Um sorriso à liberdade


Ela despertou com uma densa nuvem vermelha cobrindo seus olhos. Estava deitada e não conseguia ver nada. Em uma atitude que beirava o desespero e rondava o incrível mundo da curiosidade, talvez um ato instintivo de reconhecimento, apalpou o solo onde encontrava-se acostada. Com alguns toques de sua suave mão conseguiu perceber que o sítio que a recebia era um terreno arenoso. Ao sentir um mínimo de segurança e firmeza, mesmo com os olhos ainda fechados, pois não conseguia abri-los sem que o espesso líquido que escorria de sua fronte os inundasse, fez seu primeiro esforço para se reconhecer como um ser existente e tentou impulsionar um mínimo de lógica àquela situação que lhe parecia a um primeiro instante, e tendo garantida a afirmação por sua perturbada mas ainda existente estrutura racional e lógica que lhe parecia fornecer base para se portar como uma possível pessoa equilibrada, uma situação inusitada e não habitual.

Sentindo-se um pouco tonta e desorientada, levou a mão cheia de areia ao rosto e tentou limpar seus olhos sem sucesso. Tentou novamente e firmando um pouco a vista conseguiu enxergar um pouco o ambiente que a circundava, mas apenas conseguiu ver alguns vultos e uma imagem daquela realidade bastante nevoada por sua tontura. Reconheceu alguns seres diante se si como semelhantes tanto lhe reconfortou como lhe assustou. Ela estava bastante confusa. Ouvia ruídos que se apresentavam bastante distantes. Sentiu alguns toques em seu corpo.

Após alguns instantes já conseguia ver. Estava rodeada por pessoas. Desconhecidas. Com olhares assustados e temerosos. Alguém se agachou e indagou – Você está bem? – Não obtendo resposta indagou novamente – Como se chama? – Ela não soube responder.

- Bem? Será que estou bem? Será que se disser despretensiosamente que estou bem como que só por responder e saciar o desejo daquele à minha frente que desejou iniciar um diálogo somente para romper o muro que nos separava como indivíduos alheios à realidade um do outro para se aproximar? Será que estou realmente bem? Devo dar-lhe a chave que abre esta porta que nos separa? – pensou ela em um instante de reflexão. E à outra pergunta somente se indagou – Quem sou eu? Como me chamo?

De repente uma incontrolável dor de cabeça. Latente. Pulsante. Ela se deu conta que estava coberta de sangue. E, tocando-se outra vez, se descobriu ferida. Como que para aliviar a dor movimentou sua cabeça em vários ângulos buscando uma posição mais cômoda e confortável. Foi durante esta movimentação de sua cabeça que se deu conta da roda asquerosa de pessoas desconhecidas que ali se apresentava. E que dentro deste ridículo e curioso círculo havia outro corpo estendido. Sob o mesmo céu, sobre a mesma praia e envolvido pelos mesmos ruídos. Era um rosto familiar. Bastante familiar.

Alguém ali comentava – Ela quase morreu. – enquanto outro rebatia – Ela ainda está muito ferida. – e ela fechou os olhos, como que esperando despertar daquele nefasto pesadelo. Não obteve sucesso. Se deu conta que o momento era irreversível e que deveria encará-lo. Seu corpo estremeceu de medo e insegurança.

Resolveu então fazer mais um esforço. Sentiu uma incrível necessidade de se identificar. Algo lhe dizia que a identidade era um bem moral. E o fato de não conseguir realizar uma tarefa aparentemente tão simples e insuportavelmente tão normal lhe proporcionou momentos de indescritíveis de náusea. Seu eu gritava ao vento que soprava por aquelas bandas que isso era impossível. O mundo lhe pressionara durante toda a sua existência que era irremediável o fato da necessidade de uma identidade. Esse esforço mental a fatigou. Então, desprovida de outra solução imediata e rápida abriu mão de sua busca por sua identidade. Se sentiu tão leve que perdeu contato com o chão. Estava flutuando naquele gozo instantâneo de liberdade.

