História
“O Alto José do Pinho foi formado por antigos operários têxteis da fábrica da Macaxeira, explica o professor de História da Universidade Federal de Pernambuco, Antônio Montenegro. “Havia um grupo grande de feirantes que morava na área. Os primeiros moradores da década de 1940/1950 tinha fortes laços rurais, e serviram como fonte para atrair outros parentes e amigos, principalmente da região norte do estado. Essa população ajudou a desenvolver a cultura popular, maracatu, reisados e outras manifestações, o que depois foi recriado pelos mais jovens, que misturam o rock com o popular.”
Aílton Fernando Guerra, conhecido como Peste, baterista do Matalanamão e responsável pela programação da rádio, procura engajar a juventude do Alto. Seu pai veio de Nazaré da Mata e era caboclo de lança do maracatu rural. “Somos uma geração de resistência” diz Aílton. Achei que havia uma necessidade porque o rock transforma e muda caras. E deu outra cara à comunidade. E no início foi muito difícil tocar. O pessoal não gostava. Então acho que a rádio além de abranger essa juventude, procurando passar o máximo de perspectiva, porque a gente sabe que a realidade é cruel. Em 2001, houveram alguns casos de violência no Alto, o que não acontecia antes. Então a rádio se tornou uma idéia fixa. Alguns jovens já vieram me pedir um horário na rádio. E aí eles começam a se dedicar. Quer dizer que a comunicação começou a pegar. E é isso que a gente precisa: atingir a velha comunidade. A velha comunidade para mim, são os velhos valores.”
Para que a idéia se tornasse realidade, a rádio Alto Falante recebeu o apoio da DED (Serviço Alemão de Cooperação Técnica e Social), com sede em Recife e da FASE, uma ONG do Rio de Janeiro que tem como um de seus objetivos “fortalecer as organizações populares que se articulam entre si, por melhores condições de vida, maior inserção política e por uma nova forma de cultura e cidadania.”
Desenvolvimento
O coordenador do Programa Regional da FASE, Evanildo Barbosa, acha que a Alto Falante pode trazer densenvolvimento, mas não necessariamente desenvolvimento econônico, pois segundo ele, “além de não ter condições óbvias de se prover plenamente, a rádio nasceu com uma missão mais próxima da diversão associada a uma atitude social, conforme linguagem corrente na sua programação. O Alto José do Pinho, assim como outros tantos tratados desigualmente pelas políticas públicas locais ao longo dos últimos anos, ganha um instrumento a mais de visibilidade tanto do seu potencial artístico, como de suas mazelas sociais. É sob o primeiro aspecto que o alcance prático da rádio comunitária se apresenta com mais força e senso de realidade.”
Uma outra visão sobre a Alto Falante e seu impacto na comunidade é apresentada por Wilson Rodrigues, coordenador da Associação de Rádios Populares de Pernambuco (ARPPE), em Recife. Para ele, a Alto Falante mexe com todos os comerciantes locais. Sendo uma rádio transmitida através de caixas, ela pode fazer propaganda comercial, o que não acontece com as emissoras comunitárias no dial do rádio, pois são limitadas pela lei 9.612/98 (
http://www.rbc.org.br/lei_9612.htm). “A Alto Falante pode anunciar um comerciante que vende verdura mais barata, ou uma padaria que vende pão mais barato. Ou ainda uma mulher que vende tapioca, uma costureira, um sapateiro. Essa relação é muito importante. Esse é o grande papel, o de contribuir para o dia-a-dia da comunidade. E a Alto-falante tem esse papel. De contribuir com a cultura, com a melhoria da qualidade de vida das pessoas.” “As primeiras experiências das rádios de alto falantes surgiram no Pina, Brasília Teimosa, Várzea, Sítio Grande, Sítio dos Pintos. A população dessas áreas não sabia como levar informações que achavam relevantes para a comunidade. No Pina, utilizaram uma estratégia belíssima. Pegaram um carro de mão, bateria, alto falantes. Um empurrava o carro de mão, o outro usava o microfone, dando todas as orientações, passando por todas as ruas. Davam instruções de como preservar a iluminação pública, como exigir os seus direitos, como participar das reuniões da associação de moradores, como lutar por moradia, como proibir a chegada dos espigões no Pina. Já Muribeca usou uma outra estratégia. Eles usaram megafones e andavam em bicicletas chamando a população para participar das reuniões da comunidade.”
