CAPITALISMO SELVAGEM

Dois homens se cumprimentam em um escritório no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Trocam apresentações, não se conhecem pessoalmente. A porta da sala do anfitrião está aberta e duas microcâmaras ocultas captam o momento em que o empresário Laerte Codonho conduz o consultor Luiz Eduardo Capistrano do Amaral a uma poltrona e senta-se à sua frente no sofá.
A reunião é de trabalho. Capistrano, como é conhecido no mercado o ex-executivo da maior engarrafadora da Coca-Cola no Brasil, a mexicana Panamco (Panamerican Beverages Inc., hoje Coca-Cola Femsa, também mexicana), foi chamado por Codonho, proprietário da marca Dolly Refrigerantes, para prestar uma consultoria, atividade que exerce depois de deixar o cargo de diretor na Spal, a engarrafadora da Panamco na região da Grande São Paulo, Campinas, Santos e Mato Grosso do Sul.
O consultor não tem motivos para desconfiar do verdadeiro motivo da reunião marcada pelo dono da Dolly. O setor de refrigerantes no Brasil produziu 11,9 bilhões de litros em 2002. A Coca-Cola detém 50 por cento, a AmBev (Brahma, Antarctica e distribuição da marca Pepsi), 17 por cento, e 750 fabricantes regionais (os chamados tubaineiros) dividem os 33 por cento restantes. O crescimento vem sendo pequeno – 3,3 por cento de 2001 para 2002 – e cada ponto percentual do mercado é ferozmente disputado por grandes e pequenas, motivo suficiente para que a pequena Dolly, com 1,6 por cento do mercado nacional (ACNielsen, 2002), pudesse estar interessada em contratar os serviços de um ex-executivo da empresa líder.
O relógio das microcâmaras marca 17h48m32s, 12 de junho de 2003. A primeira intervenção é de Codonho: está precisando de alguém que “conhece o jogo” e quer saber se o convidado não tem mais vínculos com a Coca-Cola. Depois de deixar formalmente a Panamco, Capistrano trabalhou mais um tempo para a empresa como consultor. Mas agora, afirma ele, está livre. A Coca-Cola Femsa – companhia mexicana da qual a Coca-Cola Company detém 39,6 por cento das ações – adquiriu recentemente a Panamco por 3,6 bilhões de dólares, tornando-se a maior engarrafadora da América Latina e a segunda maior engarrafadora mundial de Coca-Cola, atrás apenas da Coca-Cola Bottlement, dos Estados Unidos.
Quatro minutos depois, a secretária entra trazendo uma bandeja. O visitante se serve de uísque com gelo, o anfitrião prefere um guaraná Dolly. A conversa segue mais relaxada.
“Como a Coca-Cola pode deixar um cara como você solto?”, pergunta o empresário. O executivo sorri, lisonjeado. Diz que optou pela independência e que está examinando uma nova proposta de consultoria da Coca-Cola Femsa. A Spal, da qual ele foi diretor, atua no mercado das maiores regiões metropolitanas paulistas, o mais disputado do país, e responde por parte importante da dívida de 800 milhões de dólares da Panamco, absorvida na transação mexicana. A situação difícil em que se encontrava Capistrano antes da transação é o tema da conversa captada pelas câmaras agora e Codonho vai conduzindo o assunto para as estratégias usadas pela Spal contra a concorrência. “Contra mim também”, provoca o dono da Dolly.
O ex-executivo sorri, entre cúmplice e sem graça. “Quando me disseram que você queria falar comigo, pensei: será que ele quer me matar, bater em mim...”, brinca.
Codonho finge abrir o jogo: “Eu tenho apanhado barbaridade, estou sendo sacaneado o tempo todo, é fiscalização da Receita, ação do Ministério Público, pressão nos meus fornecedores. Quero alguém que dê o diagnóstico, localize de onde parte a pressão”.
Capistrano admite que “realizou diversas estratégias” para tirar pontos dos concorrentes em São Paulo, principalmente dos chamados produtores regionais a quem chama de “caipiras”, excluindo seu cliente em potencial, é claro.
É a deixa para o dono da Dolly encostá-lo na parede: “Ninguém melhor do que quem fez a bomba para desativar a bomba”.
Capistrano nega que seja o único responsável – “há coisas orquestradas há anos” –, mas admite que agiu contra a Dolly, principalmente pressionando os fornecedores de insumos (embalagens, rótulos, açúcar e adoçante) a não vender para a empresa. “Eu não podia fazer nada ilegal”, completa, em tom de gozação. “Senão eu já tinha tido sucesso há muito mais tempo, eliminado a concorrência há muito mais tempo. No México não tem concorrência.”
“Por quê? Como poderia ser feito isso?”, interessa-se o empresário.
“Liquida, mata as pessoas todas!”
“Não brinca, não, mas mata fisicamente também?”, pergunta Codonho, aparentemente perplexo.
E o outro, rindo: “Fisicamente, se for necessário. No México são treze famílias no mercado de refrigerantes, então ou é Coca ou é Pepsi”.
Codonho estimula o papo, reafirma o interesse em contratar os serviços do consultor. Em tom profissional, Capistrano diz: “Confesso que vim preparado para tudo, menos para essa contra-estratégia”. O relógio das câmaras marca 18h59m10s. O telefone acaba de tocar – é a senha para trocar a fita de vídeo enquanto Codonho finge falar com alguém. Quando “desliga” o telefone, vai direto ao ponto: “Como posso te remunerar?” Negociam rapidamente. A questão se complica quando bate nos cifrões. Capistrano quer saber os números da Dolly: faturamento, porcentagem de mercado que tem – “chuta” 10 por cento da Grande São Paulo (6,8 por cento em 2002, segundo a Nielsen), mas Codonho não entrega o ouro e pede que o consultor calcule quanto vale o seu tempo para “desarmar a bomba” em sessenta dias. Dez mil reais mensais é o valor inicial. O negócio parece que vai andar. Capistrano propõe chamar seu ex-chefe, Jorge Giganti – que dirigiu a Panamco depois de ter presidido a Coca-Cola do Brasil, do México e da Argentina – para ajudá-los. Argumenta que seria um articulador de peso e, “embora não precise de dinheiro, nesse negócio da Femsa ele ganhou 5 milhões de dólares e vai ganhar a quinta aposentadoria, talvez precise de um desafiozinho”.
Codonho dá corda e acusa Giganti de ter sido o responsável pela “operação contra a Dolly”. O outro retruca, irônico: “Não, o Jorge Giganti não fez nada pra te matar, absolutamente. Claro, só me chamou e disse para eu fazer o que fosse necessário”.
“Por que pra cima de mim?”
“Coca-Cola é Coca-Cola”, responde Capistrano. “Então, agrediu a Coca-Cola é fatal. Tem que ter reação. Se você batesse só na Fanta, no Kuat, não sei o que e tal... Mas o problema é que num determinado momento há uma análise de que a Dolly estava tirando clientes da cola, da Coca-Cola.”
“Mas chegou-se a essa análise?”
“Sim, pelos números, você realmente pode fazer uma análise desse tipo.” (O guaraná Antarctica é o segundo refrigerante mais vendido no país, a Coca-Cola o primeiro. Desde que chegou ao país, a Coca-Cola briga para diminuir a participação do sabor guaraná no setor.) “O sabor guaraná está ganhando do sabor cola fomentado por guaranás de segunda linha: Dolly, Convenção etc... Então, isso começa a ser realmente o calcanhar-de-aquiles.”
“Isso tudo precisamos estudar”, diz Codonho.
“Preciso de sessenta dias para entrar de cabeça nisso”, responde Capistrano. E ressalva: “Saí da Panamco para mudar de negócio. Tive de demitir 15.000 pessoas enquanto estava lá, não é brincadeira. Sou um cara muito ético, muito leal, não sei se sou o cara que você colocou na cabeça. O que fiz com você era negócio. Achava que você estava no mesmo ritmo, entendeu? (...) Particularmente, nós dois temos essa simbiose, eu não queria conhecer você, eu não queria falar com você por que eu tinha uma missão que foi dada pelo presidente, o Giganti disse...”.
“E qual era a missão?”, interrompe, ansioso, Codonho.
“A missão era tirar você do mercado. Você tinha 5, 6, 7, 8 pontos, eu tinha que tirar quatro pontos da concorrência”, explica o ex-executivo.
“Você fechou o cerco”, diz Codonho, parecendo sentido.
