"ESCUDO HUMANO" - BUSH PREPARA ÁLIBI PARA O MASSACRE DO IRAQUE

Por Bill Vann

A construção da guerra pela administração Bush alcançou o estágio em que altos funcionários se sentem obrigados a se protegerem com álibis para o próximo massacre de milhares de civis iraquianos.

Esta é a importância do discurso de Bush, de 12/02, em Nashiville, advertindo que o regime iraquiano está se preparando para usar sua população civil como "escudos humanos" no caso de uma invasão dos Estados Unidos. Ele disse que o presidente do Iraque, Saddam Hussein, pretende infiltrar as forças militares do país entre os civis "para proteger seu exército e acusar as forças de coalizão pelas perdas civis que ocorrerem". Como sempre, Bush não apresentou qualquer prova que comprove essas afirmações.

"A América vê o povo iraquiano como seres humanos que já sofrem há longo tempo", disse Bush, numa conferência com emissoras cristãs. A fala, salpicada do tipo de hipocrisia que é a característica de sua audiência, constituiu uma clara tentativa de acusar os iraquianos pela destruição em massa que o exército americano está preparando para desencadear contra seu país.

O argumento é que, se os soldados iraquianos tentarem defender a capital e maior cidade do país da invasão dos soldados americanos, eles serão responsáveis pelos civis mortos pelas bombas, mísseis e metralhadoras americanas. Esta espécie particular de mentira não é, em hipótese alguma, uma novidade. Durante a última guerra do Golfo Pérsico, a Casa Branca, de Bush pai, e o Pentágono responsabilizaram o posicionamento iraquiano das forças militares pelas perdas civis e até - absurdo dos absurdos - uma arma anti-aérea deficiente.

O ataque mais desumano daquela guerra, o bombardeio do abrigo de al-Amariya, em Bagdá, primeiro foi desmentido como sendo "propaganda iraquiana" e, depois, defendido. Disseram que os 288 civis mortos pelas bombas americanas, inclusive 91 crianças, eram a prova de que o regime iraquiano "não compartilha o valor que damos à santidade da vida humana".

Os comentários de Bush sobre os "escudos humanos" foram complementados pelo testemunho apresentado no mesmo dia pelo vice-almirante Lowell Jacoby, diante do Comitê do Senado sobre Serviços Armados: "se as hostilidades começarem", disse ele, "é provável que Saddam empregue uma estratégia de "terra arrasada", destruindo alimentos, transportes, energia e outros serviços de infraestrutura, tentando criar um desastre humanitário, significativo o bastante para interromper o avanço do exército."

Prosseguindo, Jacoby disse que o regime iraquiano provavelmente usaria armas de destruição em massa em seus próprios cidadãos, com o objetivo de acusar os Estados Unidos por crimes de guerra.

Por certo que existe uma estratégia de "terra arrasada" para o Iraque: a que foi preparada pelo Pentágono. Os planos divulgados pela imprensa, no início deste mês, para uma campanha de "choque e terror", pedem o bombardeio do país com 3.000 a 4.000 mísseis e bombas inteligentes, nas primeiras 48 horas de um ataque americano, mais poder explosivo do que o que foi usado durante toda a Guerra do Golfo, há dez atrás.

Este ataque aéreo objetivará a morte de civis iraquianos. A idéia é infligir um número suficiente de perdas para que toda a população se submeta aos invasores americanos. Um dos arquitetos do plano, Harlan Ullman, atualmente um analista no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, comparou-o às bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. "Os japoneses desistiram porque não podiam gostar que uma bomba pudesse fazer o mesmo que 500 aviões em uma noite. Este foi o choque", disse ele. "Agora, você pode pegar aquele nível de choque e aplicá-lo com armas convencionais? Nós achamos que sim."

Bombas nucleares, no entanto, em hipótese alguma, foram admitidas, como o secretáriode defesa, Donald Rumsfeld, esclareceu mais uma vez, na quinta-feira. "Nossa política ... tem sido, no geral, a de que nós não excluímos o possível uso de armas nucleares se atacados", disse ele no Comitê do Senado de Serviços Armados. A alegação de que o Iraque está preparado para usar armas de destruição em massa contra seu próprio povo foi projetado para fornecer uma cobertura para os planos do Pentágono para o uso dessas armas.

Quanto aos planos para destruir a infraestrutura do país, a elite dominante americana e o exército têm muita experiência neste campo. Muito da infraestrutura econômica e social foi destruída na campanha de bombardeio dos Estados Unidos, em 1991, que derrubou as redes de energia elétrica, as usinas de tratamento de esgoto, as instalações de purificação de água e hospitais. Esta devastação, seguida de uma década de sanções econômicas mantidas por Washington, provocou a morte de mais de um milhão de iraquianos.

Quanto à acusação de Jacoby de que o regime iraquiano está planejando criar um "desastre humanitário", houve vários relatórios emitidos pela ONU e pelas agências de ajuda, advertindo que a ação militar dos Estados Unidos provocará aquele desastre, sendo desnecessária a intervenção de Saddam Hussein. Um grupo de médicos previu que mais de um quarto de milhão serão mortos, enquanto uma estimativa da ONU mais conservadora, prevê meio milhão de pessoas necessitando de tratamento para ferimentos e lesões sofridos na guerra.

Mais de 16 milhões de iraquianos dependem de um sistema governamental de ajuda alimentar que entrará em colapso com a ação militar dos Estados Unidos. Milhões mais se transformarão em refugiados com a invasão. Ataques aéreos sobre usinas elétricas varrerá os já devastados sistemas de água e esgoto, criando condições para novas epidemias.

A tentativa de imputar essas mortes e devastação à tática iraquiana de "terra arrasada" ou "escudo humano" é a marca registrada de funcionários que estão preparando crimes de guerra em massa.

Publicado no WSWS, em 14/02/03

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