Talvez esse já fosse um processo em curso, mas o fato é que a radicalização ocorrida no processo eleitoral de 2006 foi ideológica ? e, sem dúvida, expôs uma divisão de classes de forma inédita no país pós-redemocratização. O embate na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello no segundo turno das eleições presidenciais de 1989, embora tenha tido momentos de alta agressividade, dividiu o país entre partidários de um ou outro, mas o componente de classes foi diluído ? em parte pelo fato de que os dois candidatos tinham carisma e dividiam o eleitorado pobre, em parte porque o país recomeçava a conviver com a democracia. Há também outra diferença que deve ser considerada entre as duas eleições presidenciais mais agressivas no período pós-ditadura: de lá para cá, ocorreu um aumento considerável de escolarização das camadas mais pobres da população, embora sem correspondência em aumento significativo de renda.
2006 ainda está muito próximo para que se faça análises definitivas, mas não é absurdo apontá-lo como um ano para não ser esquecido. As classes de menor renda se descolaram da classe média, das elites e da mídia, os chamados ?formadores de opinião?. Lula foi beneficiário do fenômeno ? e o seu partido também, embora por exclusão. Do outro lado, as elites e os grupos de direta deixaram os pudores de lado e passaram a assumir suas posições políticas de forma mais clara, inclusive expondo os preconceitos embutidos em suas posições ? talvez porque, desta vez, estavam excessivamente respaldados pela mídia e imaginavam cumprir, como sempre, o papel de orientadores de voto dos ?sem-cultura?.
Os partidos imaginavam que, passado o pleito, as alianças partidárias, uma maioria governista folgada na Câmara e a distância no tempo dos escândalos envolvendo o PT obrigassem uma esfriada nos ânimos dos lados em disputa, abrindo um ano de bonança na política. Ocorreria de novo um natural aumento de tom em 2008, quando os partidos irão às urnas para disputar as eleições municipais, e novamente reacomodarem-se em 2009. Os políticos não perceberam, contudo, que o processo de radicalização ocorria no tecido social de forma mais intensa do que no mundo da política institucional. Os partidos deixaram de ter poder de mediação, de um lado, junto a movimentos sociais; e, de outro, junto às elites que assumiam cada vez mais o conservadorismo, deixando de lado os pudores do passado.
Talvez por aí seja possível entender um afastamento cada vez maior dos movimentos sociais do governo e do PT ? mesmo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), ligada à igreja progressista, que sempre teve uma atuação muito mais de suporte aos sem-terra e posseiros em conflitos agrários, está mais pró-ativa, por exemplo, ? e dos partidos de oposição com a ?elite branca? a que se referiu o conservador Cláudio Lembo, quando assumiu o governo paulista, em 2006, após a desincompatibilização de Geraldo Alckmin para disputar a Presidência da República com Lula. O exemplo é o tal do movimento ?Cansei?, que teve uma excessiva exposição da mídia certamente não pela sua importância política, mas pelo caráter de oposição ativa ao governo. Assim como a ?elite branca?, a mídia convencional está descolada da ação político-partidária, embora a ação de ambas tenha um caráter antiLula de fato.
Por que o país não baixou a bola depois das eleições é uma questão importante no debate político desse momento histórico. Um palpite, quase óbvio: os partidos políticos, no momento em que ocorre uma cisão no tecido social, não dispõem nem de instrumentos, nem de experiência de representação orgânica de setores sociais. O PT poderia ser tomado como exceção, mas o fato é que sua institucionalização afastou os movimentos sociais que faziam a mediação entre o partido e as classes mais pobres. Na verdade, acabou sendo beneficiário dos votos desse eleitorado ou pela vinculação à candidatura de Lula, ou por exclusão.
O PSDB tem declarado intenções de relações mais orgânicas com setores sociais, mas antes tem um problema sério a resolver. Os tucanos têm de definir, primeiro, se se assumem como partido de centro-direita ou se voltam para a origem, jogando a legenda para a centro-esquerda. Se resolverem ficar à direita, trombam com o ex-PFL ? e uma aliança entre ambos numa próxima eleição presidencial deixa de acrescentar votos, já que disputariam no mesmo eleitorado. Se der uma guinadinha para a esquerda, encontra-se com o PT, que lentamente fez o caminho da esquerda para a centro-esquerda. O PT, por sua vez, tenta um retorno para um pouco mais à esquerda mais por questões internas do que propriamente eleitorais. O chamado Campo Majoritário não consegue hoje levar o partido a lugar nenhum se não compuser com as tendências de esquerda. Sua hegemonia é cada vez mais questionável. O governo petista, no entanto, não consegue governar se não se mantiver ao centro, porque consegue maioria parlamentar com o apoio de partidos de centro ou conservadores e porque socialmente a esquerda está longe de ser hegemônica. O ex-PFL sentiu a classe média órfã e investiu nela, mas seus dirigentes reconhecem que têm grande dificuldade de captar quadros novos. O hoje Democratas também dá mostras de que terá dificuldades para livrar-se dos hábitos de oposição raivosa ou recusar a atração a decisões políticas que podem ser confundidas com golpismo.
A sociedade brasileira mudou politicamente. Os partidos não conseguiram acompanhá-la. E não são leis que vão lhes dar a varinha mágica de estabelecer vínculos orgânicos com a sociedade. Isso aí depende de prática política ? e do hábito de sair as ruas e enxergar a realidade que existe do lado de fora dos prédios monumentais da Esplanada dos Ministérios.
Maria Inês Nassif é editora de Opinião.
Escreve às quintas-feiras no jornal Valor Econômico