O pluralismo colocado em risco
por Jonas Medeiros
Noam Chomski, intelectual estadunidense, costuma dizer que o grande inimigo da democracia americana é a mídia. Por trás de sua alegada transparência, escondem-se interesses comerciais e ideológicos.
Daniela Sandler, colunista do Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com) escreve: “Os regimes democráticos caem reféns da ilusão de imparcialidade, de verdade cristalina, de ausência de interesses na difusão de notícias, fatos e versões. O imediatismo "aqui-agora" do telejornalismo, as imagens mais-que-reais em closes microscópicos e tomadas panorâmicas, o registro instantâneo e "ao vivo", tudo isso constrói a impressão de contato direto com a realidade, sem intermediação de idéias ou tendências”.
A VEJA desta semana (n.º 1720, de 3 de outubro de 2001) tem como principal assunto “O Vírus Anti-EUA”. Já de cara vemos um claro engajamento por parte da revista, o que será cada vez mais comprovado ao decorrer de uma leitura acurada, a favor dos Estados Unidos, de seu discurso e de suas intenções.
Como já deixou bem claro nas últimas edições, VEJA considera o capitalismo “o mais justo e livre [sistema social e econômico] que a humanidade conseguiu fazer funcionar ininterruptamente até hoje”. Apesar de ver na democracia um dos mais caros valores ocidentais, a revista não é nada democrática, transparente ou imparcial.
VEJA considera que qualquer atitude que critique os EUA é hipócrita, tola, oportunista, primitiva, lunática, irracional, ignorante ou invejosa. Para a revista não há nenhuma possibilidade de haver oposição ao sistema capitalista que seja inteligente. Considera que tais atitudes são vírus, uma doença, uma anomalia, algo a ser tirado do convívio da sociedade.
Na última semana, reclamei que em nenhum momento VEJA citava as inúmeras manifestações pela paz e que dava como iminente e inevitável a guerra “contra o terror”.
Esta semana VEJA equiparou os atos que foram realizados pelo mundo por muçulmanos e por manifestantes anti-globalização. Para os primeiros, a revista considera que o sentimento anti-americano nasce da manipulação da população pelas elites locais, temerosas com a ameaça de serem desbancados pela modernidade e pela democracia representadas pelos EUA.
Já sobre os ativistas anti-globalização, VEJA considera as causas do dito ‘anti-americanismo’ como menos compreensíveis. Uma posição coerente por parte da revista, que vê os defeitos do capitalismo como menores e/ou contornáveis.
Além de ter dito :“Nós devemos estar conscientes da superioridade da nossa civilização... um sistema de valores que permitiu a todos os países que obtiveram ampla prosperidade garantindo o respeito aos direitos do homem e às liberdades religiosas... um respeito que certamente não existe nos países islâmicos” o premiê italiano Sílvio Berlusconi também disse que “os terroristas pretenderam estancar as influências corruptoras da civilização ocidental sobre o mundo islâmico, enquanto o movimento antiglobalização critica de seu interior a maneira de viver ocidental, procurando fazê-la sentir-se culpada”.
VEJA não vê nas manifestações pela paz um exercício de democracia, que represente a livre discussão de idéias. Como Berlusconi, tira os protestos de seu contexto para comparar com outro, exterior. O premiê italiano vê semelhanças e coincidências entre os ataques terroristas e o ato em Gênova (o Fórum Social que buscava se opor à reunião do G-8) enquanto que a revista aproxima o ‘anti-americanismo’ dos ativistas com a posição de um líder racista de direita.
Para provar a parcialidade com que VEJA trata as manifestações repare em quantas pessoas foram ouvidas pela reportagem. Seis delas ou tem origem inglesa ou estadunidense ou mostram simpatia à reação e ao discurso dos EUA. São elas:
- Mark Hardley, professor de filosofia, americano: ‘Para os líderes religiosos desses países [islâmicos] a simples existência de uma nação como os Estados Unidos já é assustadora’..
- a revista inglesa The Economist: ‘O oportunismo das manifestações foi evidente. Mas será que as raízes do ódio aos Estados Unidos penetraram mais fundo do que se imaginava até então?’.
- Bóris Fausto, historiador brasileiro: '[Bóris Fausto] ressalta o papel vital dos EUA na preservação da democracia e termina por convocar seu leitor a uma escolha: "Ou será que deveríamos lavar as mãos diante da face sinistra dos mensageiros da morte?"'.
- Paul Krugman, economista americano: ‘O ritmo que a crescente eficiência e a produtividade dos Estados Unidos imprimiram à economia mundial nas duas últimas décadas foi muito forte’.
- Bryan Appleyard, articulista inglês: ‘Os americanos são hoje os mais inteligentes, mais educados e cultos povos do planeta’.