Truco. O relógio das câmaras marca 19h31m49. A segunda dose de uísque é servida. A tensão se dissipa.
“Infelizmente, o seu único azar é que eu podia ter saído um ano antes de lá. Ganhei mais um ano pra fazer isso.”
“Filho da puta”, diz entre risos o dono da Dolly.
O outro também ri: “E, eu te digo, o pior é o seguinte: não ganhei muito dinheiro com isso”.
“Nesse ano, você me cutucou...”
“Cutuquei por que era uma tentativa de orientação pra Coca-Cola, de treinamento para eles, do que eles poderiam fazer para um dia chegar a 70 pontos de mercado de novo, que eles nunca mais vão ter.”
“Espera aí, vocês estavam fazendo protótipo em cima de mim?”
Capistrano confirma: “Era uma visão do que eles poderiam fazer pra, de novo, algum dia chegar a 70 por cento de mercado. Esse desafio eu assumi em Atlanta (sede da Coca-Cola Company). Como é que o Brasil pode ajudar a chegar a 70 por cento de novo? Digo, vou tentar mostrar os caminhos por lá”.
“E pau na Dolly, coitada da Dolly.”
Ao que Capistrano responde: “Era uma, mas as outras, com a continuidade, iam sofrer igual”.
Codonho puxa um ponto que considera parte da armação. Pergunta sobre uma portaria da Receita – a instrução normativa SRF nº 034, de 1999 – que obriga os produtores de garrafa PET (essas de plástico) a relatar em minúcias suas transações com as indústrias de refrigerantes para o controle fiscal do volume vendido.
“Vocês conseguiram fazer um negócio do caramba, aquela foi você, todos os produtores de garrafas terem que dar um relatório para a Receita.”
Capistrano se envaidece: “Essa, sim, essa foi”.
“Essa foi sua. Parabéns!”
“Essa foi a única...”
Codonho interrompe: “Era o ‘relatório Capistrano’, falavam assim. Então, quer dizer, o Capistrano quer saber quanto quer o mercado e ele mandou a Receita implantar um negócio desses...”
O outro se limita a sorrir.
São quase 8 da noite, é Dia dos Namorados, os dois decidem continuar a conversa no dia seguinte. O diálogo final é em clima de franca “amizade”.
“Você conhece a fábrica de Diadema?”, pergunta Codonho, referindo-se à Ragi Refrigerantes, a principal engarrafadora de sua marca.
“Não. Aliás, já passei perto. Quando mandava o pessoal ficar... Só passava para fiscalizar se estava todo mundo anotando tudo, todos os caminhões etc.” (risos)
“Filho da puta! (risos) Você fazia isso?”
“Alguém tinha que fazer...”
“Filho da puta”, repete Laerte, ainda rindo, deixando escapar um tapa um tanto violento no sofá. “Era você que mandava até isso...”
“Não tinha muito problema, não. Tinha terceiros que faziam lá, que pesquisavam com os transportadores (para obter informações sobre volume distribuído e os pontos de venda da Dolly) , mas o óbvio, o básico é sempre o básico.”
Em tom de brincadeira, Capistrano pergunta: “Por que você não me procurou antes, me ofereceu 1 milhão de reais...”. E aí, falando sério: “Veja bem, talvez eu não aceitasse, sou um cara muito ético. Mas a Coca-Cola me convenceu a fazer coisas, com falsas promessas...”.

Pausa para o almoço. Há duas horas assisto às fitas ao lado de Laerte Codonho no mesmo escritório onde foram gravadas, com o objetivo de provar que a Dolly havia sido vítima de concorrência desleal e abuso de poder econômico por parte da engarrafadora da Coca-Cola, segundo Codonho. Ele conta que passou a desconfiar de que Capistrano estivesse por trás de seus reveses nos negócios depois que lhe disseram que os vendedores da Spal andavam distribuindo cópias de um e-mail difamatório contra a Dolly – dizendo que o refrigerante dava câncer – em mercadinhos, creches, pontos de ônibus, igrejas. “Um pastor chegou a ler o e-mail durante o culto”, diz. Suas desconfianças aumentaram quando um de seus fornecedores lhe disse que o ex-diretor da Spal lhe propusera contrato com a Coca-Cola em troca do corte na venda de embalagens PET para a Dolly. Ao ficar sabendo que o outro estava fora da Coca-Cola, marcou então uma reunião como se fosse contratá-lo para uma consultoria. Acabou gravando “mais de trinta horas de reunião”, diz, quando insisto em assistir às fitas na íntegra – a imprensa havia recebido trechos selecionados por sua assessoria de imprensa. Por fim, como ele não concorda em ceder cópias das fitas – “há nomes que preciso preservar” –, combinamos assistir no seu escritório, na íntegra, às três fitas referentes às reuniões gravadas nos dias 12, 13 e 17 de junho, que constam do inquérito policial 695/01 instaurado na 3ª Delegacia de Diadema a partir de um B.O. registrado por Laerte Codonho a propósito do e-mail difamatório. As gravações das outras duas reuniões com Capistrano foram parcialmente divulgadas à imprensa, mas preferi ignorá-las, uma vez que não foram aferidas pela perícia nem disponibilizadas na íntegra.
Depois de um sanduíche, vamos para a segunda fita.

LOBBY NA RECEITA?
13 de junho, 9h57m. As microcâmaras registram um Capistrano engravatado com nova proposta sobre a consultoria pedida pela Dolly: “O que você quer vai envolver outras pessoas, você tem idéia da complexidade disso? Vou ter de me dedicar full time, o preço não é mais aquele padrão”.
Acrescenta que vai estudar o caso para ver como tirar Codonho de suas dificuldades. Além dos prejuízos econômicos, há os processos por razões fiscais.
“Há coisas difíceis de reverter, os processos, não dá para parar agora. Mas as coisas vão acabar se resolvendo de uma maneira ou outra. Sempre tem uma solução. A solução talvez seja você vender a marca: ‘Vou me livrar enquanto posso sair o melhor possível’. Talvez seja a última solução para resolver o problema. E pode ser que ainda haja coisas a fazer...”
Codonho cutuca: “Por que vocês não compraram a operação naquela época? Sairia mais barato...”.
“Você tem uma marca que eventualmente pode ser mantida”, continua Capistrano, sem se abalar.
“Quanto vale?”
“Bem, não conheço seus resultados. Pelo que sei, uns 20, 30 milhões, mais ou menos o preço da Simba (marca criada pela Coca-Cola para vender um refrigerante mais barato e ganhar parte do mercado dos “refrigerecos”, já vendida).
O dono da Dolly não concorda com a avaliação. Para mim, diz ter certeza de que a Spal queria detonar a marca e depois comprá-la barato. De Capistrano cobra:
“Eu quero saber como você vai desarmar a bomba. Vocês infiltraram gente para me espionar, no Ministério Público, na Receita...”.
Capistrano nega ter cooptado o antigo contador da Dolly para passar informações e também ter subornado o fiscal da Receita denunciado por Codonho na Corregedoria. Diz que não sabia que um consultor contratado pela Spal para ajudar a tirar pontos dos concorrentes no mercado trabalhava para o dono da Dolly exatamente na área fiscal. Mas admite:
“Quando nós armamos a estratégia, tinha vários pontos. Era com fornecedores, com a Receita Federal, com o Ministério Público, entendeu, tinha toda essa espionagem para formular os volumes... Tinha inclusive muitas coisas que nem chegaram a ser feitas. Não sei nem o que vocês iam fazer. Não ia ter matéria-prima no mercado pra ninguém...”, volta a dizer.
“Não ia adiantar a gente espernear, brigar, pôr polícia...”
“Por algum tempo, vocês só iam poder espernear. Mas eu não precisava de um ano de domínio total, precisava de dois meses. Dois meses com matéria-prima limitada, controlada, pingando, já era o suficiente para a gente destruir toda a participação de mercado que os produtores menores tinham. Quer dizer, a estratégia nunca foi bolada pra matar ninguém, eu sou um cara humano”, brinca, rindo. “Toda a minha estratégia era dar de 55 a 60 pontos para a Coca-Cola. Nunca prevemos o desaparecimento de ninguém. A estratégia não era liquidar, e sim restringir. Então, a matéria-prima era o Ideal.” E continua, referindo-se às acusações de Codonho de que a Spal teria cooptado funcionários de órgãos públicos: “A ação na Justiça é lenta, demorada, confusa. A Coca-Cola tem inclusive muita dificuldade de fazer pagamentos”.
