Carta Aberta em Repúdio ao Enredo da Escola de Samba Império Casa Verde - Carnaval 2006.



São Paulo, 20 de fevereiro de 2006



A escola de Samba “Império Casa Verde” celebra o Carnaval desse ano com o enredo “Do boi mítico ao boi real”.



O que dizer do boi mítico? Celebremos a Vaca Sagrada da Índia, os bois que transportaram Krishna e Buda, dancemos com o Boi Mamão e o Boi Bumbá, festejemos o combate entre o Boi Caprichoso e Garantido. Lembremos do Boi da Cara Preta que assusta as crianças insones, o Minotauro do labirinto de Creta e nos céus a constelação-signo de Touro. No mito, tudo se permite.



Nos preocupa o boi real. Aparentemente exaltado, é reduzido de fato à dissecação, perde sua personalidade. O boi não é mais boi, não possui sequer sua animalidade. O boi agora é a carne, o embutido, a gelatina, os ossos triturados, o sangue, o sapato de couro, a escova de pêlos, o sêmen para reprodução. O boi é um conglomerado estanque de produtos previamente etiquetados.



O boi não é um animal livre que pasta nos campos. É um produto controlado, submetido a processos de produção, demanda água e alimentos em proporções incoerentes com a quantidade de carne produzida. É envenenado por pesticidas que permanecem na gordura que adere às artérias humanas. Requer queimada de florestas para plantação de pastos.



O boi é aquele submetido ao terror dos rodeios, as pupilas dilatadas, a urgência de corcovear para derrubar o peão que o fere. O touro morto no calor das touradas, sacrificado em vão por quem se apresenta como herói das multidões. O perseguido na ilegal Farra do Boi



Desde o desenvolvimento da agricultura nós não somos predadores irracionais que dependem do boi para a sobrevivência. O boi não é sequer nosso principal alimento, pois sem os vegetais adoecemos. Mas podemos viver só de vegetais. Qual nossa natureza, então?



Diz-se no campo que do boi tudo se aproveita, exceto o berro. Mas é justamente o berro do boi que nos interessa, sua manifestação de sofrimento, o atestado definitivo de que é um ser vivo sensível.



Há alternativas ao boi? Sim, assim como um dia foi necessário enxergar uma alternativa aos escravos. Se as civilizações se apoiaram sobre o boi para sobreviver – afirmação deveras questionável – sejamos humildes o suficiente para liberá-los desse encargo.



Sim, o boi é o orgulho nacional. E sua exploração é a vergonha que muitos colocam todo dia sobre a mesa.



Celebremos então com gratidão não os pecuaristas que fazem da morte o seu ganho, mas o boi imolado pelos séculos. Tomemos o sentido do Carnaval e renunciemos aos grilhões do boi, renunciemos à carne. Não por 40 dias, mas pelo resto de nossas vidas.