Nesse sentido, ressaltam-se as contribuições da História Social e da História das Mentalidades, articuladas ao crescimento da antropologia, decisivas nesse processo, em que as mulheres são alçadas à condição de objeto e sujeito da História. Fato relevante, se considerarmos a despreocupação da historiografia dominante, herdeira do iluminismo, com a participação diferenciada dos dois sexos, já que polarizada para um sujeito humano universal.
Mas não foram poucos os problemas que se apresentaram. Um grupo interdisciplinar de pesquisadoras francesas, reuniu em célebre artigo tais inquietações, destacando o grave perigo de um isolamento intelectual daquelas que se dedicavam a este novo campo. Ressaltam a tendência da história das mulheres de constituir-se num gueto, pois permanecia, em sua maior parte, trabalho das mulheres, tolerado ou marginalizado, mas sem controle sobre os rumos da História como um todo (Farge, Perrot et allii, 1986, n.2: 272). Com vistas a superar a situação, buscando torná-la parte integrante e significativa da disciplina histórica, acentuam a importância de se refinar conceitos, dirigindo um olhar crítico para a produção realizada. Com este objetivo, nela apontam uma série de fragilidades: a predileção pelo estudo do corpo, da sexualidade, da maternidade, da fisiologia feminina e das profissões próximas de uma natureza feminina; a presença constante nesses estudos da dialética da dominação e da opressão, não indo além do enunciado tautológico, já que não contém a tentativa de análise das mediações específicas pelas quais esta dominação é exercida, no tempo e no espaço; a inflação de estudos sobre os discursos normativos que pouco levam em conta as práticas sociais e os modos de resistência a estes discursos, e que, algumas vezes, induz a uma espécie de fascínio pela infelicidade; o desconhecimento da história do feminismo e de sua articulação com a história política e social e a falta de reflexão metodológica e sobretudo teórica.
Em fins da mesma década, a historiadora norte-americana Joan Scott trazia à tona preocupações similares, ao mesmo tempo em que enfatizava a importância da noção de gênero, não mencionada no artigo acima citado. Lembremos que gênero tem sido, desde a década de 1970, o termo usado para teorizar a questão da diferença sexual. Foi inicialmente utilizado pelas feministas americanas, sendo inúmeras as suas contribuições. A ênfase no caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo, afastando o fantasma da naturalização; a precisão emprestada à idéia de assimetria e de hierarquia nas relações entre homens e mulheres, incorporando a dimensão das relações de poder; o relevo ao aspecto relacional entre as mulheres e os homens, ou seja, de que nenhuma compreensão de qualquer um dos dois poderia existir através de um estudo que os considerasse totalmente em separado, aspecto essencial para descobrir a amplitude dos papéis sexuais e do simbolismo sexual nas várias sociedades e épocas, achar qual o seu sentido e como funcionavam para manter a ordem social e para mudá-la, constituem - se em algumas dessas contribuições. Acresce-se a significação, emprestada por esses estudos, à articulação do gênero com a classe e a raça/etnia. Interesse indicativo não apenas do compromisso com a inclusão da fala dos oprimidos, como da convicção de que as desigualdades de poder se organizam, no mínimo, conforme estes três eixos (Scott, 1991, p. 1/2).
Scott alinha-se entre as pioneiras que acentuam a necessidade de se ultrapassar os usos descritivos do gênero, buscando a utilização de formulações teóricas, com o que concordam as demais pesquisadoras. Uma exceção, nesse particular, é Silva Dias que discorda da necessidade da construção imediata de uma teoria feminista, pois, a seu ver, tal reconstrução significa substituir um sistema de dominação cultural por outra versão das mesmas relações, talvez invertidas de poder, já que o saber teórico implicaria, também, num sistema de dominação(Silva Dias,1992,p.39). Scott argumenta que, no seu uso descritivo, o gênero é apenas um conceito associado ao estudo das coisas relativas às mulheres, mas não tem a força de análise suficiente para interrogar e mudar os paradigmas históricos existentes. Como resultado desse estado de coisas, ressalta a defasagem entre a alta qualidade dos trabalhos recentes da história das mulheres e seu estatuto, que permanece marginal em relação ao conjunto da disciplina - o que pode ser aquilatado pelos manuais, programas universitários e monografias. Ficam assim, segundo Scott, demonstrados os limites das abordagens descritivas que não questionam os conceitos dominantes no seio da disciplina ou, pelo menos, não os questionam de forma a abalar o seu poder e talvez transformá-los. Assim, não teria sido suficiente às(aos) historiadoras (es) das mulheres provar que as mulheres tiveram uma história ou que as mulheres participaram das mudanças políticas principais da civilização ocidental. Após um reconhecimento inicial, a maioria dos historiadores descartou a história das mulheres ou colocou-a em um domínio separado - "as mulheres têm uma história separada da dos homens, portanto deixemos as feministas fazer a história das mulheres que não nos concerne necessariamente". Quanto à participação das mulheres na história, a reação foi de um interesse mínimo: "a compreensão de um determinado acontecimento, a Revolução Francesa, por exemplo, não mudou com a descoberta de que as mulheres dela participaram". Esse tipo de reação encerra, segundo Scott, um desafio teórico. Ele exige a análise não só da relação entre experiências masculinas e femininas no passado, mas também a ligação entre a história do passado e as práticas históricas atuais (Scott, 1991, p. 3).
