Um quadro no estilo Salvador Dali na parede e um homem tocando uma melodia em um teclado. Esse foi o meu primeiro contato com Chico Lobo, um dos maiores militantes do movimento de rádios comunitárias no país. Cercado por instrumentos musicais em seu estúdio particular no Jardim Bonfiglioli, em São Paulo, Chico Lobo transpira simplicidade. Uma personalidade que tem histórias pra contar. Mais do que uma entrevista, foi um bate papo muito interessante sobre o surgimento das rádios livre no país. Chico Lobo falou sobre o liberdade na comunicação, função social do rádio e também sobre sua passagem pela Rádio Favela FM de Belo Horizonte, hoje retratada no filme "Uma Onda No Ar", do cineasta Helvécio Ratton.
Como foi a sua primeira experiência no rádio ?
Em 1979 eu tinha um horário na Rádio Primavera AM 1470, na cidade de Porto Ferreira, na região de Ribeirão Preto. O horário era pago, o equivalente a um salário mínimo por uma hora a cada sábado. O nome do meu programa era "Independência ou Morte", e era basicamente focado no lançamento de bandas e artistas independentes. Nessa época estava surgindo em São Paulo o movimento Lira Paulistana, que eram músicos independentes que estavam descobrindo a fórmula de como gravar um disco, independente de gravadora. E o meu programa acabava indo nessa direção, e eu já estava começando a entender o "câncer" que é a gravadora para a cultura brasileira. Acabei lançando alguns artistas que eram independentes àquela época, entre eles a Tetê Espíndola, o Arrigo Barnabé, e o Língua de Trapo. O programa era montado em casa e eu mandava em fita de rolo para a rádio.
Quanto tempo você ficou com esse programa no ar ? Sendo música independente a audiência era satisfatória ?
O programa ficou no ar durante um ano e tinha uma audiência do "inferno", principalmente entre os jovens de 14 a 21 anos. Só que um dia apareceu um divulgador de uma gravadora, e você sabe, veio com a mala do dinheiro, o "jaba" ou "jabaculê". E esse divulgador pediu para o dono da rádio tirar o meu programa do ar, dizendo que o meu programa feria os interesses da gravadora. Não deu outra, o dono da rádio veio até mim e pediu que eu tocassse as "musiquinhas dos caras". Eu disse que não, que pagava o horário justamente pra divulgar as produções independentes, o trabalho alternativo. Resultado: meu programa saiu do ar e a música alternativa perdeu espaço para a gravadora. Naquela época eu era "molecão" e as lágrimas caíram mesmo, me deu um nó na garganta terrível. Me deu uma raiva, por que eu pensei: " Santo Deus, a gente não toca em rádio nenhuma, pô, mas nem pagando um horário os caras aceitam a gente. Que merda é essa ?".
E o que você fez ?
Aí de 1980 a 1984 eu comecei a maquinar na cabeça: como que eu ia fazer ?
Foi aí que eu conheci o pessoal da Rádio XILIC, da PUC em São Paulo. Eu estava sempre enfiado no ambiente estudantil. Eu vi eles montando a rádio XILIC e percebi que essa era a saída. Já que não nos deixam tocar nem pagando, a gente monta as nossas próprias rádios pra dizer aquilo que a gente acredita. E eu acabei embarcando nessa.
Mas você participou da Rádio XILIC ou montou uma rádio própria ?
