Um gay ou uma lésbica não podem compreender. Um cirurgião, psiquiatra ou psicólogo, muito menos um sociólogo ou antropólogo, não podem compreender. Só o disfórico pode compreender, e mesmo assim, como existe uma enorme diversidade entre as disforias, nem eles mesmos se compreendem plenamente.
Os últimos 10 anos de minha vida, tenho destinado a procurar compreender essa realidade, no que pode ser compreensível.
A diversidade é tal que, no princípio, procurei estudar o transexualismo, por ser uma realidade vivida proximamente por mim mesma, e muito real para mim.
Depois de anos de pesquisa escrevi "Meu Sexo Real" (Vozes, 1998), onde apresentei a idéia de que havia uma discordância de gênero em uma pessoa transexual, entre o gênero de seu cérebro e o gênero de seus genitais. Sugeri um nome científico novo, que definisse melhor o porque do transexualismo: neurodiscordância de gênero. Termo, na realidade, não escolhido por mim, mas por 4 pessoas, com a idéia original tendo partido de um contato com o Dr.Julio Cesar Meirelles Gomes, então conselheiro do CFM, mas também então compartilhado pelo Dr. Jalma Jurado, eminente PhD em cirurgia plástica, e Dra. Dorina Epps Quaglia, eminente endocrinologista e psicanalista, catedrática da USP, e pioneira brasileira no estudo das disforias.
Essa neurodiscordância, hoje em dia, no mundo, é aceita pela maioria dos especialistas, mesmo que não nesses termos portugueses, em todo mundo mais civilizado pelo menos.
Mas a disforia de gênero, termo surgido em 1973 e adotado pela Associação Internacional que congrega os especialistas nesses assuntos, no mundo (a Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association-HBIGDA, da qual sou membro como única representante da América Latina), não se resume à neurodiscordância de gênero, ou transexualismo, mas engloba uma enorme diversidade de fenômenos.....desde o mal estar (disforia) gerado pela designação sexual civil e cirúrgica inadequada de bebês intersexuais e hermafroditas, até os casos de cross dressing, fruto de um stress pós traumático (PTSD - post traumatic stress disorder).
Continuando minha caminhada, após estudar os casos dos bebês intersexuais e hermafroditas, que só confirmaram minhas idéias, principalmente com a publicação por John Colapinto de "Sexo Trocado" (Ediouro 2001), comecei a estudar e tratar de pessoas travestis e crossdressers.
A grande maioria desses casos, que são patologias, são decorrentes de PTSD, ocorrido na primeira infância (travestis) e mais tardiamente (CD's). Por outro lado, a verdadeira androginia existe. Fausto Sterling admite 100.000 andróginos no mundo, e Colapinto cita uma meia dúzia de casos que entrevistou.
A pessoa não se sente nem homem nem mulher. Mas não são travestis, mas andróginos.
Androginia e travestismo (transgenderismo), são fenômenos totalmente distintos.
O travesti masculino, por exemplo, quer se mostrar como mulher, mas querendo preservar sua atuação sexual masculina. A identidade e a expressão estão em desacordo.
O andrógino não é, nem se sente, nem quer se mostrar, nem homem nem mulher. Geralmente parte de uma situação original de hermafroditismo, tenha sido designado cirurgicamente ou não.
O movimento ideológico internacional (com origem nos USA) "queer" e "transgênero", quer desvalorizar, artificialmente e de uma forma profundamente reducionista, a realidade da polaridade do gênero. Afirmam que a polaridade homem/mulher não passa de uma construção cultural. Afirmam que uma transexual "operada" é uma aberração.
A polaridade existencial não é cultural, mas é afetada pela cultura. É biológica, e modulada pela cultura, mas não apenas uma construção cultural, como apregoam alguns antropólogos pouco informados, não só no Brasil, mas no mundo.
E o pior, é que esse reducionismo, na realidade, quer impor a patologia como regra, inclusive retirando de pessoas, seu direito a sua auto determinação, a sua auto-estima, a autonomia de seu auto-reconhecimento. Infelizmente, essa é uma faceta cruel desse movimento GLS, que precisa ser revisto em seu reducionismo culturalista, em prol da realidade existencial de milhões de pessoas no mundo. Estima-se alguns milhões de disfóricos intersexuais no mundo, alguns milhões de transexuais....vários milhões de travestis e CD's.....e 100 000 verdadeiros andróginos.