Scott ressalta, ainda, que as análises do gênero, no seu uso descritivo, tem incidido apenas nos trabalhos sobre temas em que a relação entre os sexos é mais evidente: as mulheres, as crianças, as famílias, etc. Aparentemente, temas como a guerra, a diplomacia e a alta política não teriam a ver com essas relações. O gênero parece não se aplicar a esses objetivos e, portanto, continua irrelevante para a reflexão dos historiadores que trabalham sobre o político e o poder. O resultado é a adesão a uma visão funcionalista baseada sobre a biologia e a perpetuação da idéia das esferas separadas na escrita da história: a sexualidade ou a política, a família ou a nação, as mulheres ou os homens.
Por outro lado, a polêmica entre Joan Scott e as historiadoras Louise Tilly e Eleni Varikas oferece um panorama da pluralidade de concepções acerca da questão do gênero.(1994). ). Ao reforçar a necessidade de se ultrapassar os usos descritivos do gênero, buscando a utilização de formulações teóricas, Scott afirma a impossibilidade de uma tal conceitualização efetuar-se no domínio da história social, segundo ela, marcado pelo determinismo econômico. Salienta a necessidade de utilizar-se uma epistemologia mais radical, encontrada no âmbito do pós-estruturalismo, particularmente, em certas abordagens associadas à Michel Foucault e Jacques Derrida, capazes de fornecer ao feminismo uma perspectiva analítica poderosa. Nesse sentido, segundo Scott, os estudos sobre gênero devem apontar para a necessidade da rejeição do caráter fixo e permanente da oposição binária "masculino versus feminino" e a importância de sua historicização e "desconstrução" nos termos de Jacques Derrida - revertendo-se e deslocando-se a construção hierárquica, em lugar de aceitá-la como óbvia ou como estando na natureza das coisas (Scott, 1994, 16) .
Louise Tilly contrapõe-se a tal postura, com o que concorda Eleni Varikas, ao afirmar que a vontade política de conceder às mulheres o estatuto de sujeitos da história contribuiu para o encontro das historiadoras feministas com as experiências históricas das mulheres. E, para muitas, este encontro teve lugar no terreno da história social, do que resultaram análises notáveis de relações entre gênero e classes sociais(Tilly, 1994, p.48).. Desse modo, as censuras formuladas por Joan Scott contra a história social, quanto a marginalização das experiências femininas, a redução do gênero a um subproduto das forças econômicas, a indiferença pela influência do gênero na constituição do sentido na cultura e na ideologia política foi precisamente o que desapareceu nas tentativas bem sucedidas de re-escrita feminista da história (Varikas, 1994, p. 74).
Também, Tilly e Varikas manifestam seu ceticismo quanto ao potencial de epistemologias situadas no âmbito do pós-estruturalismo para elaborar uma visão não determinista da história e uma visão das mulheres como sujeitos da história. Critica, porém, Varikas as restrições de Tilly ao que denomina uso mais literário e filosófico do gênero, atentando para a importância de se refletir com mais precisão, acerca da influência do paradigma linguístico sobre a história das mulheres. Acentua Varikas a importância das abordagens no âmbito da história das idéias e das mentalidades, que concederam um lugar privilegiado para a análise das representações, dos discursos normativos, do imaginário coletivo; as quais chamaram a atenção para o caráter histórico e mutante dos conteúdos do masculino e do feminino, reconstruindo as múltiplas maneiras pelas quais as mulheres puderam re-interpretar e re-elaborar suas significações (Varikas, 1994, p.70).
