O jornalista Carlos Alberto de Azevedo percorreu 3.140 km da fronteira Estados Unidos-México em 1997 para ver os limites da globalização. O texto resultante, sob a forma de narrativa dos fatos, é leitura obrigatória para o estudante de jornalismo. A edição original, publicada em uma única página na Web, foi desdobrada em sete páginas para uma leitura atenta e agradável

Pesquisa do tema "emigração" por Isolda Harris, Dallas-Texas

Reportagem realizada em 1997 pela "Oficina da Informação"
Reportagem e fotos: Carlos Alberto de Azevedo
Editor: Raimundo Rodrigues Pereira
Reedição de textos e tratamento de imagens: Roberto Bendia

Conhecendo os limites da globalização

Por Raimundo Rodrigues Pereira

Toda fronteira é desconcertante: ela é o lugar onde o sentimento de identidade nacional é despertado e desafiado. Mas o que faz a experiência de percorrer os 3.140 quilômetros da fronteira entre os Estados Unidos e o México tão chocante não
é a diferença de cultura, nem de língua, nem de sistema político entre os dois países. É viver entre dois mundos: o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, que se estende dali para o Sul, por todo o interior do México e para além, pela América Central e América do Sul. A fronteira Estados Unidos-México é a linha que separa a Colônia do Império, a desesperança da esperança, o Norte industrial da miséria do Hemisfério Sul.

Nos anos recentes, essa linha divisória tornou-se ainda mais fascinante. As empresas norte-americanas começaram a transferir fábricas especiais, destinadas basicamente à montagem -as chamadas maquiladoras- para o lado mexicano, a fim de tirar vantagem da força de trabalho barata e passiva. Esse processo se desenvolveu de tal maneira que se converteu num exemplo visível a olho nu, numa metáfora do capitalismo global contemporâneo. Tornou-se um campo de batalha onde milhares de despossuídos, não só do México, mas de outros países arruinados, lutam dia e noite, desafiam a polícia de fronteira norte-americana, enfrentam perigos e até a morte, por um lugar ao sol, por uma migalha da prosperidade norte-americana. Tornou-se uma ilustração do dilema do desenvolvimento posto pela economia global. Podem países subdesenvolvidos como o México (Brasil, Coréia, Tailândia...) conseguir prosperidade se abrem completamente suas fronteiras para a competição estrangeira e põem sua força de trabalho em uma linha de montagem global? Podem os Estados Unidos manter o esplêndido isolamento de um alto padrão de vida se dependem tão vitalmente da força de trabalho de baixos salários atraída e amontoada a um passo da linha de sua fronteira?

A ideologia do livre comércio encontra na fronteira Estados Unidos-México também o questionamento dos seus limites. Como é possível defender a liberdade total de circulação do capital e das mercadorias e, ao mesmo tempo, se construir um muro sofisticado e agressivo para impedir a livre circulação dos trabalhadores? Como pode ser sincero o brado de "abaixo todas as fronteiras" ao mesmo tempo em que se erguem muros para conter a onda daqueles desesperados que em seus países vão sendo excluídos da vida econômica pelo desemprego e a falta de oportunidades, causados exatamente por esse mesmo processo de abertura total dos mercados?

Há muitas formas de tentar responder a essas questões. Uma delas é o jornalismo. E essa é a nossa forma. Nós enviamos Carlos Azevedo, um repórter, para ver essa fronteira enigmática e nos contar o que viu. [Ver mais]


--------------------------------------------------------------------------------
O muro americano

Pesquisa do tema "emigração" por Isolda Harris, Dallas-Texas

Reportagem realizada em 1997 pela "Oficina da Informação"
Reportagem e fotos: Carlos Alberto de Azevedo
Editor: Raimundo Rodrigues Pereira
Reedição de textos e tratamento de imagens: Roberto Bendia

Por Carlos Alberto de Azevedo, prêmio Esso de jornalismo em 1961, redator do jornal católico "Brasil Urgente" em 1963, logo depois redator de "O Cruzeiro". A seguir, foi um dos repórteres-redatores da histórica equipe da revista Realidade. Escreveu, com mais alguns companheiros na clandestinidade, "O Livro Legro da Ditadura Militar", precursor do "Tortura Nunca Mais".
Realizou a série antológica de nove reportagens para a TV Globo, no Globo Rural, que descreve a viagem de uma boiada pelo Pantanal do Mato Grosso

O mapa do muro

A fronteira entre os Estados Unidos e o México é uma extensa linha de 3.140 quilômetros que cruza a América do Norte, de Oeste para Sudeste, desde a Califórnia, no Oceano Pacífico, até o sul do Texas, no Golfo do México. Equivale à distância entre São Paulo e Belém do Pará. Uma parte dela se estende por uma linha reta de 1.123 quilômetros traçada através do deserto de cactos e areia.
A outra parte acompanha o leito do Rio Grande (para os mexicanos, Rio Bravo del Norte) por 2.018 quilômetros.



Os primeiros metros do muro estão enterrados na areia da praia de Tijuana no Oceano Pacífico e separa essa cidade mexicana da Baja California, de San Diego, na Califórnia, Estados Unidos. É uma armação de 8 metros de altura, de barras verticais de cimento e aço, vazadas, que começa além da arrebentação, 150 metros mar adentro. Atravessa toda a praia e continua por uma colina acima, agora convertida
numa cerca de ferro enferrujado, mais baixa e que se estende continuamente por 24 quilômetros para Leste, até às montanhas vizinhas. A partir daí, a linha de fronteira segue por 200 quilômetros através do deserto, definida por marcos de pedra instalados pelos norte-americanos. O muro de ferro reaparece nas vizinhanças de Caléxico (EUA) e Mexicali. Em seguida, a fronteira ruma para o Sul por 38 quilômetros acompanhando o rio Colorado.

Depois, volta ao rumo Sudeste, numa linha reta de 200 quilômetros pelo deserto do Arizona, ou de Sonora, conforme o chamam no México, até as vilas fronteiriças de Lukeville e Sonoita. Aqui o muro é um alambrado alto de metal. Mais 250 quilômetros de linha reta e chega-se a Nogales. Aqui o muro reaparece reforçado. A mesma cerca de chapas de ferro, agora fortemente soldada ao chão por
uma base de cimento. Empontos estratégicos, postes com luzes, câmeras de TV e sensores.

Uma inflexão para Leste e mais 150 quilômetros até Douglas e Água Prieta. Nesse lugar, o muro está em construção. Arizona e Sonora ficaram para trás, a fronteira já corre entre Novo México e o Estado mexicano de Chihuahua.
Mais 350 quilômetros até El Paso e Ciudad Juárez, portão de entrada do Texas. Nesse ponto, a fronteira se encontra com o Rio Grande, que passa a ser a linha de limites. Canalizado, o rio corre entre rampas de cimento separando as duas cidades. O muro reaparece na forma de alambrado implantado na margem do rio ao longo das cidades e arredores. Adiante a fronteira é demarcada pelo rio.
Seu rumo desvia-se acentuadamente para o Sul. Segue por 550 quilômetros através de uma região pouco habitada. A passagem de fronteira nesse trecho fica nas
cidades de Presídio e Ojinaga, separadas pelo rio e marcos de pedra. A seguir, continuando no rumo sul, a fronteira passa ao lado de uma região selvagem, uma reserva florestal, o Parque Nacional de Big Bend.
O Rio Grande corre então por entre canyons escavados nas rochas da Sierra Madre Oriental e seu curso forma um cotovelo, voltando-se para o rumo Nordeste. Depois faz uma flexão para o Leste e para o Sudeste, chegando a Del Rio e Ciudad Acuña cerca de 600 quilômetros depois. Além do rio separando essas cidades, só há um alambrado nas proximidades da Alfândega.


Mais 150 quilômetros para Sudeste e a linha de fronteira chega a Eagle Pass e Piedras Negras, onde só o rio separa os dois lados. Daqui para o Sul, intensifica-se a vigilância da polícia de fronteira.

Outros 200 quilômetros e a fronteira alcança Laredo, Texas e Nuevo Laredo, no Estado de Nuevo Leon. O muro reaparece na área urbana.


O Rio Grande segue seu curso por 250 quilômetros até McAllen, Texas, e Reynosa, no Estado de Tamaulipas. O muro está presente na área urbana.

Os últimos 100 quilômetros da fronteira se desenvolvem no estuário do Rio Grande em sua chegada ao Golfo do México, nas cidades de Brownsville e Matamoros. O rio se espalha em canais, baías e restingas e a linha de fronteira fica menos precisa, porém, intensamente policiada.

[Ver mais]



O muro americano

Viagem pela fronteira do mundo global

Reportagem e fotos de Carlos Alberto de Azevedo

A fronteira San Diego-Tijuana

San Diego fica à beira do mar, mas seu clima é igual ao do deserto. No outono californiano, a madrugada é gelada, e, a partir do meio dia, faz muito calor. E há um vento forte, que resseca a boca e racha os lábios. Porto comercial no Oceano Pacífico, base da Marinha de Guerra, cidade turística com praias e marinas a perder de vista. San Diego é feminina, linda, elegante. Guarda da herança espanhola um centro histórico de velhas construções preservadas e uma população em larga escala bilíngüe.

O espanhol também está nos nomes de lugares e ruas - El Cajon, La Mesa, Chula Vista - nas orientações do trânsito, dos elevadores e escadas rolantes, nas conversas entreouvidas nas ruas. Nem por isso é menos americana.


É uma cidade de fronteira. Estende-se por 40 quilômetros até seu ponto mais ao Sul, o Distrito de San Isidro. Dali se avista Tijuana, no México. A minha primeira imagem do México é de um morro apinhado de casinhas ao nosso estilo de favela. E a impressão que ficou: as casinhas penduradas dos morros parecem milhares de olhos ansiosos fixos no lado de cá, na riqueza americana.

Os habitantes de San Isidro, um calmo bairro popular de casas baixas e quintais cheios de carros velhos, são na maioria mexicanos ou descendentes. Na tarde quente, há pessoas nas varandas e nas sombras de árvores. Mais mulheres que homens, elas, morenas e gordas às voltas com costuras e crianças, eles, mais velhos, tomando refrigerante e conversando.

Uma free way, avenida de seis pistas para cada mão e trânsito de alta velocidade, vem desde o centro de San Diego e atravessa San Isidro sem alterar sua paz, num traçado arrojado de pistas elevadas. O mais notável, porém, é que o bairro termina de repente, de encontro a uma barreira de metal. A fronteira é ali. Mas o que se vê sem dificuldade são buracos na cerca. Passagens de imigrantes ilegais. Acessos do Terceiro Mundo para o Primeiro Mundo.

Cruzar a fronteira entre San Diego e Tijuana exige, de início, uma caminhada por infindáveis corredores que se contorcem através de um grande edifício de cor rosa que também é um viaduto. Por baixo dele, fica a larga pista por onde cruzam os veículos entre os dois países. Para entrar no México, há liberdade total, exceto por um policial postado ao lado de uma placa onde se diz que você deve declarar mercadorias que vá levando. Andando entre altos muros, passo em seqüência por dois pesados e barulhentos portões giratórios de ferro, semelhantes a esses das estações ferroviárias de subúrbio de São Paulo e Rio.

E chego a Tijuana, no Estado mexicano de Baja California, a uma praça atravancada de camelôs, pontos de ônibus e taxis amarelos.

Os taxistas vêm a meu encontro oferecendo corridas por três dólares. Uma sensação de estar na Zona Leste de São Paulo ou na Baixada Fluminense. Nas barracas vendem-se tacos, tortillas, burritos e refrigerantes. Numa delas, fatias de abacaxi cobertas de pedras de gelo, como no Largo da Carioca ou na Praça da Sé. No fundo da praça, lojas de comércio, farmácias, bares. Vêem-se anúncios da cerveja Tecate, de Coca Cola e Pepsi, de casa própria à prestação, e de corrida de touros. Um turbilhão. Bem diferente daquela imagem de exuberância ordenada, de limpeza, eficiência e calma que ficou 200 metros atrás, nos Estados Unidos.

San Diego e Tijuana fazem interface. Essa é a expressão que traduz os milhares de laços visíveis e invisíveis que se estendem entre os dois lados complementares. Laços de parentesco, comerciais, de trabalho, de interdependência, de dominação, de submissão, de amor e de ódio...

Viver dos dois lados é uma rotina: a mãe mora no México, os filhos, nos Estados Unidos, vão visitá-la no fim de semana. Aquele mora em Tijuana, mas tem um passe que o autoriza a trabalhar no porto de San Diego. Aquela vive de ir todo dia a San Isidro comprar roupas e aparelhos eletrônicos que revende na colônia (bairro de periferia) onde mora. E assim, o tempo todo, os que têm autorização cruzam a aduana aos milhares.

Logo irei ficar sabendo que em Tijuana, por entre as casas, no fundo dos quintais, passam as trilhas pelas quais os polleros (na origem, quer dizer criador de galinha), também chamados coiotes, conduzem seus clientes, os imigrantes ilegais, para além do muro. Do lado americano, muitas daquelas pacíficas casas de San Isidro acolhem os ilegais. Ali são escondidos enquanto aguardam o transporte que os levará a seu destino, que tanto pode ser a casa de um parente em Los Angeles, uma fazenda no interior, ou um quartinho em Nova Iorque. Pense nisso acontecendo continuamente, num ritmo alucinante, gente tentando passar de dia e de noite. Muitos deles sendo capturados pela Border Patrol, a polícia americana da fronteira, e imediatamente devolvidos ao México.

