Pela primeira vez nos seus 41 anos, Mateus Mello vai preparar um pedaço de terra para receber sementes de milho e soja, que vão render a primeira safra de sua propriedade de 3,5 hectares localizados a poucos quilômetros de Guariba, a cidade onde nasceu, no interior de São Paulo.

Nos últimos três anos Mateus lutou, com 47 famílias também de Guariba, para dar outro destino aos seus filhos, que não fosse cortar cana na região. Filho de migrantes do norte de Minas Gerais, viu toda a geração de seus 21 irmãos sucumbir aos canaviais. Feridos com o facão, vítimas de reumatismo por cortar a cana debaixo de chuva, cansados e vendo o mês cada vez mais comprido ao final do dinheiro.

A terra que ocupa hoje é parte de um dos seis acampamentos montados sobre antigas propriedades do governo do estado entre Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. Os ocupantes dessas terras, na maioria, são famílias de Guariba – cerca de duas mil, segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade. Trocaram o corte de cana pela invasão de terras.

"Cortar cana não é vida para ninguém. Antigamente eu cortava uma área equivalente a esta por mês, ganhava o tanto exato para matar a fome, mas nem que parasse de comer e juntasse tudo o que ganhei em 20 anos nos canaviais teria o que tenho hoje, podendo dispensar meus filhos do trabalho para ir à escola", relata Mateus, apontando o terreno, enquanto prepara a terra.

Mateus Mello integra um grupo de segregados que ultrapassa os limites de Guariba e avança por todo o interior do estado. Ele é um retrato da exclusão social que resultou da mecanização dos canaviais somada à falta de qualificação profissional que pudesse lhe dar outra vaga em segmentos profissionais diferentes.

Em Guariba, no entanto, a situação desses trabalhadores rurais é mais grave. Por quase duas décadas eles foram marginalizados por um embate trabalhista. Depois que a cidade, com 30 mil habitantes e 80% de sua população formada por migrantes do norte de Minas Gerais, foi palco de um dos maiores confrontos entre a Polícia Militar e cortadores de cana do estado, usinas e empresas da região deixaram de contratar mão-de-obra local. "Após o confronto tínhamos que mentir o endereço. Dizer que éramos de cidades vizinhas, procurar emprego a mais de 100 quilômetros de distância, na colheita de outras culturas, porque o trabalhador de Guariba ficou com fama de arruaceiro e baderneiro e ninguém contrata gente desta laia", conta Sílvio Dias, 38 anos, que foi rejeitado pelas usinas da região. Não resistiu, mudou-se para Ribeirão Preto e hoje trabalha na construção civil.

Situada numa região ilhada por canaviais e vizinha de pequenos municípios que não têm mais do que 10 mil habitantes, Guariba tornou-se um centro de conquistas sociais à força. O confronto, em 1984, teve início porque as usinas da região tentaram promover um aumento de produtividade no corte de cana, sem reajuste da remuneração. Seria o chamado sistema de "sete ruas", no qual ficaria sob a responsabilidade de cada um sete blocos de cana plantada, e não cinco como era até então e continua sendo hoje. Ao mesmo tempo em que aumentava a carga de trabalho, houve um reajuste acentuado nas contas de água da cidade que, naquele ano, foram transferidas da arrecadação municipal para o governo do estado.

Havia um bairro inteiro criado por migrantes que se haviam instalado na cidade para o corte de cana e decidido não mais voltar para suas terras no término da safra. O aumento na conta da água foi o estopim para que todas as insatisfações com salário, falta de carteira assinada, horário de trabalho, entre outros, viessem à tona. Os protestos – que tiveram prédios públicos apedrejados e carros de polícia incendiados – resultaram em 30 feridos e um morto por uma bala perdida da Polícia Militar do governo Franco Montoro.

Mas um conflito desse tamanho não se extingue sem seqüelas. Quem tinha migrado definitivamente para Guariba não teve mais chance de trabalho. As vagas eram preenchidas por novos grupos de trabalhadores temporários. Gente que vinha apenas para a safra, voltava para sua terra e custava menos ao empregador. Obrigadas após o confronto a assinar carteira e pela primeira vez negociar com sindicatos o pagamento do bóia-fria, as usinas de cana buscavam saídas. Além de novos grupos migrantes, cresceram os investimentos em mecanização. Novas técnicas e barateamento das máquinas foram eliminando vagas e contribuindo para a criação de bolsões de miséria em torno da cidade. Para cada máquina colhedora de cana que cada usina comprou, 40 trabalhadores deixaram de ser contratados. Na próxima safra, estima-se que a região de Guariba – que tinha 70 mil cortadores de cana em 1984 – não empregue mais de 20 mil.

Segundo a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), nove mil dos 30 mil habitantes da cidade estão empregados, 70% deles nas áreas industrial e agrícola das usinas. A prefeitura estima que 10 mil estejam sem emprego. Mesmo assim, as usinas continuam importando trabalhadores de outros estados. A estimativa é de que pelo menos três mil pessoas venham para a cidade anualmente para o corte de cana.

