OPINIÃO
Garantir autonomia aos palestinos é fundamental para pôr fim ao terrorismo
France Presse
Soldado israelense joga uma bomba de gás lacrimogêneo contra estudantes palestinos e estrangeiros que participavam de uma manifestação na Cisjordânia
EDWARD SAID
Com as bombas e os mísseis caindo sobre o Afeganistão, a questão palestina pode parecer não guardar relação direta com os acontecimentos mais urgentes na Ásia Central. Mas seria um erro pensar assim, e não apenas porque Osama bin Laden e seus seguidores (ninguém sabe quantos existem, na teoria ou na prática) tentaram fazer da Palestina parte retórica de sua indefensável campanha de terror. Também Israel vem fazendo o mesmo, para suas finalidades próprias.
Com a morte do ministro Rahavam Zeevi, em outubro, a prolongada campanha do general Ariel Sharon [premiê de Israel" contra a Autoridade Nacional Palestina, retratada como o Bin Laden de Israel, foi intensificada, quase alcançando um grau de histeria. Israel vem matando líderes e militantes palestinos há vários meses (mais de 60 até agora) e não pode ter se surpreendido pelo fato de seus métodos ilegais cedo ou tarde terem motivado uma retaliação palestina na mesma moeda.
A frustração e o subsequente impasse no atendimento às reivindicações de uma população que há 53 anos foi destituída do que era seu e há 34 anos sofre uma ocupação militar já ultrapassaram definitivamente a arena principal da luta e, quer se queira isso, quer não, estão vinculadas de várias maneiras à guerra global contra o terrorismo. Ao mesmo tempo em que afirmam, contraditoriamente, que Israel não é a questão nesta nova guerra, Israel e seus defensores temem que os EUA os traiam em causa própria.
Palestinos, árabes e muçulmanos em geral vêm sentindo mal-estar ou uma espécie de culpa furtiva que é publicamente associada a eles, apesar dos esforços dos líderes políticos em dissociar Bin Laden do islã e dos árabes, mas também eles, a toda hora, referem-se à Palestina como o grande nexo simbólico de sua insatisfação.
Na Washington oficial, porém, George Bush e Colin Powell já deixaram claro, mais de uma vez e de maneira nada ambígua, que a autonomia palestina é uma questão importante, possivelmente até mesmo básica. A turbulência da guerra e suas complicações e dimensões desconhecidas (suas consequências em lugares como Egito e Arábia Saudita provavelmente serão dramáticas, embora ainda desconhecidas) já agitaram todo o Oriente Médio de maneiras espantosas, de modo que a necessidade de uma mudança verdadeiramente positiva na situação dos 7 milhões de palestinos sem Estado certamente vai ganhar importância, apesar de já ter se evidenciado uma série de fatos bastante desanimadores sobre seu impasse atual. O problema principal é se os EUA e as partes envolvidas vão ou não recorrer apenas às medidas de tipo paliativo que nos deram os desastrosos acordos de Oslo.
A experiência imediata da Intifada universalizou a impotência e a fúria árabe e muçulmana. A imprensa ocidental não tem, de maneira alguma, transmitido a dor e a humilhação acachapantes causadas aos palestinos pelo castigo coletivo imposto por Israel, por suas demolições de casas, suas invasões de áreas palestinas, seus bombardeios aéreos e suas mortes -ou, pelo menos, o vem fazendo muito menos do que as transmissões diárias da emissora de TV por satélite Al Jazeera ou as admiráveis reportagens diárias no "Haaretz" da jornalista israelense Amira Hass e outros comentaristas como ela. Ao mesmo tempo, creio eu, existe entre os árabes a opinião amplamente compartida de que os palestinos (e, por extensão, outros árabes) foram caluniados e enganados por seus líderes. Um abismo visível separa os negociadores elegantemente trajados que fazem declarações em ambientes luxuosos e o inferno poeirento das ruas de Nablus, Jenin, Hebron e outras cidades. O ensino oferecido aos palestinos é insuficiente e inadequado; os índices de pobreza e de desemprego alcançam níveis alarmantes; a ansiedade e a insegurança dominam o ambiente, sendo os governos ou incapazes ou não dispostos a refrear a ascensão do extremismo islâmico ou a corrupção espantosamente aberta nos mais altos escalões.
Sobretudo, os corajosos secularistas que protestam contra as violações dos direitos humanos, combatem a tirania do clero e procuram falar e agir em prol de uma nova ordem democrática árabe são em grande medida abandonados para lutar sozinhos, sem contar com a ajuda da cultura oficial e às vezes tendo seus livros e suas carreiras atirados para servir de osso para acalmar o cão da fúria islâmica. Uma enorme nuvem escura de mediocridade e incompetência recobre a todos, e isso, por sua vez, deu lugar ao pensamento mágico e/ou a um cultuar cada vez maior da morte.
