos razoavelmente concluir que a maioria dos países na lista dos EUA, incluindo aí também o Afeganistão e o Paquistão, e outras nações igualmente pobres, qualificar-se-iam, com diferentes graus de culpabilidade.
Por outro lado, se estivermos falando sobre o terrorismo do tipo exemplificado por bombardeamentos militares e invasões, pelo embargamento de comida e remédios afetando civis e não apenas ou mesmo primariamente oficiais e militares, pelos ataques a "alvos estratégicos", como clínicas médicas e cooperativas agriculturais na Nicarágua, ou pelo financiamento e treinamento de quadrilhas de morte, então teríamos um lista bastante diferente de nações, incluindo aquelas professadamente oponentes ao terrorismo, como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França, a Rússia e Israel.
Algumas vezes as nações incluídas em uma dessas listas apontam para os atos das outras que estão incluídas na outra lista para justificar suas ações. Mas obviamente terror original não justifica terror subsequente, nem terror recíproco minimiza o terror do outro lado.
- Os palestinos apoiam os ataques, e, se sim, quais são as implicações disso?
Há relatos de palestinos em Gaza e West Bank festejando os ataques, e relatos similares acerca de palestinos nos EUA. O telejornal do canal FOX reproduziu inúmeras vezes a mesma cena de palestinos comemorando nos territórios ocupados. Mas a mídia não observa que eles estão mostrando apenas uma pequena minoria de palestinos e que os palestinos oficialmente condenaram os ataques e mostraram simpatia pelas vítimas. A mídia foi particularmente omissa ao não mostrar coisas como o discurso dos palestinos residentes em Beit Sahour, denunciando firmemente o terrorismo, ou a vigília à luz de velas que se fez no Leste árabe de Jerusalém, em memória das vítimas.
Não há nenhuma razão para duvidar, no entanto, de que alguns palestinos - tanto nos EUA quanto no Oriente Médio - comemoraram os ataques. Isso é errado, mas é também compreensível. Os Estados Unidos têm sido o mais importante apoio internacional da opressão que os israelitas têm feito na Palestina. Alguns palestinos, assim como os americanos que festejaram o bombardeamento atômico de Hiroshima ou outros bombardeamentos menos significativos, como os da Líbia em 1986, ignoram o significado humano de destruir um alvo "inimigo".
Mas o fato de terem os palestinos reagido dessa maneira, apesar de ser desapontador e doloroso de ver, não deve influenciar a nossa compreensão da opressão por que passam e da necessidade de uma solução para ela. Na verdade, levando-se em conta que Israel parece estar usando os ataques de 11 de setembro como uma desculpa e um disfarce para os crescentes ataques aos palestinos, precisamos agora mais do que nunca pressionar ainda mais vigorosamente por uma solução justa para o conflito ente os israelitas e os palestinos.
- Qual é o provável impacto dos ataques no estabelecimento de legislações norte-americanas?
As características catastróficas desses eventos oferece uma desculpa perfeita para que elementos reacionários sejam acionados sob qualquer item que se possa conectar com "a guerra contra o terrorismo" e que se possa inflamar ao espalhar pânico na população. Isso obviamente inclui gastos militares que nada têm a ver com questões legítimas de segurança, mas sim com lucros financeiros e militarismo. Por exemplo, mesmo que os eventos de 11 de setembro tenham mostrado que a "defesa míssil nacional" não constitui defesa nenhuma contra os perigos mais prováveis que corremos, os Democratas estão começando a deixar de se opor a projetos desestabilizantes. Surpreendentemente, certos elementos vão mesmo extrapolar para questões de ordem social. Por exemplo, fundamentalistas de origem norte-americana - como Jerry Falwell - declararam (embora tenham se retratado depois de forte crítica) que o aborto, a homossexualidade, o feminismo e o ACLU têm culpa pelo ocorrido. Outros esperam poder usar os ataques como uma justificativa para eliminar os juros de ganho capital, um velho objetivo da direita. Mas o foco central será as leis militares. Nas próximas semanas, em breve, veremos uma celebração nos EUA, uma celebração pelo poderio militar, uma celebração pela quantidade massiva de armas poderosas, e talvez de assassinatos, tudo apregoado como se as vítimas do terrorismo fossem ficar honradas e não intrigadas pela preparação da feitura de novas vítimas inocentes ao redor do mundo.