Por trás do muro, no alto da colina, o patrulheiro vigia. Ele conhece a ousadia dos imigrantes



O muro avança e separa
as duas Nogales

Em um bairro popular, o diretório do PRD, Partido da Revolução Democrática, em ascenção no cenário político mexicano

Conhecendo Tijuana

Tijuana é a típica cidade de fronteira. Agitada, trânsito congestionado avenidas empoeiradas, fumaça de ônibus. A população, atualmente estimada em 1 milhão de pessoas, cresce todo dia, dobra a cada dez anos. Por causa das 560 maquiladoras (as indústrias montadoras estrangeiras que se instalam na região de fronteira) e dos empregos que elas oferecem –já são 119 mil operários, a maioria, mulheres– a cidade atrai uma crescente onda migratória dos Estados do sul do país, mergulhados em recessão. Em Tijuana, não há desemprego, dizem. E as estatísticas oficiais confirmam: a taxa de desemprego corresponde a um terço da taxa média nacional.

Grande parte de seus moradores tem passe para trabalhar do lado americano. Pela madrugada, começa a passar a legião de trabalhadores que estará de volta ao anoitecer. Outros vão às compras. São cinco milhões de passagens por mês (60 milhões por ano!). Pelas 24 horas do dia, se ouve o matraquear das catracas da Alfândega.

Dos cerros (colinas), das praias, das ruas centrais, parece que de qualquer lugar onde se esteja em Tijuana se pode ver o muro, uma parede de metal de cinco metros de altura. Ele interrompe a cidade bruscamente. E se alonga por 24 quilômetros, por morros e vales, como uma cicatriz aberta, sempre à vista e nunca esquecido, um assunto permanente como as notícias de futebol e as corridas de touros.

O muro sai do Oceano Pacífico como um grande animal marinho, feito de barras de aço cobertas de cimento, verticais e vazadas, escurecidas pela maresia. Já na areia branca, corta sem cerimônia a bela praia em duas. E logo se converte numa cerca mais baixa de placas enferrujadas de ferro. Sob essa forma, sobe a encosta íngreme da primeira colina, para de lá se estender por quilômetros, até às montanhas vizinhas. Forte, impávida, mas não invencível. Muito ao contrário, todos os dias e principalmente noites é milhares de vezes violada pela obsessão coletiva de entrar nos Estados Unidos.

Os imigrantes entortam as chapas de metal, improvisam escadas que levam até o alto, ou, quando não há base de cimento, cavam buracos por baixo. Assim, o muro é um frágil obstáculo. O pior está do outro lado. São as viaturas da Border Patrol, a "migra", no dizer dos mexicanos. Como se fosse uma zona de combate (e por acaso não é?), a área além do muro, do lado americano, é limpa, sem construções, vegetação baixa. E toda recortada por estradas de terra por onde circulam as peruas da polícia.

E um segundo muro está em construção. É igual ao da praia, com uns 8 metros de altura, de aço e cimento, todo vazado, de modo que ninguém possa se esconder atrás dele. Fortemente enterrado no solo, parece indestrutível e invencível. Já está pronto nas áreas mais centrais de Tijuana. Entre o muro novo e o antigo foi construído algo como um canal ou avenida, de uns cinqüenta metros de largura, todo cimentado e que termina em rampas de cimento inclinadas. Por ali correm as peruas da polícia de fronteira, com mais facilidade ainda.

E mais: por toda a extensão do muro estão instalados sensores eletrônicos, aparelhos que permitem ver na escuridão, que denunciam a passagem dos imigrantes. No alto dos postes de iluminação, além dos fortes holofotes, há câmeras de TV em operação contínua. Quando acionados, helicópteros vêm fazer vôos rasantes para localizar os imigrantes ilegais. Tudo isso ligado a computadores em rede com o sistema de identificação do Serviço de Imigração. De forma que qualquer movimento na linha de fronteira é detectado imediatamente e comunicado às peruas postadas ao longo do muro. A ficha de qualquer suspeito pode ser conferida imediatamente no cadastro geral. A pergunta é: como é que tantos ainda conseguem passar? Há várias respostas, que se complementam:

1. Os polleros organizam grupos grandes para passar juntos, cinqüenta pessoas, ou mais. Se a patrulha os localiza, espalham-se e correm, e os policiais não conseguem capturar a maior parte deles;

2. Além dos guias que levam o grupo de imigrantes ilegais pelas trilhas, vão outros à frente e pelos flancos, observando os movimentos da patrulha. Se ela vem, correm para outro lado, despistam. Enquanto a patrulha se ocupa deles, os imigrantes passam. Detidos por algumas horas, os guias logo são libertados no México.

3. Há acusações de que as redes de contrabando mais sofisticadas conseguem subornar policiais da fronteira e também falsificar documentos norte-americanos. Elas se estendem pelo interior do território dos Estados Unidos. E se entrelaçam com a rede de tráfico de drogas.

4. Empresas norte-americanas interessadas em mão-de-obra barata dão estímulo e algum tipo de cobertura e apoio material a esquemas "profissionais" de contrabando de imigrantes ilegais. O motivo: a economia do sudoeste dos Estados Unidos depende da mão-de-obra barata dos trabalhadores ilegais ou "não-documentados". Para que as empresas e fazendas não sejam processadas por contratar trabalhadores sem documentação, funciona uma indústria de documentos falsos que os empresários aceitam de bom grado, fazendo vista grossa à falsificação. Se a polícia descobre, alegam que não perceberam, que o documento "parecia suficientemente bom".

Por isso, floresce a indústria de documentos falsos. Numa rua de Tijuana ou de El Paso, no Texas, pode-se comprar um visto de residente (Green Card) falso por algo em torno de 200 a 300 dólares. Por mil dólares, é possível comprar um pacote com a documentação completa, desde certidão de nascimento. Se quisesse, eu podia ter comprado um pacote desses. Só não sei como me comportaria ao apresentar documento falso à aduana norte-americana. Mesmo com meus documentos bons, fiquei tenso na primeira vez que voltava do México para os Estados Unidos, em Tijuana. Não sei se o policial se deu conta. Era um norte-americano típico: branco, olhos azuis, cabelo à escovinha, jeito de eficiente. Percebendo meu sotaque, me fez mais perguntas. Examinou detalhadamente meu passaporte, passou a mão pelo "visto" para verificar se não se descolava.

Acompanho o muro pelo lado mexicano, por vários quilômetros. Começa dentro do mar, na arrebentação da praia de Tijuana, prossegue em linha reta, subindo e descendo por cerros e baixadas, acompanhado em paralelo por uma avenida de tráfego intenso. A região é árida, a vegetação se compõe de um capim ralo e arbustos retorcidos e de folhas duras, de uma cor verde-acinzentado. A terra é uma mistura de pedras soltas e uma argila cinzenta. Quando está seca, como agora, forma um pó fino que o vento levanta formando nuvens.

Na mesma linha reta, o muro segue para o Leste, entra pela cidade, atravessa-a em plena área urbana central. E continua, subindo pelos cerros adiante até as montanhas que se vêem ao fundo. Do lado norte-americano, é sempre acompanhado pelas estradinhas de terra batida, empoeiradas, freqüentadas apenas pelas viaturas da polícia de fronteira. Ali, o trânsito de outros veículos é proibido.

Do alto de uma colina no México, posso ver o que acontece do outro lado. Assisto a uma cena que acontece dois quilômetros adiante. Um grupo de imigrantes caminha por uma trilha na encosta da montanha, já em território norte-americano, ao lado de San Isidro. Certamente vão guiados por um pollero. De uma posição mais alta, uma caminhonete da polícia de fronteira vigia. E outra aparece a seu lado, e logo se movimenta morro abaixo no rumo do grupo de imigrantes. Será que os localizou? Um minuto depois, somem todos, o grupo e o carro da patrulha, numa franja da montanha. São seis da tarde, talvez tenham se escondido esperando a noite cair, talvez tenham sido capturados pela migra.

Do lado mexicano, o muro é íntimo da cidade. Passa defronte ao aeroporto internacional de Tijuana, separado dele por uma larga avenida. Fica frente a frente com casas de classe média. Passa nos fundos de fábricas, ao lado de uma favela. Resolvo caminhar a seu lado. Vou encontrando buracos escavados no solo pedregoso, por baixo das chapas de metal, que dão passagem para uma pessoa. Junto a um desses buracos, dois rapazes observam o outro lado por frestas. Acompanham a movimentação das viaturas da "migra". O sol está se pondo e um deles diz que daqui a pouco vão passar. Estão tranqüilos, sorridentes, não parecem preocupados. Não temem ser apanhados? O que parece mais velho e escolado responde que não: "Ficamos detidos algumas horas e somos devolvidos ao México. Aí, vamos outra vez". Um tem 25 anos e o outro, 23. Dizem seus nomes, mas pedem para que não os cite. Temem que a polícia mexicana os processe como polleros. Mas deixam-se fotografar.

Por que querem ir pra lá? – pergunto. "Para trabalhar", dizem. Já estiveram lá? "Não, mas agora queremos ir". Sinto neles uma disposição firme, um à vontade que é como se tivessem direito a isso, uma naturalidade que deve vir da tradição, das gerações de antepassados que fizeram isso. Ouvindo-os até parece que é fácil cruzar a fronteira. Um deles explica que ficam observando a movimentação das viaturas das patrulhas. E quando elas se afastam, aproveitam para atravessar.

De repente, no meio da conversa, e sem avisar, o mais novo deles se enfia pelo buraco, atravessa a cerca. Pela fresta, vejo-o correr freneticamente para atravessar o largo terreno baldio e arenoso que se estende por uns 500 metros até uma solitária construção. Ele deverá correr até lá e aí esperar que escureça para sair num quintal de uma determinada casa no bairro de San Isidro. Logo desaparece da minha vista. Não deu para saber se o pegaram. Enquanto isso, o outro rapaz me diz que desistiu, não vai mais atravessar agora. Fico com a impressão de que ele é um pollero, que estava ali só para orientar a travessia do outro rapaz. Vai embora sorridente.

Em Tijuana, os polleros são muitos e ficam pela praça, nas vizinhanças da Alfândega. Com a ajuda de um motorista de táxi sou apresentado a um deles como alguém que quer patrocinar a entrada clandestina de duas moças brasileiras, que não falam nem inglês nem espanhol, nos Estados Unidos. Fazemos uma reunião dentro do táxi. O pollero terá uns 30 anos, se apresenta como "Tigre". Cabelos negros, grossos e lisos. Bem visível, do lado esquerdo do pescoço, uma tatuagem com o nome "Maria". Penso que mais que um capricho é uma marca, uma identificação para a família, caso "desapareça" como tantos outros. E tem uma cicatriz grande abaixo da orelha esquerda, sinal de um ferimento não muito antigo. Fala bem inglês e também é versado em espanglês, essa mistura de espanhol e inglês que é uma "língua" muito expressiva. E é um bom vendedor dos seus "serviços".

Tigre me ofereceu três modalidades de serviço: começou pela mais barata, que custa 800 dólares por pessoa, pagos adiantados. Diz que as moças serão levadas por guias através de trilhas pelos cerros até uma casa em San Isidro. De lá, poderão ser conduzidas de carro a Los Angeles. Ou, se eu preferir, vou eu mesmo buscar as pessoas em lugar a ser marcado do lado norte-americano. Segundo ele, a caminhada não é longa, 10 a 15 quilômetros, umas duas ou três horas pelas trilhas, à noite. Como mostro dúvidas, me dá garantias. Diz que na operação são usados oito guias, pessoas que vigiam a patrulha e, se necessário, a despistam, fazendo-se alvo dela. O inconveniente no caso, diz ele, é que, sendo duas "muchachas", fica um pouco mais complicado porque, às vezes, é preciso correr e as moças correm menos. E se forem apanhadas? - pergunto. "Não vão ser apanhadas. Eu garanto que não serão. Mas ainda que sejam, após algumas horas serão devolvidas ao México. E podem tentar de novo". Mas têm que pagar outra vez. Mas podemos fazer um desconto".

A segunda alternativa custa 1.200 dólares por pessoa. Nesse caso, o imigrante ilegal passa, caminhando normalmente pela fronteira e apresenta à aduana americana documentos falsos, "pero buenos", garantiu, e insistiu no "pero buenos", várias vezes, paciente, persuasivo. Mas aí nosso problema é que as moças teriam que falar um pouco de inglês, ou, ao menos espanhol, para responder a algumas perguntas do oficial da alfândega. E, de acordo com a minha história, não falam.

Diante disso, ofereceu uma terceira alternativa. Esta custaria 1.500 dólares por pessoa. Mas já não seria com ele. Iria me levar a um escritório na cidade onde eu seria apresentado a pessoas que fariam a travessia em segurança. As moças passariam de carro, com documentos falsos, "pero perfectamente buenos". Demoraria apenas umas poucas horas a mais porque elas seriam fotografadas e preparados os documentos. De San Diego, seriam levadas a Los Angeles em inteira segurança. Como eu pedisse mais garantias, impacientou-se. "Que garantias más? Le oferecemos todas las garantias!" Eu encerrei a reunião dizendo que não estava seguro, ia dar um tempo para pensar. Ele desceu do táxi. E eu fiquei convencido de que aquele sujeito faz passar qualquer um pela fronteira.

