Chavismo e Anarquismo hoje na Venezuela
Parte I


P. Hugo Chavez fala de socialismo, soberania popular, participação. Por que estar em desacordo se isto corresponde ao ideal anarquista?

R. As diatribes de Chavez são abundantes. Mas ele próprio reiterou que não se deveria confiar no que ele fazia ou dizia. Assim, seu ?socialismo do século XXI?, na realidade, não ultrapassou o simples paternalismo e o capitalismo de Estado, tendo por base a abundância dos petrodólares. A soberania popular é a soberania de uma elite de militares, de empresas transnacionais e da ?burguesia popular? nascente. Basta ver a recente concessão de poderes extraordinários à Presidência, ou a maneira como zombam dos aliados que exprimiram reservas ante a decisão de construir um partido oficial único, para ter uma idéia do que o ?Comandante? entende por participação. No anarquismo, não aceitamos liderança permanente e onipotente, exceto unicamente aquelas que são constantemente autenticadas por aqueles a quem, em uma circunstância particular, eles representam, e isso é a expressão da soberania e da participação, e esse processo não significa, nem de uma maneira nem de outra, que não nos afastamos do poder hierárquico e do Estado.

P. A intenção proclamada do governo é fazer uma revolução pacífica e democrática. Por que não esperar que a revolução aprofunde-se para emitir juízos sobre o processo?

R. Chavez fala de revolução, mas sua palavra não é suficiente para crer que ele a faça e que deva ser apoiado. Muitos tiranos e demagogos neste continente disseram a mesma coisa, sem que houvesse razões para apoiá-los. Em nosso caso, há uma ?revolução? no sentido que nosso modo de vida foi desarticulado em muitos sentidos, mas o que vemos de construção não nos inclina a apoiá-lo. Permitir sua consolidação é tornar as coisas mais difíceis para mudar, porque as mudanças que os anarquistas propõem vão em uma direção muito diferente daquela tomada pelo ?processo?, que, com mais de oito anos de existência, mostra-se repleto de autoritarismo, burocraticamente ineficaz, infectado pela corrupção de maneira estrutural, com orientações, pessoas, atitudes que não podemos apoiar.

P. Ainda que seu projeto não seja libertário, o chavismo faz apelo ao confronto com a oligarquia e com o imperialismo. Por que não estabelecer relações estratégicas com eles e mais tarde, uma vez destronada a oligarquia e a agressão imperialista, tentar fazer a revolução anarquista?

R. As alianças estratégicas são um modo de ação política para ganhar o controle do Estado por um grupo de aliados, enquanto nós, anarquistas, buscamos dissolver o Estado graças à participação de todos e todas. O fracasso do que se chama reação e oligarquia (apelidos com vistas claramente propagandistas) servirá unicamente para consolidar no interior do poder aqueles que ganham, aqueles que necessariamente formarão a nova oligarquia porque assim impõe a lógica estatista, assim como se produziu na URSS, China ou Cuba. Isso tornará a revolução anarquista mais difícil, e a Espanha de 1936 foi um bom exemplo. Também é inexato identificar o projeto chavista como estando em oposição ao golpe de Estado, quando, de fato, seu objetivo original era fazer um golpe de Estado militar, e que ele gaba constantemente em sua identificação com a linguagem e as práticas de caserna. A luta contra o governo da minoria (oligarquia) no interior dos regimes estatistas reduz-se a substituir alguns por outros. No que concerne o combate contra o imperialismo, se prestarmos atenção ao que eles propõem e aplicam em matéria de petróleo, de minerais, de agricultura, de indústria, de plano de trabalho etc., eles mostram-se continuar a ser os serviçais do Império e não seus inimigos (Para mais detalhes sobre os eixos estratégicos ante o capital transnacional e os interesses imperialistas, ver as publicações do El Libertário:

www.nodo50.org/ellibertario

P. Agora, o governo venezuelano anuncia uma explosão do poder comunal, com a implantação maciça e autonomia de poder aos Conselhos Comunais, organizações comunitárias e horizontais de participação popular. Os anarquistas apóiam essas estruturas de base?

R. O que começamos a ver da instauração e do funcionamento dos conselhos comunais indica que sua existência e sua capacidade de ação dependerão de sua lealdade ao aparelho governamental, o qual se afirma ao deixar nas mãos do Presidente a faculdade jurídica de aprovar ou não as ditas organizações, como o descreve a lei correspondente. Nesse âmbito, há experiências na Venezuela, onde muitos agrupamentos de base (como os sindicatos, para não se ir mais longe) assemelham-se aos tramways, que recebem a corrente elétrica a partir de cima. Certamente, há tentativas para um real agrupamento de baixo para cima, e isso acontece no âmbito da vizinhança, operários, camponeses, indígenas, ecologistas, estudantes, setores culturais etc., malgrado o fato de não contar com a simpatia oficial. Parece-nos que a submissão legal, funcional e financeira dos conselhos comunais ante o poder estatista será um severo obstáculo para servir de base a um movimento autônomo. Isso vale também para os anunciados conselhos de trabalhadores nas empresas, nos quais se entrevê um meio de anular um sindicato independente.