Tudo sempre começa com bons motivos: existe um povo oprimido, humilhado, que está sofrendo nas mãos de um mais forte, e aparece alguém, um verdadeiro MESSIAS para salvar tal povo. Assim foram as religiões. Assim foi o nazismo e o fascismo. Assim é o EZLN. Não resta dúvidas do objetivo nobre desta guerrilha, que é livrar os povos indígenas da miséria e da opressão, mas os meios não podem justificar os fins.
Para combater a violência eles usam de mais violência, são adeptos da frase: "Se queres a paz, prepara-te para a guerra". Sem dúvida nenhuma, é uma causa justa, mas muitos ainda morrerão por ela, e será que eles sabem o que virá depois do término da guerra?
Se por ventura tomarem o poder, haverá mesmo um mundo que caiba todos os outros mundos? Ou surgirá uma nova classe oprimida com o povo indígena no poder? No começo do século XX após a Primeira Guerra Mundial, na Alemanha o povo passava fome, a inflação chegou a níveis altíssimos, a ponto de um carrinho de mão, cheio de marcos alemães, não valesse um dólar. E será que os fins justificam os meios? Será que, para cessar o sofrimento de um povo, vale tudo, até mesmo pegar em armas, ou seja, ir para a guerra?
Na época (e ainda hoje, infelizmente), acreditava-se que sim, então sob a tutela de um líder carismático e adorado, o povo alemão controlou a inflação, o desemprego e se reergueu economicamente. Mas o preço que se pagou foi muito alto para aqueles que não pertenciam ao povo que merecia ser salvo que, neste caso, era o povo ariano. O líder carismático e adorado era Adolf Hitler. E essa ideologia libertadora e com "boas intenções" ficou conhecida como nazismo. Será que nós já não estamos vendo algo parecido hoje em dia no Brasil, com o povo se sentindo desprotegido, aplaudindo o exército nas ruas, e esperando a chegada de um líder forte e centralizador que saiba, acima de tudo, impor a sua vontade acima da vontade dos outros?
Não quero dizer aqui que o objetivo do EZLN seja exterminar os povos inimigos como fez o nazismo, mas infelizmente o poder corrompe. O EZLN tem tudo para que, num dia distante, conquiste o poder. Tem o apoio popular e um líder carismático, o Subcomandante Marcos. Mas, uma vez no poder, surgem inimigos políticos, criando assim mais conflitos, e gerando mais guerras. A história já comprovou que a paz não vem por meio da guerra, a guerra só traz mais ódio entre vencidos e vencedores. A guerra é mais uma semente plantada nos jardins da vingança, ela cresce e vai mostrar o seu poder destrutivo.
O maior exemplo disso é o Tratado de Versalhes, que foi assinado após o término da Primeira Guerra Mundial, e foi um dos principais motivos da Segunda Guerra Mundial.
Neste Tratado, a Alemanha era considerada a única culpada pela guerra (o que não era verdade), e a França humilhava de tal forma a Alemanha que esta só conseguiria se recuperar da humilhação da derrota através de uma outra guerra.
Ironicamente, a primeira a sofrer com isso foi à própria França, invadida pelo exército nazista, ou seja, o feitiço virou contra o feiticeiro. E até hoje, não só Alemanha e França, como toda a Europa tem um ódio profundo entre si, fruto de guerras seculares, algo que com certeza levará a algum outro conflito no futuro.
Nada justifica o uso da violência, nada justifica a organização de um exército, nada justifica seguir um líder. Podem dizer que sou utópico, mas não podemos nos basear em teorias para alcançarmos a paz, devemos nos basear em lições práticas que a história nos dá. E a maior lição histórica de resistência pacífica é a independência indiana, alcançada com Gandhi. Ele provou que o uso da violência só levaria a mais violência, que só despertaria ódio e desejo de vingança na Inglaterra. E a independência se alcançou através da paz. Mas, podem me perguntar, e o que adiantou? Por que a população indiana se encontra em situação tão deplorável, tão miserável? A resposta é simples: Gandhi também foi mais um que sucumbiu ao doce gosto do poder. O seu erro foi criar (o termo mais correto seria reorganizar) um Estado. E a criação do Estado foi, junto com a guerra, um dos maiores erros da humanidade. O Estado tem por objetivo levar o bem-estar ao seu povo.
Mas não é isso que acontece, o Estado apenas oprime o povo e desvirtua as pessoas de boa vontade dentro do jogo da política. Defender uma bandeira é a maior estupidez que se pode fazer. Bandeiras jogam seres humanos contra seres humanos, levando assim à guerra pessoas relativamente próximas, pois podem morar em países fronteiriços, só porque querem mais territórios físicos ou econômicos. Mas o que me dói mais é que o EZLN está encontrando muitos adeptos dentro do meio punk. Mas o punk não prega a anarquia? Não prega a abolição do uso da força e da violência?
Os punks deveriam ser os primeiros à saber que, por melhor que seja a causa defendida, um homem com uma arma e uma farda será sempre alguém que se julgará superior a outra pessoa, começando assim a cadeia de demonstrações de poder.
É tão impossível se alcançar paz através das armas, quanto se alcançar anarquia através de um Estado. Os exércitos agem com organização, e organização neste caso significa obedecer a um só líder. A partir do momento em que você obedece a um líder, você está abdicando de sua capacidade de decisão, você põe a sua vida nas mãos de um homem, e este pode não corresponder à fé depositada nele. Não há líderes santos, todos irão arrebanhar multidões para jogá-las no matadouro da guerra apenas para conseguir uma coisa: poder.
Mesma idiotice acontece com aqueles que reverenciam a figura de Che Guevara. Este também tinha boas intenções, queria libertar os povos da opressão.
Tomemos por exemplo a Revolução Cubana: que liberdade o povo de lá ganhou? Implantar o socialismo é quase como retroceder à monarquia absolutista: só há um partido, assim não há oposição ao governo; você é completamente dependente do Estado, o que te impede de se revoltar contra o sistema, pois todas as terras são do Estado. Então, se rebelar é a mesma coisa que morrer de fome e o governo elimina todos aqueles que são contra a revolução, ou seja, inimigos políticos e burguesia.
O que os socialistas não percebem é que na história nada é duradouro, tudo é cíclico: havia uma nobreza dominante na Europa, os burgueses chegaram e degolaram esta classe.
Os socialistas agora querem degolar os burgueses. Será que eles não percebem que um dia, se eles continuarem com tamanho ódio e amor à guerra armada, também serão degolados? Jogando a teoria marxista contra ela mesma: "O socialismo traz dentro de si o gérmen de sua própria destruição".
O conceito de liberdade socialista, que é o mesmo ponto de vista de Che Guevara, é a coisa mais absurda, pois eles dizem que após a revolução, os burgueses e proletariados serão um só. Mas a história já provou que qualquer guerra deixa mágoas e cicatrizes, e estas os burgueses não iriam esquecer tão cedo, eles iriam esperar a hora de sua vingança, ao mesmo tempo em que seriam humilhados por serem "falsos" proletários, por serem da "classe derrotada".
O meu objetivo com este texto não é tentar convencer os outros a se tornarem anarquistas como eu sou, pois tenho plena consciência de que não sou o dono da verdade.
Meu objetivo é tentar fazer algumas pessoas pensarem porque estão seguindo alguma ideologia. Se fizer bem para você, ótimo, mas não siga uma apenas porque você quer ser diferente ou um radical-revoltado-com-o-mundo. Tente descobrir o que se esconde por trás de uma bandeira, tente pensar por si mesmo, sempre duvide das palavras de alguém que se dirige a uma multidão. Seguir uma ideologia não significa que você vai conseguir mudar o mundo imediatamente. Seguir uma ideologia é fazer você mudar a si mesmo, pois não é o mundo que nos molda, somos nós que moldamos o mundo.
Portanto, pense mais que duas vezes antes de exaltar um herói. Ele foi uma pessoa como você. Lembre-se que na sociedade todos nós temos extrema importância, não caia na conversa de que somente sob a tutela de alguém mais bem preparado (um líder) é que vamos progredir.
Você deve ser o seu próprio herói.
Madruga é vocalista da banda Squish and Lick
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