GÊNOVA 2001-O RECADO DA JUVENTUDE

Por: Fernando Evangelista Bandeira em punho e pé na estrada.

E lá estão eles, sonhando em voz alta. Lá estão eles, provocando o poder e a polícia, rompendo o cerco da amnésia e da resignação. Vieram sem convite ou receio, cortando esquinas e fronteiras. Estão em marcha, vão pelo mundo, resistindo e se rebelando, desobedecendo a ordem e o silêncio. Mas quem são esses? Quem são essas pessoas que carregam nas camisetas e nos corações figuras de Guevara, Gandhi e Zapata? Quem são esses que picham muros com palavras de ordem dos anos 60? Quem são esses que, nessa altura do campeonato, depois de tudo, depois do muro, vêm protestar contra o capitalismo? Quem são esses que têm a audácia de questionar a palavra e a história oficiais? A imprensa os chama de “Povo de Seattle”. Mas eles, integrantes do grande movimento antiglobalização, preferem o título de “Povo de Porto Alegre”.

A última ação desses insurgentes aconteceu em Gênova, cidade do norte da Itália, nos dias 19, 20 e 21 de julho. Foi lá, durante a reunião do G-8, o Grupo dos Oito, formado pelos países mais industrializados do planeta. Mesmo com todo o sistema de repressão nas fronteiras, mesmo com o bloqueio das estradas, mesmo sob a ameaça de encontrar as estações de trem fechadas, eles chegaram. O Povo de Porto Alegre estava lá. Eram mais de 150.000 pessoas, todas juntas, empurradas e espremidas pelo vento da história, história feita assim, do lado de fora da mesa de decisões.

Do lado de dentro, sob a proteção da lei e do poder, decidindo o destino do mundo: George Bush (Estados Unidos), Tony Blair (Inglaterra), Jean Chrétien (Canadá), Jun’ichiro Koizumi (Japão), Gerard Schroeder (Alemanha), Jacques Chirac (França), Vladimir Putin (Rússia) e Silvio Berlusconi (Itália). Todos eles, com exceção de Bush, ficaram hospedados no European Vision, um dos mais caros e luxuosos navios do mundo, construído especialmente para o encontro. Os 250 milhões de dólares gastos com o navio foram justificados em nome da “segurança mundial”.

O G-8 se reúne todos os anos e tem por objetivo decidir as “linhas políticas de intervenção global”. Para muitos, os reais autores dessas decisões são o Banco Mundial (BM), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e, desde 1995, a Organização Mundial do Comércio (OMC). Há semanas, a imprensa européia alertava para uma possível guerra. E ela aconteceu: Carlo Giuliani, italiano de 23 anos, é morto pela polícia, mais de quinhentas pessoas ficam feridas e outras 126 são presas. Um relatório das autoridades de Gênova indica a destruição de 83 carros, 41 lojas, 34 bancos, nove postos do correio, dezesseis postos de gasolina. Um prejuízo superior a 6 milhões de dólares. O tempo passa e a lista aumenta. E foram só três dias. “É o caos, é o inferno”, diz o genovês Benedetto Salermo, de 67 anos. “Todas as tardes venho a essa praça, mas agora…” A frase é interrompida. Dois grupos avançam de direções opostas. A rua é ocupada. De uma esquina, a polícia dispara bombas de gás lacrimogêneo, do outro lado os manifestantes lançam pedras e molotovs. Depois do susto e da correria, salvo por uma pequena “rua de emergência”, Salermo pergunta e responde. “Sabe de que lado eu estou nessa batalha? Estou do lado da justiça, do lado desses meninos que têm coragem, que sacrificam a própria vida por aquilo em que acreditam.”

Mas nem tudo é idealismo em Gênova. A violência, sem fim ou limite, vai surgindo pelas esquinas da cidade. No centro, Cristina Valucci, de 43 anos, tenta impedir que alguns manifestantes quebrem vitrines de lojas. Recebe um soco no rosto e cai. No chão, sem defesa, é agredida por chutes e bastões. “Mas quem fez isso?”, pergunta uma jornalista francesa, que não acredita no que vê. “Esse é o povo que prega um novo mundo?”