Ainda, Scott propõe a política como domínio de utilização do gênero para análise histórica. Justifica a escolha da política e do poder no seu sentido mais tradicional, no que diz respeito ao governo e ao Estado Nação. Especialmente, porque a história política foi a trincheira de resistência à inclusão de materiais ou de questões sobre as mulheres e o gênero, vistos como categoria de oposição aos negócios sérios da verdadeira política. Acredita que o aprofundamento da análise dos diversos usos do gênero para justificativa ou explicação de posições de poder fará emergir uma nova história que oferecerá novas perspectivas às velhas questões; redefinirá as antigas questões em termos novos - introduzindo, por exemplo, considerações sobre a família e a sexualidade no estudo da economia e da guerra. Tornará as mulheres visíveis como participantes ativas e estabelecerá uma distância analítica entre a linguagem aparentemente fixada do passado e a nossa própria terminologia. Além do mais, essa nova história abrirá possibilidades para a reflexão sobre as atuais estratégias feministas e o futuro utópico(Scott, 1991, p.14).
A análise de Scott é de extrema relevância, pois incorpora contribuições das mais inovadoras no terreno teórico, como no do próprio conhecimento histórico. Considero, porém, que, a partir do modelo de análise proposto, alguns elementos essenciais ao desvendamento da atuação concreta das mulheres tornam-se dificilmente perceptíveis. Importa, portanto, examinar contribuições de outros historiadores, que, com esse objetivo, não se limitam a abordar o domínio público. Recorrem a outras esferas, como o cotidiano, no afã de trazer à tona as contribuições femininas. Para esclarecer tal ponto, retorno às pesquisadoras francesas, acima focalizadas, de cuja análise, cabe destacar o extremo refinamento, a acuidade e relevância das questões levantadas. Acentuam a importância da história cultural e das representações, dos debates etnológico e antropológico para que os estudos sobre os papéis sexuais assumissem uma outra fisionomia, do que resultou, entre outros, a abertura de novos campos de pesquisas. Dois desses campos destacam-se: o da identificação de objetos, de lugares e de condutas femininas e aquele da inflexão do par dominação masculina/opressão feminina que era anteriormente subjacente a todo estudo sobre os papéis sexuais(Farge, Perrot, et allii, 1986, p. 273)
Nessa perspectiva, ressaltam a necessidade de se buscar às mulheres nos domínios nos quais ocorriam maior evidência de participação feminina, explicitando-se as categorias do masculino e do feminino, via de regra, abafadas sob um neutralismo sexual que, unicamente, beneficiava o mundo masculino. Os estudos sobre a sociabilidade feminina que deram lugar a importantes trabalhos sobre o lavadouro, o forno, o mercado, a casa, assim como os estudos sobre os tempos marcantes da vida, tomando como objetos o nascimento, o casamento, a morte são destacados. Portanto, aqui distanciam-se de Scott, pois ressaltam no esforço de se buscar as mulheres como agente histórico, aproximar-se dos domínios nos quais ocorrem maior evidência de participação feminina. Daí não se aterem unicamente à esfera pública - objeto exclusivo, por largo tempo, do interesse dos historiadores impregnados do positivismo e de condicionamentos sexistas. Explica-se, assim, a emergência do privado e do cotidiano, nos quais emergem com toda força a presença dos segmentos subalternos e das mulheres. Longe está o político, porém, de estar ausente dessa esfera, na qual se desenvolvem múltiplas relações de poder.
Por outro lado, contrapõem-se às abordagens reducionistas que buscam uma única explicação para as relações entre os sexos, aquela da dominação e da opressão, configurada na supremacia masculina, sem considerar a complexidade da questão ou às formas de poder exclusivamente feminino. Admitir isso significaria esquecer os numerosos componentes recolhidos, de maneira pertinente, dos estudos ditos culturais. Nesse sentido, com base nos mencionados estudos sobre a sociedade rural do século XIX, argumentam acerca do controle exercido pelas mulheres das práticas destinadas a ajudar a comunidade inteira a passar da vida à morte, evidência de que eram, igualmente, dotadas de poder, "cuja análise deve reorientar o debate geral e abrir novas interseções de leitura". Evitar-se-ia, dessa forma, uma visão paralisante, permitindo-se dar conta do conjunto movediço das muitas realidades. Além disso, o foco nos poderes femininos constituir-se-ia numa conquista da mais elevada significação marcando, não apenas, o enriquecimento de uma leitura da esfera privada em termos de poder, como fornecendo uma análise da confrontação, real e simbólica, entre a vida privada e a vida pública
Tais historiadoras, dessa forma, evitam o binômio dominação/subordinação como terreno único de confronto. Na sua concepção, apesar da dominação masculina, a atuação feminina não deixa de se fazer sentir, através de complexos contra-poderes: poder maternal, poder social, poder sobre outras mulheres e "compensações" no jogo da sedução e do reinado feminino. Sua proposta metodológica é estudar o privado e o público como uma unidade, assaz renovadora frente ao enfoque tradicional "privado versus público".