A patologia não pode ser regra. Mas, por outro lado, nenhuma patologia pode ser ignorada ou mesmo descartada. Seria melhor, para muitas pessoas, que a dualidade dos gêneros fosse mais suavizada?
É evidente que sim, e tem sido com o tempo... a mulher é cada dia menos dondoca e perua... vai à luta no mercado de trabalho... luta e participa com sua cidadania... assim como o homem, dia a dia, é menos "machão"... menos metido a único dono do mundo... segundo a Kelly Key, pode ser até domado como um cachorrinho...
Diminuir a ênfase na dicotomia, socialmente, é profundamente salutar... mas não a ponto de discriminar pessoas, e querer impedir a autonomia de seus direitos, a sua vida, seu corpo e sua identidade e expressão.
Como disse, ninguém pode imaginar o que é existir, nessa sociedade, como disfórico, a não ser um disfórico... e toda diversidade, seja em orientação sexual... seja em identidade e expressão de gênero, deve ser respeitada.
Desde que existe, o disfórico se vê embrenhado numa luta... pelo direito de ser e existir. Tem seus direitos muito menos reconhecidos, do que tem uma pessoa com orientação homo ou bissexual, sem problemas de gênero, por exemplo. Por isso acho injusta, mesmo inoportuna e um pouco sem sentido, a inclusão pura e simples de disfóricos como GLSBT. Muitos disfóricos, aliás a maioria deles, se sentem e agem como heterossexuais. Disforia e orientação sexual têm em comum, o ódio e o desprezo da sociedade homo e disfóricofóbica. Só isso, o que já é muito. Todo disfórico está numa batalha contínua, entre o viver, o sofrer opressões e o morrer. A grande maioria, várias vezes, desde a infância, tenta o suicídio. Ou a mutilação genital, quando transexuais (neurodiscordantes). Essa realidade eu vivo no meu dia a dia, como terapeuta de gênero. Hoje, para terem uma idéia, uma paciente de 17 anos me relatou sua tentativa de suicídio aos 13, cortando os pulsos... e uma de 68 anos, sua inúmeras tentativas de mutilação, ao longo da vida. Infelizmente, muitas conseguem se mutilar...ou mesmo se auto-eliminar.
Essa realidade, médica e psiquiátrica, ultrapassa, e muito, o entendimento atual corrente da psiquiatria e da psicologia... da antropologia cultural então, nem se fala. E a consciência social e política homossexual, não tem a menor condição de compreendê-la, e uma enorme dificuldade em compreender seu caráter médico e patológico, já que a homo e a bissexualidade certamente não são, em si, patologias. Mas mesmo que você não seja vítima de uma patologia, mas apenas da ignorância da homofobia, isso não lhe dá o direito de querer que os outros, que passam por processos totalmente diferentes dos seus, que sejam obrigados a rezar por seu catecismo.
Por isso, não concordo com a ideologia "queer", com Camille Cabral, com seus aliados, quando se referem a gênero como uma reducionista construção cultural... quando dizem que o gênero nada tem a ver com a realidade orgânica cerebral e genital... quando alegam que a dualidade, em si, não existe.
Ela existe. E precisa ser respeitada. Pode não ser experimentada por Camille e outros GLS, que não sendo transexuais, não a podem compreender plenamente.
Podem confundir travestismo com androginia, ou com transexualismo, por não conhecerem a verdadeira androginia, que é muito rara, ou o verdadeiro transexualismo.
Mas mesmo a androginia, numa minoria muito minoritária, como 100 000 andróginos entre milhões de disfóricos e bilhões de seres humanos em harmonia de gênero, ela precisa ser respeitada e compreendida, e não pode ser ignorada.
Portanto, a Dra. Camille, que repito é travesti e não transexual, não tem razão, em muitas de suas posturas, e em muitos dos seus preconceitos. Muito menos razão, têm lideranças GLS em dar-lhe e atribuir-lhe uma conotação que ela não tem, de representante entre as pessoas disfóricas transexuais.
Por outro lado, Camille tem méritos, que sempre foram reconhecidos por mim, na sua luta pela dignidade da prostituição como profissão em Paris, e pela aceitação e acolhimento das travestis estrangeiras em Paris. Na sua luta contra a DST-AIDS....ela é exemplar.