A primeira rádio que eu montei foi a rádio Dengue, era uma iniciativa do pessoal do PT da Barra Funda. O nome era Dengue porque naquela época uma epidemia de dengue assolava o Brasil, aliás era a única coisa que dava certo no Brasil naquela época. A rádio Dengue tinha a intenção não só de mostrar alguma coisa diferente no panorama artístico mas também ser um veículo de informação. Ela ficava na casa de todo mundo. A nossa rádio era muito bem humorada, mas tinha um grande erro, um erro que eu não quero cometer nunca mais na minha vida: a rádio era o Diário Oficial do PT. Esse foi um grande erro nosso. Depois eu acabei entendendo que rádio livre, rádio comunitária não tem que ficar atrelada a partido nenhum, e a gente era muito atrelado ao PT naquela época. Nós tínhamos uma audiência boa, mas não tínhamos credibilidade. Tudo que a gente falava os ouvintes pensavam que era coisa do partido. Mas eu te garanto uma coisa, enquanto a rádio estava na rua Barra Funda 797, em volta da antena, num raio de 500 metros, nós superávamos qualquer rádio líder de audiência. E não era porque o nosso sinal entrava no de outras emissoras não, mesmo porque a nossa frequência era 107,8 Mhz, ou seja, uma frequência completamente "chapada". Mas pela rádio ser extremamente panfletária, ela acabou sucumbindo logo após a eleição da Erundina em 1988. Ficamos três anos no ar, e nunca tivemos problemas com fiscalização.
Se uma rádio não deve ser atrelada a um partido, qual deve ser a filosofia de uma rádio livre ?
A rádio livre, como a gente chamava na época, tem uma filosofia diferente de uma rádio comercial, tem que ter uma proposta diferente, só que as pessoas tem vícios. Vício de ouvir o rádio como e acabar copiando os modelos já existentes.
E de que forma você mudava essa idéia nas pessoas ?
Após a experiência com a Rádio Dengue, eu passei a ser procurado para instalar rádios livres em todos os cantos do país. Eu já instalei mais de duzentas rádios comunitárias em todo o país. Passei por todos os estados, sem exceção. E não só instalava, mas também dava cursos sobre como viabilizar a programação, como não copiar o modelo já existente e fazer uma coisa diferente.
Isso pra você é liberdade de comunicação ?
Como a comunidade não pode se manifestar nas rádios comerciais, devido ao interesse dessas rádios ser estritamente financeiro, seja pelas gravadoras, seja pela programação, a cultura, a reivindicação da comunidade passa a ser desconhecido. A liberdade na comunicação nada mais é do que você mostrar o seu produto cultural, de você mostrar a sua vida em comunidade, das suas necessidades, dos projetos que a sua comunidade vem realizando. Organizar a sociedade para fomentar esses projetos sociais, educacionais, culturais, isso é liberdade de comunicação.
Você acredita que a função social do rádio está sendo cumprida ?
Não, infelizmente não. Nem por parte das rádios comerciais, nem por parte de muitas que se intitulam comunitárias. Não vou nem entrar no mérito das comerciais, que com raras exceções cumpre parcialmente sua função social, falemos das comunitárias. No meu conceito, as rádios comunitárias deveriam ser usadas com muito mais seriedade do que hoje se utiliza. O rádio comunitário, a entre aspas "rádio comunitária", está sendo utilizada hoje para benefício próprio de seus donos, e o pior, rádio comunitária não deve ter dono. A comunidade que deve manter a rádio, daí o seu nome. Ela é do conjunto de pessoas que reside naquele espaço, sem distinção de raça, credo ou time que torce. A função social da rádio comunitária é dar voz e vez àqueles que são discriminados pela mídia em geral. E para que isso ocorra, as rádio comunitárias devem ser contempladas com ajuda de comerciais sim. Mas não da forma como conhecemos. A rádio comunitária é para anunciar o mercadinho da esquina, e não a rede de hipermercados que está todo dia na mídia. A rádio comunitária deve valorizar a produção local, seja ela cultural, educacional ou comercial. A rádio comunitária tem a obrigação de divulgar o comércio do bairro, como também os artistas da região, o violeiro do baile, a banda da escola.
O filme " Uma Onda No Ar ", de Helvécio Ratton, retrata a construção de uma rádio comunitária, a Favela FM de Belo Horizonte. Você participou da fundação dessa rádio ?
