O americano Eric Schlosser, jornalista e autor do livro "Fast Food Nation" investigou a fundo esse universo da comida rápida, e assegura que também podem se esconder atrás de um "Big Mc" micróbios que se propagam através de matéria fecal, exploração de mão-de-obra e manipulação publicitária.
Oxalá uma editora brasileira se anime e lance o livro por aqui. Para quem não leu, vale a pena dar uma lida no livro "Cabeça de Turco, uma viagem nos porões da sociedade alemã", de Gunter Wallrat. É uma história verídica sobre um alemão que se fez passar por um Turco/imigrante na Alemanha, levantando a podridão desta sociedade. Numa passagem do livro ele conta sua experiência de trabalho numa loja do McDonald's. Acredito que essa foi à primeira crítica fundamentada contra essa rede de comida rápida. O livro foi escrito a mais de 15 anos. Foi best-seller no Brasil.
A entrevista a seguir foi retirada do jornal "CNT", da Espanha, edição de maio de 2002.
Entrevistador > Quantos sanduíches você comeu antes de realizar essa investigação?
Eric Schlosser > Centenas! Minha comida favorita era "cheese burguer", batatas fritas e esses cremosos sorvetes de máquina.
Entrevistador > E?
Eric > Descobri o sistema de produção dessa comida. Entrei nos matadouros e deixei de comer carne moída. Fiquei enfurecido ao ver o que havia nela. Eu não tenho medo de me adoecer, porque um adulto sadio não corre perigo. Mas as crianças sim, os anciões e as pessoas com problemas no sistema imunológico.
Entrevistador > Você disse que essa carne tem, literalmente, estrume de vaca?
Eric > Grande parte do hambúrguers nos EUA contem germes que procedem dos excrementos de vaca. O problema é que agora o McDonald's pressiona os quatro matadouros, que sacrificam 84% do gado vacinado do país, para que suminist a carne mais limpa dos EUA. De modo que a suja vai parar em certas escolas e nos hipermercados das zonas mais pobres.
Entrevistador > Seu livro conseguiu alguma coisa?
Eric > A administração de Clinton realizou exames para detectar salmonela na carne moída. Em meu livro falo de como o governo tentou fechar o "Supreme Beef", uma fábrica de processamento no Texas que tinha níveis de salmonela e que vendia carne para colégios. Sabe o que aconteceu?
Entrevistador > Não.
Eric > "Supreme Beef" interpôs uma ação e um tribunal conservador decretou em dezembro que o governo não pode fechar uma fábrica por seu nível de salmonela. Assim que, essa fábrica funciona até hoje com o selo de garantia oficial. Dá conta disso? McDonald's é mais poderoso que o governo dos EUA!
Entrevistador > Conhece a lenda urbana do dente de rata nos sanduíches?
Eric > O problema é a própria carne! A criança, a obesidade e o seu sacrifício. Às vezes há 100.000 cabeças de gado numa área minúscula, sem poder mover-se de seus próprios excrementos, e os germens se propagam com facilidade. Por isso McDonald's, apesar do seu atual controle, recosia a sua carne.
Entrevistador > Outra lenda: os trabalhadores cospem nas saladas.
Eric > Quando os trabalhadores não recebem um bom tratamento e se encarregam de preparar sua comida, pode acontecer de tudo. Sabe por que os policiais não vão aos "fast foods" nos EUA? Por que muitos adolescentes que trabalham neles os detestam e colocam "coisas raras" nos seus sanduíches. Durante minha pesquisa contaram coisas horripilantes!
Entrevistador > Conte-me alguma.
Eric > Em maio de 2000 três empregados de "Burguer King" foram detidos por cuspir, urinar e colocar restos do forno e vermes na comida durante oito meses.
Entrevistador > Eles recebiam mal?
Eric > O problema é o sistema de trabalho. Os empregados têm pouca liberdade de decisão. Não há orgulho e habilidade no que fazem. A comida está pré-cozinhada e congelada, as máquinas requentam a comida e as luzes avisam de quando está pronta. Os funcionários são parte da máquina. Mas nos matadouros a coisa é bem pior.
Entrevistador > Pior?
Eric > Há 20 anos, quando fecharam seus sindicatos e reduziram à metade os salários, começaram a recrutar os ilegais mexicanos e acelerar a produção. Eram tratados como bestas! Com meu livro trato de comunicar aos americanos que, cada vez que comem um sanduíche, se conectam com essa gente.
Entrevistador > Pois aumentam o consumo?
Eric > As redes de "fast food" gastam milhões de dólares ao ano em publicidade, tem laços muito estreitos com o governo, estão entrando nas escolas... Meu livro teve algum êxito nos EUA e pela primeira vez estão estudando a conexão entre "fast food" e obesidade, mas é difícil mudar os hábitos alimentares. Eles sabem bem que a comida é muito barata, e as crianças se encantam com os jogos.
Entrevistador > Na Europa tudo é distinto, não?
Eric > Não é tão trágico. A Europa deve entender que a filosofia destas companhias vai aonde eles vão.
Entrevistador > Sugere o boicote?
Eric > Que cada um decida por si, mas que saiba o que está comendo! As pessoas dedicam horas para escolher um carro, mas não pensam um minuto no que metem na boca.
Boicotem o McDonalds e todas as multinacionais que nos usam pra sugar o nosso dinheiro e nossa mão-de-obra!
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