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Patrimônio cultural da Humanidade agredido pela selvageria ianque


Além da tragédia humana que o covarde ataque dos Estados Unidos ao Iraque já provocou desde o início da guerra, com a morte e mutilação de crianças, jovens, velhos, homens e mulheres, uma outra tragédia sangra a história da Humanidade: a ameaça ou, a já destruição, do imenso patrimônio histórico e cultural que o território do Iraque abriga. "A guerra no Iraque pode causar um dano irreparável ao patrimônio histórico de toda a Humanidade", afirmou o doutor em história, Anatoli Krassikov, que junta sua voz a da UNESCO e de cientistas de todo o mundo, que têm se manifestado contra o crime que está sendo perpetrado pelos EUA.

Berço da civilização, com uma história que remonta cinco mil anos, o Iraque é, junto com o Egito, o país que abriga os mais antigos resquícios e segredos da história da nossa civilização e os mais importantes sítios arqueológicos do planeta (segundo levantamento feito por autoridades iraquianas existem cerca de dez mil sítios na região) . Na Mesopotâmia, faixa de terra fértil entre os rios Tigre e Eufrates, e zonas adjacentes - onde hoje se ergue Bagdá, Basra, Ur (onde nasceu o profeta Abraão, fundador das três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo) e outras cidades - floreceram as civilizações de sumérios, acádios, babilônios, persas, gregos e romanos, entre muitos outros povos.

Bagdá foi a primeira cidade planejada, o mais extraordinário centro cultural da época, onde surgiu a escrita cuneiforme - a forma mais antiga de escrita ocidental -, a agricultura, a irrigação, a Casa da Sabedoria - biblioteca fundada em 832, uma das primeiras instituições especializada em traduções e responsável pela preservação dos trabalhos de Aristóteles, Platão, Galeno, Hipócrates e outros sábios-, a primeira universidade árabe, do século XIII (destruída pelas bombas de Bush), e a terceira do mundo, enfim, o local onde floresceu o máximo da sabedoria, da ciência e da arquitetura na Idade Média, e que influenciou toda a cultura ocidental.

A riqueza da região não se esgota em seu legado histórico, mas também abarca antiquíssimos mitos, como o dilúvio ou a Arca de Noé, que foram reinterpretados por sucessivas civilizações e incorporaram-se ao patrimônio da Humanidade, e as tradições orais milenares que tem no conto das Mil e Uma Noites seu exemplo mais fantástico.

É toda esta história, os primeiros vestígios da civilização moderna, presente nos museus, monumentos, santuários da religião islâmica e cristã, palácios, ruínas dos Jardins da Babilônia (uma das sete maravilhas do mundo antigo, que está sendo reconstruído) e os sítios arqueológicos intensamente escavados e pesquisados pelas mais importantes equipes de cientistas e arqueólogos do mundo - preservados e restaurados com esforço hercúleo por Saddam Hussein, apesar da destruição já acontecida durante a Guerra do Golfo e do bloqueio imposto ao país pelos EUA após a guerra, que deixou o país isolado -, que está sendo destruída ou sob iminente ameaça pelos ataques "inteligentes" das bombas dos EUA.

Segundo Joaquim M. Córdoba Zoilo, professor de História Antiga da Universidade Autônoma de Madri, "antes do bloqueio, e mesmo apesar dele, o governo do Iraque cuidou denotadamente dos aspectos culturais de seu país e de sua população". Para Córdoba, "um dos esforços mais evidentes é a escolarização de todas as crianças, a construção e melhoria de universidades, o enorme esforço de restauração do seu patrimônio histórico monumental e a criação de museus e bibliotecas em todas as províncias do país". Mas, para ele, "um país silenciado, um estado depauperado pelas perversas medidas do bloqueio, não pode mais do que gritar. Pedimos justiça pela violência continuada à memória do ser humano, ao Patrimônio da Humanidade, em uma pequena província do mundo: o Iraque".


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UNESCO denuncia bombardeios dos EUA sobre museus, palácios e sítios arqueológicos no Iraque


A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) denuncia que os bombardeios dos EUA estão destruindo o patrimônio cultural da Humanidade no Iraque. Vários sítios e edifícios históricos já foram atingidos, entre eles, os museus de Mosul e Tikrit.

Munir Bushenaki, vice- diretor de Cultura da UNESCO, anunciou ter recebido uma informação alarmante sobre os ataques americanos e ingleses. "Os bombardeios ameaçam sobretudo os edifícios em Bagdá. Mesmo quando as bombas não caem diretamente sobre as construções, as ondas expansivas podem ter efeitos devastadores". Historiadores e arqueológicos informaram de danos causados no palácio de Al-Zohour, atacado por bombas. O palácio abriga um museu que contém uma coleção importantíssima de obras.