- Então qual será a resposta mais provável dos EUA?
As legislações norte-americanas no que respeita a relações internacionais (e relações domésticas também) são manipuláveis. Por um lado, a intenção é aumentar o privilégio, o poder, e a riqueza das elites americanas. Por outro lado, é deixar de lado constituintes menos poderosos e ricos que podem ter propósitos diferentes, quer seja no país ou fora dele.
Desde o fim da Guerra Fria, os EUA têm tido um problema - como atemorizar o público com leis que não são de benefício público, mas que servem a interesses coorporativistas e políticos? O medo da ameaça soviética, horrivelmente exagerada, serviu a esse propósito admiravelmente por décadas. A resposta esperada para a situação atual, pelo ponto de vista da elite, será substituir a Guerra Fria pela Guerra Anti-Terror. Feito isso, ter-se-á novamente um veículo para instaurar o medo, questionavelmente mais crível que a ameaça soviética de antes. De novo ter-se-á um inimigo, os terroristas, que servirá como bode expiatório para tudo, tentando-se igualmente difamar todos os dissidentes por trilharem um caminho que levará inexoravelmente aos horrores do terrorismo.
Desse modo, a resposta a esses eventos recentes é entoar que devemos ter uma guerra longa, uma batalha difícil, contra um inimigo implacável, imenso, e até mesmo onipresente. Declararão que devememos encaminhar nossos inimigos em favor da causa, que devemos sacrificar manteiga por armas, que devemos renunciar a liberdade em favor da segurança, que devemos sucumbir, em suma, às regras da direita, e esquecer da busca da defesa e do aumento dos direitos. A resposta preferida será assim usar a força militar particularmente contra países que não possuem defesa, talvez até ocupar um e agir de forma mais ampla de maneira não somente a reduzir o risco do terror e a diminuir suas causas, mas a induzir conflitos que serão úteis ao poder, independentemente do crescimento do terror que isso implicaria.
Já foi solicitado ao Congresso para se obter uma carta branca para o presidente no que concerne ao uso de ação militar, o que significaria retirar a ação militar dos EUA do controle democrático. Apenas Barbara Lee teve a coragem de votar contra a decisão conjunta do Congresso, que autoriza o presidente "a usar toda a força necessária e apropriada contra as nações, organizações ou pessoas que ele julgar terem planejado, autorizado, cometido ou ajudado os ataques terroristas que ocorreram em 11 de setembro de 2001, no intuito de previnir futuros ataques de terrorismo internacional contra os Estados Unidos por tais nações, organizações ou pessoas."
- Que outra medida internacional os EUA devem tomar, então?
A melhor maneira de lidar com o terrorismo é levar em consideração suas causas intrínsicas. Talvez algum tipo de terrorismo existiria até mesmo se as queixas dos que vivem no Terceiro Mundo fossem levadas em conta - queixas que levam à raiva, ao desespero, à frustração, sentimentos de fraqueza, e ódio - mas certamente a habilidade daqueles que cometeriam terrorismo sem queixas que fossem suficientes para o recrutamento de outras pessoas seria reduzida de forma bastante significativa. Como um segundo passo, poderíamos ajudar a estabelecer um consenso internacional real contra o terrorismo ao colocar em julgamento oficiais norte-americanos responsáveis por algumas das atrocidades apontadas anteriormente.
Obviamente essas são soluções de longo termo e encaramos o horror do terrorismo hoje. Então devemos considerar o que queremos que o governo dos EUA faça agora.
O princípio que deve guiar o governo dos EUA tem de se basear na garantia de segurança e de bem-estar dos cidadões americanos sem diminuir a segurança e bem-estar de outros povos. Alguns pontos em particular devem ser considerados a partir desse princípio.
