[Cuba] Entrevista com o grupo punk Porno Para Ricardo

O Movimento Libertário Cubano (MLC) realizou via internet a entrevista a seguir com um grupo musical punk ativo em Havana há mais de 10 anos, que hoje é expoente significativo de uma cena contracultural que merece reconhecimento e solidariedade.

Sem dúvida alguma, Porno Para Ricardo (www.pornopararicardo.com) se converteu em um mito de resistência contracultural em Cuba e no interior da cena punk latinoamericana; assim mesmo, temos constatado o crescente interesse nos meios anarquistas internacionais pela atividade e a postura antagonista e anti-sistêmica dos integrantes da banda, estes que, frente a todas as luzes, se assumem como contestatórios pronunciando-se abertamente contra o autoritarismo seja de qual cor for.

Sem dúvida, ainda nos parece insuficiente a difusão da existência contra-a-corrente de uma crescente e cada dia mais importante cena contracultural cubana aonde as propostas punks figuram como ponta de lança contra toda Autoridade. E, precisamente, nesta cena é aonde se destaca PPR com sua música independente e autogestionada, carregada de letras irreverentes e contestatórias, o que tem resultado em uma perseguição implacável por parte da ditadura burguesa dos "hermanos" Castro.

Esta repressão aberta contra o movimento contracultural em Cuba, nos impulsiona, como anarquistas cubano/as, a somarmos a necessária campanha internacional de solidariedade com Porno Para Ricardo. A partir disto, vem esta entrevista a Gorki e demais integrantes do coletivo PPR, como primeiro passo desta campanha.

MLC: Antes de tudo, queremos informar-lhes que esta entrevista aparecerá no El Libertario, publicação anarquista venezuelana, e em Cuba Libertaria, órgão de informação do Grupo de Apoio aos Libertários e Sindicalistas Independentes em Cuba; além de outros meios anarquistas que, seguramente, a retomarão difundindo-a através de seus respectivos canais de contrainformação.

PPR: Bom, nós não nos definimos anárquicos como tal porque não estamos muito informados do que significa hoje em dia esta filosofia e nos encantaria desenhar "NOSSA" Anarquia para consumo próprio, pois ao fim e ao cabo esta filosofia é muito sedutora.

MLC: Quando surgiu o PPR como proposta musical contracultural?

PPR: O grupo surge nos finais de 1998 motivado pela discordância com respeito da proposta da cena rockeira cubana, ou seja, se queríamos seguir com o que nós gostávamos não podíamos seguir no status de público, tínhamos que fazer nosso próprio grupo. Nossa proposta tem evoluído, mas muito pouco, desde o princípio tem sido igual ou parecida, em essência, só que ao acentuar-se nosso ódio contra este sistema e passando-se mais anos com nossos corpos submergidos nele, se tem acentuado também nossa radicalidade em relação ao que nos incomoda ? ainda que mais velhos estamos mais radicais, não deveria ser o inverso?

MLC: Por quê Porno Para Ricardo? Como surgiu o nome?

PPR: Já não nos lembramos de tanto repeti-lo, vamos tomar café e daqui a pouco te responderemos.....
Ricardo (indivíduo) + Porno (prazer censurado) = Porno para Ricardo ? contra a famosa consigna "Pátria ou Morte".

MLC: Sob que contexto decidem se juntar e expressar-se como banda?

PPR: Sob um contexto de repressão oficial e incompreensão total ?nos referimos ao público, aos colegas etc.? mas é igualmente divertido porque ser aceito nunca foi o que buscamos, pois se fosse deveríamos ter feito um grupo de salsa.

MLC: Qual foi a reação do/as jovens diante da irrupção de PPR no cenário contracultural cubano?

PPR: Realmente desde o princípio nosso público foi reduzido e, pra dizer a verdade, nossas apresentações nunca foram muito aceitas pelo público "clássico" rockeiro já que tanto o público como os artistas vivem um congelamento neuronal clássico das culturas populares pouco informadas e também pela própria cultura do medo e da intolerância que permeia as mentes do povo. Atualmente nossa mensagem é entendida por mais gente, já inclusive transcende as fronteiras do Rock, não sendo consumido somente por assíduos do gênero, aí é aonde acreditamos que está a repercussão do grupo dentro de Cuba. Porque o que dizem nossas letras muita gente já queria ter ouvido em uma canção, afinal assim é de fato como pode pensar qualquer um, mas é incapaz de expressá-lo por causa do medo.

MLC: E a reação do Estado?

PPR: A reação do Estado é a de sempre, sempre foi muito óbvio para nós que teríamos que pagar o preço de nossa obstinação, de nossa maneira de pensar.

MLC: Conhecemos em primeira mão a perseguição e a repressão da ditadura burguesa dos "hermanos" Castro e as mil e uma formas de implementá-las contra todo aquele ou aquela que discorde da ordem no interior do Galinheiro. No caso do coletivo PPR, como tem exercido o Estado cubano a repressão contra vocês?

