Crime contra a Humanidade

Utilização militar de urânio empobrecido ameaça Brasil e o Mundo

É preciso que a opinião pública mundial pressione os organismos internacionais de controle para vetar o uso do urânio empobrecido como arma de guerra

O Brasil e seus vizinhos ainda não se deram conta - pelo menos em termos de opinião pública - do perigo mortal que estará prestes a pairar sobre seus territórios à medida em que nos aproximamos do prazo fatal que dará início ao Plano Colômbia.

O possível uso de mísseis compostos de urânio empobrecido, de alto teor irradiativo, pela aviação norte-americana, sobre o território colombiano, poderá espalhar morte e doenças sobre a população brasileira e dos países vizinhos, tal como ocorreu no Iraque e em Kosovo, segundo pesquisas realizadas após os conflitos.
Esses fatos terríveis poderão ocorrer se se comprovaram as suspeitas levantadas na matéria da seção Ciência e Tecnologia, da revista IstoÉ, (n° 1.621) da última semana, sob o título ``Arma Letal - Cobaias de guerra''.

As notícias sobre as nefastas conseqüências, para os brasileiros, da intervenção militar americana na Colômbia até então se resumiam a possíveis efeitos geopolíticos (presença de tropas estrangeiras na Amazônia) e ambientais (uso de desfolhantes químicos), com graves riscos para a integridade territorial brasileira.

A floresta amazônica, como se sabe, é alvo da cobiça internacional e está na pauta dos candidatos à presidência dos EUA.

Mas a ameaça ao Brasil, a que nos referimos, particularmente, passou quase despercebida, merecendo apenas uma linha na matéria da Isto É. Nela se denuncia um dos crimes mais escabrosos contra a Humanidade cometido pela indústria bélica americana: o uso de urânio empobrecido nos mísseis jogados sobre alvos militares e civis, nos conflitos em que os EUA têm-se envolvido.

Esse produto causa danos permanentes não apenas aos inimigos, mas nas próprias tropas que o utilizam e, sobretudo, na população civil. Quando os mísseis atingem o alvo, espalham chamas e partículas de urânio que não respeitam fronteiras geopolíticas. ``A garoa de poeira radioativa viaja ao sabor do vento, misturando-se ao ar, e seu poder letal é devastador quando o metal é inalado ou ingerido'', segundo a revista.

Houve um acúmulo de 520 mil toneladas desse tipo de material, considerado dejeto e de armazenagem cara, desde 1940, quando os cientistas do Projeto Manhattan criaram a bomba atômica.

A indústria bélica encontrou então uma forma lucrativa de livrar-se desse lixo, atirando-o contra o inimigo. A Agência de Proteção Ambiental do próprio governo dos Estados Unidos já advertira que "urânio empobrecido" é radioativo, tóxico e cancerígeno''.

Transcorrem 4,5 bilhões de anos para que o poder de irradiação desse tipo de átomo seja reduzido à metade.`

`A possibilidade de danos à saúde, no longo prazo, foi levantada pela primeira vez quando cerca de dez mil dos 500 mil soldados que participaram do conflito no Iraque passaram a sentir náusea, dor de cabeça, ter diarréia, queimaduras e outros sintomas que sugeriam envenenamento radioativo de baixa intensidade''.

Exames realizados no cadáver de um soldado canadense, cuja moléstia não tinha sido identificada, revelaram a presença de átomos de urânio empobrecido no seu organismo.

Em 1991, os jatos e tanques americanos dispararam 320 toneladas de urânio sobre alvos iraquianos, durante a Guerra do Golfo. Resultado: houve significativo aumento nos casos de crianças nascidas com anormalidades, além da maior incidência de câncer, especialmente nos pulmões e rins.

Em 1990 morreram de câncer 7.058 iraquianos, número que saltou para 8.526 dois anos depois - relata a matéria.

Os EUA atribuíram as mortes ao uso de armas químicas pelos iraquianos, ou à fumaça dos poços de petróleo incendiados.

Mas, o reaparecimento dos mesmos sintomas nos veteranos da guerra de Kosovo, e na população local, desmentem essa tese. Estima-se que o bombardeio de Kosovo deve causar pelo menos 10 mil mortes por câncer nos Bálcãs e não só nas áreas diretamente atingidas: na Sérvia, bombardeada por 500 mil balas de urânio empobrecido, a radiação era 30 vezes superior ao normal, mas no Norte da Grécia, a mais de 100 quilômetros da área de conflito, a radioatividade aumentou 25% - assegura a matéria.

Mais do que nunca é preciso que a opinião pública mundial pressione os organismos internacionais de controle para vetar o uso do urânio empobrecido como arma de guerra. Com mais razão, devem mobilizar-se colombianos, brasileiros e sul-americanos em geral, pelo fato de serem provavelmente as próximas vítimas do uso criminoso desse material tão logo se iniciem as operações militares do Plano Colômbia.