FAG: A FAG mantém relações com diversos grupos brasileiros e latino-americanos pela internet e por correio postal com listas de correio e boletins. Na América latina, mantemos relações mais frequentes com OSL da Argentina, CUAC do Chile, as Juventudes Libertárias da Bolívia, Comunidade Indígena Flores Magón de Oaxaca, México, Quilombo Libertário da Bolívia e, claro, com a FAU do Uruguai, com quem temos uma ligação orgânica.
No Brasil temos relações directas com a Federação Anarquista Cabocla de Belém do Pará (Norte do Brasil- Amazónia), Luta Libertária de São Paulo, o Movimento Estudantil de Mato Grosso do Sul, Construção Libertária de Goiana, Quilombo Cecília da Baía e muitas outras. Todas as organizações brasileiras aqui mencionadas aderem ao “especifismo”.
Para a FAG, a SIL foi uma grande etapa para ultrapassar o sectarismo e começar a construção de de laços solidários pela partilha de alguns princípios entre o “especifismo” e o anarcosiindicalismo ou com outros anarquistas e revolucionários que fazem parte da SIL. A solidariedade de classe, a acção directa e intervenção nos movimentos sociais apresenta grandes lacunas onde a classe dominante tenta fragmentar as vontades revolucionárias. Temos recebido apoio solidário de organizações tais como a SAC (Suécia), Apoyo Mutuo (Espanha), a secção francesa da SIL (Alternative Libertaire, No Pasaran, OCL), a OSL da Suíça e a própria FAU.
Pensamos que o tipo de apoio que as organizações latino americanas mais precisam é uma boa estrutura e apoio político para as suas campanhas para a libertação dos prisioneiros políticos e outras campanhas onde podemos contar com a solidariedade internacional. estruturalmente, qualquer organização dos países periféricos tem problemas: é um grande esforço conseguir fazer um simples boletim. Aqui, no Brasil, a nossa carência maior é, sem dúvida, uma tipografia.
NEFAC: A FAG adere ao "especifismo" como a FAU do Uruguai? Isto parece ser a variedade de plateformismo própria do cone Sul da América. poderias comentar ácerca das diferenças e das influências que cada uma tem nos princípios da FAG?
FAG: Hoje, o "especifismo" é mais uma prática do que uma teoria. A FAU e a FAG tentaram construir muito seriamente uma definição da mesma teoria. Antes de tomar conhecimento do platformismo, a FAU começou a desenvolver o ‘specifismo’. Não há muito tempo tivemos acesso ao texto de Dielo Trouda, e a primeira tradução feita em português do Brasil dos textos dos anarquistas russos serve como uma base, mostrando a necessidade de os anarquistas se organizarem a eles próprios. Para intervirem como anarquistas no interior dos movimentos sociais, mantendo a sua distância na discussão e desenvolvimento de políticas -- disto também fala Malatesta.
Esta parte do texto é a mais importante para nós. Hoje o "especifismo" engloba os seguintes conceitos:
organização anarquista estruturada de modo federalista, incluindo o sistema de delegação e processo executivo, funcional, por forma a que possa alastrar-se por vastas áreas sem a necessidade de assembleias e encontros frequentes; prática e teoria direccionada para esta era e para um lugar onde a organização Anarquista está sendo implementada; organização Anarquista concentrada na Declaração de Princípios nos Pactos Orgânicos e Estratégias direccionadas para as Estratégias Gerais. As estratégias concretas são os objectivos de curto prazo da organização e as estratégias gerais os de longo prazo. A nossa acção, em articulação com o movimento social equilibra-se com as diferenças político ideológicas ao nível social.
Um nível político ideológico (agrupações políticas, incluíndo a FAG) deveria enfatizar os movimentos sociais e populares, mas sem tentar torná-los "anarquistas", porém mais militantes. O movimento social não deveria ter uma ideologia política, o seu papel seria o de unir e não de pertencer a um partido político. É possível que no movimento social se unam os militantes e se construa uma base unificada, embora isso não seja possível a um nível ideológico.
Porque sabemos que não vamos fazer a revolução sozinhos teremos de estar conscientes de que precisamos de nos unir com outras forces políticas sem perda da nossa identidade. Esta identidade é a organização anarquista e é a estrada pela qual queremos construir a unidade com outras forças políticas no movimento social. A FAG tem estruturas de núcleos nos bairros e nas cidades onde actua e tais núcleos possuem tácticas autónomas mas não estratégias. A estratégia e o plano de trabalho são frequentemente reajustados no seio da análise do conjunto da nossa Associação Federal, juntando delegados dos vários núcleos.