Resolveu então se dar conta de outra questão. Quem era aquele outro indivíduo caído. Por quê ele lhe parecia tão familiar e próximo? Por quê mesmo não conseguindo identificar-se essa sensação de reconhecimento daquele outro ente lhe parecia tão necessária e tão tangível? Algumas lembranças vaguearam sua mente.

Uma relação. Não, melhor, um relacionamento. Estava lá, titubeando em sua mente. Uma luz. Um contrato social muito importante ao meio em que vivia. Um relacionamento aclamado e justificado. Um relacionamento monogâmico. Outra estranha sensação de liberdade estremecia seu corpo naqueles infindáveis segundos. Se recordou que havia rompido com esta, que havia passado a considerar estúpida, maneira de relacionamento, imposta, reinante e repressora. Esse pensamento desencadeou outros. Se recordou que era uma mulher. E que questionar toda esta estrutura premeditada a ser cínica e sarcástica era um sacrilégio. Ela era uma simples e singela garota frente um alarmante e gigante mundo machista e viril. Experimentava agora outra dose cavalar de náusea. Ela existia. Isso bastava.

Um instante, um momento, ou como querem os meticulosos senhores do tempo e da realidade, um segundo bastou para lembrar quem era aquela pessoa ali na areia. Toda contorcida. Era ele. Sim, era ele. Seu marido. Uma enorme sensação de ódio e asco tomou conta de suas veias e sua pele e seus pelos se aqueceram. Seu corpo estava em ebulição. Se recordou do enfrentamento à sua falta de liberdade. O encantamento com a monogamia havia se esgotado. A busca pelo prazer e a falta de perspectivas frente a este absurdo contrato. Que horror. Que nojo. O casamento lhe enfurecia e lhe matava em doses homeopáticas. Ela havia resolvido sair de vez dessa teia. E se deu conta que havia conseguido.

Estava decidida. Ia viver sua vida independentemente do que ele aceitasse ou esperasse. Ela queria gozar. Gozar muito. A figura divina não passava de recordações. A idéia essencial do pecado já estava no bueiro, sendo conduzido até lá pela enxurrada de livres idéias e de pensamentos contestatórios. Ela estava cansada daquela vida.

Um ser viril. Dono da razão. Inquestionável e intolerante ao que dizia respeito à sacra idéia da união frente à estrutura burocrática reinante e frente à distante idéia divina o sagrado casamento, distante porque não era m fundamento embasado em sua cabeça. Não era, como se diz por aí, um cristão praticante. Ao contrário, o outro argumento era demasiado arquitetado. Ele era um advogado bem sucedido. O rompimento foi um choque. Ele se sentiu agredido. Era seu direito essa segurança. Seu pensamento viril e sua idéia de justiça não permitiriam essa desvinculação matrimonial. E a idéia da exclusividade e da garantia de preenchimento existencial? Já que mesmo não havendo tanto entendimento estava garantido que sua pessoa não pereceria frente à solidão. Na pior das desgraças haveria suporte, teria companhia.

A ela tudo parecia claro. Estava decidida a não mais compactuar com esta situação e com esta estrutura que esmaga qualquer liberdade individual nas mais simples relações, nos contatos mais cotidianos e corriqueiros. Não era mais sua esposa, mulher, namorada, garota, menina, amante ou qualquer outra adjetivação. Havia decidido. Ela não pertencia a ninguém mais que a si mesma.

Um ultraje, uma vergonha, totalmente inaceitável. Essa foi a resposta. Isso não vai se concretizar mocinha.

Mocinha...Mocinha... Essa pobre palavra ecoava em sua cabeça. Lhe parecia, mesmo frente à boçalidade e à inocência estúpida do emissor uma agressão, uma atitude patriarcalista e repressora. A simples pronunciação desta palavra buscava a deslegitimação e a puerilidade de um ato como o que ela estava levando a frente. Ela havia se irritado. O deixou. Sem ressentimentos ou arrependimento.

Ele a cada dia que passava se apresentava mais neurótico. A idéia do abandono e do fracasso que a situação proporcionava o matava por dentro. Havia aprendido que homem não leva desaforo pra casa. Decidiu que não seria motivo de risos para ninguém. O homem viril e forte jamais é abandonado por uma mulher. Se recordou que seu irmão era tratado como frouxo por sua passividade frente uma situação semelhante. Em uma atitude de irreversibilidade decidiu matá-la.