Eles não param. Vão quebrando tudo o que encontram pela frente. Vestem-se de preto, têm os rostos cobertos por passamontanhas e são conhecidos como os Black Bloc. Estima-se que sejam mais ou menos mil os componentes desse grupo. Vêm de todas as partes. São americanos, gregos, ingleses, espanhóis, italianos e alemães. Fazem parte do movimento antiglobalização? Sim, apesar das suspeitas de que muitos desses “radicais” sejam, na verdade, infiltrados da própria polícia. Pretendem um mundo novo? Não. Têm a ideologia da destruição como método e a violência como passatempo. “Antes de nós, os protestos eram terrivelmente monótonos”, disse Colin Clyde, integrante do grupo Black Bloc, no dia em que foi condenado a um ano de liberdade vigiada pelos estragos feitos em Seattle.

O problema, como aponta o brasileiro Luiz Felipe Ricco, de 29 anos, que participou das manifestações em Gênova, “é que a violência desses anarquistas, que são pouquíssimos, queima o filme da grande maioria do movimento. O que vai sair nos jornais amanhã? É essa passeata pacífica ou vidros quebrados e carros incendiados?” A violência dos Black Bloc era um dos maiores temores do Povo de Porto Alegre. Para os principais meios de comunicação, a Itália foi palco de uma guerra e nada além. Tudo ficou resumido à plástica e ao impacto de uma cidade mergulhada no caos. Todo o processo de debate, palestras e propostas, realizado no Fórum Público (fórum alternativo), foi ignorado.

Mas a violência não vem assinada apenas pelos Black Bloc. Há outros protagonistas. Um deles, como de costume, é a polícia, a força da ordem, programada para ver qualquer tipo de manifestação democrática como um delito e não como um direito. Uma polícia despreparada, que mata em legítima defesa do poder. Uma polícia que é, de certa forma, vítima de um sistema, como define Eduardo Galeano, “acostumado a ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa”. Como disse o pai de Carlo Giuliani, o manifestante assassinado, “o verdadeiro culpado pela morte de meu filho não foi o policial de 20 anos que apertou o gatilho. Dele tenho pena porque sei que ele nunca mais vai esquecer o que aconteceu. O verdadeiro culpado é quem manda pessoas despreparadas e cheias de pânico enfrentar uma guerrilha urbana”.

Uma política equivocada, num sistema equivocado. É esse exatamente o centro das discussões. Mas, se o povo de Porto Alegre ainda não conseguiu abalar as estruturas do sistema, já conseguiu, com sucesso, colocar em xeque a legitimidade dessa política.
Cidade blindada, mas as janelas se abriram...

Perplexidade. Raiva. Angústia. Medo. Revolta. Essas eram algumas definições e sentimentos dos genoveses com relação ao G-8. A cidade foi bloqueada, blindada. Muros foram construídos para proteger o Palácio Ducal, sede do encontro. O maior centro histórico da Europa parecia uma grande prisão de luxo. Para entrar ou sair, os moradores precisavam mostrar documentos e credenciais. Durante três dias ficaram sem gás de cozinha. A “zona vermelha”, que fechou Gênova, ocupou uma área de 4 quilômetros quadrados.
“A democracia”, diz o genovês Enzo Sanfilippo, de 46 anos, “nos dá o direito de manifestação; nós podemos dizer não. Mas são eles, os donos do poder, que dizem como e onde devemos dizer não. Blindar uma cidade é um absurdo sem tamanho, uma provocação.” Para Piccolo Carmine, 52 anos, “o G-8 foi uma grande publicidade para Gênova. A cidade foi toda reformada para receber os chefes de Estado. Reconstruíram igrejas, pavimentaram estradas, restauraram obras de arte. O G-8 trouxe muito dinheiro para a cidade. Gerou muitos empregos”. Vale lembrar que Carmine disse isso no dia 19, antes dos Black Bloc, antes da polícia e todo o prejuízo provocado pela violência. Quem acompanhou a Passeata dos Imigrantes, um dia antes do início do encontro oficial, não poderia imaginar que a cidade seria transformada num campo de batalha.

