João Alexandre Peschanski

da Redação (Brasil de Fato)



Segundo a deputada federal Maria José Maninha (PT-DF), signatária do manifesto, em vez de disponibilizar soldados para a ação militar, o governo brasileiro deveria solicitar à Organização das Nações Unidas (ONU) que garantisse o processo democrático no Haiti. Maninha afirmou que a Confederação Parlamentar das Américas, entidade que preside e que reúne representantes de diversos países do continente, recebeu, dia 23 de março, um pedido de socorro de senadores haitianos, pois o país estaria sofrendo um golpe de Estado.

Desde 5 de fevereiro, o Haiti vive uma guerra civil, marcada por confrontos entre grupos militares, de um lado, e partidários do deposto presidente Jean-Bertrand Aristide, de outro. Destituído em 29 de fevereiro, Aristide acusa o governo dos Estados Unidos de financiar seus opositores, de tê-lo seqüestrado e mantido em prisão domiciliar na República Centro-Africana. Desde a saída do presidente, o país caribenho está sendo governado por Gerard Latortue, representante das forças armadas rebeldes. Recentemente, Latortue disse que o Haiti não precisa de eleições e que seria preciso um “tempo de readaptação” para a democracia.

No dia 2, a pedido do presidente estadunidense George W. Bush, e seguindo instruções da ONU, Lula anunciou que pretende enviar 1.100 soldados brasileiros para participar de uma força multinacional no Haiti, integrada por soldados dos Estados Unidos, Canadá, França e Chile. O objetivo seria garantir a paz no país.




INTERESSES IMPERIALISTAS

Segundo Júlio Turra, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que também assina o manifesto, o governo brasileiro está fazendo o jogo de Bush. Para ele, desde a saída de Aristide o Haiti se tornou um protetorado dos Estados Unidos. “Chega ao cúmulo de soldados estadunidenses fazerem rondas na capital do país, Porto Príncipe, e prenderem e assassinarem pessoas”.

Ele destacou que o envio de tropas brasileiras ao país do Caribe vai contra a vontade dos eleitores de Lula, que votaram para que ele rompesse com Bush. Turra salientou que, no caso de um ataque a Cuba, o Haiti poderia servir de base para os Estados Unidos. “O Brasil não pode legitimar esse tipo de ação militar”, afirmou.







Um abaixo-assinado circulará por várias redes de solidariedade, para coletar adesões de entidades e movimentos de direitos humanos. As manifestações individuais, de repúdio ao envio de tropas brasileiras ao Haiti, devem ser enviadas para: Presidente Luiz Inácio Lula da Silva –  gabpr@planalto.gov.br Ministro Celso Amorim –  celsoamorim@mre.gov.br




Os haitianos devem decidir seu próprio futuro




O manifesto contra o envio de tropas brasileiras ao Haiti está recebendo dezenas de assinaturas de personalidades do Brasil e da América Latina. Assinam o documento, a ser entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, parlamentares, prefeitos, intelectuais, sindicalistas, jornalistas e artistas. A íntegra do documento é essa:




Ao excelentíssimo senhor presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva




Dirigimo-nos à sua excelência para solicitar que não sejam enviadas tropas brasileiras para participar de uma suposta “força de paz” no Haiti, como foi noticiado.

As tropas norte-americanas, canadenses, francesas e chilenas que lá se encontram são tropas de ocupação que designaram um governo títere, violando a soberania nacional do Haiti. Já houve haitianos mortos por soldados norte-americanos, ao mesmo tempo que as autoridades provisórias atuais já afi rmam que não haverá eleições antes de dois anos. Fica claro, assim, o caráter de ocupação que a presença das tropas estrangeiras têm, quando a solução democrática da crise tem que ser dada pelos próprios haitianos.

Por outro lado, essa intervenção agride a soberania de todas as nações do continente, reforçando o intento do governo Bush de impor uma hegemonia sem limites, integrando uma escalada a que é preciso pôr fim. Ela também se choca com a defesa da soberania e a resolução democrática dos confl itos internacionais, afirmada pela política externa brasileira.

Os que assinamos este texto somos partidários do direito à autodeterminação, defensores da paz e da fraternidade entre os povos, como a grande maioria do povo brasileiro que, em 2002, o elegeu.

Não podemos aceitar, senhor presidente – quaisquer que sejam as pressões das grandes potências – que tropas brasileiras participem dessa ocupação.

Temos o triste antecedente da participação de tropas brasileiras com as norte-americanas no golpe que tirou do poder o presidente legitimamente eleito da República Dominicana, Juan Bosch, e instalou um novo governo ditatorial. Mas aquilo foi possível em 1965, quando havia no Brasil uma ditadura militar. Hoje, um governo democrático não pode cometer o mesmo erro. Que o povo do Haiti decida sobre o seu próprio futuro! Não ao envio de tropas brasileiras ao Haiti!