Segundo relato de alunos, um agente que se identificou somente como "Sabá" entrou no estúdio às 11h10 e obrigou o estudante Márcio Rezende a interromper a transmissão de seu programa e desligar os equipamentos. De acordo com Márcio, que estava sozinho na hora, o policial não apresentou mandado judicial e reteve o documento de identidade do aluno até que se
apresentasse um "superior" para assinar a autuação do flagrante. Após ser informado que a Rádio funciona sem diretoria, o agente contentou-se em autuar a Profa. Suely de Almeida, decana do centro de ciências humanas,
como responsável pelas "ações ilegais" dos alunos.

O motivo alegado para a visita policial seria a inspeção, a pedido da ANATEL, "para averiguar interferências nas transmissões do Aeroporto Santos Dumont", como publicou um grande jornal carioca, nesta terça-feira, citando a Polícia Federal. No entanto, fontes especializadas afirmam que não existe possibilidade de intromissão de sinais nas comunicações do aeroporto.

O engenheiro de telecomunicações e professor Hugo Melo, da própria UFRJ, explicou que os sinais de aviação operam numa faixa de frequência muito diferente (até 300MHz) das rádios FM (de 88 a 108MHz). Ele ressaltou
ainda que o equipamento da rádio é profissional, de alta qualidade, e que dificilmente apresentaria uma distorção desse nível. Integrantes da Interferência disseram que vão procurar o Sindicato dos Aeroviários
para confirmar essa informação.

Rafael Rosenhayme, do núcleo de programação da rádio, disse que o policial não permitiu que os alunos pudessem ler o conteúdo da "notificação" que alegou ter em mãos. A legitimidade da ação foi questionada por
estudantes e pela Reitoria. Por se tratar de uma universidade federal, somente a PF pode ingressar no campus. E, mesmo assim, de acordo com o rocurador-geral da UFRJ, Ronaldo de Albuquerque, a Reitoria deveria ter sido previamente informada da ação.

A chefe-de-gabinete do reitor da UFRJ, Profa. Ângela Gonçalves, conversou com integrantes da rádio e se disse surpresa pela atitude da Polícia. Declarou também que a posição da Reitoria é de apoio aos estudantes e de tomar as providências necessárias para o retorno das transmissões. Segundo ela, os alunos não podem ficar sem uma atividade laboratorial como a rádio.

A Rádio quer manter independendência
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A Rádio Interferência funciona desde 1985 no campus da UFRJ na Zona Sul do Rio de Janeiro, sem concessão ou vínculo institucional. Toda a gestão, programação e divulgação da rádio são feitas pelos estudantes. Como iniciativa dos alunos, a Interferência funciona como atividade laboratorial e de comunicação comunitária, mas nunca submeteu-se ao controle acadêmico e nem buscou a regularização legal.

De acordo com os alunos, a legalização prejudicaria o trabalho da rádio. A legislaçãoo brasileira para rádios comunitárias estabelece limites rígidos e impraticáveis para a transmissão. Enquanto a lei só permite a potência de 25 Watts para o equipamento, a nterferência vem operando com 50 watts. O raio de alcance do sinal, que legalmente só pode ser de 1km, tem ultrapassado os
10km, chegando mesmo à cidade vizinha de Niterói.

A localização privilegiada do campus da UFRJ, na entrada da Baía da Guanabara, permite que a rádio alcance quase toda a Zona Sul da cidade, área de classe média e alta. A frequência em que ela opera (91,5 MHz FM) é vazia no rádio carioca. A programação da Interferência, desde sua fundação, caracteriza-se por diferenciar-se das rádios comerciais, dando espaço a
bandas alternativas, música regional ou popular (como choro e samba de raiz) e jornalismo crítico, voltado para a comunidade dos bairros alcançados.

Nesses 18 anos de funcionamento, esta é a primeira vez que a Rádio Interferência é visitada pela polícia.

Os Estudantes se mobilizam para a reação
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Logo após a saída do "agente Sabá", os alunos começaram a mobilização para reagir. Contactaram as principais entidades de rádios comunitárias do Rio e do Brasil, como a AMARC (Associação Mundial das Rádios Comunitárias), a FARC (Federação Regional), a UNIRR (União das Rádios Regionais) e o CRIAR (ONG de assessoria e capacitação), além de parlamentares que tem atuação específica na área de radiodifusão independente, e até a grande imprensa. Advogados
especializados foram acionados, como o Dr. Orlando Cunha, criminalista, e o Dr. Davi Bittencourt, da FARC, para prestar consultoria jurídica.

No fim da noite da segunda-feira, os estudantes realizaram uma reunião no próprio campus para decidir quais medidas de reação seriam tomadas. Em meio a propostas de institucionalização e resistência "24 horas no ar", foi decidido que a transmissão só será retomada quando a Reitoria formalizar o apoio prometido pela chefe-de-gabinete. Enquanto isso, no entanto, poderá ser feita a transmissão via Internet, numa parceria que já vinha sendo articulada entre a Interferência, a Rede de Rádios Livres ( http://www.radiolivre.org) e o CMI. A veiculação online, no entanto, ainda não tem previsão para começar.

Taís Ladeira, representante da AMARC para a América Latina, afirma que a situação das rádios livres e comunitárias não se alterou com o Governo Lula.
Segundo ela, que esteve presente na reunião, a autonomia das agências reguladoras cresceu a tal ponto que o próprio governo já não tem mais controle sobre a política nacional para as rádios livres. As delegacias
regionais do Ministério das Comunicações foram todas fechadas na gestão FHC.

No III Fórum Social Mundial, em janeiro, a Interferência foi uma das rádios livres que, junto com a Rádio Muda (Campinas-SP) e outras, redigiram uma
carta exigindo o fim imediato do fechamento das rádios e a devolução dos equipamentos apreendidos. O documento foi encaminhado para o Ministro das Comunicações, Miro Teixeira.