“Como assim?”, interessa-se Codonho.
“Porque é o tal negócio: como a relação com os franqueados era muito complicada naquele momento... Quem você acha que tem dinheiro livre no mercado? A Coca-Cola? Não é. São os franqueados.”, entrega.
“Que é a própria Coca-Cola...”, retruca Codonho.
“É e não é. Mas, se você está em briga com a Coca-Cola, está tendo prejuízo todo mês e não consegue pagar a conta dela, você acha que ainda vai investir todo o teu caixa 2 em atividades para beneficiar a Coca-Cola?” E muda de assunto. Admite que procurou “informações fiscais” contra a Dolly através de dados obtidos com os fornecedores sobre as compras da empresa. “É mais ou menos óbvio que você tem de buscar as brechas com os fornecedores.”
Codonho lança uma carta na mesa. Pede que Capistrano deponha, diz que precisa de provas documentais da atuação da Coca-Cola contra ele.
Capistrano não responde. Continua a falar da pressão sobre os fornecedores, o que parece ser sua especialidade. Lembra a portaria da Receita, aquela que Codonho chamou de “relatório Capistrano”:
“Essas coisas levaram os fornecedores a entender que eu não só tinha força como fazia o que prometia. A portaria saía, não saía, enrolava pra caramba, e saiu e o pessoal não queria cumprir. Eu disse: quem não atender não vai mais ser fornecedor. Como a essa altura eu tinha vários fornecedores, porque também fiz a diversificação de fornecedores, um pouco contrária à tese de menor custo mas com finalidades estratégicas de ter mais poder sobre todos, então a gente conseguiu que isso prosperasse. Realmente foi a primeira pancada, todo mundo ficou com medo.”
Volta a falar no contrato de consultoria, ainda não assinado. Repete: vai precisar de mais dinheiro, o assunto exige dedicação. Mais uma vez pede autorização para consultar o ex-presidente da Panamco, Jorge Giganti. Nada fica acertado, a não ser a próxima reunião.

ÉTICA E CAIXA 2
17 de junho, o reloginho marca 17h42 no vídeo. De roupa esporte, Capistrano se serve de uísque antes de entrar na conversa. Fala sobre um instituto (o Etco), diz que a idéia partiu da Associação dos Fabricantes de Coca-Cola como resposta a pressões da Company:
“Essa linha ética está sendo cada vez mais exigida pelas empresas multinacionais. Depois, inclusive, dos últimos eventos nos Estados Unidos (caso Enron), não sei se você tem acompanhado o que está acontecendo, há uma nova lei que obriga todas as empresas que têm ações negociadas no mercado americano a se submeter a ela, que vai punir de forma exemplar os executivos que se envolverem em tramóias.”
Codonho ironiza: “Pô, esses caras estão querendo que esse Instituto vá cacifar esse negócio com a Coca-Cola operando do jeito que opera?”
Capistrano segue explicando que o combate à sonegação fiscal vai aumentar através do controle direto da cadeia de produção pela Receita. “Precisa ver se eles vão ficar só nas portarias ou se vão partir para a contagem física. Se realmente vão conseguir implantar os medidores de vazão, controlar o fluxo de produção de cada um. Isso é uma coisa que o Hoche (Pulcherio, executivo da área financeira da Coca-Cola) havia comentado comigo há dois anos porque ele achava que ia ser a solução.”
“Quem estava implantando isso, a Coca-Cola?”
“Não, que eu saiba é uma portaria” (é a medida provisória nº 2.158-35).
“Sim, mas quem trabalhou foi a Coca-Cola para isso?”
“Isso era um plano da Associação dos Fabricantes”, responde Capistrano.
“Uma pergunta: quem manda é quem paga, você concorda comigo?”, pergunta Codonho.
O outro assente com a cabeça.
“Segundo, quem paga é que faz os seus rebates e está com o caixa 2 na mão. Quem é o homem hoje que está com o caixa 2?”
“Eu acho que essa verba está sendo repassada pela Associação dos Fabricantes.”
“E o que vinha do caixa 2?”, pergunta Codonho.
“Vinha de sucata, muita sucata, sobra, coisa vendida para terceiros. Obras, principalmente civis. Você faz um contrato, o cara vai construir, o cara recebe 50 milhões para construir 5.000 metros quadrados e devolve 20 milhões em grana viva.”
“Como funcionava o esquema?”
“Mesmo esquema, os distribuidores recebiam e, como muitas vezes repassavam a mercadoria sem nota para terceiros, faziam o caixa 2 deles e passavam uma parte”, entrega Capistrano. “Sempre a corda estouraria...”
“Do lado mais fraco.”
“Do lado de quem fez, foi o distribuidor, ou o transportador, ou o construtor lá. Não tem risco”, diz Capistrano.
Codonho pergunta se Jorge Giganti entraria “nessa”. Se deporia a seu favor. O outro responde que seriam precisos milhões de dólares. “Não sei o que você quer que ele deponha...”, acrescenta.
“Depor as sacanagens, que tentaram me quebrar...”
O outro se diz em dúvida. Reconhece que o nome de Giganti seria “bombástico”. Promete falar com o ex-chefe. Confirma, a pedido de Codonho, que outro “consultor” independente havia sido contratado para roubar mercado da concorrência – teria recebido 2 milhões de reais quando a Nielsen registrou 2 pontos de crescimento na fatia da Spal. Jura que não sabia que o mesmo consultor trabalhava para a Dolly, na área de tributos. Codonho quer que Capistrano arrume documentos que provem a contratação do sujeito. O outro diz que não sabe se tem como fazer isso.
Codonho insiste, sem sucesso.

DÁ CADEIA?
Fui à 3ª Delegacia de Diadema, onde corre o inquérito policial sobre o tal e-mail difamatório. O delegado Marcos Dario da Silva me mostrou os documentos. Havia versões de todo tipo do e-mail, até manuscritas e enviadas pelo correio. Li também os dois depoimentos de Capistrano – no primeiro, de 21 de agosto de 2003, ele limita-se a dizer que saiu da Spal em 1999 e, portanto, não era mais funcionário da Panamco à época dos fatos – e as declarações do representante jurídico da Spal, Marco Aurélio Éboli, confirmando que Capistrano havia sido demitido da empresa em dezembro de 2000 e trabalhado mais doze meses como consultor contratado, exatamente como consta das fitas.
Houve um segundo depoimento de Capistrano, quando o delegado o interrogou já com a transcrição das fitas feita pela perícia do Instituto de Criminalística de São Bernardo.
“Esse é o único documento importante do inquérito”, afirma o delegado, referindo-se ao laudo que atesta: “Não há vestígios de edição nas fitas”.
Nesse novo depoimento, prestado em dezembro de 2003 – portanto, depois que a Dolly já tinha aberto um procedimento para averiguar o caso na Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, com certa repercussão no Congresso e na imprensa especializada em negócios –, Capistrano admite que realmente trabalhou na Spal no período descrito por Éboli. Também declara que não sabia que estava sendo gravado, mas não confirma o conteúdo da conversa, alegando não se lembrar de seu “inteiro teor”. Nega que tivesse sido contratado pela Spal para desestabilizar a Dolly e também a autoria do e-mail difamatório. E conta sua versão da história: reuniu-se com o dono da Dolly, que estaria interessado em contratar os seus serviços, e a negociação teria sido fechada por 25.000 reais mensais. A conversa então teria tomado outro rumo. Disse que “Laerte (Codonho) fazia várias perguntas e, para não desagradá-lo, contei-lhe diversas blagues”, passando a dar “respostas dúbias” à medida que seu novo patrão o pressionava para confirmar que havia sido contratado pela Spal para o espionar e prejudicar sua empresa. Afirmou que, nas últimas reuniões, Codonho “lhe revelou o plano de usá-lo como instrumento de ameaça à Coca-Cola com a finalidade de obter uma recompensa de 100 milhões de dólares para que um escândalo fosse evitado”, como registra o escrivão da delegacia, e que ele deveria “ir ao México para conversar diretamente com os diretores da Femsa e pedir a quantia mencionada”. Quando “descobriu que o único objetivo de Laerte era esse, recusou-se a participar de qualquer esquema”.
Laerte Codonho diz que as acusações de chantagem são mentirosas e que teria sido ameaçado por Capistrano para vender a Dolly, e também advertido de que se fizesse “qualquer denúncia à imprensa seria rechaçada por todos os lados, com força desproporcional”, segundo o que teria anotado.
