Militares matam
rapazes e família
denuncia execução

Dois irmãos são executados dentro de
casa. Versão da Polícia Militar é a de
que um deles teria atirado em soldado

Os irmãos Ângelo Marcos Rodrigues de Souza, de 18 anos, e Geilson Fagner de Jesus Souza, 15, foram mortos na noite de segunda-feira por policiais da Ronda Ostensiva Tático Móvel (Rotam). Os rapazes foram baleados sob uma cama, no barracão da irmã deles, Vanusa Rodrigues de Souza, na Rua 5, quadra 3, lote 15, uma área de invasão ocupada por casebres, na Vila Abajá. No local funcionaria uma boca-de-fumo mantida por Geilson e pelo irmão mais velho, identificado apenas como Márcio.

De todas as ações da Polícia Militar nos últimos episódios que culminaram em morte, essa chamou a atenção pela violência dos policiais. Eles eram muitos. Segundo uma testemunha, cerca de cem homens participaram da operação ? a polícia diz que eram 20 ? que durou mais de duas horas. Eles invadiram barracos, jogaram bombas, arrombaram portões e portas, e espancaram crianças e velhos da família dos jovens executados.

Desesperado e em prantos, Ângelo Marcos ligou para um ex-patrão pedindo ajuda para não morrer (veja diálogo). O ex-patrão ? um dono de supermercado que pediu para não ser identificado ? informou que nunca soube que Ângelo Marcos tivesse problema com a polícia, embora a PM garanta que ele já foi preso por tráfico, quando era menor de idade. ?Era desportista, alegre, que gostava de viver?, contou. Segundo a testemunha, o mal de Ângelo foi o meio em que viveu. O irmão mais velho, Márcio, o mais novo Geilson e uma vizinha de casa mantinham uma boca-de-fumo. O ex-patrão contou que, pelo telefone, ouviu os tiros no quarto e, em seguida, o celular ficou mudo.

Represália
A ação da Rotam teria sido represália a uma tentativa de morte contra o policial militar Welligton Gomes, do 13º Batalhão. O policial, segundo a versão da PM, foi baleado no braço, pouco antes das 23 horas, quando abordava um motoqueiro perto da casa das vítimas. Um rapaz ? que seria Ângelo Marcos e que estaria escondido atrás de um muro ?, teria atirado. O policial foi atendido no Hospital Santa Genoveva e logo depois, a Invasão da B, como é conhecida a favela, virou um campo de guerra.

Quatro viaturas da Rotam e outras cinco descaracterizadas chegaram à invasão, segundo Susy Paula Garcia de Araújo, 18, companheira de Geilson. ?Eles chegaram atirando?. Arrombaram o portão que dá acesso aos três barracos do lote onde vive a família. Ângelo e Geilson, que estavam na primeira casa ? de propriedade da mãe deles, Getúlia Aguilar de Jesus ?, correram para os fundos e se esconderam no quarto da irmã.

Segundo Susy, a primeira casa foi vasculhada, mas como os irmãos não foram achados, a invasão inteira passou a ser alvo da polícia, com a busca em outros barracos. Antes de matar os rapazes, a Rotam disparou dois tiros no portão, na entrada do corredor, arrombando-o em seguida. A porta da casa dos fundos, onde as mortes aconteceram, estava trancada por dentro, mas também foi destroçada por chutes.

Na noite de 27 de outubro, Getúlia perdeu uma filha, Patrícia Rodrigues de Souza, 26 anos, que estava grávida de três meses. Ela foi morta numa briga entre traficantes, na mesma casa da família. Outras três pessoas ficaram feridas.