Que os Estados Unidos Unidos estejam caminhando para a guerra, aconteça o que acontecer, é outra demonstração do desenvolvimento de uma política externa linha-dura pela administração Bush.
(O primeiro-ministro) Tony Blair pode estar tentando convencer o Parlamento britânico e o seu povo de que Saddam Hussein ainda pode "salvar (o regime iraquiano), se atender os pedidos da ONU".
O governo britânico insiste nesse argumento, que tem o objetivo de convencer os céticos. Mas ele está ficando cada vez menos convincente, já que é George W. Bush quem está dando o tom.
Saddam Hussein "está brincando", disse Bush na terça, sobre o anúncio de concessões feitas pelo governo iraquiano aos inspetores da ONU.
Concessão
"Eu acho que ele vai tentar enganar o mundo mais uma vez."
A conclusão que daí se tira é que não importa o que Saddam Hussein faça, provavelmente não será o suficiente para o governo americano.
Autoridades americanas admitem que só concordaram em voltar ao Conselho de Segurança da ONU para discutir outra resolução com o objetivo de satisfazer Tony Blair.
Assim, a nova resolução não tem nenhum sentido real, além do de livrar a cara dos britânicos. Os americanos vão à guerra de qualquer jeito.
A decisão mostra o futuro. Para melhor, ou para pior, o futuro é a Potentia Americana – uma analogia à Pax Romana do império antigo.
Para entender o que isso seria, vale a pena voltar a um projeto chamado "Novo Século Americano", criado em 1997.
Criada por William Kristol e Robert Kagan – a doutrina preparou o campo ideológico para o que estava por vir.
Vários de seus simpatizantes depois entraram no governo Bush, incluíndo os dois "falcões" Paul Wolfwitz e John Bolton.
A idéia por trás do Novo Século Americano ajuda a explicar o atual abismo que existe entre os Estados Unidos e alguns aliados.
Eu-nucos e caubóis
Acusações européias de que George W. Bush é um caubói ou pior são respondidas pelos americanos com descrições dos europeus como "eu-nucos" em geral e dos franceses em particular como "macacos desertores comedores de queijo" (expressão tomada emprestada do personagem de desenho animado Bart Simpson).
Em setembro de 2000, quando Bush estava disputando a eleição presidencial, o grupo Novo Século Americano produziu um relatório chamado Reconstruindo as Defesas Americanas.
O objetivo era "promover a liderança global dos Estados Unidos".
"Com o século 20 chegando ao final, os Estados Unidos se destacam como a potência mundial proeminente."
"Tendo conduzido o Ocidente à vitória na Guerra Fria, a América enfrenta uma oportunidade e um desafio."
"Os Estados Unidos têm a visão para aproveitar os feitos do passado?"
"Os Estados Unidos têm a determinação para desenhar um novo século favorável aos princípios e interesses americanos?"
"(O que é necessário) é uma força militar que seja poderosa... uma política externa que promova os interesses americanos de forma clara e com um propósito... e uma liderança nacional que aceite a responsabilidade global dos Estados Unidos."
Humildade
No começo, não parecia que Bush estava muito entusiamado com a idéia.
Ele disse em um debate durante a campanha eleitoral de 2000 que a política externa americana deveria ser "humilde".
"Nós devemos ser orgulhosos e confiantes de nosso valores, mas humildes na maneira como tratamos as nações que estão descobrindo como seguir seu próprio curso", disse Bush à época.
O presidente Bush tem seus aliados europeus, como Tony Blair, que percebeu que o presidente americano estava aberto à persuasão em alguns assuntos e o convenceu a discutir o ataque ao Iraque na ONU.
Entretanto, como presidente, não demorou para que Bush mostrasse que poderia traçar o próprio caminho dos Estados Unidos.
Sentado ao lado do chanceler alemão, Gerhard Schröder, no Salão Oval, no começo de 2001, Bush rejeitou o Tratado de Kyoto, dizendo que não colocaria os empregos nos Estados Unidos em risco.
Talvez Schröder tenha se se lembrado da humilhação ao traçar a política alemã em relação ao Iraque.
Depois, houve o 11 de Setembro.
Após um início hesitante, Bush se colocou à altura do desafio, quando, no meio dos destroços, prometeu vingança.
Ele desenvolveu sua própria doutrina, de intervenção preventiva.
Nova era
Desde então, tem sido encorajado por outra contribuição do grupo do Novo Século Americano.
Em um livro chamado A Guerra contra o Iraque: A Tirania de Saddam e a Missão Americana, William Kristol, ao lado de Lawrence Kaplan, disse: "A complacência da era pós-Guerra Fria foi destruída em 11 de Setembro".
"Aquele dia nos trouxe uma nova era, que precisa de um novo guia."
"Se a América não der forma a essa nova época, nós podemos ter certeza de que outros o farão – de um jeito que não é do nosso interesse, nem reflete as nossas idéias."
"Para os Estados Unidos, este é um momento decisivo."
O ex-diretor da CIA James Woosley elogiou o livro.
"Os autores nos mostram que porque – nesta era de terrorismo, Estados rebeldes e armas de destruição em massa – nós só podemos deixar o mundo seguro para a democracia ao terminar o trabalho de democratizá-lo", disse Woosley.
"Democratizar" o mundo é um importante ponto do novo pensamento conservador, especialmente em relação ao mundo árabe e islâmico.
Isso não significa uma democracia igual em todos os sentidos à democracia ocidental, aparentemente, mas significa "redesenhá-la" para encorajar as instituições civis e uma imprensa mais livres, por exemplo.
Democracia
Douglas Feith, o subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, outro neoconservador na administração Bush disse recentemente em entrevista à revista The New Yorker que "democratizar" países árabes e islâmicos ajudaria a diminuir o terrorismo.
"Se (um governo iraquiano) pudesse criar algumas instituições democráticas, isso poderia ser uma inspiração pelo Oriente Médio afora", disse.
Há um história paralela aqui.
Um dos subprodutos da abordagem do Novo Século Americano é um alinhamento a Israel e a inclusão de grupos islâmicos como o Hamas e a Jihad Islâmica como alvos na "guerra ao terrorismo" declarada pelo presidente Bush.
Conseqüentemente, os aliados judeus de direitas de Bush se tornaram alvo de ataques políticos e pessoais.
A reação de muitos europeus – e de alguns americanos também, é preciso dizer – tem sido a de receber a abordagem conservadora com algum alarme.
Para começar, os europeus têm mais simpatia pelos palestinos.
Mas há mais.
O ex-ministro das Relações Exteriores da França Hubert Vendrine usou a palavra "hiperpotência" para descreveer os Estados Unidos, e não de uma maneira positiva.
Em um discurso no Conselho de Relações Exteriores de Chicago, o ex-ministro britânico e atual comissário de Relações Exteriores da União Européia, Chris Patten, disse que "para ser um parceiro mais confiável e, em alguns casos, um contrapeso (aos Estados Unidos), a Europa deve investir em sua própria segurança".
A Europa, entretanto, está dividida e, no momento, os esforços de criação de uma "Política Externa e de Segurança Comum" estão sufocadas pelo interesse nacional de cada país.
O Novo Século Americano começou.
