Uma Igreja Católica viva e atuante
Dom Eugenio Sales
Arcebispo emérito do Rio
Neste mês de fevereiro veio a lume o Anuário Pontifício 2003, com os dados estatísticos mais recentes da Santa Sé. Por eles pode-se constatar o crescimento ou não dos vários setores da Igreja Católica, além das informações úteis sobre a vida da Instituição. Ao ser apresentado ao Papa, foram divulgados alguns números que bem merecem ter maior divulgação. Assim, os fiéis tomam maior conhecimento da obra fundada por Jesus Cristo e à qual eles pertencem. Eis alguns elementos que compõem a realidade eclesial.
A Santa Sé, hoje, mantém relações diplomáticas com 175 países. O última a ser estabelecida foi com o Catar. Os batizados na Igreja católica, de 757 milhões em 1978 são, em 2001, 1 bilhão e 61 milhões. Especificando por Continente: na África registrou-se um aumento de 148% neste período. Na Ásia, América e Oceania a expansão foi notável. Na Europa, o número permanece estável. As pessoas que se dedicam às tarefas pastorais na Igreja são 4.270.069, assim distribuídos: 4.649 bispos, 405.067 sacerdotes, dos quais 266.448 diocesanos, 29.204 diáconos permanentes, 54.970 religiosos professos não sacerdotes, 139.078 missionários leigos, 2.813.252 catequistas. Além das religiosas de vida ativa, há 51.973 monges de opção contemplativa.
Os candidatos ao sacerdócio aumentaram entre 2000 e o ano 2001, passando de 110.583 a 112.244. O aumento significativo se registra na Ásia, África e na América enquanto na Europa e na Oceania tem havido ligeiro regresso.
Repetidas vezes, notícias negativas, mesmo que sejam verdadeiras (o que nem sempre acontece), são com freqüência apresentadas ao público sem a contrapartida de uma realidade viva e altamente positiva como esses dados nos fazem compreender. Daí resulta, em alguns católicos, uma sensação de inferioridade por eles atribuídos à Igreja. Para isso concorre a escassa divulgação das realizações de modo particular, na área social, dando uma impressão errônea bem inferior à verdade. Isso costuma ocorrer com os que pouco participam da atividade comunitária católica.
A outra causa do pessimismo é a ignorância acerca da doutrina cristã. Isto leva a um distorcido conceito do papel da vida cristã como fermento da sociedade ou é conseqüência de uma interpretação falsa das palavras de Jesus Cristo: ''Não saiba a sua mão esquerda o que faz a tua direita'' (Mt 6,3). Esquecem-se de outras expressões como a referente à luz que deve ser posta sobre o candeeiro para iluminar ao derredor (cf Mt, 5,15ss). Sempre que se divulga uma realização para honra e glória de Deus e não dos homens, estamos cumprindo nosso dever.
Sem dúvida, vivemos em nossos dias uma Igreja Católica florescente embora não faltem sombras decorrentes das limitações humanas de seus integrantes. Em dois milênios de história, de sua fundação por Jesus até os dias atuais, tem passado por muitas vicissitudes a obra de Cristo. Evidentemente, há falhas em conseqüência da fragilidade humana. A Igreja é santa e pecadora. Desde o século XIX até hoje, há uma seqüência ininterrupta de grandes vultos que têm ocupado a Sé de Pedro. É certamente injusto o que se diz a respeito de Pio IX, Pio X e mais recentemente Pio XII, este sobre o silêncio diante de Hitler, pois a realidade, com segurança, é outra e altamente favorável a esses grandes Pontífices. Essa longa história e a sobrevivência a tantas turbulências, como na Revolução Francesa quando julgava-na definitivamente derrotada, eis que surge a Igreja em toda sua vitalidade. Para nós, católicos, a explicação está no poder de Jesus Cristo que lhe prometeu a sobrevivência a todas as adversidades. Em conseqüência, gera uma profunda paz diante das dificuldades que nos afligem. Em meio às vicissitudes do momento atual, como são importantes e nos dão segurança e tranqüilidade as palavras do Senhor, dirigidas ao chefe dos Apóstolos: ''Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos triturar como ao trigo, mas eu roguei por ti para que a tua confiança não desfaleça; por tua vez, confirma os teus irmãos'' (Lc 22,31ss).
Essas considerações nos levam a um hino de ação de graças de maneira particular pelo atual Pontífice que no próximo mês de outubro celebrará seu 25º aniversário de Pontificado.
Alguns fatores, nos tempos presentes, promovem o surgimento de ataques à obra de Cristo. Correntes de pensamentos de cunho subjetivo facilitam as mais estranhas e absurdas conclusões, pois cada um, nessa concepção da realidade, organiza a seu bel-querer a religião que lhe apraz ter como verdadeira. Notemos também a aceitação da libertinagem como se fosse autêntica liberdade. Utiliza falsamente o nome de católico quem não aceita o ensinamento de Jesus Cristo e nem acata a interpretação da doutrina por aqueles a quem foi confiado esse mister.
Todas essas considerações nos levam a manter um atento espírito crítico, de modo particular por vivermos em um ambiente globalizado, que proporciona facilidade e rapidez de comunicação em todo o universo. O progresso existe para o bem e para a verdade e não em favor do mal e do erro.
Em decorrência, mais do que em outras épocas, faz-se mister a autenticidade na prática de nossa Fé. Cresceu muito a importância do leigo que passa de espectador para ator nas atividades pastorais. Para ele exercer o papel que lhe é confiado, necessita de adequada formação. Devemos estar sempre alerta para o ''fenômeno'' de que eclesiásticos ocupem o lugar de leigos e estes assumirem uma mentalidade clerical em suas atividades.
Os dados apresentados no início, com a eloqüência dos números, nos mostram uma Igreja Católica viva e atuante. E nos convidam a cumprir nosso papel no momento presente.
A estrutura da Instituição criada por Cristo e integrada por criaturas humanas trás em si posições conflitantes. Deus concedeu ao homem o gozo da liberdade - o mais nobre de seus predicados. Para seu reto uso, Ele o remiu por sua morte de cruz e assegurou a força da graça divina. Uma só coisa se faz necessária, uma resposta generosa à proposta de Cristo, de levar a todas as gerações, séculos afora, sua mensagem salvífica.
[01/MAR/2003]
