David Arribas, é um compa de Zaragoza (Espanha), ciclonudista, envolvido com a movida das bicicletas em ação, ou seja, com as bicicletas em luta. Lutando pela dignidade ciclourbana e cidadã. Denunciando as multinacionais. Denunciando o desenvolvimento. Desafiando o monte de lata ambulante, os automóveis. A seguir, ele nos fala um pouco sobre tudo isso, e a 4ª Marcha Ciclonudista de Zaragoza.
Agência de Notícias Anarquistas - Por quê Ciclonudistas? Como isso começou?
David - A 1ª Marcha Ciclonudista de Zaragoza foi comemorada numa quinta-feira, 14 de junho de 2001, com a participação de 45 pessoas, sob o lema "Nus diante do tráfego". Nasceu como rejeição política ao Plano de Tráfego e Transportes, que estava sendo escrito por estas datas e que planificava o futuro de nossa cidade por e para o carro, ignorando as propostas de grupos ecologistas e ciclistas. Tratava-se de realizar uma manifestação de grande repercussão midiática que causasse debate social sobre a construção de nossa cidade. Pensamos, além disso, que despidos em cima das bicicletas representaríamos muito claramente nossas reivindicações.
ANA - Houve algum tipo de repressão?
David - O primeiro e o segundo ano preparamos a ação de forma totalmente secreta, só um grupo de pessoas sabia o que iria acontecer, e somente poucas horas antes que dissemos o lugar e a hora exata aos participantes e a imprensa.
Os policiais, que nesse momento regulavam o tráfego, quando nos viram ficaram alucinados e preferiram não agir, havia muitas câmeras de televisão e os cidadãos aplaudiram-nos. Somente no final apareceu a polícia especial, mas sem agir.
O terceiro ano fizemos pública a marcha, queríamos o confronto direto com as autoridades, uma demonstração de força para ver se nos reprimiam, mas não se atreveram. É difícil parar 250 ciclonudistas, com milhares de espectadores e dezenas de câmeras de televisão.
ANA - Vocês estão espalhados pela Espanha?
David - A manifestação ciclonudista teve grande repercussão midiática em Zaragoza e no Estado Espanhol. As pessoas nos deram o seu apoio ao parecer-lhes justas nossas reivindicações, e aprovar a nossa forma de protestar despidos.
ANA - Outras cidades da Espanha vão organizar manis ciclonudistas?
David - Este ano serão organizadas manifestações em Barcelona, Pamplona e Zaragoza. Embora no próximo ano pensamos que farão em muitas mais cidades.
ANA - E no resto da Europa?
David - Em Londres (Inglaterra), Pforzheim (Alemanha), Apeldoorn (Holanda), e na Bélgica.
ANA - Essa iniciativa começou aonde?
David - A ciclonudista começou em Zaragoza. Depois de duas marchas ciclonudistas decidimos convidar outras cidades para se somar à iniciativa, isto foi no ano passado. Este ano repetimos a convocatória mundial, realizada também pelo World Naked Bike Ride do Canadá.
ANA - Eu li um folheto de vocês que dizia "bicicletas lutando em Zaragoza, capital mundial do ciclonudismo, capital planetária das lutas em bici". Explique um pouco essa história.
David - É um texto de apresentação de uma exposição fotográfica, e de materiais diversos, sobre diferentes manifestações feitas em Zaragoza com a bicicleta. É um escrito provocador: "capital planetária das lutas em bici", não porque acreditamos em vanguarda. A questão é que nos últimos anos grande parte da luta e ativismo social em Zaragoza, usou-se a bicicleta como ferramenta de expressão: contra a guerra e os exércitos, na última greve geral, contra os polígonos de tiro dos militares...
A bicicleta parece-nos uma forma realmente boa e gráfica de expressar nossa dissidência. E mais, criamos a ciclonudista e exportamo-la.
ANA - Você também faz parte de Recicleta? Participou da campanha para enviar bicicletas recicladas para Cuba?
David - Surpreende-me que você tenha essa informação. Certamente, trabalho em Recicleta, numa oficina de bicicletas com um grande componente social e ambiental. Tratamos de projetarmos socialmente e utilizar o potencial da loja para ter incidência social.
Nos últimos anos, um de nossos projetos foi esse das Bicicletas Solidárias. Recolhemos, reparamos e enviamos 250 bicicletas a diferentes lugares do mundo: Cuba, Moçambique, o Saara Ocidental... Neste sábado, 29 de maio, enviamos 65 bicicletas a Cuba, mas antes fizemos uma caminhada com elas pelo centro da cidade com 65 amigos de Recicleta, para que as pessoas possam ver o resultado da campanha e verificar que estas bicicletas, condenadas ao lixo, foram reparadas e hoje servem para andar.
ANA - As bicicletas aqui no Brasil são equivocadamente consideradas um meio de transporte para pessoas pobres. Isso acontece também na Espanha?
David - Aqui há menos pobreza que no Brasil, assim muda a percepção destas coisas. No Estado Espanhol se utiliza menos a bicicleta para se mover como na América do Sul. Não tem conteúdo social, mas sim que, principalmente, usam a bicicleta pessoas de esquerda e com consciência ecológica.