A Passeata dos Imigrantes, que reuniu mais de 50.000 pessoas, foi um banho de água fria para quem esperava sangue, brigas e janelas quebradas. Como definiu o jornal L’Unità, fundado por Antonio Gramsci, foi uma manifestação “gigante, formidável, pacífica, bonita”. Era um desfile de cores, faixas e poesias. Tinha de tudo. Drag queens, mágicos, malabaristas. Apareceu até um cachorro militante, que carregava com os dentes uma faixa avisando: “Amanhã será guerra”. A cada 5 metros, gritos de ordem em italiano, francês, alemão, português… Gritos contra as multinacionais, os transgênicos, o FMI, Busch, Berlusconi. Tudo misturado, tudo em harmonia. Mas isso foi no começo da passeata. Depois, as coisas foram acalmando, as pessoas foram ficando em silêncio. Para os brasileiros, acostumados com Fla-Flu, samba, dança, gestos e discursos inflamados, a Passeata dos Imigrantes começava a ficar com gostinho de cortejo funerário.

Mas na avenida Carlo Bargino, no edifício de número 13, as coisas começaram a mudar. Quando ninguém mais gritava, cantava, ninguém mais soltava palavrões ou piadas para os chefes do mundo, depois de muitas ruas e esquinas sob prédios vazios e janelas fechadas, uma senhora bem velhinha foi à sacada e expôs, com orgulho e um sorriso largo, um retrato de Che Guevara. A multidão calada pareceu ter sido despertada de uma só vez . A marcha parou e as 50.000 pessoas ovacionaram aquela senhora solitária, com o retrato do Che nas mãos. De repente, sem que se entendesse, as janelas foram se abrindo. Os edifícios foram acordando. E as pessoas iam às janelas, mostravam roupas, jogavam água para os manifestantes, abanavam lenços. Tudo isso em resposta ao pedido de Berlusconi para que não se pendurassem roupas nas janelas durante o G-8, “porque não era estético”.

No dia seguinte, na Passeata de Desobediência Civil, quando os chefes de Estado chegaram, a cidade foi tomada pela violência. O grupo Black Bloc acordou cedo e fez tudo o que se sabe. Mas a marcha aconteceu, apesar das bombas de gás lacrimogêneo, dos molotovs e de todo o resto. Dessa vez eram mais de 150.000 pessoas. No final, o grande ato, tão esperado: romper, ultrapassar a zona vermelha. “Fazer isso é lutar contra o moinho. Eles têm as armas, nós só temos os escudos”, diz Luiz Felipe Ricco. A conseqüência foi lógica : muita gente ferida.

A algumas ruas dali, um grupo de manifestantes cerca um jipe da polícia. Um deles tem um extintor de incêndio nas mãos. Ameaça lançá-lo contra os policiais. A resposta vem certeira. Um tiro na cabeça. A pessoa cai. Os policiais, não satisfeitos, passam com o jipe por cima do corpo de Carlo Giuliani. Uma câmara de vídeo registra todas essas cenas. E as cenas ganham o mundo. O rosto de Giuliani transforma-se no símbolo dos acontecimentos em Gênova.

No dia 21, acontece a Passeata Internacional das Massas. Os ânimos estão exaltados. A violência não cessa. Vira a noite. A cada hora, novos boletins com mais presos, mais feridos, mais destruição. O grito agora é um só: “Assassinos! Assassinos!” Os destinatários: a polícia, o G-8, o poder oficial. A passeata segue. As pessoas erguem faixas pedindo paz. Muitas têm as mãos pintadas de branco. A maioria que marcha é pacifica, não quer violência, quer o diálogo, quer ser ouvida. E eles caminham, sem quebrar vitrines, sem destruir carros, sem lançar pedras contra a polícia. Mas a força paramilitar não faz distinção e avança e bate. Joga gás lacrimogêneo no meio de uma passeata pacífica. “Eu não acredito, eu não acredito. Eles estão jogando gás. Os Black Bloc estão do outro lado. Nós não fizemos nada”, diz uma manifestante. Não é só gás que a polícia joga, como conta a italiana Lourdes Bianchini, de 32 anos: “Estávamos caminhando, voltando de maneira pacífica para nosso alojamento, e a polícia veio em nossa direção. Aí eu pensei: agora, eles vão me matar. Por sorte, encontrei uma pensão aberta e me escondi lá dentro”.

