O Fórum Oficial não representa uma verdadeira alternativa para os trabalhadores.

Em centenas de seminários e conferencias do Fórum “oficial” se debatem versões semelhantes do mesmo programa já esboçado desde a primeira edição do Fórum. Ao final dos debates, se marcam outras discussões para as próximos Fóruns ou encontros semelhantes, sem nenhum compromisso com a luta concreta.
Uma das estrelas do Fórum, onipresente na linguagem hegemônica é o discurso da cidadania. Dezenas de intelectuais se esforçam em demonstrar que a generalização da cidadania é o horizonte do possível. Esta idéia foi revolucionária nas grandes mobilizações burguesas que derrotaram o feudalismo na Europa entre os séculos XVII e XIX. Significava naquele momento a abolição dos privilégios na nobreza e do clero na Idade Média.
No período de decadência do capitalismo, esta ideologia tem um conteúdo claramente reacionário , de igualar os cidadãos proprietários dos meios de produção e os cidadãos proletários.
Os interesses da maioria explorada não são os mesmos da minoria exploradora. Os lucros de uns implicam na miséria dos outros.Omitir essa oposição em nome de uma pretensa igualdade entre todos a ser atingida dentro da sociedade atual desvia os explorados da busca da necessária unidade de classe para acabar com a exploração. E os deixa à mercê do canto de sereia por uma saída conjunta sem radicalismos.

Outra das propostas amplamente difundidas no Fórum oficial é a de uma “economia solidária”. Esta é uma versão da humanização do capitalismo , uma tentativa de concretização da proposta já conhecida de “uma economia capitalista voltada para o mercado interno”, em contraposição a globalização.
Segundo esta proposta , a alternativa seria a generalização de associações autogestionárias, cooperativas, organizações de consumo ético, bancos do povo, grupos de compras solidárias, movimentos de boicote, cozinhas comunitárias, etc.
No entanto, mais uma vez, estas propostas batem de frente com a realidade da economia mundial controlada por grandes empresas multinacionais que controlam o mercado mundial. Não por acaso nada se fala sobre as grandes empresas automobilísticas, químicas, petroleiras, agropecuárias, sobre os grandes bancos, etc.
Uma economia apoiada em pequenas empresas seria retornar ao passado. Como dizia Rosa de Luxemburgo, sua “realização geral implica a supressão do mercado mundial e o parcelamento da atual economia mundial em pequenos grupos de produção e troca localizados; em suma:tratar-se-ia do retrocesso do capitalismo para a economia mercantil da Idade Média”

