O neoliberalismo cumpre hoje a mesma função ideológica que as teorias racistas, durante a transição do século XIX para o século XX: serve para justificar a exclusão de grande parte da mão-de-obra. No caso das teorias racistas, que também se apresentaram como verdade absoluta, quando se questionou (antes mesmo da abolição) o destino da escravidão do negro no Brasil, os "intelectuais" apelavam para o darwinismo social e sustentavam que o papel da raça negra já havia sido cumprido, sendo assim necessária a importação de mão-de-obra branca, que, com o tempo, iria " limpar racialmente" o Brasil.

Através do embranquecimento, segundo o historiador Sílvio Romero, "o tipo branco irá tomando a preponderância, até mostrar-se puro e belo, como no Velho Mundo". E essa mentalidade não teve repercussão apenas no Brasil. Após visita ao Brasil no início do século, Theodore Roosevelt escreve: "o ideal principal é o desaparecimento da questão negra pelo desaparecimento do próprio negro, gradualmente absorvido pelos brancos."

Havia, também, o pavor de uma insurreição generalizada dos escravos. Padre Antônio Vieira, no século XVII, já alertava que a história do Quilombo dos Palmares seria o estímulo para o surgimento de outros, transformando a Brasil "num mundo quilombo". Duque de Caxias, em carta a Dom Pedro II, mostrava a sua preocupação com os negros retornados da guerra do Paraguai. A insatisfação desses negros poderia muita bem iniciar uma revolta "como a do Haiti", onde a massa enfurecida eliminou a minoria branca.

A não-incorporação da imensa massa negra (que, antes mesmo da abolição, já havia conseguido a própria liberdade - a lei Áurea libertou apenas 5% dos negros do Brasil; os demais, de uma forma ou de outra, já estavam em "liberdade") gerou problemas que até hoje não têm solução. O processo de imigração retirou o negro do mercado de trabalho. Na época, já existia o que poderíamos chamar de protocampesinato, formado por quilombos). Além disso, havia negros em número reduzido na indústria, e até mesmo micro-empresários negros. O capitalismo lançou na "informalidade" a maioria da população negra. Tudo em nome de uma "nova ordem mundial", da entrada do Brasil no 1º mundo. Mas o povo do Brasil só encontra a miséria sempre que a elite procura a modernidade.