- Anatol Lieven, estudioso americano: ‘O número de pessoas que ainda estão chocadas com o atentado é avassaladoramente maior que o daquelas que o viram como mais uma oportunidade de apedrejar os Estados Unidos’.
A única vez em que a revista cita a opinião de alguém contrário à posição americana, é ouvido o líder de extrema direita Jean-Marie Le Pen, racista declarado. É uma escolha premeditada, com o objetivo de formar certa opinião entre seus leitores, de mostrar quem está contra a retaliação: alguém que com certeza não queremos estar ao lado. Não é dado espaço para a esquerda (intelectual, partidária ou ativista) se pronunciar.
O ex-militante do MR-8 e professor de história contemporânea Daniel Aarão Reis fala em entrevista à Folha (A14, 23 de setembro de 2001): “O caminho da esquerda não passa pelos atentados do Taleban, mas pelas manifestações de Seattle e Gênova. Nessa mobilização, os intelectuais podem vir a desempenhar um papel relevante, juntando-se aos jovens que estão fazendo algo novo, atual. A esquerda e seus intelectuais não podem virar massa de manobra de polarizações absurdas como essa de Bush x Bin Laden”.
Fica claro porque VEJA ignora o sentido das manifestações e prefere compará-las com atos em países islâmicos (que tem origens diferentes: medo da retaliação, pressão das elites ou sentimento de ódio aos EUA) e com declarações de líderes racistas. A revista não vê razão em se rebelar contra a situação econômica e social mundial.
A revista absorve o discurso de Bush :“Cada país tem uma decisão a tomar. Ou está do nosso lado ou do lado dos terroristas” para evitar a discussão do sentido dos atos pela paz, pois desconsidera qualquer alternativa ou oposição ao sistema capitalista. Mas esta movimentação por parte dos jovens, de uma (re)construção do pensamento de esquerda em tempos neoliberais, de ‘fim da história’, não será calada pelas instituições que sustentam e apóiam o capitalismo e o imperialismo, como a grande mídia e os países desenvolvidos.
Obs. Os atos pela paz reuniram em todo o mundo 300 mil pessoas, fato pouco noticiado pela grande mídia. Se você quiser saber a lista completa das manifestações realizadas vá para:
http://www.midiaindependente.org/front.php3?article_id=7647&group=webcast Outros assuntos abordados pela VEJA
A revista VEJA fala em “confusão conceitual” entre guerra e terrorismo, mas eles mesmos cometem este deslize ao tentar rechaçar o pacifismo.
Primeiramente, a revista aborda as causas da oposição à retaliação com um extremo simplismo, reduzindo-a em apenas duas: a primeira em que os manifestantes não têm capacidade crítica e sempre acusam os EUA de serem os culpados, sem analisar a situação (como VEJA diz fazer). Mais uma vez, a revista retoma sua visão de não haver espaço para que se apresentem idéias contrárias aos Estados Unidos (tanto no plano político quanto no ideológico). Pertencem ao segundo grupo pessoas bem-intencionadas, mas mal-informadas e ingênuas.
Para VEJA o segundo grupo tem causas compreensíveis. O primeiro não. Na realidade, a revista desconsidera os argumentos dos ativistas que marcham pela paz, não se dando ao trabalho de ouvi-los.
A revista em apenas uma reportagem consegue utilizar dois recursos para sensibilizar o leitor. O primeiro é descrever a situação em Nova Iorque pós-atentado: “Corpos sem cabeça e cabeças sem corpo ainda cobriam as calçadas de Nova York, vítimas inocentes estavam morrendo nos hospitais, dentre os poucos sobreviventes transformados em tochas humanas, pais e mães se horrorizavam ante a idéia de criancinhas pulverizadas nos aviões dominados pelos fanáticos suicidas...”. Para VEJA é incompatível estar em luto pelas vítimas e ir contra uma possível retaliação estadunidense.
O segundo recurso é uma imensa foto com duas crianças (aparentemente muçulmanas) vestidas de branco, carregando uma pomba da paz. A legenda diz “Criancinhas, como nesta marcha pela paz, são arroladas nas fileiras dos bem-intencionados e mal informados”. É uma clara oposição entre a (suposta) ingenuidade infantil e seu não-conhecimento do mundo adulto e racional do Ocidente, representado pela revista (que teria a finalidade de informar) e pelas suas idéias (coincidentemente as mesmas dos EUA).
Finalmente VEJA mostra seu derradeiro argumento: o Vaticano (provavelmente a única instituição ocidental que poderia ser abertamente contra a retaliação e não precisar ser incluída na lista de alvos do exército estadunidense) praticamente deu carta branca para a guerra que os EUA pretendem levar adiante, com o pretexto de auto-defesa. Será que a Igreja esqueceu da possibilidade de mais sangue inocente ser derramado? Será que a autorização da (suposta) defensora mundial dos direitos humanos permite falar em guerra justa? Existe tal coisa?