Como toda a proposta de desenvolvimento capitalista “voltado para o mercado interno” , estas propostas não explicam o que fazer com as grandes empresas imperialistas que controlam os países e não querem “aumentar os salários para desenvolver o mercado interno”, da mesma maneira que as grandes empresas nacionais associadas. Ou se expropria estas empresas entrando em um caminho anticapitalista ou a situação segue exatamente como está.
Para encobrir sua impotência para responder ao controle do mercado mundial pelas multinacionais , os defensores da “economia solidária” fizeram propostas como “um Banco Mundial ético “ e “uma Organização Mundial do Comércio Justo”. Valeria também acrescentar a defesa do poder para o coelhinho da páscoa e Papai Noel.
Não é por acaso que os defensores desta “ economia solidária” ao chegar ao poder, como agora com o governo Lula, se acomodam rapidamente a realidade e passam a administrar a serviço das mesmas empresas multinacionais de sempre.
Outro dos ícones da maioria do Fórum é a defesa da taxa Tobin. Em 1978, James Tobin, prêmio Nobel de economia de 1981, fez uma proposta de uma taxa que incidiria sobre as transações cambiais especulativas. Os defensores desta taxa opinam que ela seria um freio a especulação financeira e ao mesmo tempo um enorme “fundo para combater a pobreza”, que seria administrado com a democratização de algum das instituições internacionais atuais (como o FMI “democratizado”). A dimensão desta taxa varia entre seus defensores, entre 0,1 e 1%, ficando em geral em torno de 0,25%.
Esta taxa , no entanto, incidiria apenas sobre uma parte do movimento de capitais (as transações cambiais, de especulação com as moedas), deixando de lado todo o enorme movimento de capitais também especulativos com os títulos das dívidas públicas, assim como as ações das bolsas.Trata-se de uma proposta cosmética, que em nada alteraria o controle totalitário e parasitário dos grandes bancos e empresas imperialistas sobre as finanças mundiais.
Além disso a experiência dos “fundos” com objetivos sociais já é parte de uma experiência negativa presente em nossos países. A CPMF (aliás, com uma taxa maior e mais abrangente) também foi criada para “possibilitar investimentos para a saúde”. A situação dos hospitais públicos brasileiros responde por si só aos entusiastas defensores da taxa Tobin.
Outra das teorias mais divulgadas na maioria do Fórum é apoiada em intelectuais como Susan George, Ignacio Ramonet e Tony Negri , muito em moda, sobre a autonomia das empresas multinacionais e a perda de função dos estados.
Segundo o informe oficial do segundo Fórum : “Os conferencistas destacaram, ainda, que o capitalismo financeiro não precisa mais do Estado Nacional (EN) e nem de suas instituições democráticas. Neste vazio político, as instituições econômicas e financeiras e de dinheiro, governarão o mundo em nome do capital, daí a política dar espaço para a tecnocracia atuar.” Concluíram também que : “A democracia exercida com eficácia desarma o capital. A autoridade do povo e que dele emana, é o único instrumento eficaz na luta contra a globalização. Essas conclusões foram o ponto de convergência das opiniões dos painelistas na manhã de hoje”
A partir daí, chegam a política da democratização do estado, com o grande exemplo do Orçamento Participativo de Porto Alegre. Antes estes setores reformistas diziam que o estado burguês poderia ser mudado por dentro, transformando-se em estados a serviço dos trabalhadores e da população em geral, sem necessidade de uma revolução. Agora avançam em sua teoria e dizem que as grandes empresas já não necessitariam do estado, e que por si só os estados “desde que com regimes democráticos” seriam uma contraposição ao capital. Ainda mais com a sua democratização, através do orçamento participativo, etc.
O problema para todos estes setores é que brigam com a realidade, que entra por todas as janelas e portas. O estado norte americano (com regime democrático), controlado pelas multinacionais que está impondo a ALCA, e preparando a guerra contra o Iraque para controlar seu petróleo. O estado francês (dirigido pela social democracia presente no Fórum) apoiou a guerra no Afeganistão , assim como defende com todas as suas forças as multinacionais francesas.
Por outro lado, o Orçamento Participativo de P. Alegre só opina sobre 10% do orçamento da cidade, e está submetido às instancias de poder tradicionais da democracia burguesa, como a Câmara de Vereadores e o governo municipal.
Olhando aos mentores destas teorias, muitos deles membros ou representantes de governos locais ou nacionais, pode se ver com clareza que não foi a gestão deles que mudou os estados burgueses (que seguem inalterados). Eles é que estão muito mudados desde que se integraram a democracia burguesa. Toni Negri era um líder guerrilheiro, e a maioria absoluta das correntes do PT hoje estão integradas ao estado com o governo Lula, em plena louvação do estado burguês. E já nem falam em levar o orçamento participativo ao governo federal, contentando-se com as tradicionais “negociações” com o Congresso Nacional.

