Mark Steyn - Chicago Sun-Times - 7 de novembro de 2003 - Não tenho acompanhado o dia-a-dia no Sudão desde que... oh, sim, o General Kitchener foi vitorioso contra o Mahdi na Batalha de Omdurman em 1898. Mas uma história que veio à luz recentemente chamou minha atenção. No mês passado uma histeria coletiva aparentemente tomou conta da Capital, Cartum, depois de relatos de que estrangeiros estavam apertando as mãos de homens sudaneses e, com isto, fazendo com que seus pênis desaparecessem. Uma vítima, um comerciante de tecidos, contou sua história para o jornal Árabe de Londres Al-Quds Al-Arabi. Um homem da África Ocidental veio à sua loja e "apertou sua mão com muita força até que seu pênis se dissolvesse dentro de seu corpo."
Eu conheço bem a sensação. O mesmo ocorreu comigo após apertar a mão do Senador Clinton. De todo modo, o Al-Quds relatou que "o dono da loja ficou histérico e foi internado num hospital." O "Procurador Geral Criminal", Yasser Ahmad Muhammad disse ao jornal sudanês Al-Rai Al-A’am que "o rumor surgiu quando o comerciante foi a uma outra loja para comprar Karkady (uma bebida sudanesa). Subitamente, o vendedor sentiu seu pênis sumindo."
O insubstituível Middle East Media Research Institute, em sua exaustiva cobertura, verificou que os pênis de Cartum eram vulneráveis não somente a apertos de mão. "Outra vítima, que se recusou a se identificar, disse que quando estava no mercado, um homem se aproximou dele, deu-lhe um pente, e pediu que ele penteasse o cabelo. Segundos depois de faze-lo, ele sentiu uma estranha sensação e percebeu que tinha perdido seu pênis."
Histórias de sumiço de pênis se espalharam pela cidade, através de mensagens escritas em telefones celulares. O Procurador Geral do Sudão, Salah Abu Zayed, declarou que todas as queixas sobre pênis perdidos seriam apresentadas a um comitê especial de investigação, apesar dos médicos atestarem que o primeiro litigante estava "perfeitamente sadio". O Ministro da Saúde, Ahmad Bilal Othman, disse que a epidemia "não tinha nenhuma base científica," e que deveria ser um "problema emocional ou de magia e bruxaria".
Aqui o leitor provavelmente estará dizendo "Oh, espera aí, Steyn, este negócio de pênis sudaneses é muito interessante, mas supõe-se que você seja um colunista. Há algum grande argumento geopolítico por trás desta engraçada história de sumiços de pênis, não há?"
Certamente. Por um lado, uma semana após o Primeiro Ministro Malaio dizer numa reunião de cúpula islâmica que seus "inimigos", os Judeus, controlam o mundo, e foi tremendamente ovacionado por 56 dos líderes muçulmanos presentes, é útil recordar que a Conspiração Judaica Internacional é, comparativamente, uma das menos bizarras e mais banais conspirações que circulam no mundo Islâmico. Quer dizer, eles provavelmente imaginarão uma forma de vincular os sumiços de pênis a algum agente do Sionismo. Pois relatos de jornais do Oriente Médio dão conta de que Israel estaria adicionando hormônios secretos às gomas de mascar Árabes para fazer com que os homens muçulmanos se sentissem atraídos por garotas judias agentes do Mossad. Pensando nestes termos, lembram-se daquelas histórias que apareceram no National Enquirer depois do 11 de setembro, sobre Osama Bin Laden usar roupas de baixo de mulher? Ele passou a maior parte da década de 90 no Sudão. Quem poderia negar que algum Sionista , durante uma viagem a Kharthoum, teria se insinuado furtivamente e trocado com ele um aperto de mãos?
Esta é, neste sentido, a lenda perfeitamente emblemática da vitimologia Islâmica: os estrangeiros nos tornaram impotentes! Não importa que os estrangeiros nada tenham feito além de trocar apertos de mãos. Não importa se alguém é, realmente, impotente. Você se sente impotente, tal como - assim nos foi dito - milhões de muçulmanos, da Argélia aos homens-bomba de Bali, se sentem "humilhados" pela situação Palestina. É irrelevante saber se há ou não uma base racional para este sentimento de humilhação.
Uma das razões pelas quais eu me sentiria humilhado se eu vivesse no mundo Árabe é que quase todas as expressões de meu anti-ocidentalismo seriam, em si mesmas, originadas no Ocidente. O Pan-Arabismo é uma nova forma da velha escola de nacionalismo do século XIX, que levou à unificação da Alemanha e da Itália. O nasserismo era uma transplantação do socialismo europeu. O baathismo, uma variante local anacrônica dos movimentos fascistas do período entre guerras. Os Árabes até se apossaram do ódio europeu aos Judeus. Embora certamente existissem atritos entre Judeus e Muçulmanos antes do século XX, foram os europeus que transformaram o ódio difuso aos Judeus numa grande ideologia, com os Protocolos dos Sábios do Sião, com o Mein Kampf e tudo o mais.
Até mesmo o fundamentalismo islâmico, apesar de parecer um raro exemplo de toxina de fabricação caseira, tem, em termos práticos, mais em comum com os movimentos revolucionários europeus do que com expressões islâmicas tradicionais - um projeto essencialmente político lastreado nas antigas religiões, para criar uma ideologia adequada para os criadores de caso de todo o mundo.
Há algo de patético numa cultura tão ignorante que precisa importar até mesmo suas patologias. Mas que se poderia esperar? O detalhe é que as mensagens foram transmitidas por telefone celular. Você pode ter um aparelho destes e ainda assim acreditar que um simples aperto de mão com estrangeiros possa dissolver o seu pênis.
Além das dúvidas sobre a masculinidade coletiva dos sudaneses, o Sudão não é um país do qual se possa rir. Dois milhões de pessoas foram assassinadas lá durante a última década. A minoria Cristã está em vias de desaparecer mais rapidamente do que as partes pudendas dos comerciantes de tecido. Osama certamente encontrou no país um campo fértil para sua ideologia: mujahedin sudaneses já foram capturados na Argélia, Bósnia, Chechênia e Afeganistão. Um fracasso em termos econômicos e com apenas 27% de cidadãos alfabetizados, o Sudão consegue gastar bastante dinheiro para exportar a revolução Islâmica para outros países. Além do mais, recebeu do Irã armamentos chineses no estado-da-arte, no valor de meio bilhão de dólares.
Um garoto com celular e medo de aperto de mãos é uma coisa; o que pode acontecer se, além disto, forem vários e possuírem uma maleta nuclear? Seria a intersecção de uma ignorância primitiva indestrutível com tecnologia ocidental barata e facilmente encontrável. Nisto residem os imponderáveis do futuro.
Em 1898, depois que Kitchener exterminou os dervixes em Omdurman, Hillaire Beloc escreveu uma concisa descrição da vantagem tecnológica britânica:
"Aconteça o que acontecer,
nós temos
o maior canhão (*)
e eles não."
Mas os dervixes atuais têm telefones celulares. Estes, somados a algumas mercadorias de guerra baratas e uns poucos cartões de chamada, são tudo o que eles necessitam para desencadear um novo 11 de setembro.
E há muita gente por lá querendo ajuda-los a conseguir sucedâneos baratos do canhão Maxim do século XXI.
(*) Referência ao canhão inventado por Sir Hiram Stevens Maxim (N.T.)
