DESCANSEM EM PAZ, PALESTINOS!
É dessa paz que se referem os que apoiam Israel

Por Latuff*

Depois de 11 de Setembro, George W. Bush deu o tom: "quem não está conosco, está contra nós". E então surge com mais força do que nunca a palavrinha mágica "terrorista". Quem não está com os Estados Unidos é automaticamente um terrorista.

A manifestação que se deu em São Paulo neste domingo em apoio a Israel "pela paz, contra o terrorismo e o anti-Semitismo" trazia faixas como "voces não estão sós" e "Israel, estamos com voces". Podemos concluir então que, seguindo a máxima de Bush, quem não está com Israel é também um terrorista.

E quem está com Israel certamente está com Ariel Sharon e sua campanha militar contra civis palestinos, ou melhor dizendo, terroristas. Estar ao lado de Israel e Sharon significa na prática apoiar uma ocupação que, desde 1967, tem submetido o povo palestino a toda sorte de violências. É aplaudir o bombardeio de povoados inteiros por tanques, helicópteros e aviões de caça, resultando na morte de centenas de pessoas.

Para os manifestantes judeus que, sorridentes, cantavam louvores a Israel, terrorista é o garoto palestino que nasce numa nação ocupada, cresce vendo seus pais, parentes e amigos sendo humilhados, agredidos e assassinados, e que quando adulto decide dar vazão a sua revolta explodindo a sí e a um punhado de gente dentro de algum ônibus ou restaurante. Grupos como Hamas e Jihad Islâmica nem precisam se dar ao trabalho de lavar os cérebros de seus militantes, já que Israel trata de alimentar cuidadosamente seu ódio através de uma política de apartheid, devidamente endossada pela Casa Branca. Paradoxalmente, os "homens-bomba" são, na verdade, produto genuinamente israelense.

Muitas são as razões atribuídas aos palestinos que detonam em locais movimentados explosivos amarrados ao próprio corpo, que vão desde o fanatismo religioso e demência até a mais pura maldade. Mas nunca, nunca o DESESPERO. Isso porque os palestinos não se desesperam. Eles sequer tem sentimentos. São animais selvagens que precisam ser controlados com mão-de-ferro. A lógica é que os palestinos, que não tem canhão, jato ou míssil, são os AGRESSORES e Israel, com uma das mais modernas máquinas de guerra do planeta, são as VÍTIMAS. E como as vítimas sempre tem razão, Israel pode massacrar a população palestina e ainda lançar mão da desculpa de que estão apenas "se defendendo".

Quem estiver honestamente interessado na paz, uma paz justa, deve antes de mais nada exigir de Israel a desocupação imediata das áreas palestinas e a criação de um estado palestino independente. É o que defendem os judeus progressistas dentro e fora de Israel. Mas em todo o mundo, os progressistas são minoria. Na verdade, quem participou do ato em apoio a Israel em São Paulo trazia nas mãos o falcão da guerra travestido de pomba da paz. Clamar pela paz e apoiar Sharon é um contra-senso.

Sharon conseguiu extrair do povo judeu o que havia de pior. Mergulhou toda Israel nas sombras de um nacionalismo desenfreado que elimina a possibilidade de seus cidadãos verem os palestinos como seres humanos, percebendo-os tão somente como inimigos que devem ser combatidos a todo o custo.

Foi dessa mesma histeria de que os próprios judeus foram vítimas na Alemanha dos anos 30.

*Latuff é cartunista e fotógrafo, e esteve na Cisjordânia em 1999 a convite de ONGs de direitos humanos.