Logo, dá-se inicio uma viagem a um mundo distante, contato com um povo que conseguiu manter traços ancestrais. Criado dentro da comunidade indígena dos Qollasuyu, Dennys expõe um lado da moeda, enquanto que Ramiro Saravia e Leni Rivera, ambos descendentes quéchuas e membros do Grupo Tinku Juvenil, sustentam uma visão já influenciada pela globalização dos povos.
O início da cultura andina é remontado há cerca de 25 mil anos e dela faziam parte a cultura Tiwanacota, Incaica e Aymara, povos que compartiam ritos, assim como a cosmo visão, em que a pacha mama (pátria mãe) é o ponto central. Em sua forma originária, essas civilizações eram organizadas em senhorios autônomos, até que por volta de 50 d.C. “alguns desses povos sentiram necessidade de construir estados”, conta Dennys. O Império Inca gerou-se a partir da aliança de famílias que passaram a dominar a região dos lagos (hoje região que vai de Cochabamba até La Paz) expandindo-se pelos Andes e atingindo seu apogeu anos antes da chegada dos espanhóis em 1492. A partir daí, sem contar com o genocídio, “a criação dos estados nacionais como, Bolívia, Venezuela, Brasil, Colômbia, Chile, Equador e Argentina dividiram essas zonas originárias e conseqüentemente as culturas”, afirma Ramiro.
“Não existe uma cultura boliviana, isso é uma construção social, um discurso. De fato há culturas”. Ramiro Saraiva
Atualmente, mais que reivindicar as culturas originárias, querem “que os estados as reconheçam dando-lhes liberdade de se auto governar”, conta Ramiro. Esse espírito de resgate, ou de “reviver o passado” como pontua Leni, desabrochou com os quinhentos anos. Dentro da lógica religiosa andina, em 1992 deu-se início a era PACHAKUTI, “uma nova época em que os filhos dos que antecederam todo esse prejuízo dos 500 anos voltam para restabelecer o equilíbrio entre o homem e a pátria mãe”, explica Ramiro. Desde então, consolidou-se não só o projeto da nação autônoma Aymara como também surgiram iniciativas como a do Grupo Tinku, que nos idiomas quéchua e aymara significa encontro integral, propondo-se a reviver a cultura andina em suas formas autóctones.
(Manifestações autóctones são aquelas que mantém os traços originários, por exemplo, os grupos musicais quéchuas e aymaras recusam-se a utilizar instrumentos de amplificação, por acreditarem que isso é uma influencia externa. Da mesma forma termos como tribo ou folclore não são bem vistos por representarem uma “antropologia de brancos”, explica Ramiro.)
Com a chegada dos espanhóis “as comunidades indígenas voltaram seu estado originário de núcleos autônomos”, explica Dennys. Retrocederam no que tange o aspecto político e econômico, mesmo que em 1825 fossem reconhecidas como províncias pelo estado boliviano. Entretanto algo que nem a colonização nem a violência puderam mudar, ainda que os jesuítas iniciassem as primeiras missões no continente, foi a religiosidade e os costumes milenares. Essa lei de “reconhecimento” marca o início de uma série de decretos por parte do governo boliviano que mudaram radicalmente a vida das comunidades indígenas. Significaram para eles a perda de sua autonomia, já que “culturas que não podiam conceber outra forma de organizarem-se que não fosse horizontal e circular passam a ter um chefe de estado”, destaca Dennys. Outro fator que marca a história indígena na Bolívia foi o início da migração para as cidades, principalmente após 1952 quando o índio passa a ter os mesmos direitos que o branco. Até então, 90% da população boliviana ainda não havia se misturado.
Mal vista pela sociedade, dá-se inicio uma mestiçagem que gerou racismo dos dois lados. Dennys introduz os termo chollos para designar “aos que índios que perderam sua identidade” e birlochas às índias, ambos utilizados na maioria das vezes com uma conotação negativa. A verdade é que “há um porcentagem enorme de gente que tem vergonha de sua origem, ainda que saiba falar o idioma, ainda que tenha um nome em quéchua ou aymara”, conta Leni. Referem-se à população urbana, em sua maioria com traços caboclos explícitos, mas que já não preservam os costumes andinos, levando uma vida como a de qualquer outro cidadão da aldeia global. Ramiro acredita que essa negação do passado, também parte da hibridez cultural, aconteceu devido à experiência da chegada na cidade. “O campesino, homem do campo que só sabia quéchua, era discriminado. Tratou então de se esquecer do idioma, já que isso poderia criar-lhe problemas na cultura oficial”, explica. Mais grave ainda que essa discriminação conseqüente do choque cultural, parece ter sido a instauração do sistema educacional boliviano. “Quando fui à escola, ainda falando quéchua, fui obrigado a falar espanhol”, relembra. “O perfil de homem que o sistema educativo boliviano persegue é euro cristiano, e que queriam ensinar isso ao índio!” Dennys
As escolas começaram a ser construídas na zona rural boliviana a partir de 1972, época do ditador de descendência alemã Hugo Banzer, ainda que a lei de igualdade estivesse vigente há vinte anos e garantisse o direito à educação a todos. “A escola tentou nos colocar na cabeça uma lógica que não conseguimos decodificar, nos impuseram uma cultura que não era a nossa”, diz Leni. Este fato, aliado à pregação de que outra religião que não fosse a católica era paganismo, rompeu ainda mais os laços com a milenar cultura andina. “Há intelectuais aymaras que acreditam que o objetivo do programa educativo boliviano ser instaurado era a eliminação da nossa identidade cultural”, conclui Dennys. “Assim como há quartéis espalhados para todos os lados, há escolas e igrejas para governar. Assassinam culturalmente nossa identidade.” Dennys