Na região, somando as pequenas cidades que fornecem a mão-de-obra temporária durante a safra para as usinas, este número chega a cinco mil pessoas. "Cada vez trazem trabalhadores de mais longe e que concordem em ganhar menos. No ano passado uma usina trouxe 300 trabalhadores do interior do Maranhão para cortar cana na região. Pagaram menos da metade do que um trabalhador daqui receberia", denuncia o secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Guariba, Isaías Alves da Silva, de 31 anos, ele também um migrante do norte de Minas, ex-cortador de cana e hoje um dos principais incentivadores de programas para a qualificação de adolescentes em Guariba.

"Não acredito que as usinas deixem hoje de contratar por conta do confronto de 1984. Isso é passado. Hoje conta mais no bolso das usinas o preço pago para colher a cana. Se a máquina é mais barata, compra-se a máquina. Se o trabalhador migrante e temporário sai mais em conta, trazem grupos de lugares cada vez mais distantes, sem informações sobre seus direitos sociais e que não representam ameaças de processos trabalhistas, já que temem ficar sem esse emprego na safra do ano seguinte. Isso acaba gerando uma multidão de desempregados, que não tem onde ser absorvida, que vai ficando cada vez mais descontente, criando filhos insatisfeitos, sem condições de mudar nada, porque a cidade está cercada de cana. Daí há o aumento da violência, e a culpa cai sobre a falta de segurança pública", analisa o prefeito de Guariba Hermínio de Laurentiz Neto.

Reeleito em 2000, ele diz que, na época do confronto, estava terminando a faculdade de Direito. Lembra-se do embate, das dificuldades dos trabalhadores para conseguir emprego depois disso, mas garante que, passado pouco mais de uma década, o estigma acabou se tornando "marca registrada de luta social".

"A cidade ganhou fama e respeito na luta do trabalhador rural", avalia Antônio Vitor, presidente do Sindicato Rural de Sertãozinho, cidade próxima a Ribeirão Preto e que tem o maior número de cortadores de cana associados na região. Histórias comprovadas ou versões sem fundamento contribuíram para a fama. No ano passado, quando os cortadores de cana ensaiaram uma greve, um usineiro da região teria dito: "Guariba parou? Não? Então ainda não há greve. Só vou me preocupar quando a greve chegar lá".

Um policial militar que participou da tentativa de recuperação de posse da área do governo ocupada pelo grupo de Mateus Mello, citado no início desta história, também contribui para a difusão do estigma: "Em 1998 soubemos que um grupo de sem-terra tinha invadido uma área do governo do estado na região de Jaboticabal (20 quilômetros de Guariba e 60 de Ribeirão Preto), enviamos uma viatura, mas quando ela chegou lá e soube que o grupo era de Guariba, pediu reforços. Os policiais não concordaram em enfrentar sozinhos o grupo de manifestantes, porque conheciam o poder de organização que perdurou em Guariba desde a época da revolta", conta.

Segundo o prefeito de Guariba, a "má-fama" que contribuiu para a derrocada da cidade na década passada pode recuperá-la. "Vamos faturar em cima desta marca, assim como já fazem os manifestantes que impõem respeito em suas negociações quando citam o nome da cidade", diz. Depois de quase 18 anos sem qualquer reunião trabalhista ou de causas sociais, evitadas discretamente pela prefeitura, há agora a clara intenção na cidade de retomar o passado de luta. Uma reunião, que discutiria há algumas semanas os direitos do cortador de cana, foi transferida para abril a pedido do prefeito. "Em outras épocas eu pediria o cancelamento para evitarmos agito desta natureza na cidade. Mas vejo que a luta é honesta e se ocorresse em janeiro ficaria perdida, já que estamos na entressafra. Em abril, com o início da safra de cana, podemos dar a ela projeção nacional", afirma.

Com esses planos, acrescidos do trabalho do sindicato na qualificação do trabalhador, o prefeito realiza um mutirão para reduzir o analfabetismo na cidade que, segundo o IBGE, chega a 17%, o maior índice da região. Ele acredita que o corte manual da cana é um trabalho em extinção. Pelo menos no estado de São Paulo, lei ambiental que ainda é discutida por produtores e usinas, prevê o fim da queima da cana em 2020, o que faz com que apenas a cana crua possa ser colhida por máquinas. "Temos que trazer para o distrito industrial da cidade outras empresas que possam absorver esta mão-de-obra. Mas também temos que qualificá-la", diz o prefeito.

Em outra linha, o coordenador do Sindicato garante que a ocupação de terras é a saída natural para o cortador de cana que perde o emprego. "O perfil do trabalhador de Guariba é o de lutador. Isso pode ter atrapalhado sua vida quando tentou conseguir algum emprego e foi marginalizado, mas foi esse perfil de luta que o fez migrar de sua terra em busca de uma vida melhor. Foi isso que o fez brigar por condições melhores de trabalho e é isso que faz com que ele não veja outra saída, se não se organizar e partir para uma nova luta, desta vez por maior dignidade, por um pedaço de chão para plantar e para criar os próprios filhos para que eles tenham educação e, aí sim, mais chance em novas lutas, como a entrada num mercado de trabalho diferenciado", define.