Para VERGONHA do nosso País, a reportagem publicada ontem pelo jornal "O Comércio da Franca" revela que o motivo para esse escasso envolvimento na Condor era justamente o oposto: em 1976 o Brasil já possuía todo um sistema denso e estruturado para combater e perseguir os dissidentes no Exterior, mais silencioso, mais eficiente e mais traiçoeiro do que a Operação Condor. Era o chamado "Plano de Busca Externa", criado DEZ ANOS antes da Operação Condor e conduzido por um órgão secreto do Itamaraty, o Ciex (Centro de Informações Externas). A reportagem do "Comércio da Franca", assim como outras matérias publicadas em julho pelo "Correio Braziliense", revelam como elas agiam. O mais ESCANDALOSO disso é que o Plano de Busca Externa teve como ponta de lança o Itamaraty, uma instituição que é motivo de orgulho nacional pela cultura altamente erudita de seus funcionários! Resumindo, o Brasil não se envolveu pouco na Operação Condor porque era supostamente "melhor" do que os países vizinhos, mas porque era PIOR: montou a sua própria Operação Condor 10 anos antes!!! A reportagem segue transcrita abaixo:


ITÁLIA PEDIRÁ EXTRADIÇÃO DE 13 BRASILEIROS

O Ministério das Relações Exteriores ainda não foi comunicado sobre a decisão da Justiça da Itália, que pediu a prisão de 140 sul-americanos, entre eles 13 brasileiros envolvidos em crimes durante a Ditadura Militar (1964-1985) na chamada Operação Condor. O Tribunal Penal de Roma quer punir os responsáveis pelo desaparecimento de 25 cidadãos italianos ou com dupla cidadania (ítalo-argentinos, ítalo-uruguaios, etc).
Segundo o Itamaraty, nenhum documento do caso foi encaminhado pelas autoridades européias. Se recebidos, os pedidos de prisão serão entregues ao Ministério da Justiça.
A prisão do ex-militar uruguaio Néstor Jorge Fernandes motivou a expedição de novas ordens de captura. Fernandes, que era chefe do Serviço Secreto do Uruguai, foi detido na segunda-feira na Itália.
Nenhum dos 13 brasileiros teve o nome divulgado. Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai são os outros países que podem receber pedidos de extradição.
A Operação Condor foi um pacto informal estabelecido em 1975 entre as ditaduras então vigentes na Argentina, no Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai, na Bolívia e no Peru. Por força deste acordo, os serviços de inteligência e órgãos de repressão dos seis países trocavam informações sobre guerrilheiros de esquerda que atuavam na região - os Montoneros na Argentina, o MIR no Chile, os Tupamaros no Uruguai, a VPR no Brasil, etc. Quando, por exemplo, guerrilheiros argentinos cruzavam a fronteira para se refugiar no Uruguai, o governo militar deste país informava às autoridades de Buenos Aires e, eventualmente, os capturava e entregava ao Exército argentino, em caráter sigiloso e sem processo de extradição - daí a ilegalidade do procedimento, que depois disso ainda desembocava em torturas e mortes. A Operação Condor envolvia, portanto, dois níveis de cooperação: as trocas de informações e as operação de deportação clandestina.
Segundo documentos secretos liberados pelo Departamento de Estado dos EUA em 2001, o governo norte-americano tinha conhecimento da Operação Condor, embora dela não participasse. Os relatórios revelam que Argentina, Chile e Uruguai eram os mais ativos na Operação, enquanto o Brasil evitava se envolver de forma profunda. Um relatório produzido pelo Departamento de Estado dos EUA em 1977 diz que "os líderes brasileiros não enxergaram vantagens na Operação Condor que justificassem o risco de uma revelação pública".
O baixo entusiasmo do Brasil pela Operação Condor deve-se ao fato de que na época a Ditadura Militar já contava com um denso e estruturado sistema nacional destinado a combater e perseguir seus inimigos no exterior. O eixo central desse sistema era o Ciex (Centro de Informações do Exterior), criado em 1966 dentro do Ministério das Relações Exteriores, por iniciativa do então secretário-geral do Itamaraty, Pio Corrêa. Com funcionários nas principais embaixadas brasileiras instaladas lá fora, o Ciex acompanhava as atividades dos exilados, dos guerrilheiros brasileiros que se escondiam nos países vizinhos e até dos ativistas estrangeiros que denunciavam o Regime Militar na imprensa internacional. Era o chamado "Plano de Busca Externa", muito mais discreto e silencioso do que a Operação Condor, pois as sujeiras desta última não raro vinham à tona, como o assassinato de Orlando Letelier em 1976. Em seguida, o Ciex repassava essas informações aos órgãos de repressão da Polícia e das Forças Armadas - o DOPS, o SNI, o Cisa, o CIE, etc. Isso explica porque em novembro de 1975 o general João Batista Figueiredo, então chefe do SNI, recusou o convite para a primeira reunião da Operação Condor, no Chile. Figueiredo enviou ao evento um observador, recomendando-lhe manter certa distância dos demais participantes. Além de nada daquilo ser novidade para a caserna tupiniquim, àquela altura os militares brasileiros já haviam vencido a guerrilha em 1974.


REPORTAGENS MAIS DETALHADAS SOBRE AS ATIVIDADES DO CIEX/ITAMARATY PODEM SER ENCONTRADAS NAS EDIÇÕES DE JULHO DO CORREIO BRAZILIENSE, QUE REVELAM INCLUSIVE QUE HÁ DIPLOMATAS VIVOS E NO SERVIÇO ATIVO QUE PARTICIPARAM DO PLANO DE BUSCA EXTERNA.