Advertem as pesquisadoras que tais conclusões, acerca dos poderes femininos, não devem, porém dar lugar a enganos, em termos de uma perspectiva conciliadora, de justaposição de culturas, ao mesmo tempo plurais e complementares, esquecendo-se da violência e da desigualdade que marcam a relação entre os sexos. Inúmeros exemplos são apresentados, assinalando-se a presença da complementaridade na divisão sexual das tarefas, o que não exclui uma hierarquização dos papéis exercidos por homens e mulheres. Nesse sentido, recomendam um esforço de rigor teórico, a fim de se impedir o surgimento de novos estereótipos escondidos sob modernas formulações. Assim, reiteram a existência da dominação masculina, instrumento indispensável para captar a lógica do conjunto de todas as relações sociais. Entretanto, na perspectiva que adotam, a dominação masculina não é mais uma constante sobre a qual toda reflexão tropeçaria, mas a expressão de uma relação social desigual que pode desvendar engrenagens e marcar especificidades de diferentes sistemas históricos.
Voltando à proposta de Scott, esta não abre espaço para que emerjam as diversas sutilezas presentes nas relações entre os sexos, das quais não estão ausentes as alianças e consentimentos por parte das mulheres. Nesse particular são muito adequadas as considerações de Roger Chartier, que destaca na dominação masculina o peso do aspecto simbólico, que supõe a adesão dos dominados às categorias que embasam sua dominação. Utiliza-se Chartier do conceito de violência simbólica que ajuda a compreender como a relação de dominação - que é uma relação historica, cultural e linguisticamente construída - é sempre afirmada como uma diferença de ordem natural, radical, irredutivel, universal. Outrossim, alerta Chartier, uma tal incorporação da dominação não exclui a presença de variações e manipulações, por parte dos dominados. O que significa que a aceitação pelas mulheres de determinados cânones não significa, apenas, vergarem-se a uma submissão alienante, mas, igualmente, construir um recurso que lhes permitam deslocar ou subverter a relação de dominação. As fissuras à dominação masculina não assumem, via de regra, a forma de rupturas espetaculares, nem se expressam sempre num discurso de recusa ou rejeição. Definir os poderes femininos permitidos por uma situação de sujeição e de inferioridade significa entendê-los como uma reapropriação e um desvio dos instrumentos simbólicos que instituem a dominação masculina, contra o seu próprio dominador(Roger Chartier, 1995, p.40-42).
A noção de resistência torna-se, dessa forma, fundamental nas abordagens sobre as mulheres, no que mais uma vez, cabe lembrar a importância do citado E.P. Thompson como de M. de Certeau que acentua a necessidade de trazer à tona "as formas sub-reptícias que assume a criatividade dispersa, tática e bricoleuse dos dominados, com vistas a reagir à opressão que sobre eles incide(Certeau, 1994, p.41). Historiadoras, como aquelas mais uma vez citadas, M. Perrot, Natalie Davis, A Farge, Silva Dias, eu própria, têm se baseado nesse referencial na obtenção de pistas que possibilitem a reconstrução da experiência concreta das mulheres em sociedade, que no processo relacional complexo e contraditório com os homens têm desempenhado um papel ativo na criação de sua própria história.
Importa esclarecer que tais observações não visam excluir a abordagem das mulheres do terreno da política formal, sem dúvida da maior importância no estudo da movimentação feminina, na luta por direitos e de sua participação como sujeitos na sociedade. Afinal penetrar na esfera pública era um velho anseio por longo tempo vedado às mulheres. Passavam as mulheres, segundo Hannah Arendt, a garantir sua transcendência, pois o espaço público, afirma aquela filósofa, não pode ser construído apenas para uma geração e planejado somente para os que estão vivos: deve transcender a duração da vida dos homens mortais, aos quais acrescentamos, também, a das mulheres mortais.







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