Um relógio estranho... com pulsos acelerados!

Além da Telemar, procuramos iG e Anatel, para que se pronunciassem a
respeito do “complô”. A Telemar garante que nada tem a ver com a
existência do iG, além de investidores em comum. Mas o porta-voz,
João de Deus, admite que, quanto mais provedores existirem, melhor
para a receita da empresa:

— Para as companhias telefônicas, conexão à internet gera um negócio
à parte, outra fonte de renda.

O iG não só negou a existência do “conluio” como acrescentou que a
Telemar garante que, ao usar o número 1500-2000, o usuário paga
ligação local. Em comunicado, o portal disse: “O papel do iG é
prover gratuitamente acesso à internet e conteúdo do portal. Temos
contratos com operadoras como AT&T, Br Telecom, Telefônica e
Telemar, que usam padrão similar de cobrança de ligação local.”

Afinal de contas, o que é o 1500? Segundo João, ele é um código que
o provedor (o iG não é o único) escolhe para “facilitar a vida do
usuário”.

— Ele é um número como outro qualquer, cobrado da mesma forma.

O leitor Sidnei Serra (primeiro a reclamar do “complô”) levanta,
porém, uma informação suspeita: ele procurou a Telemar e o iG para
obter informações sobre preços do 1500. Da operadora, recebeu a
seguinte resposta: “As conexões só serão tarifadas como locais caso
os provedores estejam dentro do mesmo município. Em horários de
tarifa reduzida os provedores locais podem ficar congestionados.
Sendo assim, a conexão pode ser redirecionada a provedores em outras
cidades, gerando cobranças diferenciadas”.

— Como os usuários podem saber quando estão plugados a um telefone
de pulso local ou redirecionados para o telefone de outra cidade,
fazendo com que os pulsos sejam diferenciados dos que esperamos? —
indaga. — Além disso, o contador de pulsos está lá na companhia, não
em nossa casa...

Segundo o porta-voz da Telemar, a conta cresce por muitos motivos:
1) Muitas vezes o usuário se conecta a seu provedor no Rio estando
em cidades do interior ou em outros estados (usando 0 + número da
prestadora) e paga por ligações interurbanas; 2) Fica mais tempo
conectado do que deveria e tem a “sensação” de ter usado menos; 3)
Não sabe que paga um pulso ao se conectar. Assim, se por algum
motivo a senha ou o login não são validados, ele acaba pagando por
excesso de tentativas; 4) Se conecta de madrugada (pulso único) e se
esquece que às 6h passa a pagar um pulso a cada quatro minutos (essa
é para os notívagos).

A cada conexão, pelo menos três pulsos são gastos

Para a Telemar a conta parece simples. Mas muitos fatores devem ser
levados em consideração. Tom Taborda, fotógrafo e colaborador do
caderninho, fez uma conta que, no mínimo, pode deixar o leitor com a
pulga atrás da orelha. Suspeita ele que, na chamada “tarifa normal”
(durante o dia) o “taxímetro” não começa a contar no início de cada
ligação, pois a central da Telemar tem um relógio próprio e único
para todos os troncos que, a cada quatro minutos, bate um pulso.
Assim, fazendo uma chamada (conexão) aos 3 minutos e 50 segundos do
intervalo do relógio da estação, dez segundos depois será cobrado
mais um pulso. Assim, se por exemplo a chamada durar cinco minutos,
serão cobrados três pulsos:

— Paga-se um pulso no início da conexão, outro dez segundos depois,
de acordo com o relógio da estação e mais um quatro minutos depois —
diz.

Faz sentido a conta de Tom. O sistema de cobrança de chamadas locais
do Brasil, o Karlsson Acrescido, estabelece que se registre um pulso
a cada quatro minutos. A exatidão é garantida por um relógio digital
eletrônico preciso instalado nas centrais telefônicas. No momento em
que a chamada é atendida, é registrado um pulso. O segundo pulso
pode ser assinalado no segundo seguinte (ou quatro minutos depois).
Isso porque as ligações são feitas aleatoriamente, e não entram
todas, ao mesmo tempo, no exato momento em que é soado o bip do
relógio instalado na central. De acordo com estatísticas feitas
pelas operadoras, o segundo pulso é registrado, em média, dois
minutos depois do estabelecimento da ligação.

Complicado, né? Com certeza! Tanto que, apesar de todas as
explicações, não solucionamos a charada envolvendo a operadora e os
provedores. A Anatel também não ajudou a esclarecer o caso.

A agência afirma não ter conhecimento de complô, e que as
reclamações quanto aos pulsos devem ser encaminhadas às operadoras
para avaliação das contas. Caso o usuário não seja atendido, aí sim
deve recorrer à Anatel. A agência informa também que estão em
consulta pública as opções de tarifação de internet a serem
adotadas.

Como controlar os gastos com a conexão

É no mínimo estranho que os usuários não possam ter idéia do que
pagam pelo acesso à internet. Muitos fizeram contas (usando uma
linha só para internet e medindo o tempo em que ficam conectados,
por exemplo); mas as contas nunca “batem”. O leitor Othon Leitão
desconfia da existência do “pulso único”. Segundo ele, ao ligar para
a Telemar, foi informado que aos domingos e feriados, bem como aos
sábados após as 14h, são cobrados, além do pulso de conexão, um
pulso a cada 600 segundos (10 minutos):

— É propaganda enganosa e um ardil que os provedores usam ao mudar o
número de conexão para 1500 ou 3426.

Outro que se sente lesado é Wolgrand Paes. Ele diz que sua linha DVI
passou a custar R$ 400 por mês. Para diminuir a despesa, ele limitou
o acesso aos horários de pulso único, mas isso de nada adiantou.

Para procurar a Telemar com a certeza de que suas contas estão
certas, o usuário pode buscar alternativas. Quem usa o discador do
iG, por exemplo, tem acesso a um extrato com histórico de acessos.
Assinantes do Terra, UOL e AOL podem consultar os bancos de dados
online dos provedores para saber os horários em que acessaram a rede
e por quanto tempo ficaram conectados. Com esses dados em mãos,
basta pedir à Telemar para compará-los ao que o relógio da estação
marcou. Insistir é válido: os atendentes têm scripts com
procedimentos para cada situação. E supervisores de olho...