Disso o governo norte-americano também tem certeza. Estudo binacional sobre migração, divulgado por Doris Meissner, chefe do Serviço de Imigração e Naturalização, recentemente, em El Paso, reconhece a eficiência do que chama de rede "profissional" de contrabandistas de imigrantes ilegais. Os polleros e falsificadores de documentos fazem parte de uma profissão florescente e bem remunerada. E incomodam demais as autoridades norte-americanas, que os consideram forças de apoio do tráfico de drogas. Por isso, na recente visita aos Estados Unidos, o presidente do México, Ernesto Zedillo, assumiu compromisso de combatê-los. Foram firmados novos acordos para reforçar a ação policial contra os contrabandistas de gente. Na verdade, isso já vinha acontecendo. Nos últimos dois anos o número das condenações judiciais de polleros aumentou em 200 por cento no Estado de Baja California.



[Ver mais]

O muro americano

Viagem pela fronteira do mundo global
(continuação)

Reportagem e fotos de Carlos Alberto de Azevedo

Rigor americano contra o imigrante

O movimento de pessoas ao longo dos 3.140 quilômetros de fronteira entre Estados Unidos e México oferece um espetáculo único: a linha fronteiriça foi cruzada 280 milhões de vezes durante o ano de 1996.
Claro que a maioria foi de pessoas que vão e vêm todos os dias, moram de um lado e trabalham de outro, ou vão às compras ou fazer visitas temporárias. Só que, no meio dessa gigantesca pororoca, nadam outros peixes: tanto os que vão como imigrantes autorizados, e são muitos, quanto os que vão ilegalmente, um número desconhecido, mas que também são muitos. E há peixes ainda mais incômodos, que são os contrabandistas e os traficantes de drogas. De qualquer forma, em termos de movimentos fronteiriços esse pode ser chamado o maior espetáculo da Terra.
No deserto do Arizona (Sonora, para os mexicanos), a fronteira é demarcada pelo canyon do Rio Grande (Rio Bravo del Norte para os mexicanos)

Esse estudo binacional divulgado em outubro de 97 pelas autoridades de imigração dos dois países avaliou que há 7,3 milhões de pessoas nascidas no México vivendo nos Estados Unidos. Dessas, 4,9 milhões são migrantes legais, residentes autorizados. E 2,4 milhões são migrantes ilegais, clandestinos. Acrescente-se que há 11 milhões de pessoas de origem mexicana nascidas nos Estados Unidos, os chamados "chicanos", e chega-se a algo em torno de 7 por cento da população dos Estados Unidos. Por causa dos laços de parentesco, a imigração autorizada aumentou velozmente nos últimos anos, chegando a 233 mil pessoas em 1996. O número dos que entraram sem autorização é desconhecido, mas sua grandeza pode ser inferida no número de detenções durante a tentativa de cruzar a fronteira: 1,3 milhão em 1995 – se bem que essa contagem considera o indivíduo que tenta passar várias vezes.

Entre os anos de 1990 e 1996, entraram nos Estados Unidos 1,9 milhão de mexicanos, uma média de 315 mil por ano. Calcula-se que aproximadamente 630 mil entraram ilegalmente. E a pressão continua: calcula-se que, ao longo de toda a fronteira, nada menos que 8 mil pessoas tentam diariamente cruzar ilegalmente a fronteira.

Compro um jornal, o El Mexicano, de Tijuana. A matéria de primeira página diz que está diminuindo a imigração ilegal na Califórnia, por conta do reforço da vigilância dos EUA. Os números servem para dar idéia do volume da invasão diária e do porte da chamada "Operação Guardiã".

Diz a matéria que, entre janeiro e agosto de 1995, a Border Patrol deteve 429.703 imigrantes não documentados, só na Califórnia. Uma média de 1.760 detenções por dia. O número teria caído para 294.444 entre janeiro e agosto de 97 e a média diária de detenções, para 1.200. Uma redução de 31 por cento.

As informações são das autoridades americanas e mexicanas, divulgadas por Geraldo Delgado Cruz, delegado regional do Instituto Nacional de Migração do México em Tijuana. Em 1995, a média de tentativas de passagem que um mesmo imigrante fazia era três, o que significa que, naquele ano esse bate-volta envolveu 143 mil pessoas. Com o aumento das dificuldades para a travessia, a média subiu para oito tentativas por pessoa, o que significa que, de janeiro a agosto de 1997, foram "devolvidas" 36.800 pessoas. Naturalmente, o número dos que conseguem passar é desconhecido. Mas, segundo o Centro de Apoio ao Migrante, do Partido da Revolução Democrática (PRD) em Tijuana, ainda passam muitos. Calcula-se que a patrulha da fronteira consiga capturar um terço dos que tentam atravessar. Por aí se tem idéia do volume da legião que diariamente procura fazer a travessia, algo em torno de 3 mil pessoas, só na Califórnia.

As crescentes dificuldades para atravessar a fronteira têm provocado o aumento do número de mortes de imigrantes. Do início de 1993 a agosto de 1997, foram 239 mortes na fronteira californiana: 165 em San Diego e 74 em Caléxico, cem quilômetros para o Leste. Em San Diego, as causas principais foram atropelamentos nas free ways e afogamentos no mar. Em Caléxico, os rigores da região inóspita.

A concentração de forças e recursos repressivos na área de Tijuana e San Diego fez com que o fluxo migratório se deslocasse para a região de Caléxico (a cidade norte-americana) e Mexicali (a cidade-irmã mexicana), que ficam em região montanhosa e de deserto. A maioria das detenções agora se dá nessa zona de maior risco. A travessia por trilhas na zona desértica e montanhosa tem resultado em grande aumento do número de mortes. A caminhada até lugares mais seguros chega a levar trinta horas. Durante o dia, a temperatura vai a 50 graus centígrados e não há água. À noite, cai drasticamente até próximo de zero grau, com ventos inclementes. Como quase não há habitantes por ali, também não se consegue obter comida.

Assim, entre 1993 e 96, foram constatadas 41 mortes na região de Mexicali e Caléxico, uma média de 10 por ano. Mas em 97, só até agosto, já haviam ocorrido 33 mortes ali, um aumento projetado de 300 por cento.

E, ao longo dos 3.140 quilômetros de fronteira, quantos serão os mortos? O número total é incerto. Não há possibilidade de estatísticas precisas. Quantos terão morrido nas montanhas, ou deserto, cujos corpos jamais foram encontrados? A Universidade de Houston fez um estudo considerado o mais completo sobre o assunto. Nos últimos quatro anos, teriam morrido pelo menos 1.185 imigrantes durante a tentativa de cruzar a fronteira e chegar a porto seguro. Muito mais do que as baixas dos que tentavam atravessar o Muro de Berlim, onde, em cerca de 30 anos, morreram 807 pessoas.

Entrevistada sobre essas tragédias, Doris Meissner, a chefe do Serviço de Imigração dos Estados Unidos, declarou que lamentava as mortes dos imigrantes ilegais, mas que o governo norte-americano levará até as últimas conseqüências a aplicação da nova política de imigração. Essa política começou a ser aplicada há três anos, em outubro de 1994, com a criação da "Operação Guardiã" para controlar a imigração ilegal na região de San Diego e Tijuana. Depois, foi criada a "Operação Rio Grande", para fazer a mesma coisa na fronteira do Texas. Esses esforços fazem parte de um plano estratégico de prevention through deterrence (prevenção por meio da intimidação) anunciado pelo presidente Clinton em julho de 1994 e cujo objetivo é conseguir o controle efetivo dos 3 mil quilômetros de fronteira com o México.

Em julho de 1997, a mesma Doris Meissner anunciara que a maior parte dos novos recursos seria destinada à fronteira sul do Texas, em Laredo, McAllen e Brownsville, mas sem deixar de reforçar o muro em San Diego, Nogales e El Paso, pontos aos quais tem sido dada maior ênfase até agora. Um reforço apoiado na combinação de nova tecnologia e aumento do contingente. Estão sendo contratados novos agentes da patrulha fronteiriça, inspetores dos pontos de entrada, investigadores, analistas de informações e oficiais de imigração. Uma grande variedade de equipamentos de alta tecnologia também está sendo providenciada: aparelhos de infra-vermelho de longo alcance, câmeras de TV e monitores com capacidade para "ver" no escuro, sensores, luzes, rádios de alta potência e sistema de identificação biométrica.

Congresso autorizou a ampliação da Border Patrol para 10 mil agentes, número a ser alcançado em 2001. A ampliação já vem ocorrendo. Só no Texas e Novo México, o número de agentes passou de 1.756 para 2.693 entre 1993 e 97, mais de 50 por cento. E vai continuar crescendo. Uma grande quantia, 3,1 bilhões de dólares, foi destinada à operação.

Fui ao encontro de Raul Ramirez, um dos responsáveis pelo Centro de Apoio ao Migrante em Tijuana. O Centro é um órgão da Secretaria de Direitos Humanos do PRD, Partido da Revolução Democrática, e funciona numa sala do centro da cidade. Dá apoio aos imigrantes, põe advogados à disposição, ajuda-os a voltar a seus lugares de origem. Parte do trabalho é entrevistar todos os imigrantes ilegais capturados pela "migra", no momento em que são deportados. Raul me deu cópias de numerosos depoimentos relatando violências, humilhações e outras irregularidades cometidas contra imigrantes pela polícia norte-americana da fronteira, pelos fiscais aduaneiros e pela polícia mexicana.

Uma mulher capturada em Tijuana: "...cruzamos aproximadamente às duas da manhã por um buraco por baixo do muro. Para não sermos descobertos pela migra, decidimos ir de joelhos pela pedraria até onde fosse possível. Avançamos assim com grande dificuldade, muito frio e os joelhos feridos, até quatro e meia da manhã... Então, os agentes da migra nos pegaram. Riam e caçoavam da gente. Estavam acompanhando tudo desde que passamos pelo muro. Parece que têm uma lente especial para ver na escuridão. Deixaram que nos arrastássemos de joelhos para nos humilhar e divertir-se às nossas custas. No escritório, ficharam e fotografaram a gente. Pedimos algo para fazer curativo nos joelhos, mas um oficial negou dizendo que aquilo não era um hospital".

Pego outra ficha ao acaso: "7 de abril de 1997. Jorge Godich Hurtado, 56 anos, detido ao cruzar a fronteira em San Isidro. Agente da patrulha fronteiriça atirou-o de um barranco. Esteve oito dias hospitalizado em San Diego, com fratura da clavícula esquerda. Teve parada cardíaca. Ao sair do hospital, foi deportado de madrugada, sem ser registrado no Centro de Detenção. Assaltado em Tijuana".

Outra ficha: "21 de agosto de 1997. Celestino Maldonado Eleuterio, 36 anos. Detido nas montanhas, perto de Tecate, região de Tijuana. Agente da patrulha fronteiriça prendeu-o, golpeou-o na cabeça com o punho. Insultou-o e o ameaçou de morte. No dia seguinte, foi deportado".

A polícia mexicana, mais arbitrária e corrupta, persegue, espanca e rouba os migrantes. Diz uma ficha de 14 de maio de 1997: "Eduardo Peinado Aguilera, 26 anos, recém chegado a Tijuana, caminhava pela rua quando foi interceptado por policiais. Bateram-lhe no rosto para que não pudesse identificá-los. Insultado. Tomaram-lhe a carteira, rasgaram sua certidão de nascimento, seu título de eleitor do Estado de Guanajuato, o certificado militar e a carteira de motorista. E ficaram com 350 pesos (o equivalente a 45 dólares)".

Vejo fichas de detenção de mexicanos que viviam nos Estados Unidos sem documentação e que, deportados, foram forçados a separar-se da família:

"18 de junho de 97. Jesus Machuca Jaramillo, 29 anos, detido em Los Angeles. Em 13 de junho, atende convocação ao escritório da imigração, onde tem cancelado o cartão provisório de trabalho. Sob pressão, assina documento de "saída voluntária" e é deportado de imediato. Deixou em Los Angeles a esposa grávida e dois filhos nascidos nos EUA. Tinha 12 anos de residência no país."

"1 de julho de 97. Susana Santos Lopes, 34 anos, detida em Santa Ana, Califórnia. Trabalhava há dois anos na plantação de tomate, ganhando 4,5 dólares por hora. Em 30 de junho, o Serviço de Imigração a deteve no local de trabalho. Foi deportada imediatamente. Disse aos agentes que tinha dois filhos esperando por ela, em casa, nascidos nos EUA, mas não lhe deram atenção".

Senti um arrepio. Páginas e páginas de fria violência contra pessoas humildes. Humilhações, desterros, separação forçada de famílias. Onde já vimos esse filme? Raul Ramirez chama atenção para o rigor das novas leis de migração nos Estados Unidos:

"Legalizaram o ilegal. Idéias conservadoras, o tradicional discurso antiimigrante foi transformado em lei. É uma manobra para agradar o eleitorado norte-americano, e ao mesmo tempo, lançar em descrédito e preconceito a população imigrante no país. Antes, se um imigrante cometesse uma falta administrativa - uma agressão ou até mesmo uso de drogas - podia contratar um advogado para se defender. Ia à Justiça, o caminho usual. Agora, não. Mesmo faltas menores se converteram, pela lei de setembro de 1996, em delito federal, felonia. A pessoa é sumariamente expulsa, sem julgamento. E criou-se a punição retroativa. Se a pessoa vai a um órgão do governo para obter um documento e, ao levantarem sua ficha, for encontrada alguma falta cometida cinco ou dez anos atrás, será expulsa do País."

