CEMITÉRIO DE TRENS NO RIO DE JANEIRO

Patrimônio público vira sucata em terreno da Supervia

por Latuff*

No bairro do Engenho de Dentro, subúrbio carioca, encontra-se um terreno onde, no passado, funcionavam as chamadas "oficinas de locomoção", pertencentes a antiga Estrada de Ferro Central do Brasil (que mais tarde faria parte da Rede Ferroviária Federal S/A). Nesse local eram feitos reparos em locomotivas e vagões de passageiros por equipes de funcionários em diversos galpões.

Graças a negligência do poder público, os investimentos destinados a RFFSA foram minguando gradativamente e os serviços prestados a população se tornando cada vez mais precários. As oficinas começaram então a sofrer um processo de sucateamento. A privatização foi a resposta do governo federal a este problema. Dizia-se que somente a iniciativa privada seria capaz de injetar recursos no transporte ferroviário de passageiros. Propagandas na TV prometíam a opinião pública conforto e segurança sob trilhos. Nos leilões de privatização, a empresa Supervia arrendou grande parte das linhas de trens metropolitanos do Rio, bem como as instalações pertencentes a extinta RFFSA, dentre elas as oficinas do Engenho de Dentro.

Se levarmos em conta as promessas feitas pelos arautos da privatização, era de se esperar que, estando nas mãos da Supervia, as oficinas fossem revitalizadas. Porém, quem conseguir transpor os muros altos e a rígida vigilância de seguranças particulares e policiais ferroviários, vai constatar que o sucateamento do patrimônio público continua de vento em popa. As "oficinas de locomoção" foram transformadas num revoltante "cemitério de trens".

Pelos muitos metros quadrados de terreno coberto de mato e galpões abandonados, encontram-se dezenas de vagões de passageiros deteriorando-se diante da ação do tempo. De acordo com os poucos funcionários que não foram demitidos pela Supervia, os vagões não recebem reparos e seus mecanismos servem como peças de reposição para composições em funcionamento. Até mesmo uma locomotiva apodrece a céu aberto, cercada por vegetação. Tamanha quantidade de maquinário abandonado ao ar livre representa risco a saúde pública, pois pode abrigar focos do mosquito da dengue.

Nesse vergonhoso "cemitério de trens" jaz o patrimônio da população carioca, insepulto e em avançado estado de putrefação, vítima da irresponsabilidade do poder público e do mal-caratismo da iniciativa privada.

*Latuff é cartunista e fotógrafo.