Toda essa histeria contra a "violência" e o "terror" no Estado do Rio só podiam dar nisso mesmo. Os mais interessados em decretar que vivemos num clima de terror não são os traficantes, muito menos Fernadinho Beira-Mar, mas o nosso "estado-violência". Eu sempre digo que o tema da "segurança pública" (leia-se sempre: repressão) é o campo da direita por excelência.
Agora eles (o sr Josias Quintal - agente da ditadura-, dona Rosinha e a mídia corporativa) espalham que a Operação Guanabara foi um sucesso e que o exército deve continuar na rua. Ora, mas é apenas um detalhe que os índices de violência não tiveram grandes quedas durante esse carnaval em comparação com o ano passado e inclusive houve um aumento considerável do número de homicídios, chegando a 70 na semana de carnaval.
Além disso, o assassinato do professor é apenas mais um mero detalhe. Logo nas primeiras horas em que o caso foi divulgado já saiu uma nota oficial do exército dizendo que o assassinato era legítimo. Ao longo do dia, foi divulgada sempre a versão oficial, sem dizer quem era a pessoa assassinada, porque ele não parou. Só na versão eletrônica da Folha à noite (abaixo) e nos jornais de hoje é que se soube que era um professor do Estado, voltando com a namorada de uma festa e que teve medo de parar por achar que era uma falsa blitz.
A semana inteira saíram em todos os jornais por aqui inúmeras matérias que formaram claramente duas campanhas: uma era de que a população do rio estava feliz, satisfeita e segura com a presença do exército na rua, unânime em pedir que essa "segurança" continuasse depois o carnaval. Curiosamente, todos os entrevistdos que apareciam tinham a mesma opinião... A outra, ainda mais surreal, foi a tentativa de vincular as FARC colombianas aos últimos acontecimentos no Estado do RJ. Pude ver essa campanha em particular no JB, que chegou ao cúmulo de insinuar que os incidentes da assim chamada "segunda sem-lei" caracterizaram verdadeiras ações de guerrilha urbana inspiradas e treinadas pelos guerrilheiros camponeses colombianos. Seria trágico se não fosse cômico... E, que coincidência, nas mesmas matérias que falavam dessa atuação direta das FARCS nos morros cariocas, falava-se também do pedido do paramilico-narco-presidente Álvaro Uribe de o governo brasileiro declarar as FARC como terroristas. Não precisa nem dizer qual era a posição defendida pelo jornal...
Nesses tempos de exaltação do bang-bang e que falar de direitos humanos é forçosamente confundido com defender bandido, é necessário gritar contra esse estado de sítio permanente que nos querem impor. Como dizem @s companheiros na argemtina: "NÃO AO GATILHO FÁCIL". Já não basta termos que encarar no dia-a-dia a brutalidade da polícia carioca, ainda teremos que andar nas ruas sob os fuzis do exército?
saúde e rebeldia,
t.
"Paz sem voz não é paz, é medo" - O Rappa
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04/03/2003 - 19h00
Exército mata professor de inglês que não parou em blitz no Rio
SABRINA PETRY
HENRI CARRIÈRES
da Folha de S.Paulo, no Rio
O professor de inglês Frederico Branco de Farias, 56, foi morto hoje pelas Forças Armadas no Rio de Janeiro ao passar por uma barreira do Exército. Ele é a primeira pessoa morta pelos militares desde a última sexta-feira, quando teve início a Operação Guanabara, montada para tentar conter a onda de violência provocada por traficantes que assolou a cidade na semana passada.
Farias foi atingido por um tiro disparado por um militar por volta da 0h, em Tomás Coelho, bairro da zona norte do Rio. Ele dirigia seu carro, um Corsa azul, pela avenida Automóvel Club, na altura da rua Silva Vale.
O atestado de óbito registra que a bala perfurou o tórax e o abdome, causando lesões no coração, no baço, no rim esquerdo, nas alças intestinais e no fígado.
As versões para a morte são conflitantes, embora todas sejam unânimes em afirmar que foi um militar do Exército que fez o disparo.
Para o Comando Militar do Leste, Farias teria furado um bloqueio montado pela Polícia Militar e por um grupo de nove pára-quedistas do Exército, e, por isso, foi alvejado.
Segundo registro feito na 44ª Delegacia de Polícia (Inhaúma), o professor foi vítima de bala perdida. Ele teria passado no meio de uma troca de tiros entre um grupo formado por militares do Exército e policiais e militares contra outro grupo de traficantes do morro do Juramento.
Essa é a versão também sustentada pela Secretaria de Segurança Pública do Rio. "Em uma operação de envergadura tão grande, é possível que fatos como esses ocorram", disse o secretário Josias Quintal. "Esse caso não vai fazer com que esse aparato não seja utilizado novamente ou não continue", completou.
Farias estava acompanhado da namorada, Rosângela Silva, 38, que nada sofreu. A irmã de Rosângela, Cleide, disse à Folha que os dois voltavam de um baile de Carnaval e iam para a casa dela, em Cascadura, na zona norte da cidade.
A versão de Cleide se aproxima mais à do Comando Militar do Leste. "Eles não pararam na blitz. Eles se assustaram, pensando que podiam ser bandidos, que podia ser uma falsa blitz", disse a irmã de Rosângela em entrevista por telefone.
À noite, no Instituto Médico Legal, um irmão da vítima, Luís Branco, disse não acreditar na versão de que o irmão não parou. ''Estou abismado com esse tipo de coisa. Ele jamais faria isso. Mas, mesmo que não tivesse parado, não justifica isso aí [os tiros].''
Luís disse que não conhece Rosângela, que há três meses namoraria seu irmão. Os irmãos moravam juntos havia 38 anos, em Vista Alegre (zona norte). Frederico era solteiro, sem filhos e professor de inglês do Estado, segundo Luís.
Nota divulgada pelo Comando Militar do Leste afirma que, após Farias desobedecer a primeira ordem para parar e se identificar, dada por policiais militares, um tenente do Exército se colocou à frente do carro. "Mas o motorista, prosseguindo no intuito de evadir-se, tentou atropelá-lo", informa a nota.
Em seguida, os militares teriam disparado tiros de advertência para o alto, que também teriam sido desobedecidos. "Em consequência, dentro das normas previstas, foram efetuados [pelos militares] disparos contra o veículo infrator", completa a nota.
O Corsa foi atingido por três tiros _um no capô e dois na lataria, do lado do motorista. Um dos disparos matou o professor.
O delegado Avelino da Costa Lima Filho, que fez o registro do caso durante a madrugada a partir do relato de um policial militar, afirmou que o professor não tinha antecedentes criminais.
Uma ambulância do Exército socorreu Farias e a namorada e os levou ao hospital Salgado Filho, no Méier (zona norte), onde ele morreu. Um oficial identificado apenas como "tenente Gomes", da 26ª Brigada de Infantaria Pára-quedista, foi o responsável pelo socorro.
Segundo está registrado no livro de ocorrências do hospital, Rosângela disse que "houve um grande tiroteio" no momento em que eles passavam pela avenida.
Militares do Exército estavam na porta da delegacia e do Salgado Filho durante o dia de hoje.
A Operação Guanabara teve início na última sexta-feira, com a participação de 39 mil homens, entre Forças Armadas, Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda Municipal. Na semana passada, traficantes do Rio executaram uma série de atentados, deixando um saldo de três mortes, 48 veículos incendiados e 6 bombas caseiras.