Não pude entrevistar Capistrano. Seu advogado, Roberto Telhada, prometeu que me receberia e que sondaria seu cliente a respeito, mas uma semana depois deixou de atender meus telefonemas. Por isso não consegui esclarecer de forma definitiva por que Capistrano e Codonho brigaram.
O delegado Marcos Dario acha que “essa investigação não vai dar em nada. Será difícil provar qualquer versão”. Para ele, “o processo importante é o que está no Cade, que lida com essa questão de concorrência desleal”. Depois, me pergunta: “O que é blague?”
“Uma espécie de piada”, digo, me dando conta de que era exatamente isso o que eu iria procurar saber. Não no sentido semântico, claro.

BLAGUE?
Mais exato do que eu na explicação ao delegado, o Aurélio define blague como pilhéria, dito espirituoso. Durante pelo menos oito horas e quarenta minutos (a que assisti), o senhor Luiz Eduardo Capistrano do Amaral, diretor de compras e aquisições estratégicas da maior engarrafadora de Coca-Cola no Brasil durante três anos, contou “blagues” bastante detalhadas ao senhor Laerte Codonho sem saber que estava sendo gravado. Pelo menos nas três primeiras reuniões. Depois teria motivo para desconfiar disso, de acordo com sua versão da história. As “blagues” se referem ao modus operandi não só da Panamco, mas também da Associação Nacional de Fabricantes de Coca-Cola e da própria Company. Denúncias graves e não comprovadas, mas que partiram de um ex-executivo que teria condições de fazê-las.
Decidi investigar como opera a Coca-Cola no Brasil de acordo com outras fontes, para ver se o que foi dito por Capistrano faz sentido dentro do mercado de refrigerantes no Brasil. Alguns nomes tiveram de ser mantidos em sigilo: não é fácil brigar com a Coca-Cola.
Estive também no escritório de Ismael Corte Inácio, advogado de Codonho e de Júlio Requena Mazzi, dono da Ragi Refrigerantes (ex-Dolly Refrigerantes), a maior fabricante dos refrigerantes e respectivos concentrados da marca Dolly nas versões diet e normal dos sabores guaraná, limão, cola e laranja. Mazzi é o que se chama de “franqueado master”, uma espécie de Panamco da Dolly, em Diadema. O advogado me entregou cópias de todos os processos relacionados ao caso: um procedimento administrativo de 12 de agosto de 2003 que apura se há indícios de concorrência desleal e abuso de poder econômico por parte da Coca-Cola contra a Dolly, na Secretaria de Direito Econômico (SDE), ainda não concluído; um ofício do subprocurador da República Moacir Guimarães de Morais Filho, que atua junto ao Cade, pedindo em 9 de março de 2004 a abertura de inquérito na Polícia Federal, com o depoimento de três fornecedores da Dolly confirmando as pressões do ex-diretor da Spal para não vender insumos para a empresa; uma queixa-crime por difamação oferecida pela Ragi contra Luiz Eduardo Capistrano do Amaral em 10 de dezembro de 2003; uma ação indenizatória movida em 25 de fevereiro de 2004 pela Ragi Refrigerantes contra a Spal pelos prejuízos que teria causado por práticas concorrenciais contra a empresa; uma denúncia contra um fiscal da Receita e um ex-contador da Dolly na Corregedoria da Receita Federal feita por Laerte Codonho (a sindicância foi instaurada, mas ainda não concluída); e uma representação de Júlio Mazzi contra o procurador Márcio Schusterschitz, que o teria “perseguido”. O procurador se afastou por vontade própria dos processos movidos contra a Dolly, alegando suspeição. Das três denúncias feitas em menos de um ano por ele – que atua na 3ª Vara Federal de São Bernardo do Campo –, uma não foi aceita e duas se tornaram processos e estão correndo na Justiça: ambos contra a Ragi Refrigerantes, por delitos de natureza fiscal. O procurador também entrou com uma ação civil pública contra a Ragi Refrigerantes e a Diet Dolly, firma que pertencia a Laerte Codonho e outros, encerrada em 1998. Atualmente, a firma de Codonho se chama Dettal-Part, dona da marca Dolly, localizada naquele pequeno escritório do Itaim Bibi.
O advogado me informou ainda que a Coca-Cola entrou com uma ação civil contra a Dettal-Part e a Ragi Refrigerantes em 3 de março de 2004. Apesar de muita insistência, nem a assessora de imprensa designada especialmente para a crise Dolly x Coca, Lalá Aranha, da Companhia de Notícias, nem o gerente de comunicação da Coca-Cola, Maurício Bacellar, nem Karla Camargo, indicada como assessora de imprensa da Coca-Cola Femsa, atenderam a minhas solicitações de entrevistas e informações sobre o caso. Não foi atendido nem mesmo o pedido para que um dos advogados da empresa tomasse ciência do teor das denúncias.

A COMPANHIA
O empresário Antônio Carlos Vidigal descreve, no livro-denúncia Emoção pra Valer, os Bastidores de uma Franquia, sua ida em 1986 à sede da Coca-Cola, em Atlanta, sul dos Estados Unidos, onde foi negociar, em seu nome e do primo Roberto Vidigal, a compra da franquia da Coca-Cola no Rio de Janeiro – a primeira fábrica construída pela multinacional no Brasil, em 1942. Pagaram 57 milhões de dólares. Ao assumir a direção da fábrica, Vidigal descobriria que patrimônio e rentabilidade da empresa haviam sido supervalorizados nos documentos exibidos na hora da venda, e que haviam sido retirados fundos e transferidos para os Estados Unidos depois de realizada a transação. À época, o presidente da Coca-Cola no Brasil era Jorge Giganti, o presidente da Panamco citado por Capistrano. “Isso não estava no espírito do negócio”, escreve delicadamente Vidigal, que cita várias outras passagens sobre o tipo de relacionamento que a Company mantém com seus franqueados no livro editado pela Rocco em 1995, um ano depois de ele ter revendido a empresa para a Embolletadora Andina, engarrafadora da Coca-Cola no Chile.
O direito de usar a marca – presente em duzentos países – custa além do dinheiro desembolsado, conforme Vidigal. Quando adquiriu a franquia, ele queria que a Coca-Cola mantivesse uma participação acionária na empresa, mas a Company só venderia os 100 por cento. Vidigal acabou aceitando e assinou um contrato de cinco anos, renováveis, de acordo com ele, um risco para quem gasta milhões de dólares em um negócio e pode perder a marca antes mesmo de reaver o investido. O preço do concentrado vendido pela Coca-Cola para fabricar o refrigerante também pode subir de repente, conta o livro, mas não o preço final, em razão da concorrência.
Essas seriam as condições oferecidas aos interessados em participar do Sistema Coca-Cola, que em 2003 trouxe um faturamento de 21 bilhões de dólares à Coca-Cola Company e lucro 43 por cento maior que o de 2002, apesar da queda de 6 por cento nas vendas do setor de refrigerantes no mundo e a situação de quase estagnação nas taxas de crescimento das vendas da própria Coca-Cola. A principal acionista da Company é a fundação Woodruff e o maior investidor externo é Warren Buffett, um gigante do mercado financeiro que integra o conselho de administração em Atlanta.
Até meados da década de 90, a estratégia era lucrar o máximo com a marca através de um sistema de franquias no qual o valor pelo uso da marca é embutido no preço do concentrado produzido exclusivamente por ela, Company. Foi dessa maneira que a multinacional cresceu de forma assombrosa, fazendo seu valor de mercado passar de 4,3 bilhões de dólares em 1981 para impressionantes 180 bilhões de dólares em 1997, segundo a revista Exame. Mas o mundo se tornou pequeno para ela, que passou a cobiçar maior participação nos lucros das engarrafadoras. Em um primeiro movimento, foi concentrada a operação em sete empresas-âncoras, megaengarrafadoras com participação acionária da Company. A Panamco e a Femsa – hoje fundidas na Coca-Cola Femsa – são duas delas, responsáveis pelos maiores mercados consumidores do mundo depois do americano: o México e o Brasil. Aqui detém 25 por cento do setor. Daí a preocupação da Coca-Cola Company com a repercussão do caso Dolly – a Spal fazia parte do grupo no qual tinha participação acionária à época dos fatos relatados por Capistrano nas fitas gravadas por Codonho.