A televisão mostra uma cena chocante. Um garoto sentado, sem armas e sem fazer nenhuma provocação, é atacado pela polícia. Recebe golpes de cassetete, chutes, pancadas na cabeça, nas costas, no rosto, depois disso tudo, é arrastado pelo cabelo e preso. “Por quê? Por quê?”, é a pergunta silenciosa e sem resposta das pessoas que viram as cenas da barbárie daqueles três dias. Pela noite, a maioria dos manifestantes deixa a cidade. Mas não é o fim. O golpe final vem pela madrugada, vem comandado pelas forças da ordem. A polícia invade a sede do Genova Social Forum, onde muitos manifestantes dormem. Entram destruindo tudo. Batem e roubam materiais fotográficos, fitas de vídeo, qualquer coisa que sirva de registro, de testemunho, de lembrança. “Fizemos isso para prender os integrantes do Black Bloc”, justifica o chefe de polícia. É, mas a lembrança não se apaga. Mesmo que eles tivessem roubado todos os filmes, todas as fitas, todas as anotações, todos os testemunhos, a história de Gênova não será esquecida. Porque não está no texto de jornal ou num documentário de cinema, ela está além, está com as 150.000 pessoas que foram lá, para lutar por “outro mundo possível”.

Quem é e o que pretende o Povo de Porto Alegre?

Muitas publicações apontam as manifestações em Seattle, em dezembro de 1999, como o marco inicial da campanha antiglobalização. Mas elas são mais antigas, como argumenta o professor de política econômica Mario Pianta, no jornal La Repubblica (10/7/2001): “A raiz desse movimento está no final do século 19, quando ganha força a sociedade civil. Naquela época, como hoje, a política perde competência e capacidade de representação frente aos fenômenos globais. Mas os grupos que vemos hoje nasceram na metade dos anos 60”. Pianta lembra que o primeiro Fórum Alternativo aconteceu em Londres, em 1984, durante a reunião do G-7. Outro grande encontro aconteceu em Berlim, em 1988, contra a reunião do FMI. Nessa ocasião, mais de 100.000 pessoas foram às ruas protestar contra “os grandes do mundo”.

Nada disso é novidade, rebate o professor Marco Revelli, teórico do movimento operário. “Marx já havia previsto a capacidade do capital de unificar o espaço e transformar o mundo em um só mercado.” Revelli considera as manifestações de 1968 “o primeiro grande movimento global”. Por sua vez, Bernard Cassen, diretor do Le Monde Diplomatique e presidente das associações contra o neoliberalismo, ATTAC, argumenta que as ações de 1968 nada têm em comum com o movimento atual. “Porque, naquela época, a revolta estava em pleno acordo com o capitalismo e o consumismo. Havia uma crença no progresso, hoje isso não existe mais.” O cantor Manu Chao, símbolo do movimento, no jornal Il Manifesto (21/7/2001), diz: “Fazer comparações é sempre perigoso. Só sei que muitos daqueles que participaram das manifestações de 1968 agora estão do outro lado da barricada. Gênova é oportunidade única para dizer não a uma ditadura que nos diz em que mundo devemos viver. E o faz de um modo violento, nos obrigando a um suicídio coletivo. A nossa força? Eles são oito, nós 200.000”.

Quando a polêmica esquenta, todos correm para ouvir a autora do livro No Logo, considerado a grande bíblia do movimento. Todos recorrem a Noami Klein, jornalista canadense de 31 anos. Isso mesmo, uma das maiores autoridades do assunto é uma menina de 31 anos. Para ela, “esses protestos de hoje surgem no começo dos anos 90. Só que os mass media nunca perceberam. O New York Times escreve que a manifestação nasceu do improviso. Para eles parecia assim, porque os grandes meios de comunicação ignoraram por dez anos a cobertura de qualquer forma de protesto”.