ANA - Na sua passagem pelo Brasil você deveria ter vindo aqui na Baixada Santista (litoral de São Paulo). Acredito que aqui é o lugar que tem mais bicicletas no Brasil. Parece a China! Uma loucura ciclística!
David - Se eu tiver a possibilidade eu visitarei este lugar, sem dúvida. O Brasil é uma terra cheia de contrastes, me apaixonei ao passear de bicicleta. Para um europeu o que mais surpreende são as distancias tão grandes. Na Europa o território é mais denso, as distancias são mais curtas.
ANA - Como está o movimento anticarro na Espanha?
David - Em todas as partes do Estado Espanhol existem coletivos ecologistas e ciclistas que lutam contra os automóveis. No Estado Espanhol duplicou o número de carros nos últimos 15 ou 20 anos, devido ao crescimento econômico. Nas cidades, os cidadãos e a prefeitura, começam agora a perguntar-se sobre as conseqüências tão negativas do uso excessivo do carro.
ANA - No Brasil não é diferente. Em São Paulo é um absurdo o número de carros. É o caos...
David - Eu estive no Brasil há 2 anos, viajando com uma bicicleta pelo Paraná, Rio Grande do Sul... Conheci uma grande cidade como Curitiba. Na América do Sul as cidades são muito extensas, e há muita necessidade de deslocamento. No Estado Espanhol são menores e concentradas, com menos necessidades do carro, é irracional.
ANA - Você sabia que a Exxon, a GM e a Firestone compraram companhias de transporte coletivo simplesmente para fechá-las? E que os carros mataram mais gente no século 20 do que as guerras?
David - Conhecemos alguns destes dados. Por exemplo, os acidentes de carro no Estado Espanhol são a primeira causa de morte entre os jovens menores de 30 anos. Em Zaragoza temos a única fábrica da GM do sul da Europa, por isso conhecemos suas atividades e as pressões a que nos submetem com sua publicidade. Como reduzir o uso do carro quando em Zaragoza temos uma fábrica que emprega milhares de pessoas? A nossa é uma batalha mais dentro da luta contra o capitalismo, e sabemos que por cada mensagem contra o carro, os fabricantes produzem centenas de anúncios a favor do uso do carro.
ANA - Realmente a "causa mortis" atinge esta faixa etária, entre 16 e 30 anos. Isso acontece em diversas partes do mundo. Um horror! Os carros são os criminosos das ruas.
David - Como dizemos em nosso comunicado nos escandaliza a impunidade do carro, das mortes que produzem. É um massacre diário e aceito socialmente.
ANA - Outro dado curioso é que 80% da produção de petróleo destina-se aos carros particulares.
David - Não sabia, mas sim que o norte do planeta produz 80%, ou mais, da contaminação que todo o mundo recebe. Poucos países ricos e seus cidadãos (entre os quais devo me incluir, infelizmente) produzem a poluição que todos as pessoas sofrem. É um crime contra a humanidade.
ANA - Você vê algum sentido erótico no uso da bicicleta?
David - Eu penso que todas as coisas que te fazem sentir mais vivo, mais próximo com a natureza e o meio, têm um sentido erótico. A bicicleta tem, porque não. Além do mais, a figura de alguém pedalando em sua bicicleta sempre me pareceu erótica.
As marchas ciclonudistas não são feitas sob uma pressão erótica. Então nesse momento não tem um especial sentimento erótico, mas cada um pode sentir o que quiser.
ANA - Eu acredito que a bicicleta tem um componente erótico muito forte, romântico. É a coisa mais linda ver um casal numa bicicleta namorando, as crianças... Você sabia que existem muitas poesias eróticas sobre bicicleta?
David - Não, não sabia disso das poesias eróticas sobre a bicicleta. Estou de acordo com sua visão sobre a bicicleta.
ANA - O Espaço agora é seu, fale o que quiser...
David - Eu gostaria de recordar que nossa luta é política. Acreditamos em nosso trabalho e pensamos que estamos mudando as coisas em nossos entorno, em Zaragoza. Mas não deixamos de pensar globalmente, embora nosso âmbito de atuação seja local. Todas as lutas estão enredadas por todo o planeta, prova disso é que eu tenha essa conversa com você.
Eu agradeço muito seu interesse e divulgação Moésio, é uma alegria poder compartilhar coisas com pessoas a tanta distância. Um forte abraço companheiro. Para o que você quiser, seguimos em contato.
info@ciclonudista.net www.ciclonudista.net
agência de notícias anarquistas-ana
lili olhos-de-amêndoas
outro dia eu olhei nos olhos da lili,
minha cachorrinha, e o que eu pude ver ali
foi um olhar que ia fundo na minha mente,
como se aquele fosse, sim, olhar de gente:
mas não era, era de bicho, um bicho que sente.
sente muito, pensei: mesmo sendo mirim,
mostra que gosta de mim um tantão assim,
sempre com o rabinho pronto, bem contente,
quando eu chego cansado e de cabeça quente:
logo seu jeitinho me torna diferente.
diferente ela é, sim, pra mim, de outro bicho
qualquer, pois seu olhar de amêndoas me diz
que o que vale a pena é saber que sempre, sempre
posso contar com um olhar doce, paciente,
que me faz feliz e, sincero, me convence.
marcelo tápia