No Brasil, essa estratégia de concentração foi maior do que em outros países, porque o nosso mercado é considerado um dos mais importantes – o terceiro do mundo – e um dos mais difíceis para a indústria de refrigerantes: cada brasileiro toma 66 litros de refrigerante por ano, menos da metade do que um mexicano, o segundo mercado consumidor, e 3,3 vezes menos do que um americano, o primeiro. As tentativas de aumentar o consumo de refrigerantes têm obtido resultados pífios – menos de 10 por cento nos últimos oito anos, o que significa que grandes marcas, como a Coca-Cola, têm de disputar um mercado quase estagnado com um número cada vez maior e bem-sucedido de concorrentes – os chamados tubaineiros – capazes de colocar produtos no mercado por até metade do preço cobrado por elas. Para reverter essa tendência, a Company resolveu ir à ofensiva contra os concorrentes. Recomprou as franquias de Minas Gerais e do Espírito Santo e, no Nordeste, onde as marcas regionais já tinham mais de 40 por cento do mercado, criou uma nova empresa em associação com a engarrafadora do Ceará, a Norsa, do ex-governador Tasso Jereissati. O grupo Norsa/Coca-Cola (48,6 por cento das ações da Coca-Cola, 40 por cento do grupo Jereissati e 11,3 por cento do grupo Aragão, do Piauí) tornou-se a maior engarrafadora da marca na região, controlando as operações do Ceará, Bahia, Rio Grande do Norte e Piauí. A Coca-Cola também comprou o controle acionário da Cia. Maranhense de Refrigerantes, fabricante de uma das marcas regionais mais tradicionais, o guaraná Jesus. Em 2002 e 2003, a participação da Coca-Cola no volume total de refrigerantes vendidos na região aumentou 2,5 por cento. O ganho foi todo em cima das tubaínas, cuja fatia no mercado caiu de 42,8 para 38,8 por cento. Quatro pontos, como diria Capistrano.

O SISTEMA COCA-COLA
A par dessa estratégia, a multinacional aumentou a participação acionária no que chama de Sistema Coca-Cola do Brasil, hoje formado por dezesseis grupos empresariais proprietários das 42 engarrafadoras e pela Divisão Brasil da Coca-Cola Company, representada por duas pessoas jurídicas: a Recofarma Indústrias do Amazonas Ltda. – a fábrica de concentrado sediada na Zona Franca de Manaus, que tem cerca de quatrocentos empregados – e a Coca-Cola Indústrias Ltda., sediada na Praia do Botafogo, Rio de Janeiro, que tem como funcionários apenas os seis principais executivos da subsidiária brasileira contratados diretamente pela Company para zelar por seus interesses. São eles que reproduzem as diretrizes da multinacional no Brasil, cuidam das relações institucionais e formulam as estratégias de marketing, cujas despesas são divididas entre a Company e as engarrafadoras e também são parcialmente embutidas no preço do concentrado.
O site da Coca-Cola anuncia que “o Sistema Coca-Cola no Brasil contribuiu com R$ 1,9 bilhão em impostos federais, estaduais e municipais em 2002”. A esmagadora maioria desses impostos recai sobre o segundo elo da cadeia de produção de refrigerantes – as engarrafadoras –, uma vez que a Company goza, com sua Recofarma, a fábrica do concentrado, dos muitos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus. Para aliviar essa carga, as engarrafadoras encontraram maneiras legais de se creditar de alguns impostos que seriam pagos pela Recofarma, não fossem tais benefícios fiscais. Em 1998, elas entraram com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para garantir o direito de descontar do IPI devido o que já havia sido pago pelo primeiro elo da cadeia produtiva, como determina a lei que definiu o imposto como não-cumulativo, e obtiveram sentença favorável. Acontece que, no caso, o primeiro elo é a Coca-Cola brasileira em Manaus, isenta de IPI. Criou-se a absurda situação na qual um imposto não pago pelo primeiro elo (Coca-Cola) transforma-se em crédito (por isso mesmo chamado de crédito ficto, ou seja, fictício) para o segundo elo da cadeia (engarrafadoras), que desconta tal “crédito” do total de IPI devido. O procurador-geral da Fazenda Nacional, Manoel Felipe Rego Brandão, reconhece o inusitado da situação. “Tentamos argumentar na época, mas perdemos, agora esse debate tornou-se estéril”, conforma-se o procurador, cuja função é defender os interesses do Fisco.
O interessante é que mesmo em relação aos impostos estaduais, como o ICMS, dos quais não é isenta, a Coca-Cola consegue não desembolsar nenhum centavo através da “otimização de seus benefícios fiscais”, para usar o jargão dos tributaristas, nos dois elos de sua cadeia produtiva. Tudo rigorosamente dentro da legalidade.
A Company, como todas as empresas grandes, conta com um time de primeira linha em “engenharia tributária”, a complexa ciência de economizar em impostos sem ferir a lei. Já os produtores regionais, que não têm indústrias sediadas em Manaus e não contam com tanto expertise, são obrigados a interpretações mais literais, o que pode resultar em uma carga fiscal bem maior. Um exemplo: como o IPI segue uma pauta fiscal fixa, ou seja, paga-se um valor absoluto por uma quantidade padrão determinada, o tubaineiro que vende uma quantidade X de seu refrigerante por 4 reais, suponhamos, pagará o mesmo que um fabricante das grandes marcas que vende a mesma quantidade por 10 reais.
Os especialistas em tributos das grandes indústrias de refrigerantes também conhecem em detalhes os ralos da evasão fiscal, não para uso próprio, claro. Podem opinar e até mesmo ajudar a combater a sonegação fiscal no país: a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes (ABIR) – dirigida por representantes da Coca-Cola e da AmBev – firmou um convênio com a Receita Federal para implantar um sistema de medidores de vazão que vai ligar eletronicamente as unidades fabris de todas as indústrias de refrigerante à Receita, possibilitando o controle de volume produzido a partir da fábrica. O volume é a chamada pauta fiscal para o cálculo de IPI e ICMS próprio e retido.
É a essa sofisticada invenção que se refere Capistrano quando fala de um certo instituto, bancado pela associação dos engarrafadores de Coca-Cola, que pretende fechar o cerco contra a sonegação. Lembremos este trecho: “Precisa ver se eles vão ficar só nas portarias ou se vão partir para a contagem física, se realmente vão conseguir implantar os medidores de vazão, controlar o fluxo de produção de cada um. Isso é uma coisa que o Hoche havia comentado comigo há dois anos porque ele achava que ia ser a solução.”
É exatamente este personagem, Hoche José Pulcherio, que me explica como vai funcionar o sistema, na tripla condição de vice-presidente da Rio de Janeiro Refrescos (a mesma franquia da Coca-Cola que foi dos Vidigal), presidente da ABIR e conselheiro do Etco – Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial. A Coca-Cola e a ABIR patrocinam o projeto, cuja defesa institucional é feita pelo Etco.
Entusiasta da idéia há mais de dez anos – conheceu o sistema na Venezuela no começo da década de 90, onde é usado nas indústrias de cerveja –, Hoche também pode ser considerado o seu articulador: “A AmBev comprou uma marca na Venezuela e conheceu o mesmo sistema, e aí desenvolvemos a idéia juntos, que acabou sendo muito bem recebida pela Receita”, explica. Os equipamentos estão sendo testados – seria a primeira vez no mundo o seu uso em linhas de produção de refrigerantes – e, assim que aprovados, serão postos à venda. “É um investimento que terá de ser feito pelos fabricantes, que deverá ser encarado como a compra de qualquer equipamento. Quem não tiver como pagá-lo não tem condições de continuar no ramo”, diz, quando pergunto se o preço não o tornará inacessível para fabricantes pequenos.
O sistema é tão sofisticado, que sabe reconhecer se o que está enchendo as embalagens é água ou refrigerante – detecta o gás e algumas características químico-físicas da bebida, segundo me explica Hoche. Pelo jeito, seremos pioneiros em tecnologia de controle de evasão fiscal no setor de refrigerantes, o que não deixa de ser um belo exemplo de parceria pública e privada. A medida provisória nº 2.158-35, assinada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em agosto de 2001, traz a exigência dos medidores de vazão em um de seus muitos artigos, provavelmente sem que FHC tenha a menor idéia do que seja isso. Quase ninguém tem.