O diretor-geral da UNESCO, Koichiro Matsuura, conclamou os EUA a "tomar todas as medidas possíveis para proteger e preservar a herança notavelmente rica do Iraque, pelo bem das gerações futuras". E lembrou a convenção de Haia de 1954, sobre a proteção dos bens culturais em caso de conflito armado.

Antes do início da guerra, a organização advertiu o governo americano da importância do patrimônio iraquiano e enviou a Washington um mapa com os sítios arqueológicos e museus iraquianos, e ao Pentágono, comunicados de especialistas sobre locais vulneráveis.

Ao mesmo tempo que tenta evitar danos irreparáveis ao berço da civilização, a UNESCO se prepara para a reconstrução deste patrimônio. "Já contatamos especialistas pelo mundo para trabalhar, tão logo tudo fique seguro, com arqueólogos e conservadores iraquianos" explicou.


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Arqueólogos e cientistas se mobilizam em defesa dos tesouros históricos


Instituições internacionais de defesa do patrimônio da Humanidade, arqueólogos e cientistas de vários países enviaram uma carta aos governos dos EUA, Reino Unido e as Nações Unidas, exigindo a proteção das relíquias inestimáveis localizadas no Iraque e aos muitos sítios arqueológicos da região. Os estudiosos também denunciam os danos que já foram causados e o que já foi perdido, há 11 anos, com a Guerra do Golfo.

Entre as várias instituições que assinam a carta estão o Instituto de Arqueologia dos EUA, o Instituto de Arqueologia Americano-Cubano, a Escola Britânica de Arqueologia no Iraque e a Universidade Kokushikan, em Tóquio. Eles declararam "a disposição para tomar todas as medidas possíveis para proteger os locais arqueológicos" e oferecem ajuda ao Ministério do Patrimônio Iraquiano para promover essa proteção, assim que os invasores forem derrotados e a paz for estabelecida.

O arqueólogo americano McGuire Gibson, em artigo publicado na revista "Science", que acompanha a carta, denuncia a ameaça de destruição pelos combates em curso e pelos bombardeios, e sublinha "aquilo que também está ameaçado é uma parte importante do patrimônio cultural mundial. O Iraque é a antiga Mesopotâmia, onde a primeira civilização se desenvolveu". Ele garante que é quase impossível estimar o número de locais arqueológicos existentes. Cerca de 10 mil são conhecidos, mas muitos ainda estão por ser analisados.


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Bagdá, berço da civilização


O Iraque, que hoje ocupa o território da antiga Mesopotâmia, é uma das primeiras e mais importantes civilizações devido as suas conquistas, descobertas e desenvolvimento cultural. Todo seu legado contribuiu e influenciou em vários sentidos o desenvolvimento da Humanidade.

A Mesopotâmia - que quer dizer "entre rios", por sua localização entre os rios Tigre e Eufrates -, surgiu a aproximadamente 3500 anos antes de Cristo e foi a civilização precursora das mais diversas áreas do conhecimento. Entre seus feitos estão a criação da escrita, o desenvolvimento da agricultura com sistema de irrigação e diques, a criação da astronomia, com o descobrimento de cinco planetas, a criação da matemática, onde desenvolveram o processo aritmético da multiplicação e divisão, raiz quadrada e a cúbica e, na geometria, iniciando a divisão do círculo em 360 graus. Além disso, também foram responsáveis por maravilhas como os Jardins Suspensos e pela Torre de Babel da Babilônia. Na literatura, pelo Mito da Criação, pela Epopéia de Gilgames e, no Direito, pela criação do primeiro conjunto de leis, o Código de Hamurabi.

A capital iraquiana, Bagdá, que significa Presente de Deus, e que também já foi chamada na época da sua fundação de Madinat al-Salam, ou seja, Cidade da Paz, é considerada desde sua criação em 762, um extraordinário centro cultural e intelectual do mundo, pois foi berço da Casa da Sabedoria, de escolas e da primeira universidade pública da história.

A Casa da Sabedoria, criada em 832, por Al-Mamum, era um centro que enriquecia o Islã com o estudo de outras culturas, como a grega e a persa, e foi a primeira instituição especializada em tradução, o que garantiu a preservação de textos como os de Aristóteles, Platão, Galeno, Hipócrates, Ptolomeu, entre outros.

A universidade de Al-Nizamiya, que deriva do nome de seu fundador, Nizam al-Mulk, foi fundada oficialmente em 1065 e, dois séculos depois, em 1227, foi criada a Al Mustansiriya - fundada pelo califa Al-Mustansir -, ambas fundadas, financiadas e administradas pelo poder público, que garantia aos estudantes, além do ensino superior gratuito, com aulas de jurisprudência, línguas, literatura, matemática, história, medicina e farmácia, bolsas que asseguravam todas as necessidades com alimentação e moradia durante o curso.


Redação

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Matérias da Edição de 08/04/2003

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