EMIR SADER
25/2/2003
O fim da ONU
Aceitar a guerra e ainda delegar aos EUA fazê-la é uma capitulação que não só representará o fim da ONU, mas também o início de uma nova era de guerras e instabilidade mundial.
Quando foi vítima do atentado em 1981, em pleno Vaticano, o Papa João Paulo II chegou a se perguntar: “Mas por que eu?” Mais tarde, os norte-americanos se colocaram a mesma pergunta no dia 11 de setembro de 2001. Agora, somos nós que devemos perguntar: “Por que os Estados Unidos?”
O caminho para a guerra parece afunilar-se. A Turquia acertou as cifras com os EUA e alugará seu território para as tropas, as armas, os tanques e os mísseis norte-americanos, em troca de muito dinheiro, facilidades para suas dívidas e garantias de que não sofrerá pressões por política de dominação dos curdos. Ao mesmo tempo, o Conselho de Segurança dá prazo para que o Iraque destrua seus foguetes. O governo norte-americano está militarmente preparado para atacar, tendo superado a linha de não-retorno das operações militares.
Os planos militares estão prontos: haverá bombardeios maciços dez vez maiores do que há 12 anos logo na primeira semana, com o máximo de destruição dos alvos considerados estratégicos, não apenas em termos militares, mas também fundamentais para o funcionamento cotidiano da vida no país, incluindo reservatórios de água, centrais elétricas e fontes de abastecimentos de alimentos.
Os EUA consideram a possibilidade de desembarcar tanques de aviões de transporte no próprio aeroporto de Bagdá, atingindo diretamente o centro da capital iraquiana. Para isso, um brutal “abrandamento aéreo” deveria ter sido realizado sem parar nos primeiros dias. Cada um dos 70 bombardeiros B-52, carregando 50 bombas, deverão atacar 3.500 alvos numa única saída. Outros 700 aviões desse tipo podem ser colocados em funcionamento, estando estacionados nas proximidades do Iraque. Imaginem a capacidade de destruição que possuem e as vítimas e ruínas que provocarão.
Os EUA, considerando a hipótese de que não consigam maioria para nova resolução da ONU, já prepararam o terreno para declarar que ela não é necessária, que basta a primeira, conforme sua própria leitura. Sendo assim – ou mesmo se, atemorizado, o Conselho de Segurança aprovar uma ação militar contra o Iraque – restam algumas perguntas.
A primeira delas é: por que serão os EUA, cujo governo declarou abertamente que estaria disposto a agir sem a ONU, que precipitou a guerra, acantonando 200 mil homens e armamento pesado no Iraque? A ONU está disposta a alienar definitivamente sua independência e deixar os EUA agirem em seu nome, como bem entendam? Não deveria, no caso extremo de uma intervenção militar, constituir-se um contingente de cascos azuis, que deveriam realizar estritamente o que viria a ser decidido, isto é, o desarmamento do Iraque e não a derrubada do regime e, menos ainda, todo tipo de destruições e de mortes e sofrimentos à população civil?
Mais ainda: por que serão os EUA a decidir – nesse caso extremo – sobre o futuro político do Iraque, como vêm fazendo, considerando desde o protetorado militar direto, chefiado por um oficial norte-americano, até manter o regime, dirigido por algum oficial que se preste a isso, passando por malabarísticas soluções mistas? E com que direito o governo norte-americano decidiria sobre o futuro da produção de petróleo no Iraque?
A opinião pública mundial não apenas condenou ativamente a guerra, como as pesquisas de opinião demonstram que o que o mundo mais teme é o poderio agressivo dos EUA. Somente um mundo multipolar, regido pelas leis internacionais e por uma ONU democratizada e independente, a paz poderá ser estabelecida.
Aceitar a guerra e, ainda mais, delegar aos EUA fazê-la, apoderar-se política e militarmente do Iraque e do seu petróleo, é uma capitulação que não apenas representará o fim definitivo da ONU, mas também representará a abertura de uma nova era de instabilidade e de guerras. Como diz artigo de Andrew Sullivan no The Sunday Times: “O protetorado do Iraque que surgirá após uma guerra vitoriosa será a primeira tentativa de indicar caminhos a seguir. O Irã e a Arábia Saudita serão os próximos.”
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões (com Frei Betto, Editora Boitempo).
http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=590&coluna=boletim 