"Enquanto um estiver preso ninguém estará livre!"
Múmia Abu Jamal

Uma diversidade enorme de posturas e questionamentos dentro do Movimento da Luta Antimanicomial podem nos ajudar a entender sua história e conseqüentemente a traçar seu destino. São semelhanças com lutas e resistências que duram décadas e até mesmo séculos. Lutas e resistências de cada história de vida, de cada cidadão do mundo que carrega no corpo a herança de batalhas enfrentadas nas mais diferentes épocas e situações. Começou antes mesmo da grande internação, comentada por Foucault em sua ?História da loucura?, e se estende até agora, hoje, aqui mesmo onde você está. Todos os movimentos sociais, as lutas populares, as insurreições e revoluções, trazem algo em comum: um profundo desejo de mudança. Uma insatisfação em relação à maneira que as coisas são feitas. Um desconforto por sentir e saber que podemos e devemos mudar o está aí. Pela não conformidade do que lhe foi dado. No abandono da passividade em troca da ação e da vontade em desobedecer.

Logo após a Segunda Guerra Mundial um ministro de um país europeu disse: ?Então perseguiram os judeus, e eu que não era judeu, não fiz nada. Perseguiram os ciganos, e eu que não era cigano, não fiz nada. Perseguiram os homossexuais, e eu que não era homossexual, não fiz nada. Será que se algum dia eu for perseguido alguém fará alguma coisa por mim?? Provocador, não? Não se trata de fazer algo apenas, mas na maneira que nos revelarmos com essas necessidades de mudanças.

Sendo assim, pense na seguinte descrição:

?Mulher, idosa, lésbica, pobre, negra, presa, louca e brasileira?.

Você pode colocar está descrição na condição de um homem que a conclusão seria a mesma: está ferrad@!

O fato é de que sendo homem ou mulher todos estão sujeitos a infelicidade, a dor, ao abandono, ao preconceito, a exclusão, ao rótulo, a injustiça, ao medo, ao rancor, ao desespero, a dúvida, ao silêncio, a violência... pelo simples fato de que somos humanos, e os humanos estão sujeitos a essas coisas. Situações que nos envolvem, por enquanto.

Pensemos mais.

Uma criança não sabe bem o que é ser uma criança, então o mundo da ?adultecência? dá um jeito de dizer o que é. E porque ela deveria ter a obrigação de saber isso? Vai de um extremo ao outro, vai da criança de 2, 3 anos nas carvoarias do interior, até aquela que tem depressão e stress por que os pais acharam que era melhor ela aprender inglês bem cedo para não ter ?sotaque?, e 5 horas de estudos de inglês, além do balé, da natação, da informática, do piano, do dever de casa, do Dragon Ball, devem dar... Já os velhos. Bem, estes a gente joga fora, não servem mais, afinal de contas, meus pais não cuidaram dos pais deles, eu não irei cuidar dos meus, e provavelmente os meus filhos não cuidarão de mim... é que sempre foi assim, dirão alguns!

A frase seguinte então: ?Eu não tenho nada contra, desde que não cheguem perto de mim!? Tolerância à diversidade sexual não é nada simples. Todos (todos quem?) dizem que não tem preconceito contra a sexualidade de ninguém, mas sabe como é, né? Na casa do vizinho pode, mas na minha não! Por falar nisso, sabiam que durante muito tempo, mulheres que tentaram usar calças, ou sair ?desacompanhadas?, ficar grávida sem casar, se apaixonar por pessoas de outra raça, classe social, religião, lésbicas então, iam direto para o hospício? É sério! Viado é palavrão e Deus não gosta! Vai para o inferno e não tem escapatória!

Pobre nem se fala. Cuidado que é contagioso! Não Ser podem até enganar de alguma maneira, compram isso ou aquilo e se dá um jeito, mas não ter... no mínimo vai para o inferno também, pois Deus Mercado castiga! Tem que ter, qualquer porcaria, mas tem que ter! Apesar que temos bastante coisas por aqui. Temos fome, medo, violência, indiferença, abandono. Olha, temos bastante coisas mesmo! O quê? você quer mais? Está bem. Temos corrupção, lavagem de dinheiro e manipulação política. Temos crianças usando drogas e se prostituindo, temos esquadrões da morte e torturas nas delegacias, temos apatia e silêncio para nossas dores. Chega, né?