Um outro Fórum é possível

Esta parte majoritária e oficial do Fórum em nada faz avançar a luta contra o imperialismo e o capitalismo. Ao contrário, a tentativa é a de dar uma base programática a uma espécie de “quarta via”. Como a dominação da social democracia está sendo claramente questionada tanto pelas mobilizações como nas eleições européias, está se buscando criar um discurso mais a esquerda para defender o mesmo programa de adaptação ao neoliberalismo.
Não é por acaso que o lema do Fórum é “Um outro mundo é possível”. Não se qualifica qual é este “outro mundo” porque se trata do mesmo mundo capitalista, com pequenas reformas sociais compensatórias . Trata-se portanto de um conteúdo semelhante a já desgastada terceira via, com uma forma renovada.
Na verdade o Fórum oficial é uma tentativa de domesticar dentro da ótica capitalista o ímpeto que vem das ruas, das mobilizações antiglobalização.
Mas existe uma nova situação internacional, com um questionamento cada vez mais amplo aos planos neoliberais e uma nova leva de mobilizações. O reflexo disso no Fórum é que este espaço também foi parcialmente apropriado e transformado . Parafraseando o lema oficial, “ um outro Fórum é possível”.. Desde a primeira, mas em particular a partir de 2002 , uma parte dos presentes, ligados a movimento sociais estão articulando lutas unificadas internacionalmente, e debatendo alternativas anticapitalistas.
Este outro Fórum não estava previsto na idéia original dos organizadores, mas está se impondo, ocupando espaços sem pedir licença.
A principal expressão é a mobilização contra a ALCA que teve a primeira expressão pública na passeata internacional ocorrida na segunda edição do Fórum em janeiro de 2002, avançou para o plebiscito de setembro , agora com uma nova passeata em janeiro de 2003. Neste sentido o Fórum está sendo utilizado também como um espaço de articulação de mobilizações concretas antiimperialistas. Em Florença (outubro , 2002) , no Fórum Social europeu ocorreu o mesmo , com uma mobilização gigantesca de 500 mil pessoas contra a guerra de Bush.
Não se pode falar portanto em um único Fórum, mas em dois diferentes, que ocorrem no mesmo momento, na mesma cidade. Dois Fóruns que tem laços comunicantes (existem muitos intelectuais e dirigentes sérios e anticapitalistas nos seminários do Fórum oficial) e inúmeras contradições e conflitos. A direção do Fórum oficial tenta de todas as maneiras evitar ou diminuir a importância das mobilizações que ocorrem, mas elas estão ao contrário se fortalecendo.

Relação de forças no Fórum: Bloco oficial x Fórum alternativo

Desde a primeira edição existe no Fórum uma clara predominância do bloco oficial. Isto não se modificou. Hoje, ao contrário, este bloco reformista acaba de ter enormes conquistas. O momento político na America Latina está marcado pelo surgimento de governos de "Frente Popular" (de colaboração de classes, entre partidos e movimentos dos trabalhadores e representantes de setores da burguesia), com muita base de acordo com o programa majoritário no Fórum.
É assim com o governo Lula, da aliança PT-PL no Brasil, uma das estrelas do Fórum 2003. É assim com Lúcio Gutierrez apoiado pela CONAIE (Confederação das Nações Indígenas) e Pachakutski, duas das organizações que dirigiram a insurreição de janeiro de 2000 no Equador.
O Governo de Hugo Chavez, apesar de não ser um governo essencialmente de Frente Popular , está localizado também no marco da chamada “centro esquerda” , que abarca aqueles outros.
Estes governos contam com um grande apoio popular, e surgem, no ideário político de amplas camadas de ativistas , como daqueles presentes no Fórum como uma alternativa de libertação antiimperialista. Em toda a América Latina por exemplo é possível ouvir de ativistas de esquerda que a ALCA não vai passar, porque Lula foi eleito.