O Etco se define como uma associação sem fins lucrativos que congrega representantes da indústria de cigarros, combustíveis, cervejas e refrigerante, com o objetivo de “delimitar parâmetros éticos para a concorrência e estimular ações eficazes contra a evasão fiscal, a falsificação de produtos e o contrabando”, conforme seus estatutos. Hoche faz um cálculo. De acordo com ele, os tubaineiros detêm mais de 30 por cento do mercado de refrigerante, mas 90 por cento dos impostos do setor são pagos pelas engarrafadoras da AmBev e da Coca-Cola. Em sua visão, isso configura concorrência desleal e, portanto, merece a atenção do Etco, o novo guardião da ética empresarial. Segundo o site da entidade, seu presidente é o ex-deputado paulista Emerson Kapaz, que perdeu a reeleição para a Câmara em 2002 apesar da torcida da Coca-Cola, que contribuiu com 100.000 reais para sua campanha, de acordo com o TSE.
Para o consultor de marketing Adalberto Viviani, especialista no setor, o principal fator para o crescimento das marcas regionais – ou tubaínas – foi a substituição dos vasilhames de vidro dos refrigerantes pelas embalagens PET (principalmente as garrafas de 2 litros), o que reduziu custos e dificuldades de distribuição, facilitando a colocação dessas marcas menores nos pontos de venda (supermercados, padarias etc.). As garrafas plásticas embalam 80 por cento do volume de refrigerantes produzido no Brasil atualmente. Nada que não possa ser revertido, acredita a Coca-Cola, que vem investindo no retorno das garrafas de vidro ao mercado desde o final de 2002.
“A Coca-Cola cometeu um erro estratégico ao adotar as embalagens PET, agora vamos ver se tem força para inverter uma tendência consagrada pelas indústrias de refrigerante”, diz Viviani, explicando que, além de facilitar a distribuição para os produtores de menor capacidade logística, a embalagem plástica eliminou a fidelidade às grandes marcas, garantida pela necessidade de retornar os cascos tanto pelos consumidores como pelos pontos de venda.
Embora sejam aproximadamente 30 por cento mais caras do que as garrafas PET, as garrafas de vidro reduziriam os custos de embalagem para as indústrias capazes de arcar com a complexidade de distribuição de vasilhames retornáveis, uma vez que podem reutilizá-los. Os custos poderiam ser menores ainda se a Abipet – Associação Brasileira de Produtores de Embalagens PET – não estivesse atenta à capacidade de articulação política dos novos defensores das garrafas de vidro. Ao examinar a lei que estabelece a reforma tributária, aprovada em dezembro passado, os fabricantes de PET foram surpreendidos com a inclusão de oito artigos – até então ignorados por eles – que dispunham especificamente sobre a cobrança de Cofins sobre embalagens produzidas para o setor de refrigerantes. De acordo com o texto aprovado pelo Congresso, as embalagens PET e as latas seriam muito mais oneradas que os concorrentes que produzem garrafas de vidro, excluídas da medida.
“É uma especificidade que provoca estranheza dentro de uma lei tão ampla, ainda mais porque a indústria de refrigerantes é apenas um dentre os setores que compram as nossas embalagens – vendemos para a indústria de alimentos e para outras também”, diz Robert Somogyi, presidente da Amcor, uma das maiores fabricantes do setor. “Mas, ao examinar a lei, descobrimos outras especificidades no setor de combustíveis, de remédios etc. Quem saberá como foram parar ali? Nós não estamos em Brasília acompanhando todas as emendas apresentadas no Congresso”, diz.
A Abipet reagiu e conseguiu marcar uma audiência, em janeiro, com o secretário da Receita, Jorge Rachid. Ouviram dele que o objetivo da regulamentação – elaborada por técnicos do próprio órgão – é diminuir a evasão fiscal do setor aumentando a carga tributária dos elos mais organizados da cadeia: os fabricantes de refrigerantes e os de embalagem. “O secretário nos disse que não tem como controlar o cara que vende latinha de refrigerante na praia”, conta Somogyi, “mas explicamos que, do jeito que estava, haveria uma migração em massa das maiores indústrias de refrigerante para as garrafas de vidro.”
O secretário também teria ficado sensibilizado com outro argumento, dessa vez usado para rebater uma bandeira muito usada pela indústria de refrigerantes, a de que os tubaineiros sonegariam impostos e, portanto, só poderiam ser controlados através do elo anterior da cadeia, o dos produtores de PET. “Seria injusto atribuir aos produtores regionais (tubaineiros) a responsabilidade pela evasão fiscal no setor”, diz. “A maioria deles paga os impostos e o volume de evasão é grande demais para que seja atribuído exclusivamente a eles”, explica o presidente da Abipet, Alfredo Setti.
Por fim, os produtores de PET conseguiram convencer a Receita a corrigir “as distorções do mercado” provocadas pela lei, sendo então incluídas as garrafas de vidro – retornáveis ou não – na nova regulamentação. “Uma vitória”, comemora a associação, que ensaia uma presença mais efetiva em Brasília para evitar novas surpresas.

UMA AULA COM JACK CORREA
Ele é saudado pelos próprios concorrentes como um dos maiores lobistas do mercado. Teve desempenho brilhante na Fiat antes de assumir a vice-presidência de assuntos estratégicos e relações governamentais da Coca-Cola. Por obra e graça de Jack Correa, a equipe do presidente Collor concedeu à Fiat a felicidade de vender o carro popular sozinha no mercado durante um ano e quatro meses. Seu segredo? Ele é aquele que é amigo da secretária, vai visitar o ministro e conhece o porteiro, a faxineira, conhece todo mundo em Brasília e todo mundo o conhece, me dizem na capital federal.
E ele gosta de exibir essa arte de bem manejar as palavras e as relações, como fez em uma palestra realizada no Fórum Empresarial Brasil, em 2000, ano em que a Dolly teria sido vítima da Coca-Cola. A transcrição está na Internet e sua fidelidade me foi garantida por Alexandre Barros, organizador do evento. Na introdução, Correa explica por que a Coca-Company mantém um escritório e um vice-presidente em Brasília, apesar de suas operações estarem concentradas em Manaus e no Rio:
“A questão chave é o peso que a empresa dá à questão do relacionamento com o governo. Montar uma estrutura em Brasília requer uma perspectiva de longo prazo. É preciso não só conhecer as pessoas, mas criar vínculos com elas. Desembarcar em Brasília sem conhecer bem a pessoa com quem vai falar, sua história de vida, sua linha de ação, é complicado, perigoso e caro. No caso de ter que mudar uma legislação danosa para a empresa, quem não é conhecido, quem não está lá mostrando a cara, quem não tem o que dizer ficará eternamente de longe admirando o que está acontecendo. Há consultorias em Brasília de profissionais egressos da Receita. Eles conhecem todo mundo, sabem todos os caminhos. O erro é ir direto sem conhecer a pessoa.”
Define-se: “O bom lobista é um Garrincha, um Rivellino, mestre em driblar adversidades, que gosta de superar ou contornar os ‘não pode’ Eu sou limitado pelo código de conduta da Coca-Cola. Quem brincar com isso sai da empresa. O código me proíbe de sentar com um parlamentar e fazer qualquer tipo de acordo, pois há uma lei (americana) contra isso, posso ir preso. Gosto de fazer as coisas com competência, driblando os impedimentos que aparecem”.
Também explica, didaticamente, “o que é exatamente o governo para uma empresa que tem um produto nacional que vende em muitos ou todos os Estados”. Dá conselhos de como influenciar ministros e governadores, como ganhar a simpatia de presidentes e prefeitos. Discorre sobre as possibilidades de acionar as embaixadas estrangeiras para ajudar as empresas com sede fora do país: “Muitas medidas que podem beneficiar uma empresa – ou parar de prejudicar – são tomadas para fazer bonito perante uma embaixada”. Depois fala do Congresso:
“O Congresso tem um papel crucial, um grande poder de definir situações no Executivo em função dos votos, ameaçando que não vai votar um projeto de interesse do governo. O plenário parece muito importante, mas o que conta, realmente, são as comissões temáticas, onde as leis são discutidas. Sugiro que vocês evitem participar de qualquer audiência pública nessas comissões. Sempre se sabe a que horas começa a audiência e nunca se sabe quando nem como acaba – ultimamente, tem acabado com prisão.”

PODER DE FOGO
Codonho também montou seu esquema. Contratou uma assessora de imprensa experiente – Marli Gonçalves, que trabalha na Brickmann Associados – e foi para Brasília fazer lobby no Congresso, como ensina Jack. Codonho conhece políticos: aos 26 anos, em 1987 depois de ter enfrentado um lobby de usineiros, conseguiu licença para fabricar o primeiro refrigerante dietético do país, o Diet Dolly. Também exerceu um cargo público no governo Collor, foi diretor da Conab – Cia. Nacional de Abastecimento, na área de comercialização de produtos agrícolas. Ele é técnico agrícola.
