Na FEBEM, sempre que acontece uma operação disciplinadora, como a revista nos alojamentos, alega-se que houve resistência por parte dos jovens, o que acaba resultando em alguns feridos. Mas quem trabalha na instituição sabe que isso não é verdade, e que desde o início o verdadeiro motivo dessas intervenções é aplicar o castigo físico coletivo como punição e medida de controle de comportamento.
O que realmente acontece é uma sessão de espancamento, que serve para consolidar as relações de poder dentro da fundação. Poder sustentado pela humilhação, a dor e o medo. Os dirigentes negam a existência dessas ações e, mesmo quando elas são comprovadas, eles se recusam a concordar que sejam premeditadas e rotineiras. No entanto, elas são um método de trabalho cotidiano que, como não é oficial, não está sujeito à avaliação técnica.
Um grande número de agentes é convocado para essas ocasiões. São preparados instrumentos de tortura como barras de ferro e caibros de madeira, que ficam armazenados em locais de acesso restrito.
As revistas acontecem no meio da madrugada e utilizam muitos recursos dramáticos, surpreendendo os adolescentes durante o sono com luzes acesas de repente, pancadas nas portas de ferros e gritos de provocação. Essas ações costumam ficar a cargo de agentes mais experientes, mesmo que eles precisem vir de outras unidades. Isso porque os funcionários novos, além de se surpreenderem com essas táticas, levam algum tempo para absorvê-las - quando não desistem do emprego antes.
Alguns monitores e agentes de segurança funcionam como grupos paramilitares, preparando-se fisicamente e providenciando seu próprio equipamento para essas sessões. Até as roupas usadas são apropriadas. Esses agentes são conhecidos pelos adolescentes e pelos funcionários das unidades pela violência com que atuam.
Essas operações são tratadas com muita discrição. Os funcionários evitam comentá-las, e mesmo com todos sabendo dos fatos, é difícil conseguir testemunhos. Além disso, os adolescentes que ficam muito machucados são transferidos para outras unidades, e os demais permanecem trancados nos dormitórios sem contato com outras pessoas que não sejam os próprios agentes de proteção e monitores.
Tudo isso dá aos torturadores alguns dias para que possam garantir o controle das informações. É o tempo necessário para acabar com a comoção de alguns funcionários, esfriar a cabeça dos agentes e adolescentes e eliminar os indícios.
Os funcionários que desaprovam essas práticas têm poucas possibilidades de interferir, e os órgãos da própria Febem que são responsáveis pela apuração dessas denúncias não conseguem escapar do forte corporativismo e corrupção da instituição. A ação desses órgãos acaba visando muito mais a defesa dos funcionários do que a realização de uma apuração imparcial dos fatos.
Os órgãos de fiscalização externa, por sua vez, também enfrentam obstáculos, que vão desde a demora em ficar sabendo das torturas até a falta de testemunhas e a alteração das provas. Na realidade, esses crimes de tortura são tão banais dentro da Febem que ninguém dentro da instituição acredita que seus autores possam vir a ser penalizados.
Curiosamente, os funcionários que são contra as práticas de tortura acabam sendo transferidos ou demitidos pelos diretores, com aprovação do presidente. Já os agentes torturadores são mantidos nas mesmas funções. Vinte funcionários indiciados por crime de tortura na Unidade 27 da Febem paulista continuaram exercendo as mesmas funções, com acesso irrestrito aos adolescentes. Treze ocupam cargos de confiança, sendo cinco diretores e oito coordenadores de turno, o que lhes confere poder suficiente para afastar todos aqueles que sejam contra seus métodos de ação.
A própria cúpula da instituição se encarrega de calar as vozes dissonantes, o que só aumenta o sentimento de impunidade.