E há ainda espaço para uma deturpação do conceito de pacifismo, em que VEJA acha obrigatório para aqueles que pregam a paz e não a retaliação, o suicídio com intuito de defender supostos alvos dos terroristas. A paz não se constrói por símbolos e sim por ações, não só de indivíduos, mas da comunidade internacional.
Enquanto alguns (supostamente os manifestantes anti-globalização) usam os atentados de forma oportunista para jogar pedras ao império dos EUA, outros fazem como a CNN: “A tragédia foi a chance de a CNN reencontrar sua vocação”. Como é bom ver que VEJA finalmente achou alguém que se beneficiou do ataque terrorista!
A revista acaba por incitar seus leitores ao conformismo e à passividade frente a televisão: “Não dá para desligar” é o nome da reportagem que celebra a cobertura da rede CNN de televisão e a defende de acusações feitas ao longo das últimas semanas.
VEJA tenta demonstrar que o canal de notícias nunca deu sossego para o governo americano, pois “Ao contrário do que supõe os mal informados, a CNN, fundado pelo milionário Ted Turner em 1980 e hoje pertencente ao grupo AOL Time Warner está longe de ser um órgão a serviço do establishment americano. Nos estados Unidos, ela ocupa uma posição à esquerda no espectro político”.
Mas como é possível que uma rede de televisão que pertence a um conglomerado comercial, privado, que monopoliza o mercado de informações e entretenimento possa ser “de esquerda”? Só mesmo nos EUA que, salvo Chomski, algumas ONG’s e jovens ativistas, não tem uma esquerda representativa no campo político. São republicanos e democratas na falsa escolha que é a eleição estadunidense em que sempre sai vencedor o discurso único.
Também é preciso lembrar que a CNN dar “um banho na concorrência” não é mérito algum, se há monopólio das informações, se a maioria das emissoras do mundo simplesmente retransmitiram o sinal da rede e a revista que se diz a maior do Brasil, faz uma reportagem como essa, mostrando apenas um lado da história, o da audiência, há muito o que se questionar sobre esta supremacia econômica da CNN, não de qualidade.
As críticas que se têm feito à rede são rechaçadas com argumentos fracos e só é analisado um caso, o do estudante da Unicamp (houve um boato espalhado por ele que denunciava uma suposta manipulação de imagens pela CNN: a cena dos palestinos comemorando os atentados seria de 1991, e não recente) que, como informou o Observatório da Imprensa, foi um mal-entendido entre aluno e professor.
Por um lado, VEJA não dá a mínima voz para aqueles que protestam pela paz. A revista prefere mostrar para o seu leitor o maravilhoso arsenal bélico estadunidense. Não importa o seu motivo (curiosidade, falta de assunto ou apoio a retaliação) dar um grande espaço sem qualquer reflexão mostra uma revista que prefere dar números (quantos navios, aviões, submarinos, etc. estão se dirigindo para o Afeganistão) ao invés de mostrar o lado humano da guerra ‘contra o terror’: as possíveis vítimas.
Por outro, a revista vê uma única saída para a retaliação: a diplomacia. Mas não a diplomacia do diálogo buscando o entendimento e, sim, a da barganha, dos favorecimentos, tema abordado novamente sem reflexão. VEJA escreve: “As sanções foram devidamente aposentadas e não pára de pingar ajuda nos cofres do Paquistão”. A revista simplesmemte relata o fato. Não vê motivo para repudiar a ação dos EUA de oferecer ajuda e dinheiro somente agora para o Paquistão com o fim não de ajudar o país, mas sim de ganhar seu apoio. Não se trata de ajuda humanitária e sim de ‘diplomacia’.
Se a guerra é contra o terror, por que VEJA não coloca na tabela da reportagem “Ele tem sucessor” os grupos ETA e/ou IRA? A revista apenas enumera os nomes, as bases e as ações de que são acusados os “principais grupos armados islâmicos”. Falta de atenção ou vontade de evidenciar apenas os grupos árabes?
Se o principal tema da VEJA desta semana foi o vírus anti-EUA, a revista se apresentou, na minha opinião, como antídoto ou vacina pró-EUA, pró-conformismo, pró-alienação e fechada à alternativas.
É extremamente importante se conscientizar que, ao contrário do que dizem os veículos de comunicação, a neutralidade e a transparência são inalcançaveis, principalmente por causa da intromissão de interesses comerciais próprios de instituições que são privadas. Não olhe, nem veja. ENXERGUE o que há por trás da informação através de uma postura crítica, democrática e independente.
Jonas Medeiros
jsm_b_r@yahoo.com.br 