A Procuradora Geral do Governo, a poderosa Janeth Reno, deu entrevista em 31 de outubro anunciando que, em 1997, até aquela data, 112 mil imigrantes que viviam ilegalmente nos Estados Unidos haviam sido deportados. Um aumento de 62 por cento sobre 1996. Outros 90 mil, ameaçados de processo por infringir a nova legislação, deixaram o país "voluntariamente". Reno disse que "a estratégia de criar uma rede de vigilância tanto na fronteira como nos lugares de trabalho está funcionando".

A conseqüência, segundo Raul Ramirez, é que a comunidade de imigrantes está sob um clima de angústia, aterrorizada:

"Muita gente está mergulhando na clandestinidade. Porque há cerca de um milhão de pessoas que estão há muitos anos nos Estados Unidos, não se legalizaram em 1986, quando houve uma anistia geral, e agora temem ir a um escritório do Serviço de Imigração para se legalizar e, em vez disso, serem sumariamente expulsas. Isso tudo é perigoso. Cria um cidadão de segunda classe. É uma legislação que contraria as tradições desse país cuja grandeza foi construída por imigrantes".

Raul conclui: "Eles sabem que erraram a mão, que exageraram. Dificilmente voltarão atrás, mas estão receosos pela repercussão. Doris Meissner e o seu pessoal do Departamento de Imigração têm feito grandes esforços para evitar que cresça o impacto negativo dessa política junto à opinião pública. Eles temem um movimento de mobilização em defesa dos direitos humanos como ocorreu há dois anos contra a lei de imigração discriminatória na França."

Temendo ou não qualquer impacto, no final de outubro, o Congresso votou a favor do adiamento da expulsão em massa dos que não houvessem conseguido o Green Card até 7 de novembro, algo em torno de um milhão de imigrantes. Pagando uma multa de mil dólares, essas pessoas poderão agora aguardar nos Estados Unidos a resolução do processo de sua legalização. Mas todos os que estiverem ilegalmente no país deverão se apresentar à Imigração até 14 de janeiro de 1998. Quem não se apresentar...

Os astronautas que foram à lua viram de lá a Muralha da China, que tem mais de 3 mil quilômetros. Lembrei disso quando o avião decolou de San Diego rumo a Tucson, no Arizona. Ele fez uma volta sobre Tijuana e eu pude ver nitidamente o muro saindo das águas do mar, separando as duas cidades e seguindo em linha reta até as montanhas. Ali começam os 3 mil quilômetros da muralha americana ainda em construção. Quem sabe algum dia um astronauta também a veja da lua...

A caminho de Nogales

Aluguei um carro em Tucson e segui para a fronteira na região do deserto de Sonora. Fui pelas rodovias 86 e 85, atravessando as reservas indígenas de San Xavier e Papago: o que vi de passagem, foram duas aldeias miseráveis em meio a grandes cactos e cascalho grosso. Cheguei à fronteira, à cidadezinha de Lukeville, de frente para a mexicana Sonoita. Entre elas, o muro, aqui convertido num alto alambrado que se estende até a montanha mais próxima. Era domingo e havia muitos norte-americanos com seus trailers e camionetes voltando do fim de semana no deserto mexicano.

Não conhecia um ar tão seco. Sentia os lábios e a pele ressecados. As costas das mãos e os braços, que estavam expostos, ficaram engelhados, formaram-se pequenas escamas. Pela manhã, fez frio, mas, no meio do dia, o sol e o vento forte haviam eliminado qualquer umidade. Compro água numa loja 24 horas. Falo do calor com o caixa e ele me responde que estou com sorte por vir no outono. "No verão, aqui é o inferno".

O vento levantava poeira e arrastava rolos de capim seco – os teembleweeds –, como nos filmes. Não havia quase ninguém pela rua, mas as peruas da Border Patrol estavam. Pensei nos imigrantes ilegais que ousam passar pelo deserto. O mais difícil depois de atravessar a cerca é caminhar por esses vazios até lugares habitáveis. As cidades estão longe – Phoenix a 200 km e Tucson a 250 km. Mas eles sempre conseguem chegar lá. Tem gente interessada em que cheguem. Por exemplo, ninguém revista os trailers dos norte-americanos... Há tratos assim: "você atravessa o muro e eu o apanho mais adiante numa curva da estrada". Que patrão americano não almeja um empregado baratinho e obediente?

A caminho de Nogales, tomo a rodovia 19 e depois a 89. Os nomes por aqui são todos espanhóis: San Antonio, Encanto, Santa Cruz. Ou então, nomes indígenas: Auto Peças Cochise. A vegetação é mais rala que a do nosso sertão nordestino. Há um capim que lembra o barba-de-bode que, talvez pela aproximação do inverno, está secando, ficando amarelo. A imagem é bonita. Ao fundo, montanhas escarpadas, refletindo o sol da manhã. Largas distâncias, até onde a vista consegue alcançar, e a cor predominante é um verde-escuro, acinzentado.

[Ver mais]

O muro americano

Viagem pela fronteira do mundo global
(continuação)

Reportagem e fotos de Carlos Alberto de Azevedo

As duas Nogales

O Velho Oeste é aqui. Pelo caminho, bares com chifres de boi na fachada, carroções e cactos na decoração. Os homens usam chapéu de caubói, mas não se vêem cavalos. Foram substituídos pelas camionetes. No rádio do carro, música country ou música mexicana. É a fronteira. Cinqüenta quilômetros antes de Nogales, já dou com uma daquelas camionetes reforçadas da Border Patrol. Primeiro sinal de que a imigração ilegal é forte nesta área.

Nogales, Arizona, nos Estados Unidos, quase se esconde de quem está chegando.
É uma cidade de casas de teto baixo, típicas do deserto, semi-ocultas pela vegetação. Nas ruas, não se avista ninguém. Estaciono o carro. Caminho cem metros. Passo pela Alfândega, estou no México, fácil assim.

Nogales, Sonora, é uma cidade pobre, com um comércio de recuerdos para turistas ianques. E muita gente pelas ruas –desempregados, biscateiros, camelôs. Aqui o mesmo tipo de muro de chapas de metal reaparece reforçado, agressivamente equipado com câmeras de TV e sensores, separando as duas cidades de ponta a ponta. É todo cimentado por baixo, não dá para cavar como em Tijuana. Mas logo vejo uma passagem: os imigrantes sobem num galho de uma árvore próxima e ele se verga por cima do muro. Dali, é um pulo.

Cena do cotidiano em uma feira de artesanato em uma das duas Nogales.
Esta é a do lado mexicano da fronteira

Há um túnel de águas pluviais, largo e com mais de um quilômetro de extensão, que começa do lado norte-americano e termina do lado mexicano. Os ilegais costumam seguir por ele. Conta-se que, certa ocasião, uma chuva repentina provocou uma enxurrada que surpreendeu um grupo dentro do túnel. Morreram todos afogados.

Andando por um bairro popular da Nogales mexicana, encontro uma casinha com uma inscrição na fachada: Partido da Revolução Democrática. Converso com alguns dirigentes locais do partido. Sugerem que eu procure o Centro local de Apoio ao Migrante. Um dos advogados do Centro, Enrique Burgos, muito falante, me informa que a média é de 150 imigrantes ilegais deportados por dia. Mas que assim mesmo muitos conseguem passar. Vou até o portão por onde a "migra" deporta os ilegais. E descubro um grupo de rapazes que acabou de "voltar". Contam que já haviam caminhado um dia pelo deserto quando foram capturados. Estão sujos e cansados. Ficaram detidos por uma noite. Foram maltratados, humilhados? Respondem que não. Vão tentar de novo? "Sim, claro. Já chegamos até aqui, vamos adiante. Queremos trabalho", diz o mais desembaraçado. Não interessa trabalhar nas maquiladoras de Nogales? "Não, porque o salário é de fome", diz outro. E ficam a conversar com o representante do Centro de Apoio ao Migrante, que lhes oferece alojamento, comida por alguns dias e passagem de ônibus de volta às suas casas no interior. Mas por que voltar, se não há trabalho?

Uma coisa está me intrigando. Pergunto a Enrique Burgos: como o PRD, um partido de oposição, consegue recursos para instalar esses centros pela fronteira e ajudar os imigrantes? Ele diz que a ajuda aos imigrantes é obtida junto às prefeituras e ao Serviço Nacional de Imigração. Mas que a implantação desses centros e diretórios pelo país é fruto de uma opção do PRD. O partido decidiu gastar só a metade dos recursos do Fundo Partidário em propaganda eleitoral. A outra metade está sendo destinada a manter inúmeras entidades de defesa dos direitos da população mais pobre e migrantes.

Tombstone, a cidade do faroeste

De Nogales a Tombstone, são 80 quilômetros pela rodovia 82, uma estrada secundária, mas de boa qualidade. A Tombstone de hoje é uma cidade inventada pelo cinema. O episódio envolvendo os irmãos Earp e o "OK Corral" ocorreram na Tombstone na década de 1880. Essa cidade, que hoje os turistas visitam em massa todos os dias, é filha do mito que Hollywood criou em torno daqueles fatos. Duas ruas, cinco travessas, 300 metros de lojas de roupas de caubói, de todo tipo de recuerdos, um cinema onde se exibem filmes de faroeste todo o tempo, bares que logo de manhã (às dez horas já há gente bebendo) e onde se pode fumar à vontade. A única proibição, que se vê por toda parte, embora verdadeira, adquire tom de ironia: não se pode andar armado.


Tombstone, a cidade do histórico tiroteio
no OK Corral, recriada para o turismo
Carroções puxados a cavalo levam a um tour pelas vizinhanças. E no fim da rua, lá está ele, o lendário OK Corral, com cara de prédio antigo. Mas aqui tudo foi reconstruído e maquiado para receber os turistas que chegam. Os irmãos Earp superaram Billy The Kid, Bufalo Bill etc e se tornaram o maior mito da ocupação do Oeste.

E nada poderia se ajustar melhor ao caráter rapinante da ocupação do Oeste do que a elevação dos irmãos Earp ao pódio de seu maior mito. Os Earp, Doc Holiday e Bat Masterson formavam um bando de malfeitores. Estiveram envolvidos em pelo menos um assalto à diligência. Eram jogadores de baralho itinerantes, bêbados, pistoleiros de aluguel, conforme o livro The Earps Brothers of Tombstone, de Frank Walters, editado pela Universidade de Nebraska.

Estando aqui me surpreendo ao ver que várias dessas cidades que ficaram famosas por causa dos filmes de faroeste estão na própria fronteira com o México: Yuma, Nogales, Tombstone, Laredo. Nos filmes isso é quase sempre omitido. Como também não mostram que a maioria da população desses lugares é de origem mexicana, uma maioria que não é fruto apenas da imigração. Todo mundo sabe, mas nem sempre lembra que o sudoeste dos Estados Unidos – Califórnia, Arizona, Novo México – pertencia ao México até 1848, quando foi anexado por força de uma guerra. E também o imenso Texas, que já havia sido tomado alguns anos antes.

Roberto Martinez, advogado de San Diego e cabeça do American Friends Service Commitee, uma respeitada entidade de defesa dos direitos humanos da Califórnia, havia me chamado a atenção para isso:

"O absurdo dessa discriminação contra os mexicanos é que nós estávamos aqui antes. Eu, por exemplo, sou um autêntico cidadão norte-americano. Há seis gerações, minha família está na Califórnia. Nós não viemos do México. O México era aqui, houve a guerra, a Califórnia tornou-se parte dos Estados Unidos e nós, como milhares de outras famílias mexicanas, continuamos a viver aqui. No entanto, fomos sempre discriminados, eu, desde que me lembro, na escola, no trabalho, tenho sido discriminado".

Martinez aponta o lado oculto da ocupação do Oeste: a violência dos imigrantes de origem européia que vinham do Leste para tomar as fazendas dos rancheiros mexicanos que viviam ali. Isso virou uma "limpeza do terreno" depois da guerra de 1848. Lembra que a Border Patrol foi criada em 1924, mas que no passado era pior. Havia os Rangers, cuja função era massacrar fazendeiros mexicanos e índios e expulsá-los para além das novas fronteiras.

Seguindo pela rodovia 80, logo cheguei a Douglas, uma simpática cidade num cantinho do Arizona, fronteira com Água Prieta, no Estado mexicano de Sonora. Aqui o muro está em construção. Só os pilares estão implantados. Os dois países estão separados apenas por um valo de águas pluviais. O que obriga a uma intensa atividade da Border Patrol. Vi três viaturas percorrendo incessantemente a linha de fronteira. Um dos patrulheiros me disse que a construção do muro está atrasada, já devia estar pronta há algum tempo. E lamenta porque isso aumenta o trabalho, 24 horas por dia. Mas admite que mesmo assim muita gente passa por ali. "Nós capturamos uns 30 por dia".