No entanto nenhum destes governos, a começar de Lula, está se dispondo a encampar um movimento como a luta contra a ALCA. Lula já declarou que vai continuar com as negociações da ALCA e respeitar os acordos com o FMI. Um exemplo recente é bem significativo desta postura. Em outubro-novembro de 2002 se realizaram em Quito duas reuniões: uma negociação oficial da ALCA com representantes dos governos de toda a América, e um Encontro dos movimentos sociais contra a ALCA. Houve uma passeata internacionalista de cerca de 15 mil pessoas contra a ALCA, com delegações de todos os países do continente e grande peso dos indígenas equatorianos, que terminou reprimida pela polícia com gases lacrimogêneos. A direção do PT não enviou nenhum representante para o Encontro contra a ALCA e muito menos para a passeata. Mas mandou o deputado Paulo Delgado como representante do Governo Lula recém eleito para a reunião dos governos para negociar a ALCA, protegida pela polícia e seus gases lacrimogêneos.
Lucio Gutierrez segue nessas mesmas pegadas: vai manter a dolarização da economia equatoriana , respeitar os acordos com o FMI e manter a ocupação norte americana da base de Manta . Todos estes governos e partidos incorporam o discurso da “cidadania” e apelam ao programa defendido majoritariamente no Fórum.

Mas esta descrição seria parcial sem a constatação que também o bloco antiimperialista cresceu e se fortaleceu. A campanha do plebiscito de setembro de 2002 no Brasil, assim como as mobilizações anti- ALCA em outros países do continente ganharam força e visibilidade.
Além disso , ocorre no Fórum um reagrupamento por parte daqueles que entendem que a luta pelo socialismo revolucionário passa pela construção de uma alternativa independente e oposta a colaboração de classes expressa nestes governos de frente popular. Aqueles que buscam a mais ampla unidade na luta contra a ALCA o FMI e a dívida , e que também defendem a unidade dos que apresentam uma proposta de socialismo revolucionário. O presente é claramente hegemonizado pelos reformistas do Fórum Oficial. O futuro está em disputa.


Ciclo de Dabates "Um mundo Socialista é possível".

Diante do quadro exposto, a Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional (LIT-QI), no intuito de somar forças na disputa levada a cabo pelos setores socialistas e revolucionários dentro do Fórum Social Mundial, promove nessa terceira edição do evento, o Ciclo de Dabates "Um mundo Socialista é possível", como parte do Fórum "paralelo"

Na sexta-feira dia 24, pela manhã, como parte do Ciclo de debates, ocorrerá o Seminário "A guerra imperialista e a crise econômica mundial". No mesmo dia a tarde haverá o Seminário "O desafio da esquerda perante o governo Lucio Gutierrez no Equador"

No sábado 25 pela manhã ocorrerá o Seminário "O governo Lula e as experiências de governos frente-populistas na América Latina"

No domingo 26 pela manhã serão realizados dois Seminários: "A luta pela autodeterminação da Palestina" e "O processo político na Venezuela". No mesmo dia a tarde haverá o Seminário "Os rumos da Revolução Argentina"

Na segunda-feira dia 27, pela manhã, será promovido o Seminário "ALCA e recolonização: um enfoque socialista".

Além dos seminários, o Ciclo de Dabates "Um mundo Socialista é possível" realizará tambem várias oficinas (todas nos períodos das tardes) sobre diversos temas como "Mulheres e ALCA", "ALCA: mais opressão e exploração para negros e negras", "ALCA: uma ameaça ecológica", "ALCA e criminalização dos movimentos sociais", "ALCA, OMC e mercantilização da Educação", "ALCA, Mercosul e luta dos camponeses", "Fome Zero e Renda Mínima: soluções ou medidas complementares para a manutenção dos planos neoliberais?", "Homofobia: de onde vem, para onde vai?", "Coca, narcotráfico e descriminalização das drogas", "Juventude e luta anti-globalização", "Imperialismo e internacionalismo", "ALCA, OMC e movimento sindical", "Globalização da produção e a farsa da flexibilização das leis trabalhistas".

Informações detalhadas sobre Horários e Locais dos seminários e oficinas serão fornecidas em Porto Alegre através dos panfletos distribuídos pelos militantes da LIT-QI