Na região de Camboinhas é possível encontrar sítios arqueológicos, os sambaquis, que são cemitérios indígenas de mais de oito mil anos. O descaso da Prefeitura de Niterói se reflete no fato de que a especulação imobiliária avança cada vez mais sobre o meio ambiente. Há um edifício construído em cima de um sambaqui.
?Condomínios ecológicos? conseguem facilmente licitação para se proliferarem sobre áreas como a Serra da Tiririca, Itacoatiara e Pé Pequeno. A área de cinco sambaquis da praia de Camboinhas já havia sido liberada para a construção de mais condomínios de luxo, prevendo dez mil novos moradores na área. Foi quando um grupo de índios Guarani, vindos de Paraty-Mirim, ocupou uma pequena área da praia, próxima a um sambaqui, com a intenção de preservar o sítio arqueológico, a memória de nossos antepassados e o meio ambiente ameaçado pela ganância da especulação imobiliária e pela omissão governamental.
A área onde hoje é o município de Niterói, no passado foi morada de muitos dos povos originários do Estado do Rio de Janeiro. Só o direito de ocupação das terras pelos índios já deveriam ser assegurados.
Com a expulsão dos invasores franceses, Araribóia recebe dos portugueses a doação de toda a área de Niterói pela aliança da Confederação dos Tamoios com os portugueses. Até pouquíssimos anos atrás, os moradores de Niterói pagavam um imposto especial por estarem ocupando terras indígenas. Essa verba nunca chegou a quem era de direito, os índios.
Apesar de tudo isso, um grupo de moradores de Camboinhas se sentiu no direito de recorrer ao Ministério Público, representados pela Sociedade Pró Preservação Urbanística e Ecológica de Camboinhas (Soprecam), para exigir a desocupação da área pelos Guarani sob o argumento de que esses estariam degradando a natureza.
Ironicamente, a Soprecam não se manifesta contra os condomínios de luxo que, esses sim, destroem irreversivelmente a vegetação, os sambaquis, as espécies naturais e poluem as águas jogando inclusive esgoto no mar, que não conhecia poluição quando Camboinhas era uma vila de pescadores artesanais, antes das primeiras edificações de luxo.
Não é segredo para ninguém que a relação dos índios com o meio ambiente é uma relação de auto-sustentabilidade e sobretudo de respeito e preservação. A classe dominante de Niterói, com o apoio da mídia que sempre serviu à elite, tentam nos convencer com mentiras preconceituosas que, em uma área onde condomínios de luxo são construídos em total desrespeito ao mar, às águas, à floresta e aos sambaquis, um pequeno grupo de índios Guarani, que ocupam uma área mínima, representam algum tipo de ameaça ao meio ambiente.
Obviamente, a preocupação dessas pessoas não é o meio ambiente e sim o dinheiro que vão perder com a retomada da terra indígena. Além é claro da discriminação racial, social e cultural típicas da elite brasileira, sobretudo carioca, que se fez sobre um cerne escravocrata, de exploração desordenada da terra. Uma elite que está calcada na velha oligarquia, a mesma que, em um país que mantém até hoje seu complexo de corte, não admite dividir o mesmo espaço (e se acredita dona de todos os espaços) que os eternamente subalternizados índios.
A violência e a discriminação ficam evidentes quando reduzem a arte milenar Guarani pejorativamente a ?camelódramo?. Acredito que ninguém se incomodaria se uma empresa européia se instalasse na área para comercializar artigos importados, tamanha a necessidade dessa elite de se sentir colonizadora ao invés de colonizada, renegando ao máximo o que realmente são.
Definitivamente devo crer que por aqui, a questão do meio ambiente parece bem flexível. Sim, flexível. Ela muda de acordo com os interesses hegemônicos. Transformar uma área de restinga em bairro de luxo é uma questão de progresso, logo justificável. Reconhecer o direito indígena de permanecer numa terra que lhe é de direito é caso de polícia.
De fato, a relação da burguesia com o meio ambiente é uma relação sobretudo econômica. Não fosse assim, um pequeno grupo de índios, instalados em uma pequena área de restinga não incomodariam tanto ao ponto de receberem ameaças de morte todos os dias por parte de homens armados que rondam a aldeia dia e noite, defendendo os velhos e conhecidos interesses dos de sempre.