Ela recebeu um telefonema em sua nova casa. Era ele. Queria encontrá-la e conversar um pouco. O local marcado foi a praia onde se conheceram. Ela achou estranho seu tom de voz mas mesmo assim resolveu encontrá-lo. Não apresentou medo perante o momento, ele jamais a havia violentado fisicamente e era um homem de certa forma até calmo.

No outro dia, no início da noite, ela foi ao encontro marcado. Ele a esperava. Se cumprimentaram e ele logo se impôs – Tenho uma decisão muito importante a passar-lhe. – E caindo em prantos disse – Você é minha e não posso admitir que fique longe de mim. Se não posso tê-la, ninguém a terá. – e sacando uma adaga afirmou entre soluços – Vou matá-la! Juro que vou! – Ela engoliu seco e com confiança retrucou – Eu não sou sua. Nunca fui e nunca serei. Eu sou um indivíduo como você. Eu sou única, ninguém me possui. A partir do momento que me interei de minha liberdade seu amor egoísta e traiçoeiro perdeu seu encanto sobre mim. Inclusive eu mesma cheguei a crer um dia que sentia esse amor. Espelhava em você o amor que sentia por mim mesma e exigia, como você exige agora, um respaldo e uma resposta a esse amor que eu acreditava que era verdadeiro. Com o tempo comecei a perceber que esse nosso relacionamento não passa de um espetáculo garantido por um grande teatro que é esse mundo estúpido e vil e que é vivenciado em nossa privacidade por nós dois. Somente por nós dois. Essa situação estava, melhor, não só estava como o é agora insuportável para mim. E te digo, não vou me entregar sem lutar pelo que acredito e que decidi para minha vida.

Então, tomado pela cólera da mudez que o tomou, empunhou agressivamente a adaga e a atacou. Por ironia ou pelo simples fato de isso não passar de uma neste grande espetáculo irracional que é o mundo ele tropeçou ao armar seu ataque e o por em ação caindo sobre ela, que não conseguiu se mover. Os dois rolaram na areia por alguns segundos em um áspero enfrentamento. Mesmo detendo maior força física o homem não conseguiu liberar o braço que segurava a adaga para realizar seu ataque fatal. Durante o enfrentamento a arma escapou das mãos e se perdeu na areia. Foi quando ela começou a ser estrangulada. Já estava quase sem ar quando apalpando a areia encontrou a adaga. Cravou-a bem no meio do peito de seu agressor. Ele a soltou. Desesperado pela idéia de perda da vida e pela surpresa do contra-ataque por parte dela retirou entremeio um grito a adaga de seu peito, a olhou em seus olhos, parou alguns instantes e exclamou com a boca já cheia de sangue – Eu te amo. – Foi o que ela conseguiu lembrar. O resto está muito nebuloso.

Após alguma reflexão percebeu que havia sido golpeada. O sangue escorrendo em sua cara era a prova imediata. Estava fraca.

Esquecendo-se da multidão que a circundava começou então a divagar. Buscava a liberdade. Uma liberdade absoluta. A pressão do todo e as convenções sociais mantidas por este todo a havia impedido de gozar este tipo de liberdade. Durante toda a vida lhe empurraram garganta abaixo uma idéia superficial de luxo, prazer e de principalmente uma idéia altamente limitada de liberdade. Apresentavam opções, caminhos e ela devia elegê-los. Nunca criá-los. E mesmo assim, o todo lhe delegava a responsabilidade por suas escolhas. Nada sairia ileso. Nem a coisa mais simples. Tudo exigia envolvimento. Tudo exigia uma completa entrega. Ela estava cansada.

Então começou a mirar a lua e imaginar como ela estava cheia, cheia de que todos a apontassem e fizessem comentários supérfluos e idiotas. Cheia dos medíocres poetas, dos medíocres românticos, dos medíocres humanos.

Sentiu o sangue em sua boca e um sorriso inocente e único estampou sua face. Se sentiu realmente livre.

O nada a recolheu.