NEFAC: A FAG desenvolveu algumas relações com os militantes de base do MST (Movemento Sem Terra), um grupo que reflecte realmente a situação particular do clima político do Brasil. Por que outros meios a FAG está tentando avançar com as alternativas e o programa anarquista na situação particular do Brasil?
FAG: Temos contactos com o MST mas não somos membros do MST. O MST é sem dúvida o maior e mais combative movimento popular do Brasil, embora seja um instrumento de organização dos camponeses. A FAG tem concentrado as suas actividades nas zonas urbanas doSul do Brasil. Nas zonas urbanas a luta para unir os trabalhadores ainda não foi realizada ao nível em que o MST fez com as áreas rurais. O MST tem tentado criar alternativas de luta para as cidades
mas não tem conseguido isso. Pensamos que, dada a elevada taxa de desemprego no Brasil, aclasse oprimida urbana está, em larga medida não em fábricas mas antes em pequenas cidades, aldeias e morros. 70% do nosso povo vive com empregos miseráveis, que chamamos "bicos". São os trabalhadores da construção, os "camelôs" (vendedores de rua), catadores de lixo, empregadas domésticas, guardas de segurança, trabalhadores de reparações, etc. Isto deixa a maioria da população de fora das fábricas; eles trabalham na sua vizinhança, onde vivem e têm família. Portanto a FAG actua nas suas comunidades periféricas através dos chamados "espaços solidários", os Comités da Resistência Popular. Estes têm a missão de trazer as pessoas à luta unida pelos seus direitos, para o trabalho comunitário, a pouco e pouco , com discussão e acção para construir uma compreensão do poder popular e auto estima. Vivemos em aldeias, morros e bairros e enquanto moradores trazemos outros moradores para a luta, para encontros locais, para uma educação recíproca e para convívio. Desde as actividades mais simples às mais complicadas construímos o que chamamos de "tecido social" que hoje em dia se tem rompido devido à fragmentação da classe oprimida. Os comités têm o papel de falar e de construir relações não apenas entre os residentes mas também com as organizações populares da região: Clube de Mães, rádios comunitárias, Associações de Vizinhos, Sindicatos, etc. Deste modo tentamos construir um agrupamento solidário entre todas as organizações da comunidade, aumentando a força mútua em direcção ao combate. Também agimos dentro das Associações de estudantes das universidades, com um grupo de eswtudantes que trabalha com os movimentos sociais e também participamos no Centro de Mídia Independente (CMI). Fazemos isto em ordem a dar-lhes um carácter mais popular e fazer deles um autêntico movimento popular. Também apoiamos as estações de radio locais e evitamos pôr grandes quantidades de informação na Internet, porque apenas 3% da população tem acesso a ela. Além do trabalho ao nível social, também há trabalho ao nível ideológico. A FAG mantém frequentes debates nas nossas sedes e também pinta murais e outras actividades públicas que exprimem a nossa ideologia anarquista e a nossa posição antigoverno.
NEFAC: Como é que uma organização anarquista se relaciona com o poder social democrático do Partido dos Trabalhadores (PT)? isto será sempre uma contradição que os anarquistas têm de enfrentar:
esperamos um crescimento do movimento da esquerda, uma viragem geral à esquerda, porém estamos em simultâneo em oposição àquelas forças que mantêm vínculos liberais e/ou autoritários. Será que a FAG espera ser o esporão no flanco do PT que provoca a sua viragem mais à esquerda? Ou tem a FAG esperança de atrair os mais radicais do PT para as fileiras anarquistas?
FAG: O PT é um partido muito fragmentado. Nos movimentos sociais como o MST e MTD (Movimento dos Trabalhadores desocupados) existem militantes valiosos que pertencem ao PT e que estão completamente decepcionados com a evolução que este partido tomou. Porém, porque ainda não vêm uma alternativa, continuam a acreditar que o PT pode mudar para ser realmente de esquerda. Há também outros que estão desiludidos e que se reúnem para formar um partido novo dos trabalhadores baseado no marxismo-leninismo e no trotsquismo.
Na nossa opinião, o PT é hoje o partido de esquerda official do país que precisa de existir para legitimar as falsa e corrupta democracia, que foi ajudado pela burguesia brasileira a ganhar as eleições presidenciais. São o único partido capaz de criar o pacto social que acalme os conflitos sociais, acalme o MST, neutralizando os famintos e os miseráveis sem força (pelo menos, de momento). Podemos observar com a nossa experiência com o PT na capital do Rio Grande do Sul.
