McDiário — I quit!

Hoje recebi um e-mail. Ele falava por si. Não o reproduzo aqui porque ele é longo demais e escrito naquela linguagem dos advogados que a mim é praticamente ininteligível. Quando cheguei em casa, abri a caixa-postal e li o que estava escrito, quase caí de costas. Liguei imediatamente para meus amigos advogados. Tremi.
Por fim, depois de algumas horas de conversas, acalmei-me em saber que o que eu recebera não passava de um aviso. Mas que não era bom eu passar por cima destes avisos, porque eles só são feitos depois que algo maior está sendo elaborado. Não vou parar para pensar neste algo maior, mas vou acatar o conselho dos meus superamigos da Sala de Justiça.
O e-mail com remetente de um grande escritório de advocacia de Curitiba fazia menção a (i) uso indevido da logomarca; e (ii) algo a ver com falsidade ideológica. Pelo que eu entendi, depois de consultar dicionários e advogados (nesta ordem), alguém no departamento jurídico do McDonald´s achou lesivo (assim mesmo!) à imagem da empresa que eu lá estivesse fazendo um treinamento e narrando o que acontecia. Além disso, os funcionários do escritório — de competência duvidosa, diga-se de passagem — fizeram uma pesquisa nos computadores da empresa e não encontraram, em nenhuma das franqueadas, meu nome, seja como gerente, seja como um mero trainee.
Para evitar maiores transtornos, encerro aqui não só a minha narração como também minha tentativa de virar um gerente júnior do McDonald´s. Já conversei com o sr. Arilson Passos, que tentou até me dissuadir da idéia, dizendo que entraria em contato com o tal escritório, que minha ficha era boa, que eu tinha feito um bom trabalho até então, coisa e tal, mas eu falei que ele não precisaria se dar ao trabalho.
Ainda desempregado, procuro oportunidades. Se souber de alguma coisa, me avise por e-mail, por favor.


Suicídio
É suicídio, eu sei. Ou melhor, está sendo um suicídio.
Se uma pessoa me abordar na rua e me perguntar o que eu estou fazendo da minha vida, tenho duas opções: ou digo que sou jornalista, atualmente cumprindo aviso prévio (o que seria uma meia-verdade), ou digo que estou cometendo suicídio.
Mas eu sei que a simples menção da palavra suicídio chocaria a outra pessoa. Como deve estar chocando de algum modo meus leitores. A namorada talvez esteja preocupada. E a família vai me ligar daqui a pouco.
Não estou me referindo a um suicídio físico, não. Falo de suicídio moral. Ou profissional, se quiserem ser mais pragmáticos.
Como não sou pragmático de modo algum, insisto: é suicídio moral. Vou cortando dia após dia o pulso dos meus sonhos de adolescência. Veja bem que é aí que reside a sapiência da história toda: estou suicidando (sci) meus sonhos de adolescência, mas não os de infância.
Pelo contrário, na medida em que o estilete desce pelo pulso, na medida em que o indicador aperta o gatilho, a um nanomilímetro por segundo, na medida em que costuro a corda com a qual farei o nó, na medida em que o gás entra pelos meus pulmões e, por fim, na medida em que subo no parapeito para o salto final, mais e mais vou me tornando vivo, porque próximo à minha infância.
É ali, na criança, que reside a vida.
Vou matando o ser controlado por forças alheias à sua vontade, biológicas e sociais. Assim, dou vida a um ser cuja essência é a pureza. Que a pureza às vezes seja má, são outros quinhentos. O que faço com o sangue derramado pelo homem moralmente suicidado é irrigar outro, atento somente àquilo que ele sabe ser seu e, em sendo seu, é o melhor.
O corte no pulso já vai pela metade. O indicado daqui a pouco receberá o tranco que eclodirá no disparo. A corda está quase cerzida e o nó, idealizado. À beira do parapeito, o corpo já se projeta. O corpo já sente os efeitos do gás. A criança, por sua vez, dá os primeiros passos.
Duro mesmo vai ser fazer a criança nova caber nas roupas do adolescente, agora defunto. Sobrará tecido, que será aparado com o tempo. Trabalho para o resto da vida, claro.


PS.: leiam a saga completa no seguinte endereço:
 http://polzonoff.blogspot.com/