Mas ela está absolutamente equivocada quando quer se fazer passar por transexual (ou quando a fazem passar por transexual), e principalmente, quando quer impedir as cirurgias SRS e desprestigiá-las. O mesmo digo de seus aliados, mesmo os de última hora.
Confesso que é chocante perceber isso, que escrevo aqui. Perceber no meio GLS... tanta limitação, tanto autoritarismo, tanto preconceito, tantas imposições e desrespeitos contra a livre manifestação e existencialização da própria identidade, e da própria expressão de gênero. A tentativa de impedimento de diagnóstico, correções e avaliações cirúrgicas.
Os próprios líderes, às vezes, do movimento GLS... se mostrando castradores da autonomia dos disfóricos de gênero, em seus direitos mais autênticos. Seu direito de serem reconhecidos como são, e porque são o que são. Sejam transexuais, intersexuais, andróginos verdadeiros.
Não, para essas lideranças GLS, eles só têm o direito de se aceitarem como travestis, todos....sob o neologismo de transgêneros.... e quem se opuser, é alijado do movimento. Ou procura-se, pelo menos, alijá-lo e constrangê-lo a tal.
A Corte Européia dos Direitos Humanos, luta hoje em dia pelos direitos transexuais e intersexuais, de forma aberta e contundente. A Grã-Bretanha, em 2002, foi coagida a aceitar os transexuais, e não mais discriminá-los, sob pena de sanções por parte dessa Corte. Hoje, a Grã-Bretanha já dispõe de uma legislação exemplar a respeito, assim como a Espanha. O MP (Ministério Público) do Distrito Federal do Brasil, na pessoa do Dr. Diaulas, luta a favor dos intersexuais e mesmo transexuais. Médicos, sexólogos e psicólogos desenvolvem possibilidades clínicas e terapêuticas, para intersexuais, transexuais e travestis.
NA SUA GRANDE MAIORIA, SÃO HETEROSSEXUAIS... nada têm a ver com o movimento GLS... e compreendem e respeitam os disfóricos, e a existência das disforias, muitas vezes com muito mais facilidade que algumas lideranças GLS.
No meio GLS, ao invés de encontrar uma Corte de Direito à Diversidade... ou uma Corte de Direito à Realidade Existencial, estou encontrando, muitas vezes, um Tribunal de Inquisição Queer... dogmático, reducionista e intransigente, que quer impedir pessoas de serem diagnosticadas, avaliadas, tratadas e adequadas... e depois terem suas cidadanias reconhecidas, sejam masculinas como FtM's, sejam femininas como MtF's, sejam andróginas, quando quase nunca acontecem.
Que a Igreja Católica, na Sede Vaticana, à partir do cardeal Ratzinger tome essa atitude em nome do Tribunal do Santo Ofício, era de se esperar....afinal ninguém mais, na história da humanidade em tempo de paz, matou e torturou mais, do que essa organização... o seu passado explica o seu presente, mesmo que não o justifique. Que os evangélicos , apegados ao livro, e sem entendimento, tenham seu pequeno tribunal, também é de se esperar....afinal, eles saíram do Vaticano, um dia. Têm a mesma raiz Paulina
Mas no meio GLS?
Esse é o fato novo, essa é a postura dogmática estranha... onde vemos que os meios intelectuais e acadêmicos, por dogmas antropológicos culturais, parecem ser maiores e mais importantes do que os direitos fundamentais de seres humanos.
Todo travesti não precisa se enganar, continuar sendo considerado como um travesti, uma "bicha da pior espécie", um objeto para ser usado e muitas vezes mutilado, assassinado , banalizado e excluído....e mudando-se o nome de travesti para transgênero, não se apaga essa realidade.
Todo travesti tem o direito a um diagnóstico, se for o caso a uma terapia PTSD, para se compreender melhor, e se realizar melhor, em todas as dimensões da vida. Não necessariamente para deixar de ser um ou uma travesti, porque o trauma geralmente foi muito profundo, e depois muito recalcado, mas para compreendendo-se a si mesmo em profundidade, poder viver e deixar viver, com respeito e dignidade, com uma vida plena e produtiva, podendo atingir o limite de seus potenciais e capacidades.