Nada que se compare ao poder de fogo da Coca-Cola, evidentemente. De acordo com o TSE, o sistema Coca-Cola doou 9,9 milhões de reais aos candidatos às eleições de 2002. A Recofarma (Coca Cola Company) doou dois terços, e as engarrafadoras, um terço. Três milhões de reais foram divididos igualmente entre três candidatos a presidente: Lula, Ciro Gomes e José Serra. Dez candidatos a senador foram beneficiados – cinco receberam doações superiores a 100.000 reais, Tasso Jereissati (PSDB/CE), Dante de Oliveira (PSDB/MT), Teotônio Vilela (PSDB/AL), Arthur Virgílio (PSDB/AM) e Roseana Sarney (PFL/MA). Os interesses na Zona Franca de Manaus valeram 750.000 reais de doação ao candidato a governador Carlos Eduardo de Souza Braga (PPS-AM), mais do dobro concedido aos que vêm a seguir nas preferências da empresa: o governador Aécio Cunha (PSDB/MG) e a governadora Rosinha Matheus ficaram com 300.000 reais cada um. Entre os candidatos à Câmara, doze foram contemplados com os mesmos 100.000 reais. Quatro não foram eleitos, três atuam na Comissão de Finanças e Tributação – Francisco Dornelles (PP/RJ), Pauderney Avelino (PFL/AM) e Osório Adriano (dono da engarrafadora da Coca-Cola no Distrito Federal), com o reforço de Mussa de Jesus Demes (PFL/PI), que recebeu 40.000 reais – e dois em outras comissões referentes à questão tributária: Herculano Anghinetti (PP/MG) e Ronaldo Vasconcellos (PL/MG), que também atua na CPI da Pirataria.
O lobby de Codonho conseguiu abrir uma brecha para colocar o caso Dolly x Coca-Cola em pauta na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara pouco depois de entrar com o procedimento contra a Coca-Cola na SDE, aquele ainda não concluído. O deputado Celso Russomano, membro dessa comissão, passou a falar em CPI depois de assistir a trechos das fitas de Codonho. Em setembro, intermediou um encontro realizado na Câmara entre o dono da Dolly e a Coca-Cola representada pelo diretor jurídico Rodrigo Caracas, pelo o diretor de Comunicação, Eduardo Simbalista, e pelo já conhecido Jack Correa, além de mais dois advogados. Segundo Codonho, os executivos ouviram sua versão dos fatos e uma denúncia feita por ele sobre evasão de ICMS que teria sido praticada pela Spal, apelidada de “Operação Pangaia”. Uma nova reunião foi marcada, sempre de acordo com o relato do dono da Dolly, no hotel Meliá, em São Paulo, dessa vez com o diretor da Spal, Jorge Torres, que lhe teria perguntado quanto queria para que as duas partes entrassem em acordo. “Disse que queria receber uma indenização pelos prejuízos sofridos na época e uma multa como reconhecimento de que eles tinham errado”, conta Codonho. Na terceira reunião, o dono da Dolly teria sido inquirido diretamente sobre o valor desejado. “Disse que queria 1 bilhão, 1 quatrilhão”, despista, “eles só estavam ganhando tempo.”
A tentativa de acordo adiou a ofensiva do dono da Dolly na Comissão de Defesa do Consumidor. Finalmente, no dia 14 de novembro, Russomano apresentou um requerimento de audiência pública – em que Capistrano, Codonho e representantes da Coca-Cola Femsa seriam convidados a explicar seu envolvimento no caso Dolly x Coca-Cola para os deputados da comissão. Cinco dias depois, o requerimento foi retirado da pauta. O requerimento foi reapresentado pelo deputado e novamente rejeitado, dessa vez sem a sua presença na casa, o que é proibido pelo regimento interno. Quem defendeu a rejeição foi o deputado Arnaldo Faria de Sá, que nem sequer faz parte da comissão.
Duas outras comissões da Câmara se interessariam pelo caso Dolly x Coca-Cola: a de Tributação e Finanças e a de Fiscalização e Controle. Na primeira, a Coca-Cola estava bem protegida e a audiência não foi aprovada, principalmente pela atuação do deputado Osório Adriano, dono da franquia de Coca-Cola em Brasília. Na segunda comissão, o requerimento de audiência pública foi aprovado por unanimidade no dia 31 de março de 2004. Os convites foram enviados a Codonho, Capistrano e ao presidente da Coca-Cola do Brasil, Brian Smith, para uma primeira rodada de depoimentos no dia 13 de abril. Na véspera do dia marcado, o deputado Arnaldo Faria de Sá, embora também não faça parte dessa comissão, entrou com um requerimento ao presidente da Câmara, João Paulo Cunha, alegando problemas regimentais na votação que aprovara o requerimento. Cunha acatou os argumentos de Faria de Sá e a audiência foi cancelada.
No outro front de batalha, a mídia, a Dolly obteve um sucesso relativo com a ofensiva capitaneada por sua assessoria de imprensa, que, além de uma multiplicidade de releases sobre o caso, enviou trechos das fitas e transcrições delas aos veículos de comunicação. O Estadão e o Globo publicaram pequenas matérias no caderno de negócios. Folha e Veja silenciaram. Os únicos veículos que cobriram direito o caso foram o jornal Valor Econômico e a revista Istoé Dinheiro, publicações segmentadas. Para furar o que interpretou como bloqueio, Codonho publicou em 18 de dezembro de 2003 um anúncio no Wall Street Journal contando a história e conseguiu repercussão na mídia americana – foi entrevistado até pela CNN. Três dias depois, apareceu na televisão brasileira em horário comprado na Rede TV, falando sobre o caso e exibindo trechos das fitas. Um novo programa na mesma emissora foi ao ar uma semana depois. A Dolly então recebeu centenas de cartas e e-mails, muitos com denúncias contra a Coca-Cola que teriam sido feitas até por pessoas que trabalham na multinacional, segundo contam Laerte Codonho e sua assessora. No final do mês de janeiro, O Pasquim publica uma entrevista de capa com Codonho, na qual ele anuncia, bombasticamente, ter provas de que Alexandre Paes Santos, famoso lobista de Brasília, tinha sido contratado pela Coca-Cola para atuar no caso Dolly.
APS, como é chamado por muitos, tem relações bem conhecidas pela mídia e pelos políticos de Brasília com o deputado Arnaldo Faria de Sá, o mesmo que atuou para impedir as audiências públicas nas temidas comissões temáticas referidas por Jack em sua instrutiva palestra. Depois de um longo período de glória, APS caíra em desgraça ao arranjar encrenca com o então ministro da Saúde, José Serra – em um caso envolvendo denúncias sobre funcionários do seu ministério. Amargou um período de ostracismo e voltou à carga substituindo a “marca APS”, queimada no mercado, pela sigla IPA – Instituto de Pesquisas Avançadas –, fundado por ele e três empregados seus. Através dessa nova sigla é que teria sido contratado por 120.000 reais para “minimizar e, se possível, eliminar o risco de ter a Coca-Cola e/ou Femsa convocadas para uma audiência pública na Câmara dos Deputados com relação ao caso Dolly para preservar a imagem do sistema Coca-Cola”, conforme relatório interno da Coca-Cola, cuja cópia foi distribuída em uma coletiva de imprensa convocada por Codonho, que também entregou o que seria uma prestação de contas de Daniel Carvalho Mendonça, subordinado de Jack Correa, pedindo reembolso de um almoço com APS e um técnico da SDE – Secretaria de Direito Econômico, ligada ao Ministério da Justiça.
As digitais de Jack Correa aparecem em outro tipo de lobby, esse do tipo “positivo”. No final de agosto de 2003, pouco depois de a Dolly entrar com aquele procedimento de concorrência desleal na SDE, a Coca-Cola comunicou ao presidente Lula que “expandiria sua rede de restaurantes populares a 1 real alinhada ao programa Fome Zero”. A “rede”, na verdade, contava com um único restaurante do tipo, bancado pelo engarrafador gaúcho da Coca-Cola e inaugurado em abril de 2003. Lula prometeu que compareceria à inauguração do próximo restaurante e cumpriu o que disse no dia 18 de março deste ano. Acabou dando uma bela retribuição à multinacional. Em seu discurso, disse: “Quando eu era mais jovem, ser antiamericano era não tomar Coca-Cola. Agora que estou mais maduro, descobri que não há nada melhor do que tomar uma Coca-Cola gelada principalmente quando se acorda de madrugada”.