NEFAC:O que antevê a FAG sobre a presidência Lula? Dará algum espaço
para os movimentos de base respirarem ou é uma mera artimanha que é essencialmente um gesto de impotência?
FAG:Para esta pergunta, ver texto em anexo com a opinião da FAG. Está em inglês. Em breve estaremos lançando outro texto sobre este assunto, que estará em nossa homepage e que enviarei para a lista de discussão da SIL.
NEFAC: A FAG mantém um fórum aberto com outros anarquistas do Brasil, em particular com os que são contrários da ideia plateformista? como podem anarquistas organizados oferecer diálogo com os outros grupos anarquistas, na esperança de os convencer da nossa posição, e ainda assim mantendo um trabalho de organização regular?
FAG: Mantemos com as organizações e grupos simpatizantes do especifismo o que chamamos de Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) , que iniciou-se em Belém do Pará em meados de 2002. Antes disto, tínhamos o que chamávamos de Coordenação Nacional do Anarquismo Organizado, que devido às dificuldades de distância não conseguiu se manter, pois exigia uma constância maior de reuniões. De fato, temos tentando várias formas de articulação nacional há muitos anos, e ainda não encontramos a melhor forma. Nosso país é muito grande e o preço para se deslocar é inacessível. Nos articulamos mais facilmente por regiões, como nós aqui do Cone Sul, o pessoal do centro-oeste, do leste, do norte, enfim, mas como ainda são poucos os especifistas que conseguiram se manter ao longo do tempo com um trabalho contínuo, sentimos necessidade de nos encontrar. Também sentimos necessidade de ter um espaço de convencimento e de relato de experiência para os grupos que querem formar organizações anarquistas. Por isto, o FAO, que é uma instância anual. Vamos fazer uma plenária do FAO agora durante o FSM porque fica mais fácil para os companheiros de outros estados conseguirem vir de graça para Porto Alegre. Outro espaço de convencimento mais amplo, que é aberto a anarquistas de todas as tendências e também à militantes de outras ideologias, são as Jornadas Anarquistas, onde expomos nossa forma de trabalho. São raros os momentos e oportunidades como esta de reunir um grande número de pessoas de nosso país para falar da FAG e do especifismo, dificultando a criação de outras organizações pelo país. A internet tem suas limitações, ficando difícil fazer os companheiros aproveitarem os erros e acertos de nossa modesta experiência que felizmente já dura 7 anos, assim como fica difícil para nós proveitarmos as experiências de outros grupos e organizações.
NEFAC: Que tipo de contradições tem enfrentado a FAG ao tratar de questõs como o sexismo e o racismo? Precisamos de ter um movimento revolucionário unido na base da classe, ou haverá espaço para outros se organizarem em separado dentro do anarquismo de classe? (exemplo de ANITA)
FAG: Estamos desenvolvendo teoricamente um novo conceito de classe social. Acreditamos que a luta de classes ainda existe, mas que o conceito de class baseado somente no nível econômico é inadmissível para fazer uma leitura da realidade de hoje, tanto na América Latina quanto no mundo. Temos discutido e visto na prática junto ao povo oprimido que a classe oprimida é composta por um conjunto de fatores, que não somente o econômico: fatores sociais, ideológicos, simbólicos, geográficos, políticos, de gênero, de etnia, enfim, estes fatores ou alguns destes fatores combinados definem quem é o sujeito oprimido e quem é o sujeito opressor. No nível social e também político, acreditamos ser necessário e imprenscindível uma discussão e uma prática voltadas para a questão de gênero e de etnia, mas uma discussão e uma prática que não se isolem e não se fechem em si mesmas, porque a nossa classe já está suficientemente fragmentada e (des)organizada em compartimentos pelo sistema que nos oprime para sermos nós, anarquistas, a criarmos mais compartimentos e mais fragmentos. Assim, se identifica as diversas opressões, mas elas devem conversar entre si e se articular, e não criar mais átomos de um povo já tão atomizado pelo capitalismo que esmaga laços de solidariedade e apoio mútuo. O homem deve discutir e praticar ações quanto à questão da opressão à mulher, e o branco, o índio, o negro e o amarelo devem coordenar ações quanto à discriminação étnica.
NEFAC: Há algum paralelo com o modelo argentino das assembleias populares que pudesse ter aplicação no brasil, no caso de um agravamento da economia? E qual é a opinião da FAG sobre o envolvimento dos anarquistas na situação argentina?