O drama dos que já trabalham do lado americano

A menos de 100 metros de distância, vejo um grupo de rapazes do lado mexicano. Eles acompanham atentamente os movimentos dos carros da patrulha. Atravesso a fronteira e vou ao encontro do grupo. Próximos à Alfândega, dois deles estão conversando. Um encoraja o outro enquanto fica de olho na patrulha: "Dá pra cruzar agora. Vai. Toma decisão e vai", fica insistindo. Deve ser um pollero. O outro vacila. E quando me vê fotografando, desiste de vez. Chama-se Giovani, tem 23 anos. Vive como ilegal nos Estados Unidos, veio visitar parentes e está voltando. Veste roupa limpa e usa gel no cabelo. Conta que está esperando a legalização dos papéis e enquanto isso vai tentando voltar como ilegal. Com o processo de legalização em curso, decidiu visitar parentes no México. Na volta, tentou cruzar legalmente e foi impedido. "Vou passar hoje, a qualquer momento, agora ou mais tarde", diz. Perto dele, há outros rapazes claramente com a mesma intenção. Há algum nervosismo, mas conversam e dão risada. Falam comigo em "espanglês". Dão as costas quando tento fotografá-los, mas não me hostilizam.

Por que tentam passar assim pertinho da Alfândega e não vão mais longe, lá perto das montanhas? Riem. Giovani explica: "Lá a gente sai no mato, não há ônibus por perto, e sim há bandidos que nos assaltam. E, também, se ficamos andando por lugares isolados, é mais fácil de a "migra" nos pegar.

Lembra que, na primeira vez, passou com apoio de um coiote (ou pollero). "Fui levado para uma casa. Mais tarde me puseram num carro e me levaram para Phoenix. Fiquei em outra casa até arranjar um lugar meu". Giovani gosta de trabalhar nas grandes cidades, como Phoenix, Tucson. Faz entregas para supermercados ou de comida pronta nas casas (o chamado delivery). Acha bom poder trabalhar até doze horas por dia e ganhar de 50 a 80 dólares. "Consigo ganhar 300 dólares por semana, de oito a dez vezes mais que no México, onde não passo de 250 pesos por semana (1 dólar igual a 8 pesos).

Enquanto conversamos, as cenas vão se desenrolando à nossa frente, como num filme. As viaturas da patrulha passam para lá e para cá. Dois patrulheiros vêm até o portão trazendo um rapaz. Um deles abre o portão e faz o rapaz passar para o lado mexicano. Mais um deportado. O rapaz vem em nossa direção. É conhecido de Giovani. Cumprimentam-se familiarmente, perguntam por parentes. O rapaz se despede dizendo que amanhã vai cruzar de novo.

Brinco que cruzar a fronteira parece um esporte, o esporte nacional do México. Giovani contesta. Diz que vão por necessidade, muitos nem vão. Preferem ficar na pobreza do que enfrentar a amolação, a humilhação e a perseguição que sofrem nos EUA.

Então, por que você não fica trabalhando no México? - pergunto.

"Porque no México os patrões querem ganhar tudo, você trabalha para eles e não pra você. Nos Estados Unidos, o que você ganha é seu".

Comenta de novo os baixos salários no México. Faz uma comparação simplória para explicar a diferença: "No México, com 200 pesos, você não compra uma calça. Nos EUA, com 200 dólares, você compra dez calças. Com 300 pesos, mal dá para fazer a feira. Com 300 dólares, dá para fazer muitas feiras".

Outra cena: um homem vai até a vala que separa os dois países. É um pollero e observa a patrulha. Acena chamando dois rapazes. Eles vão ao seu encontro. Começo a fotografar. Ele manda que corram para dentro da vala. Eles obedecem, correndo agachados. Faz sinal para que aguardem um pouco. Em seguida, manda que subam pela borda oposta e parem quase no topo, ainda agachados. Três carros da patrulha estão estacionados a uns 200 metros. Fora dos carros, os policiais batem papo ao sol do meio-dia. O pollero dá a ordem: "Corram!" E eles correm à toda velocidade até sumirem atrás da parede de um armazém. Tudo aconteceu muito rápido. Olho para os policiais. Continuam a conversar calmamente. Que coisa! Não viram nada? Até parece combinado. É como se eles dessem uns intervalos para os ilegais cruzarem. Procuro o pollero, mas ele evaporou. Vou embora deixando-os, policiais e imigrantes, naquela estranha rotina.

Índios, página virada na história

Continuando pela rodovia 80, chego na divisa entre Arizona e Novo México. A paisagem é grandiosa. Largas pradarias com criação de gado em pastagens irrigadas artificialmente. A tarde vai sendo iluminada por uma luz dourada. Ao fundo, altas montanhas. São as Montanhas Chiricahua, nome de uma tribo de índios guerreiros que faziam parte do povo apache. Aqui viveram milhares de índios por muitas gerações. Agora, não se vê ninguém ao longo dessas enormes extensões de terra. De vez em quando, gado pastando.

À margem da estrada, uma placa indica: "Skeleton Canyon". Estaciono no meio da campina silenciosa, ao lado de um obelisco de pedra de uns 4 metros de altura. E fico sabendo que aqui se deu o último combate entre o Exército dos Estados Unidos e os índios. O monumento marca o lugar onde Gerônimo, o último grande chefe apache, rendeu-se ao general Nelson Miles, em 6 de setembro de 1886. Na placa, se lê: "A rendição de Gerônimo em Skeleton Canyon nesta data histórica encerrou para sempre as guerras indígenas nos Estados Unidos".
Monumento à rendição do chefe apache Gerônimo, no Skeleton Canyon

Terminava ali um período de trinta anos de violência em que todas as tribos indígenas dos Estados Unidos foram massacradas e subjugadas pelo exército norte-americano e por grupos de mercenários. "Foi uma época de cobiça, audácia, sentimentalismo, exuberância mal orientada e de uma atitude quase reverente para com o ideal de liberdade pessoal, por parte dos que já a possuíam", conforme escreveu Dee Brown em seu famoso livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio.

No final desse período, a cultura e a civilização do índio americano estavam destruídas. Os remanescentes das tribos foram recolhidos em reservas. E se produziu esse imenso vazio que avisto daqui, ocupado apenas por bois. É dessa época que vieram praticamente todos os mitos do Velho Oeste. A partir de então, todo o território do País estava "livre" para a realização do "Destino Manifesto", a afirmação da superioridade do homem branco. Afirmação que continuou pelo século 20, estendendo-se por todo o mundo. No México, que no século 19 foi traumatizado pela perda de dois terços do seu território, esse Destino Manifesto se traduz atualmente pela "integração" de sua economia à economia norte-americana. É um processo de tal forma intenso e irresistível que um jornalista de Tijuana, Enrique Sanchez Diaz, diretor do jornal El Mexicano, o compara a uma segunda guerra de anexação, "agora, sem armas", diz. Esse processo pode ser visto a olho nu nas cidades da fronteira.


[Ver mais]


O muro americano

Viagem pela fronteira do mundo global
(continuação)

Reportagem e fotos de Carlos Alberto de Azevedo

As maquiladoras

Em Tijuana, como em Ciudad Juarez, em Nogales, Nuevo Laredo, Reynosa, Matamoros, as maquiladoras são o acontecimento da década. Seu número chega a 800 na área de Tijuana e Mexicali, 100 em Nogales, 350 em Ciudad Juarez, 60 em Nuevo Laredo, 100 em Reynosa, 120 em Matamoros, e assim por diante. Números provisórios porque, a cada mês, surgem outras. Nos últimos anos, já não ficam somente na região de fronteira, vão se instalando mais para o interior, em Chihuahua, Monterrey, Guadalajara e outras localidades.


Para o jornalista Arturo Solis ,
de Reynosa, as maquiladoras não fazem parte de economia mexicana

Mas quem se encomoda com isso? Todo mês novas empresas chegam ao país...

Maquiladoras, como o nome indica, são empresas de montagem e acabamento de produtos para exportação, instaladas em território mexicano. A grande maioria é norte-americana, mas há também japonesas, canadenses, coreanas. Elas trazem peças e componentes, que foram fabricados em outros países, para montar os produtos no México. Principalmente eletro-eletrônicos, peças de automóveis e têxteis (peças para serem costuradas). Montados, os produtos são embalados, embarcados em caminhões, trens, aviões e exportados para os Estados Unidos e outros mercados.

Esse não é um fenômeno puramente mexicano. O México é um exemplo, talvez o mais evidente, de um processo em escala mundial. A persistente queda de produtividade na indústria dos EUA tem empurrado suas empresas a espalharem-se pelo mundo em busca de redução de custos. E a forma mais óbvia e aparentemente a mais bem-sucedida de alcançar esse objetivo tem sido desfrutar dos baixos salários da força de trabalho dos países do Terceiro Mundo. Processo que tem outra conseqüência: a concorrência dos baixos salários além-fronteira enfraquece o movimento sindical norte-americano, reduz o poder de negociação dos sindicatos. E tem contribuído efetivamente para conter o aumento do valor dos salários não só na indústria, mas nos serviços e em toda a economia interna dos Estados Unidos.

Daí, numerosas empresas norte-americanas terem encerrado atividades nos Estados Unidos ou transferido pelo menos partes de suas linhas de produção para o México e para países da Ásia e da América Latina. Pelo sistema adotado, uma de suas plantas fabrica um componente em Hong Kong, por exemplo, que será inserido no produto de sua filial de Tijuana. E o que se acrescenta ao valor do produto em cada etapa é o valor do trabalho novo agregado. Isso é tanto mais lucrativo quanto menor for o valor da força de trabalho nele aplicada.

Tal tendência tem mostrado ser o caminho da sobrevivência da indústria norte-americana. E, salvo um cataclisma que reverta todo o processo, essa industrialização globalizada parece ser um caminho sem volta.

As primeiras maquiladoras chegaram ao México em 1965. No início, tiveram um progresso lento. Depois, o incremento foi se acelerando. Em novembro de 1994, um mês antes da crise que derrubou a economia mexicana, as maquiladoras já eram 2.163 e empregavam 497 mil trabalhadores. Com a crise, os juros repentinamente altos levaram à bancarrota 28 mil pequenas e médias empresas mexicanas. E dois milhões de empregos desapareceram. Mas as maquiladoras não foram abaladas, muito ao contrário.

O outro lado da débâcle mexicana foi a desvalorização do peso em 27 por cento, que significou uma desvalorização igual do valor real dos salários, que foram ficar entre os mais baixos do mundo. E tornaram o México ainda mais atraente para as maquiladoras. Sem contar outras vantagens: a eliminação das barreiras alfandegárias por meio do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, que acabava de ser assinado; a desorganização do movimento sindical dominado pelo peleguismo; e um crescente afrouxamento do governo mexicano no que se refere às exigências quanto à proteção ao meio ambiente.

É sabido que os salários na Ásia são baixos. Mesmo assim, antes da crise que no final de 1997 se abateu sobre os "tigres" asiáticos, os salários no México eram muito mais baixos. Dados comparativos de salários na indústria maquiladora, em fins de 1996, em dólares por hora:

Cingapura: 5,16

Coréia: 5,14

Taiwan: 4,83

México: 1,47
O salário real continua caindo. A taxa de inflação anual no México anda pelos 15%, enquanto o reajuste salarial anual tem sido de 5%.

O resultado foi explosivo: depois da crise mexicana, houve uma corrida das maquiladoras para o México, em busca da força de trabalho barata. Assim, comparando com 1994, o salto foi espetacular: no final de 1997, as estimativas eram de que estavam implantadas no México 3.650 maquiladoras e o número de empregos havia dobrado. Agora elas empregavam 1 milhão de trabalhadores. A taxa de crescimento do emprego nas maquiladoras nos últimos dez anos tem sido de 12% ao ano e a tendência se manteve em 1997.

A maioria são empresas norte-americanas, mas até mesmo empresas da asiáticas se encorajaram a tirar vantagem das excepcionais condições oferecidas pelo México. As maquiladoras usam alta tecnologia e métodos sofisticados de organização do trabalho. Esse fato, associado aos salários baixos e com valor real decrescente, resulta num consistente incremento de produtividade. E tem mais, ao instalar-se na fronteira, essas empresas ficam na vizinhança do maior mercado do mundo, o norte-americano. Não é por outra razão que a maior de todas as fábricas da Sony instalou-se ali.

Após o NAFTA, as condições são ainda mais promissoras, porque esse acordo inclui disposições no sentido de liberar progressivamente a venda dos produtos das maquiladoras também para o mercado mexicano, que é um país de 96 milhões de habitantes, habituados aos produtos da indústria norte-americana e japonesa.

Atualmente, com atividade em 30 Estados, as maquiladoras já representam uma considerável parcela da economia mexicana, se é que podem ser consideradas parte efetiva dessa economia (não usam matéria-prima, nem componentes, nem peças, nem ferramentas mexicanas; tudo vem de fora, exceto papel e papelão para embalagem, energia elétrica, petróleo e água). As maquiladoras participam com 15 por cento do valor da produção da indústria manufatureira. E são responsáveis por 50 por cento de todas as exportações do país.

Os defensores da presença das maquiladoras no México citam efeitos indiretos dessa presença, como o desenvolvimento da infra-estrutura e da indústria da construção, com as novas rodovias e aeroportos, prédios e casas, instalação de modernos sistemas de telecomunicações.Dizem que o nível de educação tem se elevado porque as maquiladoras demandam trabalhadores mais treinados, razão da implantação de centros de treinamento técnico e escolas no País.