Se é difícil traçar as origens do movimento, mais complicado ainda é a identificação dos seus principais representantes. Todos os dias, os jornais, televisões e rádios italianos buscam personagens, rótulos e slogans para o movimento. Um povo formado por ambientalistas, indígenas, sindicalistas, anarquistas, agricultores, estudantes, religiosos etc. Na linha de frente dessa gente rebelde e insistente, surgem alguns nomes e exemplos: subcomandante Marcos, líder zapatista; José Bové, o camponês mais famoso do mundo e inimigo número um dos transgênicos; João Pedro Stedile, um dos coordenadores do MST; Noam Chomsky, lingüista norte-americano; Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação; Muhammad Yunus, idealizador do Grameen Bank, o banco dos pobres; Jeremy Rifkin, economista e filósofo; e, claro, a bela e requisitada Noami Klein. É evidente que os nomes vão muito além disso. O movimento dos não-globais é, na verdade, a reunião de muitas organizações espalhadas pelo mundo unidas por três pilares:
1 - Objetivos em comum: o movimento, além de divergências e antagonismos, tem muitas bandeiras em comum. Por exemplo, a exigência do cancelamento das dívidas dos países pobres, a proteção do meio ambiente, com a aplicação e ampliação do Protocolo de Kyoto, que prevê a redução na emissão de poluentes, a modificação das regras do comércio internacional, com a limitação do “poder do capital global” e a denúncia contra o superpoder das multinacionais.

2 - Inimigos em comum: instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Organização para Coope-ração e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Organização Mundial do Comércio ( OMC) são os principais alvos do movimento.

3 - A Internet: o movimento tem um meio de comunicação “global” que oferece instrumentos de luta, debate e formação nunca antes imaginado. A rede é a grande alma do movimento. Talvez uma das melhores representações do espírito do Povo de Porto Alegre esteja numa historinha contada no livro Sopravvivere al G-8, de Filippo Nanni, Alessandra d’Asaro, Gerardo Greco. Uma pequena história. História real e antiga. História que se repete e se esquece: Seattle era um chefe indígena. Em 1854 recebeu uma proposta do governo de Washington: a terra dos índios em troca de uma reserva. O homem branco, respondeu Seattle, trata sua mãe, a terra, e seu pai, o céu, como coisa que se possa comprar, saquear, vender como ovelhas ou pérolas. O seu apetite devorará a Terra, a transformará num deserto.

Da Inglaterra a Gênova

“Um circo itinerante de anarquistas” foi a definição do premiê britânico, Tony Blair, quando viu a praça de Gotemburgo repleta de pessoas dispostas a manifestar o dissenso, em junho deste ano. E “o circo”, apesar da polícia, do governo, apesar dos Black Bloc, continua a ser montado, visitado e transformado. Em maio de 1998 estava na Inglaterra durante a reunião do G-8. Mais de 70.000 pessoas desfilaram pacificamente pelas ruas exigindo o cancelamento do “débito internacional”. Depois da marcha, pela noite, alguns manifestantes, com paus e pedras, quebraram vidros de carros e vitrines de lojas. A imprensa, como de costume, deu mais atenção ao “estardalhaço dos vândalos”.