Deixa eu explicar direito isso. Eu tenho certeza que daqui a pouco eu vou ser cobrado de coisas que eu não fiz, então eu vou deixar bem claro. A minha participação foi muito rápida na Rádio Favela. Eu fui uma vez convidado a dar uma palestra para o pessoal que estava na intenção de montar a rádio e num segundo momento eu levei o primeiro transmissor. Até então a rádio funcionava com cornetas, ou seja, eram auto falantes espalhados pela favela que transmitiam a programação. Ainda não era através de ondas de rádio. Essa coisa de colocar no ar foi idéia do Misael (fundador da rádio) e eu fui convidado a "engraxar" as idéias do pessoal, eles sabiam que podia ser feito, mas não sabiam como. Dessa forma eu instalei o primeiro transmissor na Rádio Favela, mas naquela época eu não tinha idéia da projeção que a rádio iria ter, inclusive ganhando até prêmios internacionais (dois prêmios da ONU por trabalhos contra as drogas). Mas eu quero deixar bem claro novamente que não estive efetivamente com o pessoal da rádio, eu simplesmente fui uma vez lá, dei uma palestra que eu tenho gravada pela TV Livre Serra Verde de Minas. A única coisa que eu fiz foi levar o transmissor que foi feito em São Paulo, e não em Belo Horizonte como conta o filme, que aliás é uma ficção muito bem feita pelo Ratton. O transmissor foi feito pelo José Roberto Mellita aqui em São Paulo. Eu levei, instalei e continuei a minha militância pelo Brasil. Pra mim seria uma honra poder ter participado com mais frequência do projeto deles. A Rádio Favela foi uma das poucas rádios comunitárias que cumpriu seu papel social com muito sucesso. Tirou a molecada da droga, cumpriu seu papel de comunicação popular. Essa rádio é um exemplo magnífico que o movimento tem, com muita honra e com muita glória.
Você foi consultado para o construção de algum personagem no filme ?
Eu fui consultor do filme através da produção da Quimera Filmes, o Rodrigo Siqueira ficou no meu pé um bom tempo pesquisando tudo que acontece na montagem de uma rádio, nas coisas que acontecem paralelamente. O ator Adolfo Moura, que fez o Ezequiel, o técnico da rádio, de alguma forma iria estar contemplando a minha pessoa no filme. Mas assim de uma forma muito simples, inclusive ele ficou no meu pé, direto e reto, ele ia trabalhar comigo, ele reparava no meu jeito, na forma como eu montava os equipamentos. Na verdade os personagens do filme fazem um raio x, não só da Rádio Favela, mas de todas as rádio comunitárias de todo o país. E pra te falar a verdade eu chorei de verdade em várias partes do filme. É um retrato fiel do que é fazer rádio comunitária no Brasil.
Qual o recado que você dá para os futuros profissionais da comunicação ?
tecnologia avança a cada dia, daqui a bem pouco tempo o rádio vai ser digital. Daqui bem pouco tempo vai caber um número muito grande de emissoras no dial, daqui a pouco tempo muita coisa nova vai poder ser veiculada no rádio, não só o som mas também mensagens no display dos aparelhos. Mas não adianta nada a gente ter toda uma tecnologia se a gente não faz uso do veículo de comunicação para o serviço àqueles que estão ouvindo. Às vezes a vaidade e a ganância acabam levando a gente para caminhos bem distantes, bem diferentes daqueles que a gente pensa e acredita enquanto estamos nos bancos da escola. Depois que o pessoal pega o canudo, esquecem a ideologia do tempo de academia. Por isso é preciso que a gente tenha sempre o coração de estudante, que a gente veja tudo sempre como uma coisa nova. E que os interesses dos empresários de comunicação podem tentar cooptar-nos através do dinheiro, através do poder e das posições sociais. Eu digo pra todos seguirem a sua consciência, para que pensem bastante antes de tomarem uma decisão, para que um dia não se envergonhem. Sejamos comunicadores, escritores, jornalistas, mas que sejamos lembrados pelas coisas importantes que fazemos na nossa profissão.
*Chico Lobo -Tecnico em radiodifusão. produtor cultural, militante na causa das rádios livres há mais de 18 anos, instalou mais de 200 rádios por todo o Breasil
**Eduardo Pares - Radialista da FUNDAÇÃO CASPER LÌBERO