O que pensam os trabalhadores disso tudo? A maior parte das maquiladoras de Tijuana concentra-se num distrito industrial implantado especialmente para elas. Chama-se Mesa Atay. Por quilômetros, as empresas se sucedem umas às outras. Em muitas, vêem-se faixas de "precisa-se" de empregados, ao lado de faixas de louvor pela conquista de certificados do tipo ISO 9002.

O outro lado dessa história quem conta são as coordenadoras da "Casa de La Mujer", uma organização ligada ao PRD para defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras. Ali fico sabendo que nada menos que 66 por cento dos trabalhadores das maquiladoras são mulheres.

Carmen Valadez, coordenadora, critica a situação de exploração dos trabalhadores, mulheres e homens: "O ritmo de produção é extenuante (resultado dos programas de "qualidade"); há falta de segurança, falta de proteção à saúde, o que leva à contaminação por produtos químicos. Já comprovamos, através de uma investigação realizada pela organização internacional Human Rights Watch, que a discriminação contra trabalhadoras grávidas é prática generalizada, assim como o abuso sexual".

Carmen continua: "As jornadas de trabalho são variáveis segundo as necessidades e conveniências da empresa, freqüentemente sem pagamento de horas extras. Grande número de maquiladoras são têxteis e as costureiras têm os piores salários: cerca de 4 dólares por dia. Os outros ganham de 5 a 6 dólares por dia em média. E a alta rotatividade é a regra: é comum trabalhadores que em poucos anos já passaram por dez a quinze empresas. São demitidos a qualquer momento, sem motivo, e não têm direito à indenização. A alta rotatividade visa manter ou reduzir ainda mais o baixo padrão salarial. Isso é o que se chama desregulamentação do mercado de trabalho".

Segundo ela, os sindicatos oficiais, ligados ao PRI, partido do governo, omitem-se, evitam manifestar-se, pois não querem criar dificuldades para as maquiladoras. E, tanto quanto as empresas, pressionam a Justiça do Trabalho para não autorizar a organização de sindicatos independentes. Tanto que em todo o México, até agora, só foram organizados dez deles. E um único em Tijuana, inaugurado poucos dias antes de minha chegada. No mais, é como se o movimento dos trabalhadores tivesse voltado cem anos no tempo: assembléias nas ruas, passeatas, greves espontâneas que terminam com a demissão dos que são identificados como "cabeças".

Nas raras ocasiões em que os trabalhadores conseguem o mínimo de organização suficiente para pressionar a empresa, esta ameaça fechar as portas e transferir-se para outra cidade. Segundo Carmen Valadez, pelo menos uma empresa coreana fez isso. Fechou em Tijuana e mudou-se para uma cidade do interior, La Paz, em busca de trabalhadores mais baratos ainda e mais "compreensivos": "O Prefeito de La Paz fez uma festa. Em seu discurso cumprimentou a empresa por ser ‘reconhecidamente respeitadora dos direitos dos trabalhadores’. Só se for a partir de agora, porque até hoje não foi".

Rumo a El Paso

Voltei à rodovia 10 e viajei 350 quilômetros para sudeste. Deixei o Novo México e entrei no Texas. Meu destino é El Paso. Nesse exato ponto, o Rio Grande (Rio Bravo del Norte, para os mexicanos) alcança a fronteira. Suas águas escuras já chegam poluídas do interior dos Estados Unidos. É uma torrente estreita, não excede aos 60 metros em largura, mas corre veloz separando El Paso de Ciudad Juárez.


O Rio Grande separa as duas cidades. Neste ponto da fronteira cruzam 6 milhões de pessoas por mês

As bandeiras marcam fronteira em
El Paso e Ciudad Ruarez



Aqui estão acontecendo dois grandes movimentos. O primeiro é o alucinante ritmo de crescimento de Ciudad Juárez: de uma população de 400 mil em 1970 para 800 mil em 1990. E, em 1997, seus habitantes já são estimados em 1 milhão e meio. Pode até ser mais, porque as autoridades mexicanas perderam o controle da onda migratória. São levas chegando todo dia e ocupando desordenadamente terrenos nas encostas dos morros. Buscam emprego nas maquiladoras. Vêm dos empobrecidos Estados do sul, deixando atrás de si povoações e lavouras abandonadas. Das colinas de El Paso, o panorama que se tem de Ciudad Juárez lembra um formigueiro. Mas El Paso também cresce. Sua população duplicou em vinte anos.

O segundo movimento é o entrelaçamento das duas cidades, mais que interdependentes, formando um amálgama econômico, racial, político, cultural. Os principais empresários e políticos de El Paso são descendentes de mexicanos. Os negócios começam de um lado e terminam do outro. As línguas se misturam até nas emissoras de rádio, que alternam a locução em inglês e o anúncio em espanhol. Pelas várias pontes que unem as duas cidades, registram-se mais de 70 milhões de entradas de pessoas por ano. É que grande parte dos habitantes de Juárez trabalha em El Paso. Quem trabalha nas maquiladoras são os imigrantes que vieram do sul. É como uma escadinha para o paraíso ianque do consumo.

Em Ciudad Juárez, conheci Alex Perez, um tipo índio, pele morena escura, alto e forte, 27 anos. Já viveu sem documentos nos Estados Unidos, depois trabalhou por mais de dez anos em maquiladoras, passou por mais de 20 delas, organizou movimentos reivindicatórios, participou de greves. Hoje se autodefine como organizador dos trabalhadores. É um militante profissionalizado da Frente Autêntica do Trabalho, uma entidade de origem católica, próxima da Teologia da Libertação, cujo objetivo é a livre organização dos trabalhadores, independente dos partidos e do governo.

Ele me mostra uma das treze áreas industriais da cidade, o Parque Industrial Bermudez, a maior concentração de maquiladoras de Juárez. Caminhamos entre dezenas de fábricas por duas horas num lugar onde, segundo suas palavras, "há três anos, só havia areia e pedra".

Se há emprego aqui, porque continuam imigrando? – pergunto. Alex não tem dúvida de que o impulso maior que empurra os mexicanos para os Estados Unidos é a necessidade. Mais do que o desemprego, que também há, os salários são baixos demais para permitir uma vida minimamente digna. Ele mesmo, quando mais jovem, cruzava a fronteira ilegalmente para ir trabalhar em El Paso. Conta que sempre havia trabalho: pintar uma casa, aparar a grama. Ou então, trabalhava à noite na faxina de bares, restaurantes, cinemas, fazendo parte da multidão invisível que de manhã estava de volta ao México, cada um com 60 dólares (12 horas de trabalho a 5 dólares por hora): "Compare isso com o salário médio nas maquiladoras: 4,5 dólares por dia (35 pesos) por uma jornada de 9 horas. Quer dizer, numa hora de trabalho nos Estados Unidos, ganha-se mais do que num dia inteiro de trabalho aqui".

Vamos passando diante da Sanyo, Alex comenta: "Os japoneses são os mais "negreros" (exploradores). Promovem jornadas de trabalho de ritmo extenuante". Em frente à fábrica de lâmpadas Silvanya, lembra que ali participou de uma greve de dois dias. Aponta a RCA: "Essa fábrica tem história. Trabalhei vários anos aí. O gerente era muito "negrero". Como sempre, "corrieran comigo" (me demitiram)". E assim vai falando da GE, da Zenith, da Sony...

Digo que quero conhecer sua casa. Viajamos em pé num ônibus lotado. A viajem demora quase uma hora. Passamos por belos bairros, restaurantes finos, depois por bairros populares. O asfalto acaba, o ônibus começa a subir pelos cerros. Descemos no fim da linha, no alto de um morro. Caminhamos por ladeiras até sua casa, cinzenta, cor de terra, feita de terra. As paredes são baixas, de adobe, grande tijolos feitos à mão com barro e gravetos. O teto é do mesmo material, acrescentado de cimento. A casa tem dois cômodos. Num, fica a cozinha, onde mora a sua sogra. No outro, vive com a mulher e dois filhos, um quarto grande, de chão cimentado, sem mesa, nem cadeiras. Só a cama de casal e outra, de solteiro, encostadas uma na outra. Uma cômoda, um armário para as roupas e, destoando de tudo, uma bela cristaleira, certamente herança de família. E uma velha televisão preto e branco, sempre ligada.

Cláudia, sua filhinha de dois anos, vem correndo e pede colo. Alexandre, de 6 anos, está fazendo a lição da escola. E Verônica, a esposa, jovem e comunicativa, dá uma arrumada na casa. Às dez da noite, deverá sair, pegar o ônibus para ir trabalhar numa maquiladora das onze e meia às 6 horas da manhã. Na volta, cuida da casa, vai levar e buscar o filho na escola. Dorme apenas cinco horas e só encontra com o marido das sete às dez da noite.

Alex ganha 50 dólares (400 pesos) por semana. Verônica recebe um pouco mais do que a média de seus colegas, 43 dólares (350 pesos) por semana. Mesmo assim, o salário dela é insuficiente para pagar a feira do sábado, que é de 50 dólares (400 pesos). Alex completa e paga as outras despesas – aluguel, gás, água, luz, transporte, remédios. E quase não sobra nada para comprar roupas e outros confortos mínimos. Com isso vivem, humildemente, os cinco – casal, filhos e sogra. Alex comenta que trabalha desde menino e não tem nada. Essa parece ser a parte que lhe cabe no "milagre" das maquiladoras.

As maquiladoras pagam os salários na sexta-feira às 3 e meia da tarde. Uma hora depois, milhares de moças e rapazes começam a invadir a avenida Benito Juárez, a rua central de Ciudad Juárez. São trabalhadores das maquiladoras. As moças vêm de minissaia e muito pintadas (maquiladas, elas também). Os rapazes, de roupa nova e gel no cabelo. Querem divertir-se numa infinidade de salões de dança, bares e cabarés que já os esperam com portas abertas, muitas luzes e música alta. Dançam salsa, merengue e rock até o amanhecer. Consomem álcool, cocaína, maconha e outras drogas. Há brigas e muita violência policial. Quando se vão, deixam ali parte, senão todo o salário da semana.

"Formar uma consciência operária e promover a organização sindical dessa gente vai ser um trabalho de muito anos", prevê com ar conformado, mas decidido, Beatriz Lujan, coordenadora da Frente Autêntica do Trabalho em Ciudad Juárez.

Sindicato, direitos, greve, quem quer saber disso? Acabaram de chegar do interior paupérrimo, descobriram um mundo novo, estão fascinados por ele. E essa é a melhor parte do que lhes cabe no "milagre" das maquiladoras.


[Ver mais]



--------------------------------------------------------------------------------
O muro americano

Viagem pela fronteira do mundo global
(continuação)

Reportagem e fotos de Carlos Alberto de Azevedo

Final da viagem

Saí de El Paso pela rodovia expressa 10, mas logo a deixei, seguindo pela rodovia 90, e depois pela 67, rumo a Presídio e Ojinaga. Mergulhei de novo em imensos vazios silenciosos, ao longo de 450 quilômetros. Presídio é uma pequena cidade num lugar desolado. Ao entardecer, passei para Ojinaga, a cidade mexicana vizinha. Há extensas áreas de agricultura irrigada nas margens do Rio Grande. E muitos pássaros, bandos de paturi, aves de arribação que devem estar se preparando para viajar ao sul escapando do inverno. E mergulhões e urracas, o pequeno corvo do Norte, fazendo em grupo vôos acrobáticos.

Encontrei alguns homens trabalhando ao ar livre, esculpiam lápides de sepulturas enquanto tomavam cerveja Corona sem gelo. Batemos um papo. Hector Carrasco, o patrão, disse que ainda não viu as vantagens do Tratado de Livre Comércio. O que tem reparado é que "as coisas estão muito paradas. Enquanto os caminhões passam pra lá e pra cá, o povo está mais pobre".

Um homem se junta à roda. Cumprimenta a todos. Abre uma garrafa, toma um bom gole de cerveja. Diz que se chama Arturo Castillo de Leon e que é de Monterrey. Conta que no ano passado entrou ilegalmente nos Estados Unidos, pelas montanhas, na região de Del Rio. A caminhada demorou vários dias. A comida e a água que seu grupo havia levado acabaram-se em pleno deserto. Enfrentaram muito calor de dia e congelaram à noite. Arturo conseguiu chegar às cidades, onde trabalhou como artesão e mecânico de automóvel. Ganhava bem, 60 dólares por dia. Mas foi apanhado pela "migra" e deportado. Agora trabalha em Ojinaga preparando a terra para lavoura por um salário insignificante. Reclama que a terra é dura e é difícil arrancar o mezquite, uma planta nativa, que fixa raízes profundas no solo. Não vê futuro nesse trabalho. E, como o frio já está chegando, pretende arrumar uma carona num caminhão para passar o inverno em Monterrey.

No entusiasmo da conversa diz "tu não imaginas..." falando com o velho Hector Carrasco. Este o adverte de imediato: "Não podes usar tu comigo...", naturalmente porque Arturo é um pobre diabo. Ele se desculpa e continua contando sua história. Eu fico com pena desse homem tão humilde, que ainda assim quer ser generoso comigo: despede-se lembrando de Pelé, "o maior jogador de futebol do mundo!" Olho para o imenso céu azul, para aquele sertão sem fim que esmaga a ínfima vila de Ojinaga. E reflito sobre a fatuidade humana.