Primeiramente, insistimos que qualquer tipo de resposta deve descartar o use de civis como alvo possível. Ela deve também descartar o ataque dos chamados alvos de uso duplo que têm alguns propósitos militares mas que causam impacto substancial a civis. Os EUA não aderiram a esse princípio da Segunda Guerra (onde a intenção direta foi freqüentemente matar civis) e ainda não aderem a ele, como quando atacaram infraestruturas civis no Iraque ou na Sérvia, sabendo que o resultado seria a morte de civis (pela falta de eletricidade nos hospitais, falta de água potável, etc), enquanto que os benefícios militares eram ínfimos. Nós obviamente rejeitaríamos como grotesca a idéia de que o World Trade Center foi um alvo legítimo porque sua destruição fez com que o funcionamento do governo dos EUA fosse abalado (e desse modo suas leis militares fossem conseqüentemente adiadas). Precisamos ser sensíveis com os custos civis gerados por ataques a infraestruturas de uso duplo em outros países como somos com os dos EUA.
Temos de insistir ainda que qualquer resposta ao terror deve ser feita levando-se em conta as leis das Nações Unidas. Essas leis oferecem uma remediação clara para eventos como os de 11 de setembro: apresentar o caso ao Conselho de Segurança e deixar que o Conselho determine a resposta apropriada. As leis permitem que o Conselho escolha respostas que permitam ou não o uso de forças militares. Nenhuma ação militar deve ser tomada sem a autorização do Conselho de Segurança. Passar por cima do Conselho de Segurança significa enfraquecer as fundações das leis internacionais que proporcionam segurança para todas as nações, especialmente as mais fracas.
A aprovação do Conselho de Segurança nem sempre é determinativa. Durante a Gerra do Golfo, os EUA obtiveram tal aprovação por ter exercitado seu poderio econômico no intuito de ganhar votos favoráveis. Desse modo devemos pressionar por uma autorização do Conselho de Segurança que seja oferecido livremente. Sobretudo, devemos insistir que as Nações Unidas retenham o controle de qualquer tipo de resposta; isto é, devemos nos opor à prática usual dos EUA que pressionam o Conselho a dar carta branca ao seus governantes para que eles possam fazer guerra da forma que bem entenderem.
E devemos insistir que nenhum tipo de ação e mesmo nenhum voto do Conselho de Segurança ocorra sem uma apresentação formal e completa de evidência provando culpabilidade. Não queremos que Washington anuncie que devemos tomar sua palavra como final - como ocorreu em 1998, quando os EUA bombardearam uma estrutura farmacéutica no Sudão, afirmando que ela produzia material para guerra química, somente para reconhecerem mais tarde que tinham se enganado.
Se - e somente se - todas essas condições forem levadas em conta, então não deveremos objetar à captura dos responsáveis, da mesma maneira que não objetaríamos a polícia local a apreender um estrupador ou um assassino com o objetivo de fazer a justiça prevalecer. E se um dado estado resolver usar meios militares para protejer bin Laden da apreensão? Os perigos de serem os civis atingidos serão bem maiores no caso de uma ação contra um estado. Uma ação militar seria justificável apenas se ela não acarretasse num dano substancial aos civis. Ademais, se o objetivo de uma possível ação militar for aumentar a segurança dos EUA e não combater a vingança, tais benefícios imaginados deveriam ser pesados em função da perspectiva de se colocar com isso milhares de outras pessoas do mundo islâmico na mão do terrorismo. Em outras palavras, ação militar dever ocupar apenas uma parte pequena de uma resposta internacional. Pressões diplomáticas são mais importantes, assim como cortes de fontes financiadoras de organizações terroristas, a redução das queixas que alimentam a frustração, etc.
É também fundamental observar também que mesmo ações não-militares podem causar imenso sofrimento a civis e que opções que resultem nisso devem também ser rejeitadas. Pedir ao Paquistão que corte o fornecimento de alimentos ao Afeganistão, por exemplo, como os EUA já fizeram, resultaria provavelmente em fome numa escala incomensurável. Suas implicações poderiam ser piores, talvez ainda mais drásticas, que aquelas resultantes de bombordeamentos ou de outras escolhas mais agressivas.
- O que os cidadão americanos devem fazer nos EUA para se protegerem de tais tipos de ataques?