No ano seguinte, 1999, a marcha antiglobalização passou pela Alemanha, Holanda, Mônaco, Itália e, em novembro, na mais forte das manifestações, foi a vez dos Estados Unidos, na cidade de Seattle. Durante cinco dias, um confronto direto entre a polícia e manifestantes atraiu a atenção da mídia mundial. A “batalha” aconteceu durante a terceira conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC). Desse ato contra a globalização participaram 1.387 entidades não-governamentais. Gente suficiente para incomodar os “donos do mundo”. Depois de Seattle, como uma bolsa de resistência, insistindo e apanhando, enfrentando amnésias históricas e a indiferença consentida, um poder popular e global foi ganhando fôlego e adeptos. Em 2000, a marcha do movimento antiglo-balização foi à Suíça, Tailândia, retornou aos Estados Unidos, foi à Argentina, Suíça, Japão, Austrália, República Tcheca, Coréia e França. No começo de 2001, enquanto Davos, nos Alpes suíços, estava sitiada pela polícia para garantir a realização do Fórum Econômico Mundial, Porto Alegre, nos pampas, abria suas portas para o debate e para as propostas de “um novo mundo possível”. O Fórum Social Mundial, realizado em fevereiro, no sul do Brasil, foi o grande passo para a legitimação do movimento. Ao lado do rótulo da contestação, surge de maneira forte e definitiva a capacidade de propor alternativas e soluções. “Quando soube do encontro no Brasil, percebi que o movimento era de fato uma coisa boa. Os embates de Seattle foram importantes para dar visibilidade ao movimento, os debates de Porto Alegre foram importantes para dar credibilidade”, define o italiano Mauro Semenzato, de 25 anos. Da mesma forma pensa o subcomandante Marcos: “Agora não se trata mais de dizer não às coisas. Mas construir formas diversas de confronto e debate”. Em seguida, os rebeldes antiglobalização foram à Itália e depois, lado a lado, em marcha, com os índios zapatistas na sua entrada triunfal na Cidade do México. Depois foi a vez de Canadá, Argentina, África do Sul, Havaí, Espanha, Suécia e agora Itália.


Mas a história não pára. Dias depois do G-8, protestos contra a violência policial surgem por toda a Itália. A marcha dos rebeldes vai a Milão, Bolonha, Florença, Palermo, Nápoles e Gênova. E é só o começo. Agora, além das imagens de Che, Gandhi, Luther King, Sandino, Zapata, Marcos, o movimento carrega nas faixas e camisetas um outro nome: Carlo Giuliani, o jovem assassinado pela polícia.

Somos Todos Clandestinos

Quando nascemos fomos programados

A receber o que vocês nos empurraram

Com os enlatados dos USA, de 9 às 6.

Desde pequenos nós comemos lixo

Comercial e industrial

Mas agora chegou nossa vez

Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.

Renato Russo


“Somos todos clandestinos!”, gritam os rebeldes de Gênova. Gritam para a polícia que protege a “zona vermelha”, zona reservada, espaço proibido. Os clandestinos querem seguir caminho, passar fronteira. Mas a ordem, armada até os dentes, diz não. A “zona vermelha” separa os donos do mundo do resto do mundo, os protege da violência e do terrorismo. E a vida segue, com muitas grades sendo criadas, muitos muros construídos. Uns caem, outros permanecem. A história continua.

E onde há muros, para desgosto da ordem oficial, aparecem ventos tentando derrubá-los. Um dia o vento é calmo, no outro, rebelde. Num, diz sim, no outro, sem que se espere, quebra normas e rompe cercas. Um dia está na Europa, outro no Brasil. Às vezes enfrenta ditadores oficiais, outras muitas, democracias de fachada. Às vezes é silencioso e submisso, outras vezes teimoso e inconseqüente. Um dia cala, no outro grita. E o vento está sempre lá. Está no México, com os indígenas de Chiapas, que tentam romper a “zona vermelha” da amnésia e da submissão, imposta à força, a peste e a bala. Está no Brasil, nas escolas e nos exemplos de coragem e dignidade do MST. Está nos latifúndios ocupados, que hoje produzem alimento e esperança. Está na luta do povo tibetano, na Palestina, na Irlanda do Norte, na selva colombiana…

Está no caminho dos trabalhadores, estudantes, sindicalistas, ambientalistas, anarquistas, agricultores, insurgentes, pessoas comuns, sonhadores anônimos. Gente espalhada pelo mundo, gente que forma o grande movimento que quer uma outra globalização. A globalização do conhecimento, da informação, da arte, da cultura. Gente que não concebe um mundo onde mais de 800 milhões de pessoas passem fome. Que não aceita um mundo onde, como lembra Frei Betto, “apenas quatro homens, todos dos EUA, possuam uma fortuna pessoal superior à riqueza somada de 42 nações subdesenvolvidas, que abrigam cerca de 600 milhões de pessoas!” Um mundo onde todos os dias morrem de fome 30.000 crianças.