Seguindo viagem, passei por Redford, onde, em 20 de maio de 1997, fuzileiros navais em operação de combate ao tráfico de drogas atiraram e mataram um mexicano de 20 anos, Ezequiel Hernandez Jr. As forças militares dos Estados Unidos são proibidas de tomar parte em ações policiais domésticas, por uma lei da época da Guerra Civil. Mas desde 1980, uma força-tarefa dos Fuzileiros Navais vinha dando apoio à ação da Border Patrol contra o tráfico de drogas na fronteira. O incidente repercutiu, a ação dos militares foi suspensa e, no final de outubro, foi definitivamente cancelada. O Congresso rejeitou um projeto de autorização para as forças armadas participarem da guerra contra os cartéis mexicanos da droga, embora houvesse uma grande pressão dos conservadores.


Na manhã seguinte, entrei no Parque Nacional Big Bend, uma grande reserva natural que fica no ponto em que a fronteira forma um cotovelo para dentro do México, acompanhando os canyons que o Rio Grande escavou na Sierra Madre Oriental. É o lugar mais distante e isolado de toda a viagem. A paisagem montanhosa e agreste forma um cenário grandioso.

Apesar do isolamento, as estradas são ótimas, mas não se pode rodar a mais de 60 quilômetros para evitar atropelamento de pássaros e pequenos animais. Fui pelo parque adentro até encontrar o Rio Grande. A escarpa do canyon tem mais de duzentos metros de altura. Nessa região selvagem, certamente as autoridades norte-americanas não precisam se preocupar com a entrada de imigrantes ilegais. Atravessei o parque de lado a lado, tomei a rodovia 385. Em Marathon, voltei à rodovia 90 e continuei rumo a Del Rio, um trecho de uns 500 quilômetros.

Parei num posto de gasolina para abastecer e tomar café. Era um descampado e o vento assobiava arrastando grãos de areia. Do lado de fora, ninguém. Dentro da loja, no caixa, um cinqüentão, alto e magro, vestido como rancheiro, cinturão largo, botas. A cafeteira estava vazia, pediu que eu esperasse, ia fazer um café. Além de cuidar do posto de gasolina, tem um rancho para os lados da fronteira. John Jones é seu nome. Disse que passam centenas de ilegais por dia pela região e que os texanos estão muito preocupados com isso.

Em sua opinião, a imigração ilegal tem de ser contida. Para ele, os imigrantes sobrecarregam o sistema de saúde, de educação, transporte, habitação e de assistência social do País, rebaixando o nível de vida da população. "E a questão do emprego, então? Aqui já não há tanto emprego e eles vêm disputar empregos com os trabalhadores norte-americanos. E, pior: não aprendem a falar inglês, nem fazem força para aprender. Vão formando uma segunda língua, um gueto racial, uma minoria dentro da região. Aqui a língua é o inglês. Então, por que não aprendem? Não têm fidelidade a nosso País."

Qual seria a solução? "Não sei. Mas isso tem de parar, nem que os Estados Unidos ajudem o México a criar emprego para seus cidadãos lá. A pobreza e o desemprego no México são problemas dos mexicanos, não são nossos. Mas estão querendo transferir para os Estados Unidos. Os norte-americanos estão resistindo a isso e vão resistir de várias maneiras." Esse discurso tem ampla difusão entre a população do Oeste. Porém, as mesmas pessoas que dizem isso são as que têm imigrantes ilegais como empregados em suas empresas, lavouras e fazendas. Grande parte da força de trabalho texana é composta de mexicanos. Afinal, querem-nos ou não os querem?

O dilema vai além do querer ou não querer. Na agricultura, por exemplo: um quarto da lavoura de grãos dos Estados Unidos tem de ser colhido à mão. E norte-americano não faz esse trabalho. Sem o braço do imigrante, o preço dos morangos da Califórnia, da laranja da Flórida e das maçãs de Washington, só para lembrar alguns produtos, iriam para o espaço sideral. Especialistas do setor chegam a dizer que alguns vegetais e frutas não teriam condições de ser cultivados nos Estados Unidos sem o trabalho dos imigrantes. E esse quadro se repete em outros setores da economia, como na indústria de construção civil, nos serviços de limpeza pública, na hotelaria, nos restaurantes, bares, casas de diversão, lojas de comércio e assim por diante.

Apesar disso, a oposição à imigração tem respaldo em setores do Congresso, que desenvolvem a tese de que há uma conspiração mexicana com vistas a uma paulatina retomada dos territórios perdidos na guerra de 1848. Uma ocupação disfarçada, que já ocupa extensas áreas dos Estados Unidos, seguindo uma orientação terceiromundista e comunista, dizem.

A repulsa ao estrangeiro não se limita ao mexicano, volta-se contra outros migrantes latino-americanos e asiáticos, cujo fluxo migratório, tanto legal quanto ilegal, se intensificou nos últimos anos. É inegável que a opinião pública norte-americana é hoje mais refratária ao imigrante. Ironia da História, porque esse é um país de migrantes. Essa nova atitude repercute no Congresso e no governo. A conseqüência é o crescente rigor das leis de imigração e das ações de repressão na fronteira, onde esse clima de preconceito e desconfiança é mesclado com manifestações de euforia. Setores do empresariado local nas cidades dos dois lados da fronteira estão satisfeitos com a parceria. Por exemplo, naquela mesma tarde, quando cheguei a Del Rio encontrei um clima festivo. Topei com alguns carros alegóricos na avenida principal. Eram preparativos para o "Abraço da Amizade", uma festa anual que reúne as duas cidades-irmãs, Del Rio e Ciudad Acuña. O desfile começa na cidade mexicana e continua na cidade norte-americana com bandas de música e discursos. Na primeira página do jornal da cidade -Del Rio News-Herald– uma grande foto dos dois prefeitos e respectivas mulheres – os quatro com aparência, nome e sobrenome mexicanos – trocando o abraço da amizade.

Fiquei pensando se algum ilegal não iria se meter no meio do desfile para cruzar a fronteira. Se bem que aqui não há muro, a fronteira é mais que porosa.

Almocei no restaurante da Beth, tipo rancheiro, paredes de madeira, tomadas por uma infinidade de fotos de John Wayne. E segui viagem para Eagle Pass e Piedras Negras. Tomei a rodovia 277, que ruma ao sul margeando o Rio Grande. É uma região de agricultura intensiva. Parece que aqui realizaram o ideal de combinar campo e cidade. Os campos de cultivo convivem com zonas urbanas, as lavouras vão até dentro das cidades. O outro componente sempre presente na paisagem é o trabalhador mexicano. Basta prestar atenção para ver.

No caminho, há um lugar chamado Quemado, uma vila cercada por lavouras e fazendas de criação de gado. Numa mesma semana, Quemado virou notícia duas vezes nos grandes jornais da região. A primeira foi manchete de primeira página no San Antonio Express-News de 27 de outubro: "3 afogados e 4 desaparecidos ao cruzar o Rio Grande". Era um grupo de 26 mexicanos e salvadorenhos que, pela noite, tentaram atravessar o rio num lugar de correnteza forte. Os corpos de duas adolescentes e de um homem haviam sido localizados por um helicóptero da patrulha fronteiriça. Os outros quatro estavam sendo procurados. Podem ter morrido ou ter cruzado com sucesso e estar escondidos nos Estados Unidos.

A outra notícia também deu primeira página no Houston Chronicle de 2 de novembro: "Rancheiros ao longo do Rio Grande fazem vigilância contra invasores". Os fazendeiros reclamam que os mexicanos atravessam a fronteira para roubar gado. Um deles diz que até mesmo um valioso touro de raça foi roubado de sua fazenda e carneado pelos mexicanos. Dizem-se frustrados com a imigração ilegal, tráfico de drogas e criminalidade na região. E exasperados com a falta de pessoal e a inoperância da patrulha fronteiriça. Por isso, decidiram fazer a lei pelas próprias mãos. O jornal publica fotos de vários deles entricheirados, apontando fuzis para o lado mexicano. Seguem-se diversos relatos de tiroteios. Os rancheiros atiram para obrigar os migrantes a voltar ao México. Ou então, se os surpreendem em sua propriedade, rendem-nos e os entregam à patrulha fronteiriça. Contando com o apoio do delegado de polícia de Eagle Pass.

Entidades de defesa dos direitos humanos pediram que as autoridades intervenham antes que alguém seja ferido. Os rancheiros responderam que eles também estão com seus direitos humanos em risco. Dá a impressão de que aqui o "faroeste" nunca acabou.

Nessa região de Eagle Pass não há muro. O Rio Grande, mais encorpado e de correnteza forte é a única barreira entre os dois países. O rio aqui também é mais bonito, parece menos poluído. Suas águas são verdes, dizem que por causa dos sedimentos que traz de sua passagem pelos canyons da Sierra Madre Oriental. Ao deixar Eagle Pass pela rodovia 83, no rumo de Laredo, vejo pescadores nas suas margens.

Sábado em Laredo, Estados Unidos, é uma festa. Minha primeira imagem ao chegar é de uma fila de caminhões de dois quilômetros, congestionando completamente o trânsito na passagem para a Alfândega mexicana e vizinhanças. Deixei o carro num estacionamento e fui procurar a ponte de passagem de pedestres. Lá estava ela, sobre o Rio Grande, tomada por uma massa humana e, ao lado, uma interminável fileira de automóveis. Os mexicanos estavam vindo aos Estados Unidos fazer compras. Ao lado da ponte, o centro comercial, cheio de animação. Atravessei a ponte e vi o outro lado: o comércio de Nuevo Laredo, no México, estava às moscas.

Se você quer ver de perto como funciona o capital, vá para a fronteira dos Estados Unidos com o México. De segunda a sábado, a fila de trucks – enormes caminhões – é uma constante em qualquer ponto da fronteira. Passam dia e noite. Vêm dos Estados Unidos para o México trazendo peças, componentes e matérias-primas para montagem e acabamento nas maquiladoras. E voltam aos Estados Unidos carregados com os produtos acabados. De acréscimo, levam o trabalho dos mexicanos incorporado aos produtos.

Na sexta-feira, as maquiladoras pagam os salários aqui também. E, no sábado, os trabalhadores vêm em massa aos Estados Unidos fazer compras. Deste lado, as mercadorias são mais baratas. Levam de tudo: farinha de trigo, carne, leite, produtos de supermercado. E roupas, sapatos, relógios, bebidas, jóias, inclusive TVs e outros aparelhos eletrônicos que eles mesmos montaram. E o dinheiro volta para os Estados Unidos.

Não é a toa que as cidades norte-americanas ficam cada vez mais ricas, com miríades de lojas de departamentos, fast foods, vendas de carro e o que você puder imaginar. Os edifícios são majestosos e, em calmas ruas laterais, encantadores bairros residenciais. Respira-se prosperidade. Enquanto nas cidades-irmãs, do outro lado da fronteira, o que cresce é o tamanho da população, que se arranja em favelas nos morros, agravando as carências de infra-estrutura e os problemas sociais. A animação que resulta da presença das maquiladoras não é suficiente para disfarçar a pobreza.

Entretanto, autoridades, empresários e a mídia do México falam de avanços, manifestam otimismo. Em certos setores, como o dos grandes proprietários de terrenos nas vizinhanças das cidades, há até mesmo um clima de euforia pelas grandes transações realizadas e em curso. Empresários dos dois países acabam de promover na Cidade de México a reunião anual "Vision 97", na qual festejaram o sucesso das metas de exportação e importação propostas um ano antes. E anunciaram novos negócios. O prefeito de Nuevo Laredo, por exemplo, voltou da capital anunciando a implantação de mais sete maquiladoras na cidade e a criação de 1.600 empregos.

Por sua vez, a imprensa de Laredo e Nuevo Laredo comemora o fato de ser a maior aduana terrestre da América Latina e a segunda dos Estados Unidos. O movimento de carga é enorme e continua a crescer. Existe uma previsão de que, no ano 2000, passarão por ela 7 mil caminhões por dia. Por isso, os governos dos dois países acabam de estabelecer um acordo para a construção de uma terceira ponte entre as duas cidades e para a ampliação do aeroporto internacional. O transporte de carga aérea bate recordes de crescimento, já é o maior da fronteira. Além disso, há ainda uma ponte ferroviária com grande movimento de carga.

Mas nem só em Laredo há esse clima de entusiasmo. O PIB do México está crescendo – para este ano, se prevê 7% – e as exportações já chegam a 100 bilhões de dólares. Estatísticas mexicanas apontam que, entre 1993 e 1997, o número de empregos no País aumentou de 32,4 milhões para 36,7 milhões, 3% ao ano, ou algo como 1 milhão de novos empregos anuais.

Agora, o outro lado da moeda: trabalho de um estudioso chamado Júlio Bolbinick, divulgado recentemente pela Universidade do México, revela que apesar do crescimento da economia, a maioria da população mexicana continua pobre. Dos 96 milhões de habitantes, 60 milhões permanecem na linha da pobreza. Destes, 27 milhões são tão pobres que quase não têm o que comer; 75 % deles são camponeses e, na maioria, menores de 18 anos.

De Laredo a McAllen, são mais 250 quilômetros que percorri sentindo uma presença mexicana cada vez mais preponderante tanto nos nomes dos lugares – Santo Inácio, Zapata, Rio Grande, Mission – como nas programações das rádios que ia sintonizando no carro, nos tipos humanos encontrados, latinos na grande maioria, falando inglês ou espanhol, tanto faz. E não é só isso, percebi que havia outras feições e novos sotaques por ali: asiáticos. Chineses, tailandeses, filipinos, vietnamitas, indianos. Assim, as linhas da fronteira ficam ainda mais imprecisas.

