Antes, achava-se que o fim da vida na Terra viria pela bomba atômica. Depois, foi-se lentamente percebendo que a bomba atômica não seria necessária.
Não se trata de propagandear o apocalipse. Afinal, ?Ecologia? não é uma religião e os ecologistas não são uma seita cujos problemas não nos afetam. E o fim não está próximo: a agonia da raça humana será longa e próspera.
Ecologia é uma ?realidade?, e disso sabem muito bem os políticos e economistas ?realistas? (seguidores do ideal materialista) que procuraram já há alguns anos a ajuda dos ecólogos para criar belos conceitos ? enxertando, como num ciborgue, capitalismo na ecologia ? tais qual o tagarelado desenvolvimento sustentável.
O desenvolvimento sustentável seria a fórmula mágica de levar o mercado, a evolução material e o acúmulo de capital para além das fronteiras sagradas de onde a suposta separação entre humano e natureza não teria saído. O elo perdido mítico representado por personagens como índios, ribeirinhos, quilombolas, caipiras, nômades e todo o tipo de gente não submetida ao regime formal e alienante da propriedade e do trabalho deveria enfim ser transformado em mercadoria (seja pela monocultura da soja ou do pasto, seja pela exploração da diversidade sábia dos ?nativos?), dar lucro e ser incluído dentro do sistema capitalista, realizando sua utopia total.

Entretanto, para o mal não só dos incluídos, mas também dos excluídos, o planeta resolveu reagir. Aliás, ele sempre reage ou, melhor dizendo, todos reagem. Mas só agora é que os ?realistas? estão percebendo isso.
Perceber é fácil... É fácil falar em consciência ecológica. Mas não adianta nada ter consciência se ela não virar ação ecológica.

A América Latina tem sido apontada por especialistas multinacionais como o grande seleiro da renovação esquerdista mundial. Uma esquerda realista, não tenha dúvida, assim como não deixava de ser realista seu vultoso patriarca, Karl Marx.
Certamente Marx não seguia o mesmo realismo religioso de um Max Weber, para quem o capitalismo triunfaria tragicamente até o fim da última gota de combustível fóssil (se conhecesse o biocombustível, não seria tão otimista).
Mas não deixava de julgar realista ? e necessária ? a evolução, o desenvolvimento e a vitória do capitalismo para que, enfim, o Homem (com H maiúsculo, esse Marx!) se libertasse através do comunismo e pudesse progredir, ainda triunfante, dominando a natureza.
Esse foco na dominação da natureza (uma desumanização da ?natureza?: transformação dos outros em coisa), no valor trabalho, no progresso, marcou o pensamento do século XIX, esquecendo-se um pouco do que os pensadores diziam um século antes (?nada se cria, tudo se transforma?: se cresce de um lado, se decresce de outro).
Não é que ecologia não fosse o forte de Marx. É que, aplicada ?hoje?, a teoria de Marx é anti-ecológica.

Pois assim como Marx achava que um país desenvolvido deveria subjugar um país não desenvolvido para colocá-lo no caminho da revolução, agora Lula acha que deve transformar a Amazônia em terra produtiva. E acha, como seus antecessores no poder, que o Brasil deve continuar crescendo (crescer, crescer, crescer até fazer PAC!).
E não está sozinho: o foco dos presidentes esquerdistas latino-americanos no combustível, no petróleo da Venezuela, no gás da Bolívia, no álcool do Brasil, e na inclusão de todos aqueles que pensam diferente, mostra que, por mais que lhes neguem esse privilégio, eles são, sim, verdadeiros representantes da tradição marxista.

Outro dia, num discurso para estudantes, o presidente Lula insistiu que eles agora iriam entrar para o mundo ?real?, na vida ?real?, do ?trabalho real?, e ele não estava falando da moeda inventada por seu antecessor.
Afinal, o fundamento da ideologia materialista de Lula é o valor trabalho. Nada mais ?real? que o trabalho. Trabalhar muito, dar trabalho para todos, ninguém pode ser vagabundo. Vagabundo, não vender sua força de trabalho, andar livremente por aí, como um nômade, vagando... colhendo, coletando, caçando...

O orgulho ?realista? de Lula, contudo, impede-lhe de cair na real: a Amazônia não agüenta tanto desenvolvimento.
O Nordeste, em 10 anos, poderá se tornar um deserto. O Sudeste, em 10 anos, poderá ter suas cidades praianas invadidas pelo mar (será o fim dos farofeiros e do fim-de-semana na praia) ? cafezinho, então, pode esquecer: nosso solo se tornará infértil para o café.
Em suma: se o desenvolvimento continuar, em 10 anos a vida no Brasil e na terra será muito pior. O desenvolvimento é indesejável, porque é insustentável.

Pois a América Latina parece estar querendo competir com a China para ver quem chega primeiro no começo do fim do mundo.
Mas para além do fatalismo, existem soluções muito menos apocalípticas e muito mais sustentáveis que nossos presidentes poderiam adotar.
Pensemos em algumas delas, aleatoriamente (eu penso aqui e você pensa aí):

? Instaurar o regime de trabalho de 3h diárias. Além de diminuir o desemprego, diminuiria também a quantidade de horas de trabalho no mundo, e a quantidade de queima de combustíveis fósseis.
? Substituir o transporte urbano motorizado por bicicletas coletivas (como aquelas com 5 acentos ou mais). Além de diminuir a queima de combustíveis fósseis, aumentaria a saúde e a alegria de viver das pessoas.
? Interromper o saneamento básico baseado em água e esgoto e substituí-lo pela permacultura. A permacultura é uma maneira ecológica de habitar, que utiliza meios como banheiro seco, adubo orgânico, horticultura, reaproveitamento de água da chuva etc., tornando as casas realmente sustentáveis, atacando problemas como a falta de água e a falta de comida.

Esses são três exemplos simples, práticos e bem possíveis.
Se em vez de colocar uma pessoa trabalhando 16 horas por dia, colocassem 5 trabalhando três hora por dia, alguém morreria de fome? Se em vez de passar 3h dentro de um ônibus no congestionamento, uma pessoa passasse 1h pedalando na bicicleta, alguém morreria de asma, bronquite ou tédio? Se em vez de instalar água e esgoto nas casas, fosse encampada a permacultura, alguém morreria de dengue? Trabalhando menos, quem não teria mais tempo para cuidar de uma hortinha e vagar por aí? Alguém pagaria caro por isso? Quem sairia perdendo?

Pergunte-se: quem sairia perdendo com isso? E responda: os governos que adotam o desenvolvimento, o combustível ?fóssil? ou ?biológico? e a inclusão dos vagabundos estão do lado de quem?