Além de lutar pela implementação da lei internacional através de meios internacionais e no que concerne uma resposta proporcional e apropriada e além de tentar retificar condições injustas que alimentam a falta de pesrpectiva e o desespero que podem nutrir os alicerces do terror - torna-se necessário também reduzir a vunerabilidade e o risco.
Algumas coisas são muito mais simples do que a mídia tem nos feito crer. Se não quisermos ver jamais uma linha aérea internacional se transformar num míssil e usada para destruir pessoas e propriedades, podemos simplesmente desconectar a cabine do piloto do resto do avião, fazendo a entrada naquela através da última impossível. Do mesmo modo, é significativo que as companhias aéreas norte-americanas tenham colocada a segurança dos aeroportos até o momento nas mãos da iniciativa privada, o que significa uso de profissionais mal-pagos e não-qualificados, e exposição a altos riscos. Na Europa, por outro lado, a segurança dos aeroportos é uma função do governo e os funcionários são relativamente bem-pagos, e desse modo muito mais motivados e competentes.
Outras medidas serão mais difíceis. O que não devemos fazer, todavia, é cortar liberdades básicas e militarizar o dia-a-dia. Tal tipo de atitude não nos previne do terror, mas faz o terror vitorioso.
- Parece que uma porção significativa de americanos está respondendo à crise com mostras de nacionalismo, ao balançarem bandeiras, etc. Isso é mau?
Sentir simpatia mútua, expressar solidarieade, lamentar, ajudar nunca é errado ou mau. A imagem de bombeiros subindo as escadas para ajudas aqueles que estavam presos na torre, escadas que brevemente viriam abaixo, é heróica, e merece respeito profundo, além de engendrar dor quase insuportável. A visão de centenas e milhares de pessoas ajudando na cena, trabalhando para salvar vítimas, doando, dando apoio, é de igual modo válida e positiva. Até a bandeira esvoaçando, que pode ser às vezes algo chauvinista, não deve ser considerada como o sendo. Julgar de modo severo como algumas pessoas mostram seus sentimentos pelos EUA e pelas vítimas pode de fato ser algo insensível e não-construidor. A coisa mais importante é aumentar o conhecimento dos fatos relevantes e dos valores em jogo, das medidas que podem suceder os acontecimentos e de suas implicações; e, sobretudo, o que pessoas com boas-intenções podem fazer para influenciar cada uma dessas coisas.
- O que devemos argumentar com pessoas que insistem que os EUA devem fazer uma exibição de poderio militar, e que devem retaliar?
Nós entendemos o sentimento. Dividimos o sentimento de raiva e utraje. Mas também pensamos que as regras da lei são vastamente preferíveis que a vingança por conta própria. Nós não advogamos que cada vítima cace e mate cada perpetrador sem o passo crítico do julgamento e das determinações da leis no que concerne a ações apropriadas.
Retaliar meramente para demonstrar poderio e não para obter justiça real ou segurança é seguir a lógica do terror. Isso não busca um fim válido, mas uma violência simbólica e vingativa. Não pune perpetradores dos crimes, mas inocentes. Não devemos cometer terrorismo como uma resposta ao terrorismo, mas devemos trasceder o terrorismo em nossa resposta a ele.
- O que os progressistas devem fazer, de maneira mais geral?
Esses são tempos difíceis. Não será de nenhuma ajuda nos isolarmos da realidade pela qual os outros estão passando, e que deveremos passar também. Mas mudança depende de resistência organizada que aumenta o esclarecimento e o compremetimento. Ela depende da pressão de pessoas em cujas mãos está o poder de decidir a respeitarem o desejo de pessoas com diferentes perspectivas. Não é suficiente apenas uma parte das pessoas terem uma boa posição, terem coragem, estarem comprometidas. É preciso que esse número seja consideravelmente grande.
Nossa tarefa mais imediata é comunicar informação acurada, nos opor a preconceitos e falta de lógica, criar empatia e estar ao lado do público, estarmos disponíveis para falar e ouvir, e estarmos preparados para oferecermos informações, análises e resoluções humanas.