Mudando de assunto, se alguém te falou que aqui tem respeito e ?democracia racial? para afrodescendentes e indígenas e você acreditou, eu sinto muito, mas te enganaram! Sim, na maior cara de pau te enganaram! Virou até piada: o negro rico com seu Mercedes é parado por policiais e estes de cara perguntam onde ele roubou! Índio é preguiçoso e já dizia o jesuíta José de Anchieta: ?Esse povo não conhece outra linguagem alem da chibata e da espada!? E você também acreditou que ele gostava dos índios? E olha que não te revelaram nem a metade das mentiras que tem por aí. Ué, eu não falei que estava mudando de assunto? Ainda se trata do mesmo ponto, uma coisa tem haver com outra. Não vou nem falar isso de novo então.

Quanto ao sistema carcerário temos a prova escarrada da exclusão social, da perseguição, do roubo do direito, e claro, dos ?Direitos Humanos defenderem bandido?... tsc,tsc,tsc,tsc... Não vai me dizer que você acreditou nisso também? Penitenciarias que não corrigem, não orientam, não ensinam, não recuperam, não respeitam, não toleram, e nem a punição acontece, a não ser que consideremos o assassinato, a tortura e o terror como punição. Muitos mitos tomam conta da imaginação, enquanto muita selvageria e miséria tomam conta da realidade. E há quem defenda a pena de morte e a redução da idade penal em uma clara demonstração de desinformação, medo, superioridade e desesperança.
Ah! E finalmente uma das maiores mentiras e embromações dos últimos tempos: O manicômio! Vamos recapitular. Lugar de mulher é na cozinha, lugar de pobre é de baixo da ponte, de bandido é na cadeia, de índio é na floresta, de criança é quietinha na frente da tv, de gente bonita é na primeira fileira do auditório do domingão do Faustão, e de louco é no hospício. Para não dizerem que há rigidez de mais, alguns lugares podem ser trocados. O pobre pode ir para a cadeia, o índio para debaixo da ponte, o bandido para algum cargo público, o louco para o auditório (não o do Faustão, por que aí seria querer demais, né!), mas o do Ratinho, por quem se faz de cego, para não falarmos outra coisa...

O louco! Quem é e quem não é? Por favor, entendam o seguinte, que não se trata dos muros dos manicômios. Ele é apenas o que está explícito, e entenda que o que se estabelece nas relações é o ?x? da questão. Dentro dele é o que cabe tudo, e o nada. Isso esta ficando filosófico demais! O assunto é que essa pequena respirada, sobre o que está dito nas linhas anteriores, passam por aqui. No manicômio você têm: violação dos direitos humanos, intolerância e preconceito com a sexualidade (palavrinha que ainda assusta!), tanto ao que diz respeito à homossexualidade masculina e feminina, transexuais, como as discuções sobre gênero. Lá têm o rótulo, igualzinho aqui! Ser diferente nem pensar. Louco tem que ser padrão! Tem que ficar quieto senão toma sopetão! Dopado, escrachado, catalogado, discriminado, abandonado!

?O pior dos piores?, sem ser ingênuo, sem ser do contra, apenas revelando que o júri popular viu, ouviu e entendeu que isso vai ter que mudar, afinal o veredicto foi dado: culpado! Suas celas fortes não serão mais os porões da ditadura, nem seus pátios valas coletivas. Temos em nossas mãos o poder de mudar, de transformar e a militância provou ser verdadeira e honesta. Ainda há mães que carregam a dor, sem justiça ou informações, mas a causa que nos une é o que nos faz únicos! Ativistas da ação direta temos que ser cada vez mais! Desobedeceremos a lógica do mercado que tenta dar preço a tudo sem saber o valor de nada! Fazendo-se valer do grito do Movimento dos Trabalhadores sem Terra, Ocuparemos as ruas, pois ela é nossa, e todos assumirão sua insanidade que é sufocada! Resistiremos como nunca foi feito antes, e os Zapatistas já avisaram: ?Um mundo aonde caibam todos os mundos!? Produziremos nossas diferenças e alimentaremos a compaixão e a solidariedade!

Manicômio, eu vejo seu fim! Não me diga que estou divagando, nem me chame de garoto sem noção, de bagunceiro, semeador da desordem e do caos. Você ainda não viu nada! Seus cúmplices não sairão impunes e nem descansaremos enquanto a intolerância, o racismo, a homofobia, o menosprezo a mulher, a criança, ao idoso, não tiver acabado. Resgataremos nossa humanidade! Desculpe se faltou um pouco de educação ou algum tipo de decoro, mas diante das injustiças nada posso fazer se meu sangue ainda ferve com os insultos e clama por justiça e revolução. ?Por educação perdi minha vida? disse certa vez Rimbault. Nossa luta dirá quem somos e as cicatrizes que temos no corpo e na alma não terão sido em vão!