ESCRACHES: 9 HIPÓTESES PARA A DISCUSSÃO


9 hipóteses para pensar o escracho...

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Os escraches extravasam as formas tradicionais da política: são uma prática inovadora que afirma um novo sentido da política e da militância.

Nesse sentido, é fundamental poder esmiúçá-lo e conhecer suas implicações. Como a experiência zapatista, a do MST e tantas outras, funda uma nova subjetividade revolucionária. Pensar a especificidade que o escrache implica, as características reais que a constituem, é a única forma de impedir que seja reinterpretado a partir de fórmulas que hoje não nos auxiliam. Este é o objetivo deste encontro (1).



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Os escraches são, em primeiro lugar, um chamado à luta, uma confirmação prática de que a ação transformadora é agora, ou não é. São o oposto da melancolia daquele que espera (sentado) por um mundo melhor. O escrache nos demonstra que a luta não depende da idéia de um amanhã luminoso, de nenhuma estratégia cientificamente demonstrada, nem de nenhum salvador que nos liberte.



Por isso o escrache funda uma outra idéia do tempo, diferente daquela que o capitalismo nos oferece.



Para este último o passado já se foi, só existe como memória passiva, como Nunca Mais. Vivemos o futuro como uma promessa longínqua e imprecisa, que não depende de nós. Por isso nosso presente é débil, triste: estamos sós, e esperando um milagre.


No escrache, pelo contrário, o passado atua com força, os desaparecidos vivem como projeto atual, é um passado que afirma: é passado do presente. Por outro lado, o futuro já chegou, porque não é outro além daquele que vamos construindo, que depende de nós: é o futuro do presente. Assim o escrache funda um presente pleno de potencialidades, decisivo.



O escrache é uma prática que não pode esperar nem se conformar. Surge hoje e é para o agora.


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É assim porque se organiza o escrache apenas para dar resposta à exigência que o funda: justiça. É esta a necessidade que afirma na prática. E é uma experiência que não precisa de nenhuma justificação. Não precisa de um programa acabado, nem sequer de adesões individuais: não depende do “consenso”.

É uma verdade independente da complexidade da conjuntura, das razões de Estado, das relações de forças, não se esgota em nenhuma compensação pontual. Por isso o escrache se nega a ser simplesmente a representação das vítimas; por isso não busca no Poder a solução. O escrache produz um compromisso militante que está mais próximo, que não depende do poder. É um novo sentido do compromisso.


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O escrache cria uma outra idéia e outra prática da justiça, que é oposta e antagônica à justiça formal. E com ela funda uma nova prática e um novo conceito da Democracia.



Em primeiro lugar, “se não há justiça, há Escrache”. Ou seja, a justiça não depende de uma instituição que a encarne, mas da ação que a produz. Não é a instituição, nem a norma, nem sequer o direito (humano) o que funda o justo, mas o ato e a prática concreta da justiça.


Em segundo lugar, o mais importante, esta busca de justiça não se esgota, nem sequer se expressa, na pena carcerária, nem pode ser contida nas burocracias judiciais. A luta que o escrache expressa vai mais além do Estado de direito, não pode ser reabsorvida por este. Se hoje fossem presos um, dois, ou dez militares genocidas, os escraches não acabariam.



O escrache inventa concretamente ma nova noção da justiça, fundada na capacidade popular de produzir verdades que o poder não pode desarmar cooptando-as. É esta a via pela qual o campo popular se converte em sujeito autônomo.



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O escrache, então, é uma nova situação que compõe e implementa uma prática alternativa. Ou seja, que contém indícios de uma nova sociedade. Estes indícios se manifestam, atuam, independentemente dos slogans ou palavras que elegemos para explicar-los. Às vezes, inclusive, elegemos slogans contrários à prática que levamos adiante. Um exemplo disto ocorre quando pedimos justiça ao estado, no mesmo momento em que negamos esta justiça e fundamos outra. Isto ocorre quase sempre, e nos mostra algo fundamental: que o sujeito da política é a situação da qual participamos, a ação coletiva com a qual nos comprometemos; e não os indivíduos isolados e a idéia que fazemos de nós.

