Texto de minha inteira responsabilidade
(José Kley Chrispiniano Júnior)
NESTA EDIÇÃO
- A atual capa da Veja, com tema seguindo quase toda a mídia mundial, trata do aniversário dos atentados de 11 de setembro. A capa com a bandeira norte-americana no lugar das torres seria dispensável e assume um simbolismo patriótico só comparável aos das próprias publicações norte-americanas. O mote “O Mundo nunca mais foi o mesmo” mostra que se esgotou a criatividade dos dias em que a Veja fez um retrato de Herbert de Souza, o Betinho, com grãos de cereais, para representar sua luta contra a fome. É uma pena mesmo, mas é da natureza do discurso da propaganda, ainda mais a patriótica (ainda que a pátria seja outra), do qual a revista cada vez mais se aproxima, matar a criatividade.
- 11 de setembro é eterno. É porque, ironicamente, o fracasso dos órgãos de segurança que permitiram o 11 de setembro, que redime e dá direção a todo o governo Bush, e ainda, no campo da política externa, permitiu um discurso de “superioridade moral”, encobrindo ações de estratégia geopolítica sob o selo “Guerra ao Terror”. De resto a administração Bush seria conhecida apenas pelos escândalos e negociatas do alto escalão da Casa Branca, por Kioto, pelo apoio ao golpe na Venezuela, pela eleição suspeita e pelo fracasso na condução da economia. Porque não nos lembramos todo ano de Hiroshima, da queda de Allende no mesmo 11 de setembro (como fizeram Ken Loach no filme coletivo sobre 11 de setembro e Clóvis Rossi hoje na Folha de S. Paulo), ou na nossa freguesia, do Massacre do Carandiru, todo o dia 2 de outubro, que vai fazer 10 anos e será que vai merecer alguma capa? O passado é reconstruído pelo presente que o refaz enquanto show, no que contam com o espetacular roteiro da tragédia desenvolvido por Bin Laden. A lógica é tão absurda que as vezes tenho a impressão que o governo Bush deseja outro atentado para justificar a suspensão da crítica.
Seguem abaixo algumas pérolas da matéria de capa da Veja.
“A analogia mais imediata foi com Pearl Harbor, o traiçoeiro ataque japonês à frota americana no Pacífico, em 1941. Motivados à época por sua imensurável superioridade moral e material, os Estados Unidos foram à guerra e varreram do mapa o militarismo japonês e o nazismo alemão.” Rescreve-se o passado e sobra até para os japoneses na matéria. Parece que os Estados Unidos ganharam a Segunda Guerra Mundial sozinhos. E nunca usaram uma arma de massacre de civis (destruição em massa, como hoje gostam de dizer), a bomba atômica, contra os japoneses. Isso some, como somem também as evidências de que o governo norte-americano sabia do ataque de Pearl Harbor, e deixou acontecer para ter o apoio da opinião pública para entrar na guerra. Quem escreveu o texto deve ter tirado seu conhecimento histórico da Segunda Guerra de “Pearl Harbor”, o filme, com Ben Afleck....
“Nos anos 90, metade do planeta convenceu-se de que os Estados Unidos tinham a receita da felicidade material.” Veja escreve coisas inacreditáveis. Mais para frente vai dizer “Não é mais assim.” Pouco mais adiante: “Outros modelos de desenvolvimento, antes considerados de segunda linha, voltaram a ordem do dia. O europeu, por exemplo. Apresenta índices de desemprego altos, mas não existe miséria e a rede de proteção social é espetacular.” Veja vacila um pouco na sua fé neoliberal. Os anos FHC estão acabando mesmo...
“O Islã é multifacetado por várias nações, mas tem uma característica curiosa: não produziu um só país democrático ou desenvolvido.” – Isso é um preconceito que simplesmente não se baseia na verdade e serve para difundir visões simplistas de mundo entre os leitores da revista. Observe que se usou o “ou” e não o “e”. Desenvolvido e democrático são conceitos relativos. O mesmo fracasso poderia ser imputado, da mesma forma leviana e subjetiva, à América Latina. O Kuwait é islâmico, riquíssimo, “desenvolvido” por assim dizer. Bahrein, Qatar e Líbano, entre outros, estão a frente do Brasil na lista do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU. A frase só serve para demonizar e estigmatizar o islamismo.
“Nenhum ato oficial cometido pelos Estados Unidos poderia justificar o ocorrido no 11 de setembro.” O irônico desta frase, é que na minha escala pessoal de valores, nada poderia justificar atos como 11 de setembro. A frase insinua que poderia haver fatos que justificariam ataques traiçoeiros a civis. Curioso.
“Bush havia sido eleito por uma margem mínima de votos.” A memória é uma entidade seletiva mesmo. Lembra-se de 11 de setembro como se esquece das recontagens e da pesquisa feita pela mídia norte-americana. Que descobriu que Al Gore tinha ganho na Flórida, logo toda a eleição. Mas a gente rescreve para evitar o ruído e a confusão.
“Bush também foi capaz de mostrar que consegue voltar atrás e abrandar posições. Foi o que aconteceu no caso da intransigência agressiva em relação ao Tribunal Penal Internacional (agora os Estados Unidos só estão exigindo garantias de imunidade para seus militares) e das tarifas sobre o aço importado.”. O que Veja fala sobre o Tribunal Penal Internacional, que dá uma impressão de que os EUA voltaram atrás é uma bobagem, porque toda a briga sempre girou em torno da questão da imunidade para seus soldados, que os Estados Unidos queriam obter subordinando o Tribunal ao Conselho de Segurança da ONU. “Só” isso, que é se colocar acima da ordem legal no mundo.
- O mais absurdo entretanto é a retranca “Por que o Islã não sente remorso”. Por que deveria, todo o Islã, “o” Islã, sentir remorso pelo que alguns fanáticos fizeram? É, com o sinal invertido, o mesmo princípio da culpa coletiva, de toda uma sociedade, que justificaria um ataque a civis pelos terroristas. Veja segue indo entrevistar Francis Fukuyama, o homem do “fim da história”, uma referência intelectual para a revista. E dá-lhe “choque de civilizações”. Entre-se estes fundamentalismos, o mundo vai, e justifica para si mesmo, a guerra...
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