PPR: É conhecida, porque nós temos nos encarregado de denunciá-la cada vez que podemos, citações policiais por qualquer coisa, intimidações, atos de repúdio, discriminação, humilhação e até encarceramento.

MLC: Porno Para Ricardo abriu um precedente na cena punk cubana, atualmente existem outras bandas e coletivos punks em Cuba?

PPR: Existem mais não no nível de radicalidade do nosso, o que não nos faz sentir orgulhosos em absoluto porque nos encantaria que existissem mais grupos para não nos sentirmos tão sós e ter a quem recorrer, já que em muitos casos somos uns doentes, muita gente de outras bandas diz que se identificam contigo, mas na hora de te ajudar é quando se trava o guarda-chuva. O que para nós seria muito triste é que quando houve uma mudança muitos deles que estão sujando o cú na oficialidade se auto intitulavam "radicais" e "contestatórios" e começaram a inventar histórias para fazer-se dos heróis como já ocorreu em outras ocasiões.

MLC: Definitivamente, ainda são notáveis as diferenças entre o totalitarismo vitalício dos "hermanos" Castro e a cópia ruim que pretende implantar na Venezuela o comandante Chávez; talvez por isso, aproveitando essas diferenças, a cena anarcopunk venezuelana tem buscado estabelecer fortes laços e estreitas relações entre coletivos e bandas autônomas e libertárias, como a Cooperativa de Bandas Autogestionadas, que agrupa bandas como Apatía No, Doña Maldad, Skoria Social, entre outras e iniciativas como Toche Records, La Libertaria de Biscucuy, o jornal El Libertário etc.; com o fim de organizar concertos e eventos contraculturais em diferentes cidades. Existe em Cuba alguma coordenação entre os coletivos e bandas punks?

PPR: Em Cuba a única coisa que há é um mal chamado "movimento de rock" dirigido, inclusive, por uma organização governamental denominada "a agência do rock", que responde aos interesses do governo. É uma total aberração do que é o rock, por que caralho o rock tem que estar institucionalizado, uma das coisas mais tristes é que algumas pessoas acreditam que necessitam do Estado para patrocinar sua criatividade e são inconscientes do espírito do "do it yourself" [faça voçê mesmo] do qual se tem valido sempre o Rock and Roll.

Desde já, gostaríamos de entrar em contacto com esta Cooperativa de Bandas Autogestionadas para quem sabe aprender sobre sua experiência e trocar idéias, pois em Cuba há poucos exemplos de bandas punk; só para mencionar algumas que também estariam na cena punk: Eskoria, Albatros, Barrio Adentro, as demais são bandas nesta nova moda de EMO e o Pop-punk, que de jeito nenhum são anárquicos nem contestatórios, senão em grande medida todo o contrário.

MLC: Falávamos das "notáveis diferenças" que ainda se podem constatar entre os Estados cubano e venezuelano; mas, diante das cada vez mais claras similaridades, gostariam de coordenar esforços com as bandas e coletivos anarco-punks venezuelanas?

PPR: Sim. Definitivamente.

MLC: Que tal a produção de uma coletânia, como primeiro passo nesta tentativa?

PPR: É uma idéia que nos encantaria, contem com os Porno para ela.

MLC: PPR vive condições muito particulares dada as carências, privações e restrições que é vítima o povo cubano que não é sua classe dominante o que, somado a repressão específica da que são objeto por sua posição antagonista e contestatória como grupo, lhes multiplica consideravelmente as dificuldades na hora de continuar com seu trabalho criativo e de dar a difusão ao mesmo. De que modo podemos ajudar-lhes, o que necessitam e como podemos fazer para chegar até vocês?

PPR: Aqui as necessidades são de todo tipo, mas nós sempre priorizamos dentro das coisas materiais o que nos faria falta para fazer nossas gravações. O mais urgente neste momento que estamos tratando de gravar nosso quarto disco autogestionado é um computador veloz, pois o que temos é um Pentium 3 velho no qual os softwares de edição musical se travam por vários canais com alguns efeitos ?imagines que as fusões nós as fazemos nós mesmos? Também nos seria muito útil um microfone para gravar a voz já que nem clandestinamente a gente se atreve a gravar a voz das canções em seus estúdios particulares por medo das represálias. Um exemplo de micro que nos serviria para estes fins é o Marshall 9000 ou algo parecido. Nossos discos podem ser adquiridos através de nossa página: www.pornopararicardo.com . É claro que adquiri-los é outra maneira direta de ajudar-nos.

MLC: Algo mais que queiram acrescentar?

PPR: Valeu por sua solidariedade... "Analquistas" ?como se diria por aqui? de todos os países unidos! ...e que cada um faça o que quiser com seu cú.

[Para saber mais da cena alternativa cubana: www.cubaunderground.com. Para contato com o MLC:  movimientolibertariocubano@gmail.com. Informação atualizada sobre o anarquismo cubano pode ir na página do El Libertario ? Venezuela: www.nodo50.org/ellibertario]

Tradução > Juvei


agência de notícias anarquistas-ana

A lua olha o gato
que mansamente passeia
pelo telhado

Perpétua Amorin