No livro intitulado O Direito de Contar: O Papel dos Meios de Comunicação de Massa no Desenvolvimento Econômico (
http://www.worldbank.org/wbi/righttotell.html), o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, ressalva que “ingredientes imprescindíveis para uma estratégia de desenvolvimento eficaz são a transmissão de conhecimento e maior transparência. Para se reduzir a pobreza, temos que liberar o acesso a informação. Pessoas com mais informação são capacitadas para fazer melhores escolhas.” A editora deste mesmo livro, Roumeen Islam, conclui que existem três condições para que a mídia promova desenvolvimento econômico, “que ela seja independente, transmita informação de boa qualidade e tenha um longo alcance.” A Alto Falante sem dúvida é uma rádio independente. Como diz a jornalista Marisa Meliani: "As rádios livres são a representação de indivíduos e comunidades. Elas surgem, movidas pela sociedade desorganizada, nas áreas de maiores carências da população, sem comida, sem teto, sem bibliotecas, sem cinemas e sem cidadania. São a voz de milhões de marginalizados do poder econômico, político, cultural, dominante, que estão a dizer que querem participar." E a comunidade tem participado e demonstrado interesse. Sobre a receptividade do público, Zé Brown comenta que “está agradando. O público vem aqui dar sugestões e pedir música. Chega coroão das antigas para pedir James Brown. Ou então chega um camarada de 42 anos para pedir Racionais”.
A programação da rádio procura incluir, além de música, campanhas como a da coleta de lixo, divulgação dos direitos humanos universais e debates sobre assuntos relevantes para a comunidade. No programa Ação Social, que vai ao ar toda segunda-feira das sete às nove da manhã, Aílton entrevistou a primeira presidente do centro comunitário, dona Detinha. Já em março vai haver eleição para o próximo presidente da comunidade. “Essa é a primeira vez que vai haver uma eleição com uma rádio. Os candidatos já estão querendo colocar suas propostas. Abrimos a voz para eles. Eles sentam e falam. A nossa proposta é informar a nossa comunidade de A à Z sobre seus direitos”, diz Aílton.
O sistema de transmissão da Alto Falante resume-se a dez caixas de som espalhados pelos postes no Alto José do Pinho. Wilson Rodrigues analisando esse sistema pondera, “acontece uma coisa interessante com as caixinhas, você não pede para escutar, você escuta porque a informação vem de cima para baixo. Mas, há uma perspectiva diferenciada na rádio Alto Falante, porque ela busca primeiro informação junto à comunidade para poder instalar a caixa naquela rua. Quando a comunidade adere ou pede, eles vão lá e instalam. Eles consultam a população.” Entretanto, esse sistema tem um alcance restrito à algumas ruas. “O que a gente observa hoje é que a rádio Alto-falante está num espaço pequeno. Como progredir, como crescer ?”, questiona Wilson.
Repercussão
Em geral, pode-se notar que a população do Alto José do Pinho está dividida quanto à Alto Falante. Os antigos moradores reclamam da maior parte da programação que é, no ponto de vista deles, voltada para os jovens. Já os jovens, acham que a Alto Falante veio preencher um vazio na comunidade. Os comerciantes ainda não despertaram para o potencial, mesmo que de alcance limitado, de divulgarem seus produtos e serviços. Prática que beneficiaria também a própria população.
Perspectivas
Quanto ao que ele espera do trabalho da Alto Falante, Aílton diz que já sugeriram que a rádio fosse colocada no dial. Refletindo sobre o assunto ele responde, “mas a gente tem muita coisa para fazer ainda. Eu acho que a gente está no caminha certo, é só ter paciência. A vida é que joga a gente, faz parte da caminhada. De repente essa rádio chega na FM Capacidade a gente tem para isso. Por outro lado, é muito legal a gente poder fazer nossa própria grade. E poder incluir a ideologia social que a gente já tem como músico, o respeito pelos senhores de idade da comunidade, a saúde, a educação, a violência.” Para dar continuidade a esse trabalho, o Movimento Alto Falante está à procura de parcerias. Comprova-se que diante de obstáculos subsiste o ideal de se manter uma voz independente, como diria Bertolt Brecht:
“O rádio seria o mais fabuloso meio de comunicação imaginável na vida pública, constituiria um fantástico sistema de canalização, se fosse capaz, não apenas de emitir, mas também de receber. O ouvinte não deveria apenas ouvir, mas também falar: não isolar-se, mas ficar em comunicação com o rádio. A radiodifusão deveria afastar-se das fontes oficiais de abastecimento e transformar os ouvintes nos grandes abastecedores.”

