Relato da Primeira Bicicletada em São Paulo (Passeio de Massa Crítica)

Dia 29 de junho de 2002

A bicicletada, ou passeio de massa crítica, é um evento que acontece em vários lugares ao redor do mundo mensalmente, geralmente na última semana do mês. É uma ação que visa o questionamento e mudança de paradigmas em relação à da estrutura de movimentação e ocupação dos espaços dentro da cidade. Os manifestantes saem às ruas utilizando um meio de transporte alternativo (geralmente bicicletas -- mas também há pessoas de skate, patins, patinete, e outros não-motorizados), e percorrem um trajeto dentro da cidade realizando várias ações visando a mudança e conscientização -- como distribuição de panfletos para os motoristas, e vários tipos de protestos criativos.

O próprio passeio em si, pela sua estrutura, é um protesto contra a cultura dos carros e uma ocupação do espaço visando afirmar o direito dos ciclistas e demais pessoas de utilizarem a via pública, assim como os motoristas dos carros têm esse direito. Os manifestantes ocupam uma faixa da pista (ou mais, dependendo do número de pessoas) e realizam o passeio nesse espaço.

Aqui em São Paulo, o primeiro passeio de massa crítica foi combinado um pouco às pressas, e houve pouco tempo para divulgação e organização de protestos. Por isso, não compareceram muitas pessoas.

O passeio aqui em São Paulo foi marcado para o todo último sábado de todo mês, às 10 horas da manhã, na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. O primeiro aconteceu dia 29 de junho de 2002. Cheguei ao local marcado para a concentração às 9:30, com um amigo que também ia participar do passeio. As demais pessoas foram chegando, e foram se juntando na "ilha" que existe nesse ponto da Avenida Paulista. Logo chegou um caminhão da CET, depois mais outro, e um carro de polícia, depois um furgão da Globo... Note que nesse primeiro passeio participaram apenas 13 pessoas, 12 de bicicleta e um de patinete. Depois de conversar um pouco com o policial, o funcionário da CET veio até nós fazer algumas perguntas. Ele queria saber para onde íamos. Dissemos que iríamos percorrer a Paulista e depois ir para o Ibirapuera. Ele perguntou também se haveria muita gente, e respondemos que provavelmente não. Pouco depois disso, o pessoal no furgão da Globo foi embora, provavelmente por descobrir que não haveria muito barulho.

Um dos manifestantes chegou ao local da concentração empurrando a bicicleta, meio cabisbaixo... Tinha quebrado o pedal esquerdo e a rosca tinha espanado. Apesar de termos quase uma oficina na mochila de um manifestante, não deu para arrumar. Eu resolvi testar se dava para pedalar daquele jeito mesmo. Como dava para ir, falei para o cara ir na minha bicicleta e eu fui na dele, sem um pedal.

Embora use a bicicleta para ir para a maioria dos lugares no dia a dia, andar de bicicleta em grupo dentro da cidade foi uma experiência nova para mim. Apesar do número de pessoas não ser muito grande, a diferença no respeito era absurda, porque os ciclistas ocupam seu espaço, fecham uma faixa da pista e impõem o respeito que merecem. Pela primeira vez em minha vida pedalei dentro de São Paulo com os motoristas tendo respeito comigo. Foi impressionante perceber pela primeira vez que a maior dificuldade em pedalar nas ruas é simplesmente devido à atitude da maioria dos motoristas, e que a solução é uma mudança cultural. Exatamente o que o passeio de massa crítica almeja conseguir.

Aprendemos algumas coisas sobre andar em grupo. Dois ciclistas lado a lado são o suficiente para fechar uma faixa -- embora caibam três, se necessário. Nos faróis, é preciso prestar atenção para nos mantermos como um grupo coeso. Quem está à frente precisa olhar para trás de vez em quando para conferir se o grupo não está se fragmentando.

Em um certo ponto do passeio, quando paramos para beber água, percebemos que uma viatura da polícia estava nos seguindo à certa distância, provavelmente desde que saímos... Como um colega disse, talvez eles estivessem preocupados que nós fossemos assaltar algum banco. Se fosse um passeio, digamos, de motoristas de fuscas, duvido que alguém fosse se importar.

Na Avenida Vergueiro paramos em uma oficina de bicicletas para trocar o pedivela e o pedal estragado e cada um voltou a pedalar sua própria bicicleta.

Chegando próximo ao Ibirapuera, paramos em uma feira de rua e fizemos a alegria do pessoal das barracas de pastel e caldo de cana. Depois disso entramos no Parque. Antes de nos separarmos, fizemos uma pequena reunião para discutir sobre o passeio, a divulgação e os protestos e ações para os próximos passeios.

Esperamos você da próxima vez, no próximo último sábado do mês, às 10 horas da manhã, saindo da esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação!