Red Resistencia, Selvas colombianas, Fevereiro de 2002. Red Resistencia enviou uma equipe de jornalistas às selvas colombianas para conhecer mais de perto a realidade da legendária guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, FARC-EP. Em um acampamento ao sul do país entrevistamos o Comandante Rafael Reyes, responsável pela formação de quadros de um bloco insurreto. Com ele falamos sobre diversos temas, entre eles: recrutamento, trabalho clandestino, o "Novo Poder", guerra midiática e sobre a nova fase da guerra nas cidades.

Red Resistencia: Comandante Rafael Reyes, que papel o senhor desempenha nas FARC-EP?

Rafael Reyes: Ingressei nas FARC-EP como combatente raso, em seguida me foram dando algumas responsabilidades que me permitiram receber uma formação integral como guerrilheiro revolucionário. Meu trabalho se centrou principalmente no aspecto político-organizativo, organizando comunidades, contribuindo principalmente no trabalho do organismo político, elevando a capacidade das células, que são as estruturas políticas mais importantes no seio das FARC-EP. Aqui estou cumprindo meu papel como comunista, que é o de ajudar na formação político-ideológica e cultural do coletivo das FARC.

Isto para mim foi uma escola importante. Antes de ingressar na guerrilha a gente trata de imaginar nisso, mas só quando se está uma vez dentro, a gente se dá conta de que isto é uma verdadeira universidade da revolução. É na prática diária que a gente vai aprendendo a conhecer a população, a entender suas dificuldades e o porquê de sua incorporação ao nosso exército revolucionário. Isso é um processo teórico-prático. Nas FARC-EP temos uma concepção de formação integral dos quadros revolucionários. A este aspecto da formação damos uma grande importância já que nos permite não só fazer discursos, mas também nos preparar no campo militar. Aqui é preciso aprender todas as especialidades que existem na guerrilha como manuseio de explosivos, artilharia, organização de massas, propaganda, etc.

Diz-se que as FARC-EP são um Partido Comunista. Como pode um partido político ser ao mesmo tempo um exército revolucionário?

Somos uma organização político-militar revolucionária que se orienta nos princípios do marximo-leninismo e no pensamento de nosso Libertador, Simón Bolívar, e em todo o pensamento revolucionário da América Latina.

Nossa organização político-militar tem uma estrutura orgânica como força militar formada por esquadrões, guerrilhas, companhias, colunas, frentes e blocos. Mas também tem uma estrutura hierárquica, já que cada uma destas estruturas tem seus comandos, quer sejam comandantes, substitutos ou terceiros no comando. A esquadra é a estrutura básica militar, mas em nossa organização cada esquadra é ao mesmo tempo uma célula política. Assim como na esquadra existe o comando militar, a célula também tem sua própria direção política. Neste nível já há formação de quadros político-militares. A célula comunista para nós tem uma vital importância, já que é ali onde tratamos as questões cotidianas da vida, especialmente a que tem a ver com a formação de quadros. É na célula onde o combatente desenvolve sua capacidade política. Na célula o guerrilheiro deve estudar todos os documentos das nossas conferências, dos Plenários do Estado Maior Central, dos documentos de atualização política, etc. É ali na célula onde vamos nos formando nas idéias revolucionárias.

Como se ingressa nas FARC-EP?

A maioria de nossos combatentes provém de estratos sociais muito humildes. Muitos deles foram vítimas do terrorismo do Estado e decidem ingressar na guerrilha porque aqui vêem um futuro e sobretudo vêem a garantia de defender sua própria vida. A maioria são jovens que não tiveram oportunidades porque o Estado não lhes ofereceu nada. Também temos guerrilheiros que provêm de estratos médios e altos. Trata-se sobretudo de lutadores sociais que não lhes restou outra alternativa que a luta armada para continuar sonhando por uma sociedade mais justa.

A idade de recrutamento nas FARC-EP é dos 16 aos 30 anos. Nos nossos acampamentos poder haver menores de idade mas não estão na qualidade de combatentes. Estes menores estão recebendo a educação que o Estado lhes têm negado. Nossa organização faz uma seleção muito rigorosa de seus integrantes. Um jovem antes de ingressar em nossas fileiras passa por todo um processo. O primeiro que fazemos é explicar a ele do que se trata. Que compromisso vai assumir com nossa organização. Para isso é necessário explicar a ele o que são as FARC-EP, porque luta, qual é seu projeto político, quais suas normas, regulamentos e suas estruturas.

Tudo isto para que o jovem tenha todos os elementos para decidir se deseja realmente ingressar em nosso exército e adquirir assim seu compromisso com o projeto revolucionário. O jovem combatente se compromete em primeiro lugar a luta em defesa dos interesses do seu povo. Em segundo lugar, a levar adiante o plano estratégico das FARC-EP. Terceiro a cumprir com os planos e tarefas que emanem do mesmo plano e, em quarto lugar, a cumprir os regulamentos, princípios e estatutos, assim como a seguir as diretrizes políticas e ideológicas da organização.

A decisão de se incorporar tem que ser tomada livremente. Nós não fazemos nenhum tipo de recrutamento forçado. O ingresso nas FARC-EP é voluntário. Aqui o guerrilheiro não recebe nenhum soldo. É dado a ele tudo o que necessita para viver e combater.

Como se vai ascendendo na estrutura das FARC-EP desde guerrilheiro raso até Comandante em Chefe?

O jovem passa por todo um processo de formação político-militar, cultural e ideológica. Na etapa de recrutamento os jovens vão a uma escola básica de recrutas que pode durar de três a cinco meses. Ali conhecem o básico do guerrilheiro. O primeiro que vão conhecer é o por que lutamos. Damos a conhecer a ele o "Programa Agrário dos Guerrilheiros", a "Plataforma para um Governo de Reconstrução e Reconciliação Nacional", que é o programa do Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia. São estudados também três documentos importantes: os estatutos, o regime interno disciplinar e as normas internas de comando, que são a coluna vertebral de nossas normas. Uma vez finalizada esta etapa, pode-se dizer que está pronto para ingressar no grosso de nossa tropa.

Já estando nas unidades das FARC-EP, o jovem inicia sua carreira como profissional revolucionário. Nossas normas dizem que depois de dois anos, de acordo com sua experiência, comportamento, valor, entrega e espírito de superação, assim como sua responsabilidade e qualidade de seu trabalho, o guerrilheiro já pode receber cargos de responsabilidade. O primeiro que fazemos é promovê-lo a comando. Iniciando-se como substituto de esquadra. É a partir desse momento que começa a receber graduação: comandante de esquadra, substituto de guerrilha, comandante de guerrilha, e assim sucessivamente até que vai adquirindo graduação de maior responsabilidade como pode ser substituto ou comandante de coluna. Neste nível o combatente já pode exercer como comandante de frente ou membro do Estado Maior de Frente.

A partir de comandante de frente se começa a receber outras graduações como é o de ser membro do Estado Maior de Bloco, comandante ou substituto de Bloco, para ir depois adquirindo maiores responsabilidades até ser membro do Estado Maior Central. Daí passa a ser membro do Secretariado, que é o máximo cargo e que atualmente é integrado por sete camaradas. O camarada Manuel Marulanda Vélez exerce como membro do Secretariado e como Comandante em Chefe das FARC-EP

O que as FARC-EP propõem ao povo colombiano?

O objetivo final de nosso projeto revolucionário é a tomada do poder para construir uma nova sociedade, uma Nova Colômbia em paz e com justiça social. É conseguir modelar na prática o "Programa Agrário dos Guerrilheiros". Para alcançar esse objetivo é necessário percorrer algumas etapas.

Estamos propondo a necessidade de formar um governo de convergência democrática, um governo de reconstrução e reconciliação nacional com um programa muito concreto que está refletido na "Plataforma de 10 pontos" aprovada no VIII Conferência das FARC-EP e reajustado no último plenário do Estado Maior Central de março de 2000.

Como organização ampla, estamos propondo ao povo colombiano, às maiorias, que apoiemos e levemos adiante o projeto do Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia.

Estamos impulsionando outras propostas organizativas para levar adiante o projeto estratégico das FARC-EP. Estamos organizando as Milícias Bolivarianas nas comunidades, nos bairros, no campo. Neste processo estamos vinculando todos aqueles que querem lutar para defender os interesses de seu povo, de sua terra, os que estão contra a corrupção, o Terrorismo de Estado, os que querem defender sua vida, assim como vincular todos aqueles que querem lutar por uma mudança deste regime de terror na Colômbia.

Estamos organizando e estruturando o Partido Comunista Clandestino para proporcionar ao povo um instrumento a mais de luta, sem que suas vidas corram os riscos da atividade política aberta. Em nível de organizações sociais estamos contribuindo a que se fortaleçam todas as experiências comunitárias para que as comunidades possam exigir ao Estado investir no social os enormes recursos econômicos que estão dilapidando no monstruoso aparato de guerra estatal.

Ao povo colombiano estamos dando a conhecer nossas propostas. Estamos dando a conhecer o porquê lutamos, qual é nossa proposta de paz com justiça social, de troca de prisioneiros, de substituição de cultivos ilícitos. Por isso é que estamos convidando o povo a se organizar e lutar para conseguir estes objetivos.

O Partido Comunista Clandestino, PCCC, e o Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia são organizações clandestinas. Por que este caráter?

A oligarquia militarista deste país, aliada ao imperialismo norte-americano, colocou em prática todos os métodos repressivos contra o povo colombiano. Utilizando o acionar dos grupos paramilitares, tentou semear o terror e o pânico para que a população não se vincule ao processo revolucionário. Este método é conhecido com o nome de "tirar a água do peixe". Há comunidades que foram duramente atingidas pelo Terrorismo de Estado, quer seja através de massacres ou assassinatos seletivos. Humildes cidadãos, líderes comunitários, dirigentes de cooperativas, sindicalistas e líderes de bairros têm sido massacrados a sangue e fogo por este regime excludente e intolerante. É o próprio povo que nos tem dito que é preciso trabalhar em outras condições e é por isso que decidimos que enquanto não houver condições para desenvolver um trabalho político aberto, nosso trabalho deverá ser feito de forma clandestina. É por isso que o Partido Comunista Colombiano Clandestino (PCCC), o Movimento Bolivariano e as Milícias Bolivarianas têm um caráter eminentemente clandestinos.

Existe uma grande ofensiva do Estado colombiano e dos meios de comunicação do Establishment para deslegitimar a luta das FARC-EP. O que vocês fazem para se contraporem a esta ofensiva?

Com a queda da União Soviética, os ideólogos burgueses e os meios de comunicação a serviço do grande capital têm tentado desvirtuar a luta revolucionária. Há uma grande campanha de desinformação e de operações psicológicas que faz parte desta guerra que sofre os colombianos. Com isso pretendem convencer o povo que desapareceu o espaço para a luta de classes, que hoje já não é possível a luta dos povos e que a luta armada perdeu vigência. Pretendem nos convencer que não existe outra alternativa ao capitalismo selvagem.

Na Colômbia, os militares se deram à tarefa de ganhar a guerra a partir dos gabinetes e através dos meios de comunicação. Esta é uma guerra cada vez mais midiática. As partes militares do exército são na maioria dos casos puras mentiras. A luta neste terreno é muito desigual já que não contamos nem com esses meios nem com os recursos que eles têm a seu serviço.