Sei que, com frequência, argumenta-se que os ataques suicidas a bomba são resultado de frustração ou desespero, ou, então, frutos da patologia criminosa de fanáticos religiosos ensandecidos.
Mas essas explicações são incompletas. Os terroristas suicidas de Nova York e Washington eram homens de classe média, que estavam longe de serem analfabetos e eram perfeitamente capazes de fazer planejamento moderno e semear a destruição audaciosa e apavorantemente deliberada.
Os rapazes enviados pelo Hamas e pela Jihad Islâmica fazem o que lhes é ordenado com uma convicção que sugere clareza de objetivos, mesmo que não muito mais do que isso. O verdadeiro culpado é o sistema de ensino primário que é uma colcha de retalhos lamentável, costurada a partir do Alcorão, de exercícios decorados baseados em livros didáticos de 50 anos atrás, totalmente desatualizados, de classes grandes demais, professores inteiramente desequipados e uma ausência total de pensamento crítico. Somado aos Exércitos árabes grandes demais -todos eles arcando sob o peso de equipamentos militares não utilizados e sem qualquer histórico de realizações positivas-, este aparato educacional antiquado gerou as bizarras falhas de lógica e de raciocínio moral e a valorização insuficiente da vida humana que levam ou aos piores exageros de fervor religioso ou à servil adoração do poder.
Falhas semelhantes de visão e lógica também operam do lado israelense. Não se compreende como pôde ser visto como moralmente possível ou justificável que Israel mantenha e defenda sua ocupação palestina, que já dura 34 anos -mas mesmo os intelectuais israelenses supostamente a favor da paz conservam a idéia fixa da suposta ausência de um setor pacifista palestino, esquecendo-se de que pessoas que sofrem uma ocupação não podem dar-se ao mesmo luxo que os ocupantes, ou seja, decidir se existe ou não um interlocutor para elas.
Nesse processo, a ocupação militar acaba sendo vista como um fato dado e aceitável e praticamente passa sem ser mencionada. O terrorismo palestino passa a ser visto como a causa da violência, e não seu efeito, embora um dos lados possua um arsenal militar moderno (fornecido incondicionalmente pelos EUA) e o outro não tenha Estado, seja virtualmente indefeso, sofra perseguição selvagem, viva encurralado dentro de 160 pequenos cantões estanques e tenha suas escolas fechadas e sua vida transformada em algo insuportável. O pior de tudo é que a matança e o ferimento diário de palestinos são acompanhados pela expansão incessante dos assentamentos israelenses e dos milhares de colonos que pontilham a paisagem palestina.
Um relatório recente divulgado pelo movimento Paz Agora em Israel afirma o seguinte:
1. No final de junho de 2001, havia 6.593 unidades habitacionais em diferentes fases de construção ativa nos assentamentos judaicos.
2. Durante o governo de Ehud Barak, 6.045 unidades habitacionais começaram a ser construídas nos assentamentos. Na verdade, a construção de assentamentos alcançou, no ano 2000, o ponto mais alto desde 1992, com 4.499 novas unidades iniciadas.
3. Quando foram assinados os acordos de Oslo, havia 32.750 unidades habitacionais nos assentamentos. Desde a assinatura dos acordos de Oslo, foram erguidas outras 20.371 unidades, o que representa um aumento de 62%.
A essência da posição israelense é ser totalmente antagônica àquilo que o Estado judaico deseja -paz e segurança-, embora tudo o que ele faz não lhe traga nem uma coisa nem outra.
Os EUA subscreveram a intransigência e a brutalidade de Israel, e isso é inegável: US$ 92 bilhões e apoio político infindável, para o mundo inteiro ver. Ironicamente, isso foi muito mais verdade durante o processo de Oslo do que antes ou depois dele. A verdade pura e simples é que o antiamericanismo presente no mundo árabe e muçulmano está diretamente ligado ao comportamento dos EUA, que faz sermões sobre democracia e justiça ao mundo ao mesmo tempo em que, com seus atos, apoia abertamente o exato oposto delas. Também existe, nos mundos árabe e islâmico, um inegável desconhecimento acerca dos EUA, além de uma tendência excessiva de recorrer a diatribes retóricas e condenações amplas e gerais em lugar de buscar a análise racional e a compreensão crítica da América. A mesma coisa aplica-se às atitudes árabes em relação a Israel. Tanto os governos árabes quanto os intelectuais falharam de maneiras importantes neste assunto. Os governos deixaram de dedicar tempo ou recursos a uma política cultural afirmativa que transmitisse uma representação correta da cultura, da tradição e da sociedade contemporânea árabes. O resultado disso é que essas coisas são desconhecidas no Ocidente, deixando incontestes os retratos pintados de árabes e muçulmanos como sendo fanáticos violentos e dotados de impulsos sexuais exagerados.