Essa gente, movida pelo vento, vento das contradições, está sonhando, está dizendo pelos quatro cantos : “Sim, nós acreditamos num outro mundo e juntos vamos construí-lo”. Gente que retoma, com coragem, as palavras de Salvador Allende, presidente chileno deposto por golpe de Estado: “Sim, vale a pena morrer pelas coisas sem as quais não vale a pena viver”.
Gente que, além de contestar, propõe. Que, além de conhecer a história, quer transformá-la. Gente que compartilha das palavras do pai de Carlo Giuliani: “Não existe nada que valha a vida de um garoto. Não existe nada que possa devolvê-la a nós. Por isso desejamos paz e condenamos a violência. Desejamos que os sentimentos de paz, de tolerância, de solidadariedade, sejam os valores autênticos, para que a absurda morte de Carlo não seja ainda mais absurda e mais inútil”.

Fernando Evangelista ( fevbrasil@libero.it) é jornalista.

Dirigiu o documentário Reações em Marcha, sobre o MST

Frases
“Os governos devem prestar contas a dois tipos de eleitores: aos cidadãos que votam e ao ‘senado virtual’, composto pelas multinacionais. O senado virtual é um grupo restrito de investidores capaz de governar nações via fluxos de capitais, através das oscilações da bolsa e de regular as taxas de interesse (…) Um tempo eram os ditadores, agora são os tiranos privados. Fazem o mesmo dano, com a diferença de que esses não têm responsabilidade publica.”
(Noam Chomsky, La Repubblica, 2/7/2001)
“Sem se deixar esmagar pelo peso das questões individuais, tenho certeza de que vocês vão se comprometer a promover uma cultura da solidariedade, que permita soluções concretas para os problemas que mais afetam nossos irmãos.”
(Papa João Paulo II, em carta enviada aos chefes de Estado durante o G-8)
“Finalmente um novo mundo é possível. Finalmente nós voltamos às ruas. É hora de dizer basta e estamos dizendo. Hasta la victoria siempre.”
(Don Adrea Gallo, durante as manifestações em Gênova)
“Por fidelidade ao Evangelho, estaremos ao lado dos Tute Bianche e diremos não ao G-8.”
(Silvano Piovanelli, ex-primaz de Florença, revista Altreconomia, agosto, 2001)

“Deus também sonha. E ninguém pode nos proibir de sonhar um mundo que seja diferente daquele que os grandes sonham para nós.“
(Padre Zanotelli, revista Nigrizia, julho, 2001)
“Se há diálogo, não há violência.“
(Renato Ruggiero, ministro do Exterior da Itália, La Repubblica, 22/6/2001)
“Não se dialoga com pistolas apontadas na cabeça.“
(Genoa Social Forum, rede de associações que se opõe ao G-8, em resposta ao ministro Renato Ruggiero)

“Quem protesta não é amigo dos pobres.”
(George W. Bush, presidente dos Estados Unidos)
Algumas organizações do Movimento Antiglobalização e os sites
Rede Lilliput ( http://www.retelilliput.org/), organização italiana, rigorosamente não-violenta, com forte participação da Igreja Católica. Suas principais campanhas são contra a pobreza e a dívida dos paises pobres, propõe políticas públicas que garantam a seguridade alimentar. Reúne cerca de 25.000 pessoas.

ATTAC ( http://attac.org/), organização trasnacional com origem na França, que propõe a adoção de uma taxa sobre as transações financeiras.
Genoa Social Forum (Gsf) ( http://www.genoa-g8.org/), organização criada para coordenar as manifestações contra o G-8 em Gênova.

Tute Bianche ( http://www.tutebianche.org/), um dos grupos mais ativos do movimento antiglobalização. Conta mais de 10.000 integrantes. Firmou uma declaração de “guerra contra os culpados da injustiça e da miséria”. Tem como porta-voz o ativista político Luca Casarini.