Não vi muro entre McAllen e a mexicana Reynosa. A fronteira é o Rio Grande. Observo que o rio não é muito caudaloso nem profundo aqui. Do alto, dá para ver afloramentos de pedra, sinais de um leito irregular. Foi em algum ponto desse trecho do rio em McAllen que, em março de 97, morreu o jovem brasileiro Marcelo Mendonça, 26 anos, de São José dos Campos, SP. De início, a família suspeitou de assassinato. Mas tanto a autópsia norte-americana como a brasileira indicaram que foi afogamento. Josias de Castro, outro brasileiro que estava atravessando o rio com Marcelo, confirmou que foi afogamento. Disse que tentou salvar o amigo, mas não teve forças. O corpo do rapaz foi procurado rio abaixo pela Border Patrol por quatro dias. E estranhamente foi encontrado praticamente no mesmo lugar onde ocorreu o afogamento. A suposição da polícia e do consulado brasileiro em Houston, que cuidou do caso, é de que Marcelo pisou em algum buraco e seu pé tenha ficado preso entre as pedras no leito do rio.

Josias foi imediatamente deportado para o Brasil. Não foi o único. Segundo o consulado em Houston, só este ano 19 brasileiros foram apanhados ao cruzar esse trecho da fronteira e deportados.

Do lado mexicano, Reynosa, com 100 maquiladoras instaladas, é outra cidade em explosão demográfica. As estatísticas oficiais falam de 450 mil habitantes, mas o jornalista Arturo Solis, diretor do Centro de Estudos Fronteiriços e de Promoção dos Direitos Humanos, avalia em 750 mil sua população, contando com os imigrantes que vão se instalando em massa pela periferia. Solis é apartidário, mas antigo militante da defesa dos direitos humanos e comanda um escritório em Reynosa.

Para onde está indo o México? – perguntei a ele.

"Lamentavelmente, o México está cada vez mais se integrando aos Estados Unidos, uma prova é que o programa das maquiladoras, que inicialmente era temporário, agora é definitivo, em tal grau que o governo mexicano contabiliza as exportações desses produtos gringos terminados como se fossem mexicanos. É uma coisa absurda, quando sabemos que tudo vem dos Estados Unidos. Essa integração crescente não é só comercial, mas também resulta numa influência política muito grande, de forma que vamos ficando cada vez mais dependentes. Acredito que a população mexicana não está tomando consciência do que está ocorrendo ou já perdeu a capacidade de espantar-se, porque há um clima de apatia.

Ele dá um exemplo: "Na semana passada, autoridades mexicanas assinaram um acordo em Washington para extradições temporárias e ninguém protestou. Em outras circunstâncias, seria um escândalo aceitar entregar à polícia dos Estados Unidos delinqüentes mexicanos que cometeram crimes no México, e agora se aceita que sejam julgados nos Estados Unidos. Isso é incompreensível. Permitem que aviões militares norte-americanos à procura de drogas sobrevoem à vontade o território e entrem e saiam livremente dos aeroportos mexicanos. E não acontece nada, ninguém diz nada. Temos um governo cada vez mais entregue aos interesses dos Estados Unidos e menos defensor dos interesses mexicanos. Isso nós vivemos todos os dias e é triste ver que somos poucos os que falamos e protestamos. O povo não entende bem o que está se passando e, por outro lado, está muito ocupado em sobreviver.

Outro exemplo: "E aqui na fronteira, muitos mexicanos preferem que seus filhos nasçam nos Estados Unidos para serem cidadãos norte-americanos. Então aqui encontramos um grande número de pessoas que nasceram nos Estados Unidos e também são registradas no México. Têm duas nacionalidades. Isso aumenta a ambigüidade. Se lembrarmos que, no passado, nosso país perdeu grande parte do território exatamente por esse tipo de situação, por que agora seria diferente? De qualquer maneira, os Estados Unidos não precisam se apoderar do território do México, porque já se apoderaram dele sem necessidade de invadir-nos. Com a globalização, nosso país está cada vez mais integrado de todos os modos aos Estados Unidos. Até o horário de verão foi unificado para integrar ainda mais as duas economias. A liberdade para o capital é total. Só não há liberdade para os nossos imigrantes..."

De McAllen a Brownsville, a rodovia 83 percorre uma sucessão de áreas urbanas interligadas por um sofisticado sistema viário. São nove cidades vizinhas, abrigando uma população considerável. A região é baixa, de várzeas, ao nível do mar. Eram os meus últimos 100 quilômetros para chegar ao fim da viagem, no Golfo do México.

Aqui a fronteira fica muito porosa. Não é a toa que o governo norte-americano esteja dando ênfase à presença repressiva nesse trecho sul da fronteira. É uma fronteira ainda mais aberta, pois há o mar, o enorme litoral do Golfo. É evidente que o controle aqui é mais difícil.

É uma fronteira violenta: o tráfico de drogas é intenso. Durante o ano de 1966, as forças policiais ianques apreenderam 115 toneladas de maconha, 3,5 toneladas de cocaína, 350 quilos de heroína e 2 milhões de dólares de contrabando. Aqui os polleros, os contrabandistas de gente, também jogam mais pesado. Executam operações sofisticadas para atravessar imigrantes ilegais asiáticos. E cobram 10 mil dólares ou mais por pessoa. Esses imigrantes são trazidos de navio da Ásia até o Golfo do México. E cruzam a fronteira de noite, transportados por adolescentes que os rebocam em câmaras de ar, pelos baixios alagados e lavouras irrigadas.

Fronteira violentíssima, na verdade. O Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Reynosa documentou, entre 1990 e 97, o resgate de 852 corpos encontrados nas águas do Rio Grande. Muitos deles mostravam sinais de terem sido assassinados. Só entre janeiro e setembro de 1997, foram encontradas mortas 37 pessoas.

O Rio Grande chega ao Golfo do México. A fronteira fica mais imprecisa nas baías e restingas que a maré muda de lugar constantemente

Ao chegar em Brownsville, eu iria enfrentar uma dificuldade: onde é a fronteira? Claro, há uma alfândega, uma ponte internacional sobre um mirrado braço do Rio Grande. No mais, a costumeira linha divisória formada pelo rio se dilui. Represadas nas terras baixas, suas águas entram num estuário e se esparramam por restingas e baías e se misturam com as águas do mar, em Boca Chica, em Brownsville, em Port Isabel.

Penso que essa ambigüidade geográfica coincide com outra, a ambigüidade nacional e racial que se observa aqui. Não é bem um confronto, mas uma tentativa de ser ao mesmo tempo as duas coisas. Esbarra no preconceito norte-americano e se enche de ressentimento. Recusa o confronto, mas infiltra-se como água. E se amplia, não sendo apenas o encontro abrasivo da cultura norte-americana com a mexicana, mas com a cultura latina (há milhões de cubanos, salvadorenhos, dominicanos, porto-riquenhos, guatemaltecos, colombianos, venezuelanos e brasileiros nos Estados Unidos).

Nessa viagem, observei um exemplo dessa emergente efervescência cultural. Como todos os latino-americanos que vivem nos Estados Unidos, os da região festejaram fervorosamente, dias atrás, a vitória do time dos Marlins da Flórida, que conquistou o título de campeão nacional de basebal. Houve um carnaval em Little Havana (Pequena Havana) em Miami. O jornal USA Today abriu sua matéria chamando Miami de cidade melting-pot (caldeirão racial) e usando frases em "espanglês". A maioria dos jogadores dos Marlins são latino-americanos, e o principal deles é cubano recentemente imigrado. Essa vitória foi comemorada com um indisfarçável ar de revanche latina, não só em Miami, mas em todo o Golfo do México e Caribe. E ainda mais porque foi no basebal, o mais tradicional esporte norte-americano!

Uma canção da parada de sucessos das rádios da fronteira é representativa desse "caldeirão" de sentimentos. Chama-se Dos Pátrias (Duas Pátrias) e é cantada pelo conjunto "Tigres del Norte". Começa por um trecho falado em inglês:

"Juro ser cidadão norte-americano, ter uma só pátria, uma só bandeira, um só Deus...". Depois, em espanhol, é um panfleto cantado. O personagem diz que foi para os Estados Unidos deixando no México as sepulturas de seus pais e avós. E que aqui chegou chorando. Veio pra trabalhar, mas que seus direitos foram pisoteados por leis que vão contra a Constituição. "Já não me importo que me tirem meu dinheiro/eu só quero meu seguro de pensão/porém o que importa é que sou novo cidadão e que também me sinto mexicano.../e meus irmãos os centro e sul-americanos, caribenhos e cubanos, têm o sangue tropical/ Que se respeitem os direitos de minha raça/cabem duas pátrias em um mesmo coração".

E no final, há um trecho declamado: "o foguete estourou forte na tarde do juramento/do meu coração brotava uma lágrima que me queimava por dentro/duas bandeiras me confrontavam/uma, verde, branca e vermelha, com a águia estampada/a outra, com seu azul cheio de estrelas, com suas raias vermelhas e brancas cravadas/a bandeira dos meus filhos à negra me contemplava/não me chamem traidor porque as duas pátrias eu quero/Lá ficaram meus antepassados, aqui estão meus filhos/ por defender meus direitos não posso ser chamado traidor..."

A música fala de um sentimento, de uma atitude com a qual esbarrei o tempo todo, seja entre os migrantes ilegais ou entre os intelectuais e os defensores dos direitos humanos, que é uma pretensão dos mexicanos a um "direito" seu de entrar nos Estados Unidos, de poder viver tanto de um lado quanto de outro da fronteira. A mistura de um direito ascenstral, como que uma reação à usurpação do território, como que uma compensação pela derrota, pela exploração nas lavouras e trabalhos humildes, ou pela contribuição de sua força de trabalho à prosperidade norte-americana.

Como um direito do escravo, o direito do oprimido. É como um espinho cravado no corpo, que transforma a rotina de viver numa tragédia grega que se repete todo dia. Nós, do Brasil, não temos a menor idéia do que é esse conviver para sempre com um gigante, deitar e acordar com ele, sendo o outro lado do Destino Manifesto, o lado do subjugado.

Viajando da fronteira para Houston - meus últimos 500 quilômetros por magníficas superestradas - para pegar o avião para o Brasil e voltar ao nosso próprio tipo de barbárie, vou lembrando do livro do escritor mexicano Carlos Fuentes, que acabei de ler, La Frontera de Cristal. O livro é sobre esse direito difuso, sobre essa trágica ambigüidade, esse ser partido em duas metades:

"O que é daqui e também de lá. Porém, onde é aqui e onde é lá? Não é o lado mexicano o seu próprio aqui e lá, não o é o lado gringo, não tem toda essa terra seu duplo invisível, sua sombra alheia, que caminha a nosso lado como cada um de nós caminha acompanhado do segundo que o ignora?"

Um de seus personagens diz: "não sou mexicano. E não sou gringo. Sou chicano. Não sou gringo nos Estados Unidos e mexicano no México. Sou chicano em todos os lugares. Não tenho que assimilar nada. Tenho minha própria história".

A última frase do livro é uma adaptação da expressão lapidar do ditador Porfírio Diaz que define tudo sobre a relação, esta sim, carnal, inevitável, inescapável, entre os dois países: "Pobre México, pobre Estados Unidos, tan lejos de Dios, tan cerca el uno del otro".

Para saber mais

Leituras e endereços que ajudam a conhecer mais a problemática da fronteira México-Estados Unidos, o NAFTA, Acordo de Livre Comércio entre EUA-México-Canadá:

Runaway América – Empregos e fábricas dos Estados Unidos em Mudança – De Harry Browne e Beth Sims – 1993 – esource Center Press - Box 4056 - Albuquerque - New Mexico 87196.

The Great Divide – O Desafio das Relações EUA-México nos anos 90 - De Tom Barry e outros. 1994. Grove Press – 841 Broadway – New York, NY 10003.

Zapata’s Revenge - Livre Comércio e a Crise da Agricultura no México. - De Tom Barry - 1995 - South End Press, Boston, Massachusets.

La Frontera de Cristal – Carlos Fuentes – Ed. Alfaguara – Cd. Mexico.

Border Lines – Boletim mensal sobre assuntos de fronteira – The Interhemisferic Resource Center – 815 Black Street – Silver City – New Mexico 88062 .
 http://lib.nmsu.edu/subject/bord/bordline

Grupo Pueblo de Estudos Sociais – Cid. do México.
E-mail:  pueblo@laneta.apc.org

Casa de La Mujer - Grupo Factor X – Tijuana – Baja California – México. E-mail:  factor@mail.tij.cetys.mx

Centro de Apoyo Al Migrante - Centro Comercial "Correos", local nº 26 – Tijuana – Baja California . Centro – B.C. 22000.

Centro de Estudios Fronterizos y de Promocion de los Derechos Humanos – Reynosa – Tamaupilas.
E-mail:  cefprodh@giga.com

Frente Autentico del Trabajo – E-mail:  rmalc@laneta.apc.org

American Friends Service Comitte – US-Mexico Border Program . P.O Box 126147 San Diego, California 92112. E-mail:  afscilemp@igc.org
Fonte: www.jornaldosamigos.com.br


--------------------------------------------------------------------------------