A omissão intelectual não é menos importante. É simplesmente incorreto ficar repetindo clichês sobre luta e resistência que deixam subentendido um programa de ação militar, quando não existe nenhum programa militar possível nem realmente desejável. Nossa defesa contra as políticas injustas é uma defesa moral, e precisamos primeiro ocupar o terreno moral superior e depois promover a compreensão dessa posição por Israel e pelos EUA, coisa que até hoje nunca fizemos. Temos rejeitado a interação e o debate, qualificando-os, em tom de desprezo, como meras normalização e colaboração. Rejeitar o recuo em afirmar nossa posição justa (que é o que eu peço que façamos) não pode ser interpretado como concessão, especialmente quando é feito de maneira direta e contundente para o ocupante ou o autor das políticas de ocupação e represália injustas. Por que temos medo de enfrentar nossos opressores de maneira direta, humana e persuasiva, e por que continuamos a acreditar em exatamente aquelas vagas promessas ideológicas de violência redentora que tão pouco diferem do veneno que sai das bocas de Bin Laden e dos extremistas islâmicos? A resposta a nossas necessidades está na resistência pautada por princípios, na bem organizada desobediência civil contra a ocupação militar e os assentamentos ilegais e num programa educacional que promova a coexistência, a cidadania e a valorização da vida humana.
Mas estamos atolados num impasse intolerável, que, mais do que nunca, exige o retorno genuíno às praticamente abandonadas bases para a paz proclamadas em Madri em 1991 e nas resoluções 242 e 332 da ONU, baseadas na troca de terra por paz. Não pode haver paz sem pressão sobre Israel para que retire suas forças dos territórios ocupados, incluindo Jerusalém, e também, conforme o recomendado pelo relatório Mitchell, para que desmonte seus assentamentos. É evidente que isso pode, sim, ser feito em etapas, com alguma espécie de proteção de emergência para os palestinos indefesos, mas a grande omissão de Oslo precisa ser consertada agora mesmo, desde o começo: um final claramente articulado à ocupação, o estabelecimento de um Estado palestino viável e genuinamente independente e a existência da paz por meio do reconhecimento mútuo. Essas metas precisam ser ditas como sendo o objetivo das negociações, um farol que brilha no fim do túnel.
Os negociadores palestinos precisam agir com firmeza com relação a isso e não utilizar a reabertura das negociações -se é que isso pode acontecer, no atual ambiente da dura guerra israelense contra a população palestina- como desculpa para simplesmente voltarem a Oslo. Em última análise, porém, só os EUA, com apoio europeu, islâmico, árabe e africano, podem fazer com que as negociações sejam retomadas, mas isso precisa ser feito por meio da ONU, que precisa ser o patrocinador essencial do esforço.
E, como a luta palestino-israelense tem sido tão empobrecedora em termos humanos, sugiro que importantes gestos simbólicos de reconhecimento e responsabilidade, possivelmente empreendidos sob a égide de um Mandela ou de um comitê de pacificadores de credenciais acima de qualquer crítica, procurassem estabelecer a justiça e a compaixão como elementos cruciais no procedimento todo. Infelizmente, talvez seja verdade que nem Arafat, nem Sharon estão à altura de um empreendimento tão elevado. O cenário político palestino precisa ser inteiramente revisto para que represente integralmente aquilo pelo qual anseia todo palestino: paz com dignidade e justiça e, o que é mais importante, a coexistência decente e em pé de igualdade com os israelenses.
Precisamos ir além das manobras indignas, dos avanços e recuos vergonhosos de um líder que há muito tempo não chega nem sequer perto dos sacrifícios feitos por seu povo sofrido. A mesma coisa aplica-se aos israelenses, sob a liderança abismal de gente da laia de Sharon. O que precisamos é de uma visão capaz de erguer o espírito, tão violentado, para além do sórdido presente -algo que não falhe quando apresentado com firmeza como aquilo ao qual as pessoas devem aspirar.
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Edward Said é um dos principais intelectuais palestinos. Radicado nos EUA, é autor de vários livros, entre eles "Orientalismo" e "Cultura e Imperialismo".
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Tradução de Clara Allain