Por isso o escrache funciona como uma máquina. Não é decisivo quantas pessoas participam dele, nem como foi organizado. Quando se põe em ação, funciona, transmite um sentido de radicalidade impressionante, comove o bairro, incorpora pessoas espontaneamente.



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O aporte e a importância do escrache é singular, específico. É a bisca pela justiça, e nada mais. Mas por isso mesmo (e não apesar disso) é que é tão potente. Por isso mesmo, é que é universal, por essa singularidade é que todos nos sentimos parte, nessa singularidade nos sentimos expressados.



É certo que os H.I.J.O.S. se equivocariam se amanhã opinassem sobre o que devem fazer os trabalhadores, ou sobre que estratégia devem seguir os assentamentos, ou sobre como um cientista deve pesquisar. Não; se os H.I.J.O.S. são um grupo de vanguarda hoje, é porque fazem os escraches. E não o contrário.


O escrache demonstra que as vanguardas hoje se definem por suas práticas concretas e não por suas opiniões sobre as práticas. E além disso, deixam claro que toda prática política de vanguarda, alternativa ou revolucionária, é, por circunstância, singular.


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O que dissemos antes, a singularidade do escrache, se confirma por um outro ângulo. Pelo fato de que muitas vezes se assume o escrache abstraindo-se de sua significação profunda; quando isto acontece, o escrache carece de radicalidade política.


Isto aconteceu com sindicatos, partidos políticos, agrupamentos universitários que realizam escraches pedindo aumento sal, incrementação de orçamentos, ou qualquer petição ao poder em questão – seja estatal ou não. Nestas ocasiões se perde a essência do escrache, e se fica preso na lógica da negociação.


É evidente que o significado político do escrache, sua universalidade, passa por outro aspecto além da simples imitação.


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H.I.J.O.S. é um movimento social que se organiza pela exigência de justiça. E no compromisso com esta exigência de justiça. E no compromisso com esta exigência concreta inventa o escrache, prática que funda uma nova forma de entender a justiça. O escrache, por isso, é político. A política, então, não é outra coisa senão o pôr em ação de novas formas de fazer e entender a vida social.



Isto é o contrário de entender a política como algo diferente da luta social, isto é, como a luta por magníficas abstrações, como “a liberdade”, “a revolução”, ou “o bem da humanidade”, abstrações que apenas se realizarão (talvez) quando tomemos o poder.


A política da realização de projetos transformadores e não a elaboração de prudentes e autorizados programas. H.I.J.O.S. faz os escraches, enquanto os partidos de esquerda tentam capitalizar isso para sua “importante” estratégia. Por isso H.I.J.O.S. rejeita os partidos de esquerda. H.I.J.O.S. é uma organização política porque não é nem pretende ser um partido.



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O escrache é então uma referência visível de uma nova prática de transformação. Mas, visto desta maneira, podemos encontrar milhares de experiências que compartem da mesma busca, talvez menos espetaculares, menos difundidas ou referenciadas, mas igualmente importantes. Situações de resistência e criação de novas formas de existência, onde se produzem e se exercitam concepções autônomas às do poder, em cada um dos âmbitos da vida.


No aprofundamento e desenvolvimento destas experiências, e na capacidade que elas tenham de se articular para se fortalecer mutuamente, é onde transcorre hoje a política revolucionária.


1.Este texto foi escrito como estopim de um debate com integrantes de H.I.J.O.S., que também foi publicada no nº 1 da revista Situaciones.


Tradução de Ricardo Rosas



Publicado no nº 1 da revista “Situaciones”, setembro de 2000.



Fonte: Instituto Hemisférico de Performance e Política (  http://hemi.nyu.edu/).


Link: Colectivo Situaciones (www.situaciones.org).