Coca-Cola é isso aí.

EM BRASÍLIA
A Istoé Dinheiro foi um dos poucos veículos a publicar o conteúdo dos documentos distribuídos por Codonho na coletiva e também a resposta da Coca-Cola dizendo que contratara uma assessoria do IPA, que, por sua vez, havia subcontratado Alexandre Paes Santos, mas não reconhecia a legitimidade das cópias dos documentos distribuídos pela Dolly. No entanto, duas outras cópias do que seriam documentos internos da Coca-Cola – e constavam do kit da imprensa na ocasião da coletiva – permaneciam inéditas até o momento em que concluo esta matéria: uma proposta de trabalho dirigida à Coca-Cola Indústrias Ltda. pela Idéias, Fatos e Texto, Consultoria em Comunicação&Estratégias, assinada por Luís Costa Pinto, com data de 19 de novembro de 2003; e uma nota fiscal no valor de 30.000 reais emitida pela mesma empresa contra a Recofarma no dia 2 de dezembro do mesmo ano.
Lula, como chamam Luís Costa Pinto na imprensa, é um jornalista premiado, que exerceu cargos importantes em grandes veículos de comunicação: Veja, Época, O Globo, Correio Braziliense, Folha de S. Paulo. Desde a campanha à presidência da Câmara assessora João Paulo Cunha, daí o impacto da revelação feita pela Dolly, especialmente pelo teor da proposta de trabalho que teria sido enviada à Cola-Cola, que diz na introdução: “O objetivo é manter uma fina sintonia com os formadores de opinião da mídia sobre as falsas denúncias que estão a chegar nas redações de São Paulo e Rio de Janeiro que envolvem o nome da Coca-Cola e de empresas a ela ligadas. Além disso, estreitar o relacionamento desses formadores de opinião da mídia com a direção da empresa. Também é missão da Ift traçar um panorama do trânsito dessas falsas denúncias no Congresso Nacional e conversar com parlamentares sobre as tentativas de promover eventuais desdobramentos desses casos no Parlamento”. Em seguida, vem um “roteiro de trabalho” cujo item 1 diz: “Monitoramento dos trabalhos da Comissão Permanente de Defesa do Consumidor em relação à tentativa de se marcar uma audiência pública para debater evasão de divisas e relacionar tal assunto à Coca-Cola. A primeira rodada já empreendida foi plenamente satisfatória”. A data, 19 de novembro, é o dia em que foi retirado de pauta o requerimento de Russomano na citada comissão.
Ligo para o celular de Lula e conto rapidamente o caso. Logo de cara, ele explica que não é assessor de imprensa de Cunha, e sim consultor de imagem e comunicação da presidência da Câmara. Combinamos nos encontrar no Salão Verde da Câmara. Mostro a minuta do contrato, um paper, segundo ele me explica depois de se recuperar da perplexidade inicial: “Como esse cara conseguiu documentos internos da Coca-Cola?” Depois começa a ler a cópia do que ele próprio teria escrito. Topa com a frase “monitoramento dos trabalhos da Comissão Permanente de Defesa do Consumidor...”. “Falta uma palavra aqui, meu compromisso era monitorar a cobertura dos trabalhos e não as comissões”, indigna-se.
“Então, o documento é falso?”, pergunto.
Antes de responder, ele me dá uma aula de “ética”: “Acho que a primeira coisa que um repórter tem que fazer é perguntar como a Dolly teve acesso a isso, que trabalho de pirataria ou de espionagem está por trás disso? É legítimo a gente publicar o objeto de algo que foi surrupiado? E nesse caso aqui não reconheço. Acho que tem um problema com esse documento, tem duas assinaturas, eu não produzi esse documento com essas duas assinaturas”.
Pergunto qual era a natureza de seu trabalho para a Coca-Cola. “Eu precisava saber como a história da denúncia da Dolly estava chegando à mídia em Brasília, aos repórteres que cobrem negócios, Cade, SDE, tal, aqui no Congresso ou no poder executivo. Eu precisava ter uma percepção dessa denúncia entre os formadores de opinião. Precisava saber como isso estava batendo nas comissões, mas não perante os deputados. Eu nunca falei, e aí desafio qualquer pessoa a provar o contrário, nunca conversei com nenhum deputado sobre Coca-Cola, Dolly. Jamais. Foi sempre a respeito da imprensa, esse é meu métier. Por outro lado, sentei com a Coca-Cola pra dizer o que estava errado no tratamento deles com a mídia. Meu trabalho é efetivamente e eminentemente de consultoria para essa área de imagem. Eu cobro pra dar conselho.”
Depois explica que começou a trabalhar para João Paulo Cunha após ter feito a campanha de Ciro Gomes à presidência, a campanha ao segundo turno do atual governador do Ceará, Lúcio Alcântara, e um trabalho coordenado por Duda Mendonça para a prefeitura de São Paulo – “uma análise de mídia bastante extensa”. Na campanha de João Paulo à presidência da Câmara, sua empresa foi contratada pelo PT via DNA, uma agência de Belo Horizonte. Diz que não tem vínculos funcionais com a Câmara: “A minha empresa é contratada pela Câmara dos Deputados através de uma agência de propaganda licitada para dar consultoria de imagem à presidência da Câmara e aos deputados da mesa da Câmara, tal...”. De repente lembra que, no período em que trabalhou para a Coca-Cola, estava sem contrato formal com a Câmara dos Deputados: “Foi um período de transição entre a Ogilvy – que havia me contratado – e a SMPB, que me contratou de novo depois de um gap de alguns meses que pegou justamente esse final de ano.”
“Mas essa foi uma questão formal, não? Você continuou trabalhando...”, pergunto.
“Reduzi drasticamente os meus contatos aqui. Agora, assim como presto serviço para a Câmara dos Deputados, eu prestei serviço para a Coca-Cola, para a TAM, para o Duda Mendonça...”
Conta que foi contratado por Jack Correa, o vice-presidente institucional da Coca- Cola, de quem é amigo desde 1992.

EPÍLOGO
Três dias depois desse diálogo e da remarcação da audiência pública na Câmara para o dia 29 de abril, policiais da 3ª Delegacia de Estelionato do Departamento de Investigações Gerais, acompanhados de Fernando Ramazzini, autor da denúncia e diretor da Associação Brasileira de Combate à Falsificação – da qual a Coca-Cola é associada –, invadiram a Fat Man, uma pequena distribuidora de bebidas localizada em Sapopemba, bairro da periferia de São Paulo. Encontraram no lugar um único funcionário, além de uma pequena quantidade de refrigerantes Dolly e notas fiscais de baixo valor preenchidas a mão. Disse Ramazzini a Raquel Balarin, repórter do jornal Valor Econômico: “O funcionário nos disse que fora contratado e recebia ordens de um senhor chamado Esaú Vespúcio Domingues, que é sócio do escritório de contabilidade que atende as empresas do grupo Dolly”. Os policiais foram ao escritório de contabilidade Raucci & Domingues, onde teriam sido apreendidos outros documentos que comprovariam sonegação fiscal por parte da Dolly, na opinião do mesmo Ramazzini. Rogério Raucci, sócio de Domingues, disse à repórter do Valor que a Fat Man é uma distribuidora pequena, onde apenas o comércio da vizinhança faz a retirada de refrigerantes, e confirmou que seu escritório presta serviços para a Ragi Refrigerantes. “Mas isso não configura que a distribuidora tenha qualquer relação com a Dolly”, diz.
Raucci entrou com representação na Corregedoria da Polícia Civil porque os policiais teriam invadido o escritório sem mandado judicial e coagido os funcionários a comparecer na delegacia com documentos. A Secretaria da Fazenda de São Paulo, “que, segundo a denúncia da ABCF, estaria acompanhando o caso, informou que não acompanhou e não participou da operação policial”, conclui a notícia assinada por Raquel Balarin.
Talvez por coisas assim o consultor Viviani tenha me respondido da seguinte forma quando perguntei se a Dolly estava lucrando em marketing ao brigar com a líder do mercado: “Ela deve estar colhendo alguns frutos, brasileiro gosta de ficar do lado do mais fraco. Por outro lado, quanto vale a marca Dolly agora? Comprá-la significaria comprar uma briga com uma das empresas mais fortes do mundo”.