FAG: É bastante possível que haja uma crise como a da Argentina no Brasil, está entre nossas avaliações para este ano que começa. Um companheiro nosso esteve na Argentina para um encontro de movimentos populares lá, e ficou bastante impressionado com o que está sendo desenvolvido pelo povo em luta. Os "espaços solidários" que tentamos fazer aqui eles fazem por lá de forma bastante parecida, e também com a concepção de independência de classe (independência de partidos, governos e empresários). Estão com uma aversão profunda aos políticos, inclusive os de esquerda, que são sempre rechaçados nas assembléias, a não ser aqueles que trabalham de igual para igual com o povo. Quem não está lado a lado, militando no dia a dia nos piquetes e espaços solidários, é imediatemente rechaçado e ridicularizado. O que o povo está construindo na Argentina é um exemplo para todos os povos latino americanos que ainda estão dormindo, como o Brasil. Acreditamos que esta situação é um prato cheio para qualquer organização anarquista militante acrescentar a tudo isto uma estratégia de construção de um poder paralelo. O que em nossa avaliação está faltando na Argentina é um projeto de Poder Popular, uma estratégia, para que realmente se possa configurar uma tranformação social. Há a espontaneidade popular, mas não há um (ou mais) grupo político que consiga fazer esta vontade de luta construir um projeto de gestão real do país em todos os níveis, construindo um poder paralelo. Não temos informações da concreta atuação dos companheiros argentinos nos movimentos populares de lá, o que temos são relatos dos movimentos sociais em si, mas não dos anarquistas atuando dentro destes movimentos. Gostaríamos de saber mais como atuam, o que têm proposto, como a organização anarquista está conseguindo sobreviver a tanta demanda social, onde concretamente estão inseridos, se estão construindo uma proposta de Poder Popular, como é a articulação com as demais correntes de esquerda, enfim, gostaríamos muito de ter estas informações porque será um aprendizado para nós, que provavelemente vamos passar por situações parecidas no ano que está chegando e muit nos interessa uma articulação no nível social com os movimentos onde nossos companheiros argentinos estiverem inseridos.
NEFAC: Tem sido notado que o Fórum Social mundial se tem vindo a diluir cada vez mais com a política liberal. O FSM parece ao mesmo tempo uma oportunidade e um inconveniente para a organização da FAG na vossa cidade capital de rio Grande do Sul...como continuou o grupo a manter um nível de participação no Fórum? Haverá novas Jornadas Anarquistas em 2003?
FAG: Nossa crítica ao FSM continua a mesma: é um fórum de propaganda para os governos de esquerda, onde eles tentam conseguir apoio político e estrutural em níveis internacionais ao seus projetos de gestão humanitária do capitalismo (nacional-desenvolvimentismo), usando para isto os movimentos sociais como vitrine de sua suposta "democracia e participação popular".A FAG não participará de nenhuma forma do FSM este ano. Estamos organizando desde as organizações populares onde estamos inseridos um Encontro Latino Americano de Organizações Populares Autônomas, que será realizado durante o FSM mas não faz parte da programação nem da estrutura do FSM. É um encontro de organizações combativas que se posicionam contra a dependência dos movimentos a partidos, governos e empresas, e vamos discutir que tipo de articulação podemos construir desde nossos locais de inserção. A FAG estará presente através dos Comitês de Resistência Popular, do Coletivo Estudantil, do CMI (IMC) e do Movimento dos Catadores deMateriais Recicláveis, que são as organizações sociais onde estamos inseridos e que estão organizando o Encontro. Vamos intervir nas marchas do Fórum (a de abertura e a contra a ALCA, dia 27) com uma coluna própria que vai agir de forma diferenciada nas mesmas, tentando expressar nossa crítica ao FSM, que se não serve para impulsionar lutas, apenas candidaturas, não nos serve pra nada.No nível ideológico, vamos fazer a plenária do Fórum do Anarquismo Organizado, reservada àquelas organizações e grupos que têm a intenção de se organizar em seus estados enquanto federações anarquistas, e também haverá a segunda edição das Jornadas Anarquistas, como propaganda de nossas idéias de anarquismo organizado e inserção social. Nas Jornadas deste ano haverá a abertura de oficinas, assim, os grupos que quiserem oferecer oficinas, relatos de experiências, o que seja, terão espaço para isto.
Saudações Libertárias!
Não tá morto quem luta, quem peleia!
Luciana
Sec.Relações - FAG
[Tradução de M.B. para A-Infos]
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