Nossa organização está neste momento fazendo um grande esforço para combater nesta frente de batalha. Editamos a revista "Resistência" em vários níveis: edição nacional, edição internacional, edição por blocos e por frentes. Em nível dos blocos editamos com uma importante tiragem de vinte mil exemplares por cada bloco. Além da revista publicamos comunicados, panfletos, cartazes, etc. Por outro lado, estão funcionando as emissoras de Voz da Resistência da Cadeia Bolivariana. Cada bloco conta com uma emissora em FM. A meta é que cada frente conte com sua própria emissora e sua própria revista Resistência.

Como é o trabalho das FARC-EP com as comunidades?

Com as comunidades estamos buscando construir o "Novo Poder". Isto explica a nossa política de exigir dos prefeitos para que renunciem. Nós vemos que os prefeitos já não estão cumprindo nenhum papel a serviço das comunidades. Essa experiência já estamos vivendo com os delegados de polícia. A população começou a desconhecer sua autoridade e se dirigia era a nós para solucionar seus problemas. Nós expomos às comunidades que os acordos a que eles chegassem nós os faríamos respeitar, mas com a condição de que as partes em conflito deveriam aceitar as decisões e permanecer como amigos. Isso veio funcionando e por isso os delegados de polícia perderam sua vigência.

No dia de hoje, os prefeitos perderam sua vigência. Primeiro porque esses prefeitos esquecem as comunidades que os elegeram. Muitos prefeitos só trabalham para os distritos que os apoiaram nas urnas, abandonando as demais. Segundo, a maioria das prefeituras se transformaram em um foco de corrupção, injustiça e clientelismo. A estes prefeitos estamos exigindo que renunciem. É por isso que estamos convocando as comunidades para que elas mesmas se organizem, gestionem e administrem seus recursos, já que eles conhecem suas próprias necessidades. Nós e a comunidade vamos estar ali fiscalizando esse novo embrião de poder local que estamos criando nos municípios e nos corregimentos. Isso é o que nós chamamos "O Novo Poder". Isto já é uma realidade em muitas comunidades. Com isto procuramos, primeiro de tudo, que as comunidades recuperem seus papel protagônico. Em segundo lugar, que comecem a fazer o inventário de suas riquezas, da terra, como está distribuída, que conheçam quem são os que produzem as riquezas e quem se aproveitam delas, como é distribuída, e estamos dizendo a essas comunidades que façam o inventário de suas necessidades reais, para poder investir eficientemente os recursos.

As FARC-EP estão entrando em uma fase de guerra nas cidades. Qual é o objetivo desta nova etapa?

O mapa demográfico da Colômbia mudou radicalmente nos últimos 30 anos. Hoje em dia, quase 85% da população colombiana vive em centros urbanos resultado do êxodo forçado que levou a muitos camponeses a procurar refúgio nas cidades. Dentro de sua estratégia de guerra, o inimigo pretende deixar desolado o campo através de seu projeto paramilitar. Por um lado pretende se apoderar de suas terras, e por outro, tirar o apoio que temos na população camponesa, que é muito alto. É assim como nos últimos anos estes refugiados vêm se assentando nos cinturões de pobreza das grandes cidades. A realidade é que os camponeses se foram com os seus problemas para as cidades. Foram perseguidos no campo e agora são perseguidos na cidade. Anteriormente, eram bombardeados no campo indiscriminadamente, agora são também nas cidades. Para eles, isto não é um fenômeno novo. A isto somamos o desemprego, a marginalidade, o desamparo estatal e a pobreza absoluta. Há setores que estão sofrendo fisicamente a fome. Tudo isso faz com que estes setores excluídos da riqueza do país lutem para melhorar suas condições de vida. E é aí onde estamos nós com nossas propostas. Aí estamos organizando as milícias, o PCCC e o Movimento Bolivariano para preparar o povo colombiano para a insurreição armada com o fim de acabar de uma vez por todas com este regime de terror e exclusão.

Neste momento temos milícias em todas as cidades colombianas. Em Bogotá e Medelim se começou a senti-las. Logo se sentirá seu acionar em toda a Colômbia, já que o povo colombiano não suporta mais esta situação de repressão e injustiça social.